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8 de março de 2018

Mujeres líderes en la creación reunidas en la Casa Azul de Frida


Vanessa Guckel, la diseñadora de moda; Natalia Toledo Paz, la poeta; Gabriela Carrillo, la arquitecta; y Luz Emilia Aguilar Zinser, la crítica de teatro, reunidas ahí en la Casa Azul para compartir sus experiencias creativas. Distintas áreas de actuación, diferentes puntos de vista. Difícil fue oírlas y contener la emoción que camina por todo el cuerpo. Pues no és siempre que uno tiene la oportunidad de vivir algo así, celebrar y reflexionar sobre el día de las mujeres en la casa de Frida Kahlo junto a honorables damas que construyen la história en la contemporaneidad.

Cuantas lecciones, historias, experiencias, señales de vida que son sembrados por estos cuerpos en sus distintos campos de actuación, en la creación de atuendos, en la escritura poética, en la creación de ambientes y en el arte escénico. Una experiencia de penitencia y meditación fue sentarme y estar disponible a oírlas, abierto. Hombre que mira hacia atrás y al su rededor y se dispone a desnudarse del machismo, del patriarcalismo, del heterosexismo para aprender a ser diferente con ellas.

Ojos mojados, emoción desbordante cuando la directora del Museo Frida Kahlo, Hilda Trujillo, llena de fuerza y ternura recuerda las periodistas, adolescentes y tantas otras mujeres que cotidianamente son muertas, violadas y no respetadas en su dignidad. Una voz cálida y profética a decir: ¡Ya no más!

En el corazón guardé la pregunta que tanto quise hacer a ellas... 64 años después que murió Frida, estamos nosotros en su casa celebrando el día de la mujer. ¿Qué significa Frida hoy? La Barbie de Mattel... La posible nueva princesa de Walt Disney... La revolucionária comunista... La creadora fuertemente inspirada en la historia y cultura de su gente... La tehuana... La mujer cabrona... ¿Qué imagen de mujer Frida Kahlo inspira en la contemporaneidad?

Mirando a cada una de esas increíbles mujeres a discursar desde sus experiencias, vi distintas imágenes de Frida:

Frida la creadora de atuendos tan icónicos y fascinantes, testigos de su tradición indígena o de su transgresión de género que hasta hoy inspiran desfiles, coleciones, desfiles, famosos y desconocidos.

Frida la creadora de un lenguaje tan poético e irónico, fuerte y tierno capaz de tocar el corazón más duro.

Frida la creadora de un ambiente arquitectónico, la Casa Azul, tan hermoso y acogedor que todavía sigue reuniendo a tanta gente.

Frida la creadora de una teatralidad cotidiana que mezclaba ficción y realidad de la manera más hermosa, a punto de (con)fundir el personaje y su personalidad en una actuación vivificante digna de Oscar, amor y admiración.

En los cuerpos, colores, atuendos, gestos y en la fuerza de las palabras de cada una de ellas siento que se asciende la llama creativa para produzir cambios en lo que hoy se ve como realidad. La lucha contra el fundamentalismo que nos puede hacer regresar a una sociedad teocrática debe ser continua, atenta y creativa. Mujeres y hombres, heterosexuales, homosexuales y transexuales, índios, negros y blancos, juntos debemos luchar contra toda forma de discriminación, pues es amando uno al otro que podemos reconocer nuestras diferencias y en estas nuestra igualdad.

31 de julho de 2012

Bicho de corpo


Eu o quis com paixão e o vesti como um rito... Ficou meu cheiro nele, meu sonho, meu corpo ido. Agindo como faca contra a pele, a vida me ganha em ironia e hipocrisia... A mesma pele que me veste e me faz refém.

Me faço de inseto que se lança às chamas, danço com o diabo mas retenho meus demônios. E o diabo ainda uiva algemado nas profundezas do inferno enquanto eu tiro a roupa do corpo, pois ele sabe que eu tenho um corpo talhado para prazeres só e guerra. Ele sabe que meu coração palpita desesperado onde minhas pernas se juntam.

Mesmo quando a tribulação insiste em me seduzir, eu creio que essa vã oração poderá me manter respirando. O formigamento no peito, quando tua presença se impõe, é como se toda minha força quisesse curvar-se. Mas a pele, que só altera a temperatura, mantém-me exilado.

