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21 de julho de 2015

Anotações sobre sexo, a cidade, as negas, os políticos, os heróis, os vampiros, os zumbis

São muitas as imagens que se entremeiam em mim, agora. Escrever sobre elas e as situações que as envolvem é um desejo que não para de beliscar-me. Não estabeleci uma ligação satisfatória entre estas situações e imagens. Não penso que isso seja necessário. Tem algo latente nelas que impele a escrita. Acabo de ler a carta de Jean Wyllys à Eduardo Cunha. Há dias, assisti aos episódios da temporada única da série brasileira "Sexo e as Negas" (2014). E estou assistindo à segunda temporada (e última) da série norte-americana "The Carrie Diaries".

A carta de Jean a Cunha, publicada na Revista TPM (Jul. 2015) é um tapa com luva de pelica tigrada. A irreverência e a competência da 'beesha' em apontar o fascismo e as incongruências nas atitudes pseudo-políticas e pseudo-cristãs do destinatário da carta, são de uma precisão incontestável. A carta (co)move sentimentos e posicionamentos ao chamar para o diálogo - amoroso e exigente - alguém, como tantos outros, que tem feito da política um palco demagógico de manipulações, mentiras, ganância e imbecilização de pessoas por meio da fé. Admiro essa capacidade inquieta e sagaz de cutucar a onça com a vara curta, dura e colorida. Mesmo não sendo ele drag queen, vejo em Jean aquilo que RuPaul busca nas competidoras de seu reality show: charisma, uniqueness, nerve and talent. Apesar da homofobia, há homens e mulheres que, com mais ou menos possibilidades, têm se expressado e se empenhado em reconhecer e fortalecer a dignidade de homens e mulheres diferentes. Pela orientação sexual, pela formação de "PJoteiro" e por vários princípios políticos e humanistas, vejo em Jean tantas possibilidades de identificação. Fazendo uso de suas próprias palavras, na carta, afirmo: Jean é uma das "referências positivas" às gerações mais novas, que lhes permite e incentiva a "viver sua orientação sexual sem vergonha e com orgulho".

Também foi o Jean quem me fez questionar a não continuidade da série global "Sexo e as Negas". Sou cada vez mais convicto da reflexão do teórico cultural e sociólogo Stuart Hall sobre os significados não estarem nos artefatos, nas imagens, mas em nós que os vemos e nos contextos onde estamos inseridos, que influenciam nossas formas de ver e significar. Só assim, tento compreender a reação contrária de muitos a ponto da série ser cancelada. É surpreendente como ainda não conseguimos compreender a ironia, a possibilidade de abordar determinadas situações sem dar moral da história e significados predeterminados. Machismo? Preconceito? Racismo? Sim, eram abordados na série de modo perspicaz e bem humorado, com o protagonismo de quatro mulheres negras suburbanas e suas relações afetivas e sexuais. Semelhantemente à inspiradora série norte-americana "Sex and the City", sexo, nesta série, não remetia à pornografia e à exploração, mas aos relacionamentos afetivo-sexuais e às vivências cotidianas que em torno deles se desenhavam. Diferentemente das opiniões reacionárias, vi as negas e seu sexo, como sinais de contravenção, como imagens de provocação que forjam e criam novos espaços na mídia e em nossos imaginários. Imagens e espaços outros que borram aqueles das senzalas de Sinhá Moça, das favelas e das cozinhas de tantas outras novelas. Pensando que cada um constrói o significado, fico com a imagem de negras lindas, audaciosas, tão valorosas e dignas de amor e respeito. Personagens as quais eu gostaria que fossem reais, das quais eu gostaria de ser amigo. Por isso, saudade de "Sexo e as Negas".

Também a série "The Carrie Diaries" foi cancelada prematuramente, na segunda temporada. O sucesso da série norte-americana "Sex and the City" e sua protagonista Carrie Bradshaw levaram Candace Bushnell (autora do livro que inspirou a série original) a escrever outros dois livros que narram a trajetória da jovem Carrie antes do sexo (seus relacionamentos) e da cidade (sua paixão por New York). Esses dois novos livros "Os diários de Carrie" e "O verão e a cidade" inspiraram a criação da nova série "The Carrie Diaries". Ambientada, de modo fascinante, nos anos 80 dos USA, a série transpira elementos dos costumes, da moda, da arte e cultura local daquele período. Cenas como uma festa onde Madonna está prestes a chegar, os bastidores da revista Interview e situações hilárias envolvendo a peruca de Andy Warhol, entre tantas outras, formam um enredo envolvente sobre a adolescência e juventude de Carrie e seu american dream:  tornar-se uma grande escritora e encontrar um grande amor em New York. Infelizmente, a baixa audiência fez com que a série fosse cancelada. Carrie foi derrotada por heróis, zumbis e vampiros e seu poder de audiência.

Apesar de também gostar de heróis, zumbis e vampiros, não me furto a perguntar: por que temos dado mais audiência a esses seres e suas catástrofes do que aos relacionamentos e aos afetos? Que estágio humano e cultural é esse que atingimos em que as emoções, os dramas e os romances perdem lugar para as tensões, os medos e sobressaltos? Por que assistir situações afetivas, semelhantes às nossas, parece ter se tornado algo enfadonho? Por que as personagens e situações mais irreais parecem ser mais excitantes? E saindo da TV, como os vampiros e falsos heróis, disfarçados de políticos, em nosso país, conseguem a tamanha audiência que os mantém em seus postos? Como podem os discursos fajutos de bondade desses vilões convencerem a tantos?    

Recordo de uma passagem de Stephen Rebello, em seu livro sobre os bastidores de Psicose, ao comentar que, nesse filme, de 1960, o monstro é um humano comum, a maldade está dentro de casa, o matador é alguém da família. Esse tipo de produção artística que reposiciona nosso cotidiano diante de nossos olhos sempre me toca de maneira especial. Penso também que os heróis, zumbis e vampiros das séries podem ser metáforas potentes, imagens plurissignificativas, a depender de como os vemos e interpretamos. Já os vampiros sugadores que têm assento no congresso nacional, a exemplos dos que Jean Wyllys costuma criticar, precisam ser exterminados e sua audiência precisa ser despertada dos feitiços, hipnoses e bençãos que a imbeciliza. Oxalá nossa capacidade interpretativa nos possibilite usar e analisar os personagens que consumimos, dando-lhes significados que ressignifiquem nossas vivências cotidianas.

Quando sexo tem a ver com política... Num dos episódios da série "Sex and the City", Carrie namora um político de Manhattan. Ao negar-se a realizar uma das fantasias sexuais do nobre político (mijar nele durante a relação sexual), Carrie tem seu namoro rompido. Ao romper, o político alegou que namorar com uma colunista de jornal que escreve sobre sexo e relacionamentos não era bom para sua campanha e imagem pública. Mijar nele, sim. Escrever sobre sexo, não. Tudo e todos que expressam de modo mais aberto traços de nossa humana sexualidade - principio da vida e do prazer - causam diversificados tipos de frenesi. Sexo ainda é tabu, é visto como sujeira, precisa ser mantido no privado. As tantas e reais sujeiras feitas com a política, os direitos humanos, os cofres e os espaços públicos, crescem e se multiplicam sem qualquer preservativo, precaução, cuidado.  

Dessas anotações e imagens, fica a saudade das Negas, da Carrie e seu sexo divertido, bonito e digno, suas relações e vivências tão semelhantes às nossas. Fica a saudade de séries como Sex and the City, Friends, Six Feet Under, One Tree Hill, Brothers & Sisters e tantas outras que davam a ver as relações humanas e cotidianas sem tantos artifícios. Ficam apelos para que mais defensores das minorias sexuais, como o Homem Maravilha (codinome dado a Jean Wyllys no BBB 5), possam se expressar e fazer política de modos mais honestos, benéficos e transparentes.

28 de outubro de 2012

Sex and the City: minutos de sabedoria

Abertura da série

Um docinho de abóbora após uma taça de vinho, um prato de massa e um episódio de Sex and the City... E tudo parece mais claro, mais leve, acerca das nossas relações. Quando me dou conta, aqui estou (cheio de tesão), digitando login e senha para desatar mais uma postagem no blog. Por mais que muitos dizem tratar-se de consumismo, futilidades, relações vazias... Ok, ok... Podemos ir além disso? Posso deleitar-me com minhas e outras interpretações?

Refletimos sobre ações educativas, os problemas do mundo, a economia, a fome, a violência, a arte... E pouco sobre aquilo que consome e nutre tanto em nós: nossas relações afetivo-sexuais. Sem dó, parcimônia, vergonha ou piedade, Sex and the City toca, afaga, agita e escancara (masturba) esse assunto que diz respeito a mim, a você e a qualquer mortal transeunte no planeta Terra. Do povo dos demais planetas não sei bem, mas suspeito que seja parecido.

As pessoas entram em nossas vidas, acrescentam muito, levam muito, estragam muito. E nós, seguramente, também fazemos isso na vida delas. Cada um de nós tem um "Big" em sua vida. Não é só Carrie que padece dessa dádiva. Uma grande transa, um grande membro, um grande amor, uma grande paixão, uma grande perda, uma grande burrada... Falando em 'big', é (co)movente ver Samantha (em meio ao drama de seu namorado que, "hard", mede 8cm) espiando os jogadores do Yankees (seus belos tacos e bolas) no vestiário. Nós somos assim, grandes ou pequenas, tais situações sempre mexem com a gente.

Kim Cattrall como Samantha Jones

Recordo, cheio de fé (e com louvores), do que disse minha amiga - Top - Lourdes: "Sex and the City é como minutos de sabedoria". Amém! Respondo convicto. Sempre é possível nos ver nas personagens. Seus dramas são os de todos nós reles mortais. As soluções que inventam para seus problemas podem servir, perfeitamente, como modelos e (ins)pirações para nossas tragédias gregas, baianas, goianas, gaúchas ou javanesas, tanto faz.

Vale a pena nos perguntar sobre nossa porção Carrie... Samantha... Chalotte... Miranda... Personagens que congregam biotipos e maneirismos de tantas mulheres e homens. Sabe aquelas frugalidades afetivo-sexuais que, por vezes, você finje não dar a mínima mas que te corroem? Ou então, aqueles sentimentos e pensamentos que te fazem suar, perder o apetite, ficar excitado/a...? É disso que elas falam.

Junto disso tudo, que não é pouca coisa e nem futilidade, as meninas também escancaram o poder de uma palavra/situação/relação tão cara a nós (e às vezes bestializada): amizade. Ser amigo/a é tão profundo quanto ser namorado/a. Exige convivência, proximidade, experiência, confiança, reciprocidade... A lista segue. Acho patético quando certas pessoas dizem "entre nós, só amizade", como se ser amigo fosse um consolo para uma transa que não rolou ou um namoro que acabou. Desesperada por ter reencontrado o ex, Carrie liga marcando um encontro. Surpreendentemente, no local e horário marcados, quem lhe espera à mesa é Miranda. Diante de batatas fritas já frias, chuva e um olhar terno que acolhe, a regra mais importante da separação: nada se supera sem amigos.

Sarah Jessica Parker e Cynthia Nixon como Carrie e Miranda

Sex and the City trata dessas relações tão humanas que nós experimentamos a cada dia na cidade, na rua, em casa... Em outras palavras, a série me sujere muito acerca das relações corpo - ambiente (como discutem Greiner e Katz, 2001), insinuando sem pretextos que somos e não temos corpo. Que as relações que vivenciamos não são obras de espíritos zombeteiros (salve Chaves), mas de corpos sexuados e situados. Vale a pena ver, sentir e se questionar. Carrie sabe o que é sexo bom e não tem receios de (se) questionar a respeito. E você?


Imagens capturadas da abertura e do 1º episódio da 2ª temporada da série.