Não deveria contentar-me com esse pouco que se faz sempre tão suficiente. Se correr, a direção é única, uma ideia de exílio e túnel. Vendido, trocado por miúdos, pedinte, provando das escórias do afeto, prostituindo os desejos do corpo e a metafísica que exclamam indulgentes: como és bonito!

Quero ofertar-lhe as vontades do meu corpo, mostrar-te que estou pronto e do que sou capaz. Dizer-te que uma alma quer outra alma e seu corpo e que sem o corpo a alma não goza. Guia-me com teu cajado, rega-me com teu poder, sabedoria e verdade, ser divinamente humano.

O calor que teus olhos me inflamam, os arrepios que teus pelos me tecem, a excitação que tuas mãos me trazem, seguirão impressos a ferro e fogo na linha da vida que inicia na palma das minha mãos e se ramifica por todas as partes, altas e baixas, do (m)eu corpo.

Habito nele, e mesmo que minha condição não permita e que a fogueira possa ser meu destino, invado a inquisição e imploro: O que farei com este corpo inóspito já que não respondes nem me abres a porta?

E toda essa fugaz imagem, mística e erótica, fica num modo tristonho de certos entardeceres, quando o que um corpo deseja é outro corpo para escavar. Assim, entre fósseis dessa arqueologia estética e pérolas de Wynter e Adélia, sigo imaginado que ter um corpo é como fazer poemas: pisar margem de abismo.


Paráfrases, citações e adaptações da letra da música "Stimela", de Wynter Gordon, e de poesias de Adélia Prado, da obra Poesia Reunida.
Foto de Agno Santos.

27 de julho de 2012

Pelos prados de Adélia, danço tempos a fios


Quando converso com Adélia, não há como não lembrar de Madonna, Frida e Pina. A mulherada toma conta da imaginação e vai desatando fofocas, filosofias, receitas, elucubrações, provérbios, infortúnios, gesticulações e palavrões deliciosos.

Choramingo para Adélia, digo-lhe da vontade que sinto de voltar pela rua para tentar apalpar aquele perfume de corpo ido. Ela ri. Na gargalhada trincada de ternura, me oferece seu colo materno, e pede calma a esse (m)eu corpo inóspito que sussurra pela abertura da porta.

Então procuro falar dos meus escritos, do sonho de ser poeta como ela. Ela me fuzila com olhar doloroso, sem espanto ou hesitação. Olha para a janela aberta e acariciando meus cabelos diz: "Detesto escrita elegante, as tragédias são doces"*.

Mesmo gostando do carinho coçadinho na cabeça, levanto e suplico pela sua sabedoria de idade e poesia: Me aponte caminhos, a senhora que vive a mais tempo que eu. Questione esses maus modos de me apaixonar e diga para ocupar meu tempo com trabalho e estudo, afinal, dizem que é isso que dignifica o homem.

Ela só suspira. Pensei até que fosse me xingar e dizer para respeitá-la por ser mais velha. Toma um pano de prato e, pela ponta solta, desfia todo o crochê já desgastado de enxugar tanta louça. Me olha e pegunta se "ficou melhor assim". Meio desconcertado e obediente ao seu tom paciente, desfaço a cara de preocupação existencial.

Me chama para que eu sente de novo ao seu lado e prossegue. Me disse que um dia, quando tinha mais ou menos a minha idade, e pensando em coisas parecidas, sentou no sofá para assistir "Fashdance" na sessão da tarde e pensou: "Quero dançar e ver um filme eslavo, sem legenda, adivinhando a hora em que o som estrangeiro está dizendo eu te amo"*.

Me olhou, secou as lágrimas em meu rosto e suspirou conclamando minha atenção:

"[...] e fazendo o que sei, o ouvido no teu peito para escutar o que bate. Eu te amo, homem, amo o teu coração, o que é, a carne de que é feito, amo sua matéria, fauna e flora, seu poder de perecer, as aparas de tuas unhas perdidas nas casas que habitamos, os fios de tua barba."*

Pegou no meu queixo e sentenciou em interrogativa: "Filho, isso eu disse para o meu Zé, há um tempo atrás. E você, vai esperar quanto tempo para dizê-lo a alguém?"