12 de abril de 2012

Sex and the Envy


Ele passou o dia ouvindo "I have nothing". E nem era a versão original, mas a interpretação de uma caloura do programa Raul Gil. Segundo ele, depois de Whitney, a melhor. Essa sensação de não ter nada deixou turvo seu olhar durante todo o dia e o fez sentir inveja de várias cores.

No ônibus, o casal "heterozinho" de adolescentes, pareceu-lhe irritantemente atraente, aos beijos e risos, ela sentada no colo dele.

A dupla de macacos, entre os tantos que transitam sobre os avarandados do campus, mesmo no ato de roubar comida, não se desgruda, um nas costas do outro.

Pela primeira vez seu facebook sugeriu entre as "pessoas que talvez você conheça", a possibilidade de adicionar seu ex. Mesmo tentado pelo afeto ainda latente, disse que não enviou a solicitação de amizade, tampouco abriu a página do sujeito. Pois sabia que lá estariam publicadas as fotos da nova relação, coisa que antes o tal ex nunca fizera.

Suspirou, várias vezes, por entre sorrisos simpáticos, vendo que um ex mais antigo, ao telefone, dava explicações verdadeiras para o novo namorado, de onde e com quem se encontrava no momento.

E foi atrás do enfadonho texto sobre arte funerária, da professora doutora que não sabia o nome do Mickey e chamava o Pluto de "cachorro peludo", que ele despencou suas memórias, afetos e invejas... Isso entre o odor de cigarro impregnado em sua mão e lágrimas bem discretas que percebi de longe.

Abandonou a carona e seguiu para casa a pé, sumindo entre os carros, as luzes e o escuro da noite. Antes ainda pude vê-lo ligar o mp3 e colocar os fones no ouvido para, certamente, entre as invejas remoídas ao longo do dia, ouvir outras tantas vezes a caloura repetir com límpida estridência: "I have nothing, nothing, nothing... If I don't have you".



Foto de Odailso Berté.

11 de abril de 2012

Sex and the Giving


Não tendo amor qualquer com que se preocupar, começo a perceber mais os amores dos outros. Coisa de quem não enxerga o próprio rabo? Coisa de quem mete a colher [...]? Dor de cotovelo? Nem tanto. Observo, ouço, vejo e comento comigo mesmo. I swear!

Lourdes, minha ex-top model predileta, terminou um namoro de seis anos - se não me falha a memória. Ele confessou a traição mas suplica o perdão dela. Ela tem se mantido firme, controlando as aproximações e as táticas de comoção da família que ele usa. Todavia, no último sábado, entre uma cerveja e outra, ela não resistiu, deixou seu senso crítico de lado e deu.

Wal, uma conhecida meio dupla personalidade, talentosa e mentirosa pra dedéu, anda naquela faceirisse de menina que volta a ser cortejada. Sabe aqueles telefonemas em que você fica meio que se derretendo, pingando e se coçando todo diante das coisas que o fulano do outro lado fala? Coincidência ou não, sempre que estamos juntos a danada recebe esses estímulos sensoriais ao pé do ouvido. O telefone funciona como vibrador. Affffff... A bonita voltou a dar.

Se isso mexe comigo? Talvez, afinal estou escrevendo sobre. Algo nisso me desafia no sentido de pensar: O que eu já dei? O que deixei de dar? Deveria ter dado mais? Ou menos? Dando a gente recebe? Devemos dar sem pensar em receber algo em troca?

Os momentos em que passamos sem dar e nem receber podem proporcionar um certo olhar de balanço diante do estoque de doações afetivas. Olhamos para o que não foi dado e está mofando, ocupando espaço, causando remorsos. Percebemos o quanto foi dado de bom e o tanto que foi dado em desperdício, que transbordou e, na verdade, só ocasionou cobranças do tipo: "se dei isso, quero receber de volta na mesma proporção".

Não sinto inveja de Lourdes ou de Wal, acho que se elas têm estoque e têm disposição para a doação, tem mais é que dar mesmo. Contente por elas e contido por mim, só observo as doações em meu entorno e sigo com meus balanços internos... Dando tempo, dando corda, não dando bola... Dando beijos nesses momentos que me dão chances de rever os dados e pensar no que pode ser dado.



Imagem do music video "LOVE" - Kazaky
Capturada aqui.

9 de abril de 2012

Sex and the Now


A trilha desses dizeres (que seriam ditos ontem) era para ser "I will always love you", na voz de Whitney Houston. Meloso demais? Dramático? É, talvez sim. E há uma estrofe da canção que se adequa ao que ainda penso/sinto:

Eu espero que a vida te trate bem
E espero que você tenha tudo que sonhou
E desejo pra você prazer e felicidade
Mas, acima disso tudo, eu desejo pra você amor.

Embora forte e esperançoso, penso que refrão seja dispensável. Prefiro seguir com "Love", do Kazaky, que em meio a uma estética queer segura de si e com uma letra pop bem simples, me diz muito, agora:

Você me quer
Você me ama
Você me odeia
Eu não me importo.

As canções vão compondo enredos, dando tons e notas que orquestram o modo como organizo a dimensão amorosa do momento. Foi difícil chegar nesse grau de pouca importância, mas aqui estou. Sem caso, sem outro, sem amor. Dando um tempo para mim, para nós, vós, eles.

Fazendo pose de estátua, escultura, vitrine-viva, manequim que quer ser visto, contemplado como obra na qual não se toca. Uma pintura de Michelangelo, uma escultura de Rodin, uma foto de Mapplethorpe.

Corpo em evidência que faz de calçadas sua passarela. Imagem que vê e é vista. Só isso basta por hoje. Amanhã talvez o look já seja outro. Moda que vai volta numa continuidade bem descontínua.

Livre, lento, lendo o que eu mesmo escrevo, só para corrigir e postar sem maiores pretensões. Porque amor, agora, é só uma palavra que conjugo com outras, faço textos, teço fatos.