Mas Adélia, eu... Não houve tempo, ela só me abraçou e, bocejando, ainda disse: "Vou tirar uma soneca agora porque depois vai passar "Dirty Dancing" na sessão da tarde." E saiu cantarolando... "I've had the time of my life..."

Foto de Odailso Berté.
*Fragmentos de poesias de Adélia Prado - Poesia Reunida.

25 de julho de 2012

Voto de castidade


Se ouvir minha trilha sonora
Saberá que o que me constitui também me representa
Saberá minha versão, tom e nota de agora
Saberá dos sentidos que oculto e daqueles que publico.

Se você se aproximar de mim
Sentirá os calores que emano e os frios que guardo
Notará os desejos que mostro e os gozos que retenho
Perceberá os perfumes de uma alquimia erótica
Que molha, sua e enxuga ao franzir da testa.

Se você provar de minha comida
Degustará do meu sabor
Que (trans)pira no tempero e no carinho
(Con)fundindo-se para alimentar suas narinas
E tudo o mais que habita seu peito e sua pélvis.

Se me tocar com as mãos
Do modo como me toca com os olhos
Verá que não tenho (pre)tensões
Nem 1ª, 2ª ou o 5º dos infernos das intensões
Apenas verá minha libido ativar
E qual larva em erupção
Transformar em rocha dura
Tudo o que tocar.

Se me deixar tocar em suas dores
Sejam elas lombares ou cervicais
Massagearei seu id e seu ego
Levando ambos a uma incestuosa provocação
Em acalanto de dedos, palma e punhos
Desatarei arrepios em sua pele
Deixarei em riste suas pontas
E em risco seus pelos e arestas.

Se suspeitar dessa (in)sanidade
Verá que só sonho acordado
Mais que surdo, mudo, calado
Deitado e remoto
Sem controle para esse pensar
Que por direito já me serve
E me sacia com imagens
Ao tecer, sozinho, luas na madrugada.

Foto de Odailso Berté.

18 de julho de 2012

Profecias de quem apenas era...


Mirando o horizonte de nuvens rosadas, tingidas pelo foco/astro alaranjado - enfraquecendo lentamente em mais um crepúsculo - , ele suspirou em tons quase proféticos. Como um velho entretido em branquear os cabelos entre livros e imagens por tardes a fio, pensou outra vez em seus afetos contidos. A auto-reprovação apontou-lhe o dedo, todavia, estava claro que pensar sobre era só o que lhe convinha.

Da janela lateral ele cheirou telhados, acariciou o frio e beijou o entardecer como se fossem os membros do corpo querido. E nessa cena romântica, fugaz e solitária, ele admitiu em seu íntimo que o admitir era melhor que o negar. E que assim, permitindo-se sentir sem ter, fazia-se forte para aceitar as impossibilidades de toda ordem.

Com canções antigas, tão fora de moda, e uma taça com vinho, ele conclamou papel e caneta a tomarem nota de todo seu pesar, sentir, pensar, querer... Firmou em maiúsculas e minúsculas a assinatura de sua vivência passional, pois sabia que só o deus Cronos o salvaria da dita situação, depois de muitos ontens, hojes e amanhãs.

Como soprava a fêmea canção em seu ouvido, embora difícil de outrem acreditar, isso era tão normal. Entre cores vivas que se tornaram mórbidas e amores verdadeiros que se fizeram sórdidos, seu coração conhecia torres e cemitérios, o homem e seus velórios. Lembrança fatigante era um amor perverso. Mas agora ele apenas era... Mesmo que outrem não quisesse acreditar.

Novo mensageiro natural de coisas naturais brotava em seu palpitar cotidiano, insistia a limpidez da canção. Talvez cavaleiro de mistérios, casa e árvores, sem descanso nem dominical já cantarolava ele dançando abraçado à canção. Marginal e banhado em ribeirão, crescido sem termos de televisão, era como via o semblante desejado. Imagem folclórica que apaziguava seu imaginar.

De canção, escrita e janela, deixou-se embalar pelo odor colonial do vinho e agasalhou-se do frio nas lãs desse afeto só e tão seu. Admitiu outra vez calado e num último suspiro desenhou para suas frases a ternura do ponto final.

Paráfrases da música "Paisagem da Janela", interpretação de Elba Ramalho.
Foto de Odailso Berté.

10 de março de 2012

singelos êxitos


Olho,
Mas não temo mais
Cachorro branco
Carro cinza
E homem de uniforme.
Me exercito.
Me excito.
Hesito.
Desisto.
Existo.
E cada imprevisto que em mim encontra registro
Apalpa a alma num sentido de calma
Exorta o corpo sem meios e poucos
Pois tudo é muito para o tanto que sinto.


Foto: Odailso Berté

27 de fevereiro de 2012

aquecido pelo sol da meia-noite



Como canta Flávio Venturini, podem haver "noites com sol", nas quais o inusitado tende a acontecer.

O escuro e a calada da noite revelam nuances de gato negro, suspiros de doce vampiro, olhares de medusa que paralisam, uivos de lobos e luas, risos que divertem bem perto.

Sem nenhum propósito supersticioso o negro felino atravessa o caminho, arranha o asfalto do peito, salta o muro da minha fortaleza, mia manhas e falas que reverberam em minhas manhãs.

Melanina cheirando a paixão, tom e odor café, coco queimado, chocolate meio amargo, marrom bombom... Latente impulso que vê na cor e no gesto a simétrica beleza de proporções gregas.

Gostos pressentidos nos lábios, misturando rosa e preto, tirando palavras do corpo e aquecendo afetos no calor do sol negro da meia-noite.



Fotos: Deivid Amorim
Edição: Odailso Berté

9 de setembro de 2011

Dança como protesto afetivo


(M)eu corpo quando capturado pelo que ouve, vê, toca, faz festa, ritual, protesto. Sai à rua, se veste, se pinta, se enfatiza para demarcar espaços que são seus, terrenos e tetos dos quais não quer ficar sem. Esse corpo dança - se diz - se dá - se mostra - e assim dialoga com o mundo de outros tantos corpos.



Mais gordo ou mais magro, dando um mínimo de crítica aos padrões, me entorpeço de (des)afetos para deliberar vontades em tardes e noites que fazem irromper calores guardados, afoitos por se lançarem contra. Chama-febre que me tira da escuridão, me faz brasa. Rolando lá no fundo, transbordando por minhas arestas.

Se saudosa e desapercebidamente espio por cima do ombro, vejo se apagando atrás de mim aquilo tudo que podíamos ter tido... Daquele modo, incondicional. Coração, palma, mão... Brincando, em uma displicente forma de amar que destituiu a segurança de ficar. O aviso da perda iminente não foi o suficiente para demover sua armadura.



Dançar se faz meu protesto, minha quebra dos pratos, minha tempestade em quantos copos d'água forem necessários. Bebo a música, me embriago em sua batida e a inauguro como hino que me move a sacrifícios, liturgias profanas para desestabilizar quaisquer laços entre céu e terra, pois abomino, a cada dia mais, qualquer dualismo.



A lágrima e o suor desse corpo que sou se fundem no calor desse movimento que me escorre de ponta a ponta. E assim me refaço a cada instante, me entendendo como membro-bicho da evolução das espécies. Danço e derreto em afetos que ardem, protesto, vermelho, materialista, histórico, amante.





Imagens do vídeo clip "Rolling in the deep" - Adele.

29 de julho de 2011

VOCÊ


De tantos jeitos, gestos, carinhos, manias...

Que ao menor toque de uma lembrança, dispara o pensamento em projeções dóceis, tristes e insípidas.

Que no som ou na cor de uma carro que passa, trai minha atenção ainda acostumada com suas chegadas. Mesmo com todo esse tráfego, minha avenida vida ficou meio interditada.

Que na melodia daquelas canções, no princípio nossa trilha, se desenha em minha frente naqueles tons de criança incerta.

Que na penumbra da madrugada, ainda manifesta supiros e exala cheiros de lençol e travesseiro. Acordo, durmo, e sonho tudo de novo, mas o quarto já não tem mais tanto aconchego.

Que optou pela aventura em detrimento de um final consentido e leal até o fim, como tenho feito. O fim que demos com palavras não findou o querer.

Que deixou sem referência afetiva a grande parte de mim ainda apegada nos seus modos de ser.

Que escolheu fazer revanche com uma distância inventada, ferindo o lado de cá por tabela, abrindo concessões num departamento ainda constituido de cumplicidades.

Que permitiu com essa ausência, a aproximação de inimigos lícitos, companheiros inanimados e fumacentos.