A vontade que me adentra os poros é de sexo com a cidade, pura relação corpo - ambiente. Trabalho empírico de escritor que observa os agires urbanos e (d)escreve. Se deleita com o prazer dos outros, voyeur do cotidiano.



Imagem do music video "LOVE" - Kazaky
Capturada aqui.

26 de julho de 2011

Sex and the Other Ex


Sete é um bom número para quantificar os meses de duração de uma relação? O dia 27 é um dia de sorte para comemorar o dia "D" de um relacionamento? Quais as sete marcas mais profundas que a relação deixa em nós? São só sete ou setenta e sete vezes sete?

Terminar nunca é simples, nunca é fácil, ainda mais quando os motivos que levam ao fim são externos a nós, quase que de uma "força maior" que se impõe e cancela o compromisso. O ponto final marca um rito que não finda em si mesmo, pois o afeto se alastra por todos os cantos do corpo deixando um vazio que ocupa um espaço enorme.

Será que nossa trajetória afetiva é apenas uma coleção de EXs? Mas o que as pessoas, sentimentos, situações que se externam de nós deixam gravado pra sempre?

Canções, uniforme, comidas, fotos, filmes, atrasos, shows, justificativas, receios, beijos que não descolam da boca e tantas coisas mais. Ex é algo exata e extremamente tatuado no âmago daquilo que dói e dá prazer ao mesmo tempo (em todos os sentidos). Ex exala perfumes e perturbações, exprime amor e espreme saudade. Ex expressa desejo e reparação, embora isso pareça coisa de livro ou cinema.

Com o sentimento em pontilhado, o jeito é ir desvelando formas de adequar as marcas da relação para que não nos aprisionem em lembranças obsecantes. Que elas sejam propulsores, aprendizados, modos de amar adquiridos. Ex deixa expropriações, exposições e expoentes afetivos que nos fazem estar ALIVE...


Imagem capturada aqui.

8 de janeiro de 2011

Sex and the security


Há algum gesto específico, um determinado modo de olhar, ou ainda, certas palavras que trazem segurança à relação? Que tipo de situações devem ser construídas para podermos dizer 'ufa, estou seguro na relação'?

As expectativas nem sempre ajudam a deixar a relação fluir, pois podem criar um plano demasiadamente ideal que atrapalha a realidade possível. Com isso, podemos viver exigindo que o conto sonhado se realize enquanto a realidade possível vai se esvaindo no esforço de alcançar o abstrato ideal sonhado.

Em se tratando da insegurança, nem sempre se percebe de onde ela vem. De lacunas deixadas pelo outro? De traumas provindos de outras relações? De expectativas exageradas que não podem ser alcançadas? De modo geral, estar seguro, no mundo de hoje, é algo indeterminado. De modo particular, na relação afetiva, a segurança pode depender das trocas que se estabelecem, da sinceridade compartilhada, da cumplicidade construída paulatinamente. Muito embora, nada disso seja garantia de 'para sempre'.

Pessoas são seres mutantes que a cada nova situação cotidiana tornam-se imprevisíveis, indetermináveis, incompreensíveis, inseguras. Depositar a confiança em alguém é um exercício contínuo de mútuo conhecimento que consiste no desapego, no entendimento de que todos são livres, escapam ao nosso controle e nunca se entregam ou se deixam conhecer por completo. Nós somos assim.

Confiar talvez seja 'fiar com', fazer uma fiança junto com o outro. Ou ainda, 'fiar', tramar fios, tecer uma rede com o outro sem saber se virão nós, enroscos, fios arrebentados... Necessária é a vontade e o empenho de fiar juntos. Dessa vontade e desse emprenho é preciso estar seguro. O que está por vir é sempre inseguro, não está asegurado por nossas mãos.

A segurança pode estar entre os atos de segurar e soltar, na flexibilidade que pode vir desses atos. Saber soltar faz perceber outros modos de segurar, com mais ou menos intensidade, com mais ou menos afeto. O trajeto de segurar, soltar e segurar de novo mobiliza os sentidos para percebermos nossas atitudes de força, de posse, de controle e de domínio sobre o outro.

Segurança afetiva pode ser uma questão de soltura e confiança. Mesmo se essa soltura implicar em não mais poder segurar, mesmo se essa fiança conjunta trouxer prejuízos, nós, rompimentos e desalinhamentos. Relações humanas são assim. Será que estamos seguros disso?

Imagem: Penélope Cruz e José Luis Gómes no filme 'Abraços Partidos' de Pedro Almodóvar.
Capturada em: http://cinezencultural.com.br/site/2010/07/07/abracos-partidos/

30 de outubro de 2010

Sex and the Complicity


O que vem a ser a cumplicidade? Até que ponto podemos usar seu significado para qualificar uma determinada relação?

Ser cúmplice é ser conivente, é comungar de atos, pensamentos, sentimentos e entendimentos. Dizer que duas pessoas são cúmplices uma da outra é dizer que elas compartilham dos mesmos feitos, dos mesmos crimes, dos mesmos gostos, das mesmas atrocidades, das mesmas esperanças.

Trata-se de um alto grau de adesão um ao outro e de um nível de confiabilidade que, a priori, confere ao relacionamento e às trocas um comprometimento mútuo, a partir do qual, o bem estar do outro é sempre uma meta de ambos, custe isso o que custar. Portanto, qualquer elemento que possa minar o entrelaçamento é evitado, ou, sequer, cogitado.

Dizer-se cúmplice de alguém será uma tarefa simples? Será que estamos aptos a assinar embaixo e/ou assumir junto qualquer atitude que o outro possa tomar?

Penso que existe uma certa cumplicidade implícita nos corpos quando uma relação começa. Na chamada ‘química’, ou, empatia inicial, que faz com que duas pessoas se aproximem, já existe um grau de cumplicidade ainda não maturado pelo cotidiano da relação que vai dando a conhecer o que cada um é.

A cumplicidade do momento pode levar a uma cumplicidade de convivência e esta, pode vir a ser corrompida com o passar do tempo. Nossa cumplicidade humana pode ir encontrando outros aliados com os quais o crime pode compensar mais. Assim somos nós, no fundo, cúmplices de nós mesmos e do que mais nos convém.

Invocar o teor da cumplicidade para qualificar uma relação exige o cumprimento de cláusulas éticas anteriores a qualquer encontro. Como por exemplo, não mentir ao próximo. Cumplicidade não deveria ser uma palavra bonita que funciona só na ficção, mas uma prática que, quando vivida, faz dos pares uma amálgama curiosa e bem peculiar.



Imagens capturadas em:
http://picsdigger.com/keyword/timon%20i%20pumba/

23 de outubro de 2010

Sex and the Apprehension


Ao tentar voltar à estrada depois de um acidente, como devem lidar os sensores em relação aos possíveis perigos? No que diz respeito aos estreitos caminhos do amor, como estar aberto e, ao mesmo tempo, ser apreensivo?

Nós humanos vivemos atando e desatando relações. Nossos convívios nos permitem tanto a necessidade quanto o receio do outro. As experiências nos mostram a que níveis pode chegar nossa humana e carente animalidade nos relacionamentos.

Gato escaldado pensa muito bem antes de passar outra vez pelo território do perigo. Os protagonistas dos relacionamentos findados podem ser considerados ‘mestres’ que deixaram alguma lição a ser considerada no caminho que segue.

Mas como não fazer das novas possibilidades de se afeiçoar palcos para fantasmas passados atuarem? Como deixar que cada experiência se desvele em sua especificidade? Como entender que cada corpo trás uma história diferenciada para dispor na relação?

Aceitar que cada momento é feito de dádivas e dúvidas nos ajuda a recompor as vias afetivas, deixando espaços de acostamento, caso uma parada seja necessária, e otimizando a legibilidade da sinalização, caso os visores embacem.

Acidentes são sempre imprevisíveis, todavia, o receio de que aconteçam não pode nos tirar dos trilhos. Amar continua sendo um caminho a ser definido pela nossa disposição em seguir adiante e pelas condições que se interpõem durante o trajeto. É difícil o andar, mas desistir da viagem é perder o rumo. Entre as idas e vindas, uma indicação de espera à beira do caminho, pode ser um sinal verde para seguir livre, ou, para ter esperança.

Imagem capturada em:
http://www.iconator.com/icon.php?IconID=1811528

11 de outubro de 2010

Sex and the Hope


Quando, no jogo do amor, perdemos duas partidas consecutivas, ainda vale a pena apostar?

Há momentos em que parece mais viável não acreditar outra vez no amor. A sensação de que a esperança foi embora estimula o ceticismo e aciona todos os sinais de alarme quando um suposto perigo amoroso se aproxima.

Sentir na pele a partida de um bem querer nos torna meio ateus diante das juras de amor. Ficamos alijados daquela vontade boa de estar aberto para um flerte, uma paquera. Medo e descrença tomam posse do terreno que antes era habitado pelo amor.

A experiência de se desfazer, dia após dia, de um grande amor deixa doido o mais plácido dos humanos, mesmo que esse não demonstre. Refazer a imagem da pessoa amada, ver seus lábios, seus olhos, seus gestos e calar a vontade de tê-los novamente, transforma nossa condição humana relacional.

Aos poucos vamos embrutecendo o jeito de ser, encarando a realidade como ela é e aprendendo que romantismos são mesmo coisas de poemas, contos, músicas ou filmes. Alguns chamam isso de amadurecimento, perda da inocência. Outros, de perda da esperança.

Construímos muros e instalamos alarmes, enjaulamos a esperança. Queremos ser seguros e fortes a partir de nós mesmos, em outras palavras, queremos ser independentes. Não mais depender de outrem. Não mais deixar que nossos sentimentos se dobrem diante de outro. Não mais friozinho na barriga. Não mais sofrimento e lágrimas por amor.

O amor se foi a levou junto nossa esperança. Seguiremos, de agora em diante, mais pessimistas? Ou seremos mais precavidos antes de entregar nosso coração? A esperança é a ‘única’ ou a ‘última’ que morre?

Amar e esperar são dois verbos que não ganharão conjugação por um bom tempo em nossas redações. Serão apenas palavras, sem gerúndio, particípio e infinitivo, sem tempo. Guardadas no dicionário de erros de pronúncia. Palavras de efeito, rebuscadas, adornos de poesia, recursos de retórica.

Em tempos de ‘Comer, Rezar e Amar’, o que acontece com quem acredita só no primeiro verbo?

Imagem: obra "Hope" de George Frederick Watts
Capturada em: http://www.paintinghere.com/painting/Watts_Hope_430.html

29 de setembro de 2010

Sex and the Tea


Quando adentramos no processo de customização da perda do amor, instauramos uma espécie de ‘chá das cinco’ para honrar ou blasfemar a Eros – o deus amor. Criamos um cenário meio cult e épico, momentos onde recitamos trechos de romances e poemas, nos reportamos a inúmeras cenas de filmes românticos, proferimos discursos e críticas acerca da falibilidade ou veracidade do amor a partir desse difícil momento em que ele nos mostra suas outras artimanhas que não são tão românticas.

Tomar um ‘chá de sumiço’ seria uma alternativa melhor para tornar esse processo menos dramático? Abandonar os afazeres cotidianos, mudar completamente a rotina, ou ainda, sumir da realidade posta seria mais eficaz? Para certas pessoas, reorganizar a vida, as coisas, o cotidiano, sumir da realidade na forma em que ela vinha sendo organizada até então, pode parecer uma possibilidade saudável para não beirar momentos deprimentes quando se trata de esquecer o amor que acabou.