Que se revesa em ações instaladoras de incertezas, forjando espaços de descontinuidade e desconcertando o coração já escaldado em feitos passados.

Que lentamente ainda me move a encadear palavras e sentimentos a seu respeito.


Imagem do video clip "Meet me halfway" (The Black Eyed Peas)
Capturada aqui.

3 de setembro de 2010

Martha me disse


o que me prejudica
é essa mania de dizer a verdade
quando deveria mentir
e fingir que estou à vontade
quando na verdade machuca


Do livro "Cartas Extraviadas" de Martha Medeiros
Imagem: detalhe da capa do mesmo livro

27 de agosto de 2010

um lar de (pre)posições dançadas


Das improváveis condições
Da mais precária estética
Dos limites instaurados
Das poções sem efeito
Do antídoto inválido
De bater sem abrir
Da brevidade do prazer
Desse corpo que só pede e não dá
Do mesmo mudado
Da alternância estática
Daqueles que se foram
Dos não mencionáveis
Dos pecados listados
Das tentativas sabotadas
Dos musgos não regados
De paredes díspares
Dessa velha casa
Disso que me acolhe
Desse escuro íntimo
Dele que me escondo

Foto: Odailso Berté

20 de julho de 2010

(des)Temido


Visitei meus erros, ontém e hoje, estavam todos em casa, me esperando na sala. Fui ver meus pecados, eles estavam no banheiro, não me esperavam, mas sabiam que eu ia. Por acaso, encontrei meus desatinos, puseram o dedo em minha cara e disseram que não presto.

Não tive como correr. Me cercaram, tiraram minha roupa, tocaram em mim com seus sexos arretados, usurparam do meu, execraram minhas ambiências todas e disseram que eu merecia mais. Fui obrigado a concordar. Eles revelaram os meus mistérios gozozos e os gloriosos. Quando dei por mim, estávamos no quarto. Era eu o monstro sobre a cama? Desnudo? Exitado? Enxotado? Intocado?

Era eu o menino calado, mas muito falado. Comentado pela estranheza dos seus modos. Monstrinho bem criado. Largado ao mundo, sem mãe logo cedo, com pai que chega tarde. Perdido no mundo, achado na vida, dorme com medo e acorda destemido, outras vezes, pelo contrário. De um desuso inútil se sente posse, outras vezes, super homem, heróizinho de nada. Mas até disso ele faz cantiga, verso em prosa ou se encosta em "Poema" de outrem.

Imagem capturada em:
http://www.vibeflog.com/bergdk/p/11676543

26 de junho de 2010

Impagável


Passeio na manhã de sábado pela Avenida Goiás
O coração, os sonhos, os sorrisos... todos de mãos dadas
Bancas, vendedores, livros e DVDs vão abrindo caminho
Surpresa serena ao encontrar
o que não se estava procurando no momento
Esperas e esperanças se dilatam
entre cumplicidades ditas ao pé do ouvido
Toques travessos por entre prateleiras
Sandálias nos pés, eles trilham lado a lado
Goiânia multiplica vontades de viver junto

Imagem: Carlos A. Siqueira
Capturada em:
http://www.panoramio.com/photo/11282845

24 de junho de 2010

Para que o dia não perca a poesia


Invento alegrias
Enfrento alergias
Construo elegias
Desperto histerias
Lamento homilias
Ascendo energias
Agarro utopias
Imagino ousadias
Desloco ironias
Fragmento teorias
Costuro filosofias
Alinhavo coreografias


Imagem do Espetáculo "Cravos (1982)" de Pina Bausch
Capturada em:
http://www.redfront.co.uk/index.php/site/article/pina_bausch_and_branding/

16 de maio de 2010

Se amor é assim...


Amor também é um produto do corpo, é um processo físico, material e concreto que sofre quando não pode tocar.

Conjugar o amor é amar a partir de coisas cotidianas simples: um filme pelo qual se espera ou há tempos se deseja ter, um presente escolhido com esmero, um passeio a um lugarejo simples, um querer intenso de superar distâncias, uma coleção de trocas recíprocas onde cada um pode ser o que é, muitos desejos repartidos para oportunizar prazer de ser, estar e fazer da maneira mais gostosa possível, uma foto de uma paisagem estética precária que traz presente os traços admirados pelo ser amado, ingênuas dúvidas que fizeram as malas e estão partindo para bem longe, um bem querer que aponta para uma vida conjunta...