E o ‘chá de consolo’, como pode nos ser útil nesse momento? Como compensamos a falta do amor perdido? A sublimação pode funcionar como um procedimento metafórico, ou seja, nos contentarmos com uma coisa em termos de outra. Certas substituições podem satisfazer a vontade que nasce da falta do elo perdido: amigos, festas, passeios, compras, estudo, etc. Sem contar as coisas ‘ilícitas’ que, por vezes, acabam entrando na lista de alguns amantes (de)cadentes. São possibilidades que inventamos no afã de driblar a nostalgia.

Em que medida o ‘chá de trepadeira’ pode resolver a fossa pós relação? Vale a pena compensar a falta do amor que se foi entrando no jogo do ‘prazer por prazer’? Certos de nós, ‘homo sapiens’, ou, quem sabe, ‘homo sexyens’, acreditam que a melhor forma de deletar as marcas deixadas pelo ex-amor é adentrar no ramo do sexo fácil para provar novos sabores e assim apagar o gosto do antigo. E o sexo pode ser, assim, um motivo para afogar mágoas num cálice de paliativos gozosos.

E que efeito pode trazer o ‘chá de cadeira’ nesta situação de abraços partidos? De que serve a esperança numa hora dessas? Alguns de nós se põem no modo de espera, ou seja, constrói uma agridoce ilusão de que o outro vai voltar e por isso fica sentado esperando. Outros, se colocam na postura de espera do novo amor, alguém que surja, capture e arrebate o coração esperançoso que ainda acredita no amor, apesar da rasteira que este lhe deu.

Nesse ‘chá das cinco’, que pode ser a qualquer hora do dia ou da noite, vamos nos alternando nos sabores que queremos sentir, nos efeitos que esperamos, nos novos modos de ser e estar que achamos viáveis, nas posturas a serem tomadas e nas palavras a serem usadas quando a questão for ‘amor’. E assim, entre as enxaquecas, enjôos e possíveis mal estares da perda do amor, que algumas das posturas, decisões e chás tomados nos façam ficar bons por nós próprios, entendendo que o ex-amor é um outro autônomo e não uma personagem do nosso enredo romântico.

Foto: Odailso Berté

25 de setembro de 2010

Sex and the Lie


Convivemos o tempo todo com mentiras, na tv, na política, na moda, na família, na arte, na academia, nas amizades e no amor. Será que nós humanos temos a mentira como algo intrínseco ou até genético? Por que a mentira parece tão prazerosa para algumas pessoas?

De fato, há pessoas capazes de inventar um câncer para esconder caprichos pessoais que consideram inconfessáveis. Há também aqueles que simulam viagens de trabalho em direções opostas do verdadeiro rumo para o qual, de fato, se deslocaram. E ainda, alguns que subornam uma ‘consulta espiritual’ para se safar de uma fuga que parece injustificável.

Por que certas pessoas juram amor ao passo que atravessam o coração do outro com a espada da mentira?

Algumas dessas pessoas, quando descobertas, colocadas na parede, questionadas acerca de suas lorotas e até perdoadas, simplesmente perdem o interesse afetivo, não sentem mais atração sexual pelo outro. Quando a verdade vem à tona, o tesão se acaba. Haveria na mentira uma espécie de fetiche sexual?

Mesmo as mentiras do ‘Pernalonga’, tem perna curta, já dizia ‘o velhinho’ ditado popular. Sempre há um rabinho que desponta evidenciando a falha do disfarce. Sendo assim, onde reside nossa humana dificuldade em sermos verdadeiros? Por que nos parece mais atraente mentir? Seria porque, por vezes, a verdade pode ser mais monstruosa que a mentira?

Em tudo, deveria prevalecer a verdade, quanto mais no amor. Amar implica transparecer sem receios aquilo que se é, mostrar o que se faz, fazer o que se gosta, dar o que se quer receber. Quando a relação é de amor não é preciso medo de ver(dade) exposta e o que não presta (men)tira para fora. Ser verdadeiro é deixar-se ‘ver’ e ‘tirar’ da relação os disfarces todos.

Imagem capturada em:
http://www.transgender.org/rtc/rtnews/rtnew_feb02.html

24 de setembro de 2010

Sex and the Ego


Será que o ‘Id’ realmente tem razão em brigar com o ‘Ego’? Seria o ego um cara tão ensimesmado que não cansa de repetir para quem quer que seja: ‘você tem que me amar’? Por que sofremos com o fato de não sermos mais amados e nem desejados pela pessoa que amamos? Será que o 'ego' é um cara redundantemente 'egocêntrico'?

Um sentimento de impotência e inferioridade parece compor a nossa maquiagem corporal quando nos vemos desnecessários aos desejos do ser amado. Feiúra, burrice, infantilidade, insegurança, má combinação de roupas, performance sexual insatisfatória... Características que pensamos ser nossas e que podem ter sido o motivo de nos tornarmos desinteressantes.

A nefasta sensação de ter sido trocado por alguém, supostamente, mais interessante abala as estruturas da auto-estima. É aí que o ego inflama e se faz mil e uma perguntas acerca de como tem se portado na trajetória da relação. Até mesmo um super ego passa à beira de um colapso ao imaginar-se problemático ou defeituoso a ponto de tornar-se indesejado.

As relações são mutantes, não podemos mandar nos sentimentos e nos desejos dos outros e, por vezes, nem nos nossos, eles variam, se expandem, se esvaem. Mas nosso ego acostumado a ser acariciado pelo amor do outro não se conforma em ser tirado do foco central. Seria por extinto que o ego age assim ou trata-se de um entrave a ser superado? Por que o fato de viver sem amor nos deixa tão inseguros? Por que ter outro que nos queira é algo tão necessário?

Nosso ego, ou, nosso eu, que é corpo, necessita de outro corpo, de calor, de prazer, de afeto. Tornar-se um desafeto é algo custoso que demora a fazer sentido diante da real necessidade que temos de ser amados. Será que isso Freud explica?

Foto: Odailso Berté

20 de setembro de 2010

Sex and the Image


Como é difícil aceitar o fato de virarmos desimportantes para o ser amado. Isso nos leva a revisar os nossos sentimentos. O que amamos de fato, uma pessoa real ou a imagem que construímos dela? E que imagem mostramos de nós próprios nos relacionamentos que criamos?

Nos apaixonamos por uma imagem misturada, feita da realidade do outro, das nossas expectativas e daquilo que o outro inventa de si mesmo. Edificamos castelos de amor, canções e presentes, acreditando no conforto que essa imagem transparece. Mas um dia ela se desgasta, borra, se apaga, se esvai... Fica um fundo bruto, frio e inexpressivo. E aí se inicia um processo doloroso, um beco que parece sem saída. É preciso desconstruir a imagem para poder se desapaixonar e seguir sem tantos danos.

Como diz Martha Medeiros, isso “exige que você reconheça que foi seduzido por uma fantasia, que você é capaz de se deixar confundir, que o seu desejo de amar é mais forte do que sua astúcia. Significa encarar que alguém por quem você dedicou um sentimento nobre e verdadeiro não chegou a existir, tudo não passou de uma representação – e olha, talvez até não tenha sido por mal, pode ser que esta pessoa nem conheça a si mesma, por isso ela se inventa”.

Aos que inventam falsas imagens de si nos relacionamentos afetivos, Martha chama de ‘desonestos do amor’, “aqueles que fabricam idéias e atitudes, até que um dia cansam da brincadeira, deixam cair a máscara e o outro fica ali, atônito”. Corrupção não é só uma questão política, é também afetiva. É preciso cautela na hora de eleger o bem amado.

Encontrar pessoas incorruptíveis nos relacionamentos ainda é algo possível? Ou, precisamos aceitar que as relações afetivas são enredos fantásticos onde atuam imagens que se esvaem quando a cortina se fecha? Seria o amor uma comédia pornô onde o que convém mesmo é curtir, gozar e rir dos dramas românticos? Amor, por que tão sério? Rsrsrsrsrssr...

Amamos imagens e somos imagens. Umas eternas, outras passageiras, umas ternas, outras que ferem, umas ilusórias, outras verdadeiras. Somos imagens apaixonantes e imagens que podem virar desimportantes. Que imagem eu sou? Que imagem eu invento de mim? Que imagem eu amo?

Citações do texto "Desconstruções" de Martha Medeiros, disponível em:
http://www.dejovu.com/mensagens/ver/?3843/Descontru%E7%F5es
Imagem capturada em:
http://www.imagensporfavor.com/buscar/1/coringa.htm

19 de setembro de 2010

Sex and the Phantom


Quando uma relação acaba, como se desfazer daquilo que fica? O sentimento acaba junto com a oficialidade do término? O que fazer com a presença que permanece? Como afugentar o fantasma do ex-amor?

O sentimento não descola do corpo tão facilmente, tampouco se esvai sem razões. A proximidade se distancia, mas o amor edificado ao longo da duração da relação segue assombrando o cotidiano.

Desfazer-se do sentimento construído pode ser fácil para uns e um tormento para outros. Depende da intensidade com que se deu a entrega, ou, a prudência ao fazê-la. Para que, ao fim da relação, o fantasma dela não permaneça nos assombrando, será preciso que não nos entreguemos por inteiro? Amar com ‘um pé atrás’ pode garantir que o fantasma do ex-amor não nos assuste?

A ‘romântica mediunidade’ de conviver com o fantasma da relação terminada talvez consista na dificuldade que temos de nos despedir do amor. Para Martha Medeiros, “despedir-se de um amor é despedir-se de si mesmo. É o arremate de uma história que terminou, externamente, sem nossa concordância, mas que precisa também sair de dentro da gente”.

Seguindo a sabedoria de Martha, pode ser que esse fantasma nos assombre por não conseguirmos nos desvencilhar daquele “amor que nos justificava como seres humanos, que nos colocava dentro das estatísticas: Eu amo, logo existo”. Sendo assim, qual o melhor ritual de ‘sEXorcismo’ para afugentar esse fantasma? Só o tempo pode dizer...

Citações do texto "Despedida" de Martha Medeiros, disponível em:
http://www.dejovu.com/mensagens/ver/?3847/Despedida
Imagem capturada em:
http://www.escala1sexto.com.br/board/viewtopic.php?f=27&t=7569&start=0

12 de setembro de 2010

Sex and that City


Estaria correto o dito popular de que só percebemos o valor de algo quando o perdemos? Será que nós humanos precisamos primeiro experimentar para daí tecer as compreensões? Só depois de sentir na pele saberemos o gosto?

Pode ser que não seja assim, de modo geral, para todos, mas algo disso procede. Me descubro hoje, apaixonado pela cidade que deixei. Nossa convivência durou apenas um ano, mas estava tão preocupado com decisões pessoais que não dei a ela a chance de se dar a conhecer.

Zombei dela, acreditando que ela era o motivo da crise que vivia naquele período, todavia, ao contrário disso, percebo que foi ela que me deu as condições de perceber o rumo que de fato me cabia trilhar.

Não desfrutei de sua beleza, não me deixei tocar por seus formas, pouco andei por seus caminhos arborizados, caçoei do seu semblante ‘capital com jeito de interior’. Como o passado sempre nos alcança, hoje me dou conta de que a virada que empreendi começou lá e eu não soube respeitar aquele momento crítico.

Neguei seu abraço e corri para minhas seguranças. Quando disse que nada aconteceu de bom pra mim lá, fui inerte ao ambiente, desconexo, não deixei o tempo dar-me o tempo necessário para que a mudança cumprisse seu tempo de gestação. No embaraço, fugi de seus braços.

Hoje, noutra cidade que não faz jus ao seu nome, pois em nada me salva, percebo onde é que o sonho mora. Seriam só problemas de adaptação? Não, mas sim de adequação e predileção. Limitado por minhas próprias escolhas e alheio ao que realmente importa, descrevo a mim mesmo essa paixão interurbana e me contento em tentar uma reaproximação por vias tímidas.

Dos cremes, caldos e coxinhas. Das calçadas, parques e vilas. Das lojas, sebos e shoppings. Das chuvas, calores e poeira. Dos cinemas, danças e estudos, quero com paciência provar o gosto, namorar cada detalhe e fazer amor com aquela cidade. Tarde não significa nunca, e talvez, agora, eu volte mais maduro, como a cidade merece.

Nossa canção tocou na hora errada, mas meu desejo acanhado só pede um novo tempo para uma franca amizade. Meu romântico e descompassado coração pede seu alento para efetivar e afetivar a mudança que você, cidade, me ajudou a empreender. Você me apresentou o amor. Acredito que nosso caso terá várias temporadas e, quem sabe, filmes também. Pelo menos é o que me inspira o recado, entregue por mãos pedagogicamente confiáveis:

“bju de goiânia que tbém sente saudades de vc.”

Escrito ao som de "Sex and the City Theme" - Groove Armada
Imagem capturada em:
http://guilhermeribeiroimoveis.blogspot.com/p/uma-cidade-modelo-goiania-go.html

9 de setembro de 2010

Sex and the 'Tic Tac'


Existe mesmo um tempo certo para cada coisa? Mesmo o que dura um segundo pode ser precioso? É só o tempo em que se está junto que valida uma relação? A distância ajuda ou atrapalha? Eterno é só enquanto dura?

Se tomamos por base a fluidez com que os contatos entre pessoas hoje se estabelecem e se dissolvem, de fato, relacionamentos durodouros tendem a sucumbir. Histórias de amor parecem, cada vez mais, enredo de filme de arte.

Concordo que o contato, a presença, o corpo a corpo, 'the face to face', a convivência, são possibilidades para que os acordos de uma relação se concretizem. No dia a dia é que o verbo se faz carne, o 'eu te amo' se efetiva e se afetiva.

Todavia, os pares não podem empreender uma simbiose constante, afinal trata-se de indivíduos particulares, com seus tempos e espaços próprios. Há de se ter um certo distanciamento crítico. Mas haveria uma necessária demarcação de tempo para a distância? Quanto tempo se resiste estar longe de quem se ama?

Um casal que namora por quase três anos e, fazendo as contas, passaram juntos (no mesmo espaço e tempo) em torno de sete ou oito meses, tem garantia de uma relação promissora? O que significa estar junto fisicamente?

É com corpo que amamos. É no corpo que se dá o amor, o desejo, a saudade. O sentimento de pertença, de ser junto, é físico, se dá no corpo, mesmo quando se está distante.

Quando não é possível 'estar junto' vale a pena 'ser junto'? Qual dos dois pode ser mais passageiro, 'ser' ou 'estar'? Amor se justifica por ser ou por estar? É o 'tic tac' que demarca a validade de um amor?

Deixemos o 'tic tac' passar e vejamos o que de ontológico permanece em nossos corpos amantes.

Imagem capturada em:
http://racabrasil.uol.com.br/cultura-gente/113/artigo57530-2.asp

8 de setembro de 2010

Sex and the Site


1)passivo afim fala para Todos: alguem afim de uma sacanagem hoje a tarde
2)pauCAM (reservadamente) fala para Pica_grande: e ae, é grande mesmo?
3)EuGozoNoSeuCu (reservadamente) fala para Todos: ????????????????
4)GP LASCADOR (reservadamente) fala para Todos: Gp, 23 anos, Moreno Claro, 1,83, 81 kg, 19 cm de caceta, Macho, Safado, discreto, Ativasso, fudião! Sigilo Absoluto!
5)moreninho sexyy fala para dou breja e cú: OLA PODEMOS CONVERSA
6)afim de real (reservadamente) fala para Todos: estou indo pro centro afim

'Alguém afim de real, agora?' Real ou virtual? São muitos os personagens, os discuros e as narrativas virtuais sobre sexo. Inventam-se fantasias mil no 'cabaré virtual' dos sites. Virtualidade e realidade coexistem somando as possibilidades do prazer.

A tecnologia online, sem dúvida, tem contribuído para uma das características do corpo que é formar o pensamento por imagens. O bate papo, nos sites de relacionamento, possibilita fazer sexo com imagens, sons e palavras.

É real o sexo virtual? Afinal, um corpo precisa de outro para sentir prazer sexual? Para um orgasmo é suficiente apenas a imagem do corpo?

As chamadas 'fantasias sexuais' podem ser formadas pela imaginação humana, que é um jeito de pensar. A imaginação emerge no corpo a partir de imagens, experiências, lembranças, ações e projeções.

Ao invés de 'fantasias', temos realidades, experiências, vontades, imaginações e pensamentos sexuais. Não dá pra saber o que vem antes, quem gera o que, imaginações e experiências, pensamentos e ações, são todos atrelados um ao outro.

Se o sexo pode ser feito por meio desse conjunto de imagens que o corpo experimenta, produz e carrega, então sexo e site são coisas que combinam? Exceto qualquer tipo de abuso indevido, as experiências dos sites de relacionamento, seja na virtualidade ou a partir dela, possibilitam relações afetivas e sexuais, expressando traços dessa combinação.

Como Madonna, penso que nunca se deveria ter vergonha, de quem se é, do próprio corpo, dos desejos, das fantasias sexuais. Intolerância, sexismo, racismo e homofobia existem por causa do medo que as pessoas tem dos próprios sentimentos e do desconhecido.

O corpo ainda não está obsoleto para o sexo. Sexo é corpo, um, dois ou mais corpos. Depende da imaginação. Nesses novos espaços que o corpo tende a habitar, pode ser que com o tempo se ouvirá dizer: "Imagem, muito prazer em te comer!"

Imagem do livro "Sex" de Madonna

7 de setembro de 2010

Sex and the Body


Somos animais filosóficos que se perguntam sobre vida, morte, política, tempo, sexo, etc. Ponderamos acerca da nossa corporeidade, sexualidade e afetividade, ou, pelo menos, temos essa possibilidade.

Corpo, sexo