Me perdoe, caro Platão, mas isso tudo não aponta para nenhuma 'alma desencarnada'. O ambiente e o sujeito do amor é o corpo que somos.

23 de abril de 2010

Os pés cansados do pensador


Fiz mais do que posso, vi mais do que agüento. E a areia dos meus olhos é a mesma que acolheu minhas pegadas.

Eu lutei contra tudo, eu fugi do que era seguro. Descobri que é possível viver só, mas num mundo sem verdade.

Depois de tanto caminhar, depois de quase desistir, os mesmos pés cansados voltam pra você. Sem medo de te pertencer...

Meus pés cansados de lutar, meus pés cansados de fugir. Os mesmos pés cansados voltam pra você.

Texto da Música "Pés cansados" de Sandy.
Imagem da Escultura "O Pensador" de Rodin, capturada em: http://www.beneti.com.br/?p=34

19 de abril de 2010

Paradoxo

O cheiro gostoso do sanduíche de carne de sol confronta com o odor fétido do lixo na chuva.
A chuva molha e no mesmo instante o vento seca.
A ardência dos pingos suaviza ao escorrerem.
O calor do corpo suado é interrompido pelo frio da chuva varando as roupas.
Chove lá fora e queima aqui dentro.


Imagem da Coleção Outono Inverno 2010 de Ronaldo Fraga, capturada em: http://oglobo.globo.com/cultura/modainverno2010/mat/2010/01/19/ronaldo-fraga-se-inspira-em-pina-bausch-desfila-com-modelos-sem-rosto-na-spfw-915562308.asp

Pelo tridente de Poseidon

O Pensador pensa a dor
Caminha na chuva, invade a tempestade de ruas alagadas
Pede passagem em meio ao turbilhão fluvial
Visita o mar mesmo já estando afogado em lágrimas
E este lhe cospe muitas gotas no rosto
A negra tormenta vem andando sobre as águas e lhe encharca as vestes
Ele não teme a ameaça das ondas bravias
Que antes das pedras e areia querem quebra-se no seu corpo
Anda pensador andarilho
Indigente de si
Viajante em palavras de amor
Para se encontrar, o que você tem que perder?
Dez tinos molhados
Atinados à seco
Lavados à mão
Regados de sonhos
O que cabe a você está longe, marujo inundado.

23 de março de 2010

Preciosa Poesia

sem título
Precious Jones

Chuva, rodas, ônibus,
carro,
só em sonhos
eu tenho um carro
eu e o Abdul andando de carro que nem nos filmes
o sol uma bola amarela vermelha
subindo sobre os morros...
é uma prisão
os dias em que a gente vive
pelo menos eu
não sou livre de verdade
neném, Mamãe, HIV
onde eu quero estar onde eu quero estar?...
sei ler
ninguém pode me ver agora
mas eu podia ser poeta, rapper, tenho aquarela...
Olho pra cima às vezes
e os pássaros é que nem dançarinos
ou
que nem programados
por computador
como eles voam
é de rasgar
o coração da gente
ônibus andando
a mãe da casa diz:
JOGUE AS CARTAS QUE VOCÊ TEM.
Langston diz:
SEGURE SEUS SONHOS.
Farrakhan diz:
LEVANTE-SE, NÃO FIQUE AJOELHADO.
Alice Walker diz:
MUDE.
A chuva cai
rodas giram
A Srta. Rain diz:
NÃO RIME SEMPRE
continue andando
entre no poema
o coração dele
batendo
como
um relógio
um vírus
tic
tac.

Texto do livro "Push", de Sapphire, que inspirou o filme "Precious", dirigido por Lee Daniels. Imagem capturada em: http://luanagiampietrofilmes.blogspot.com/

22 de março de 2010

O mais belo dos belos

Foi assim que eu te vi nos meus sonhos lindos
Lua em flor tua beleza é eterna
Teu corpo revela uma linha entre o céu e o mar
Ouve, ouve o Muzenza cantar

Fere, derrama teu seio em mim
Me leva pra junto dos Deuses
Oh, rosa tão linda de negros
No balançar do carmim


Texto: trecho da música "Rosa Negra" interpretada por Daniela Mercury e composta por Jorge Xaréu.
Foto de Solvo Sundsbo, captutada em: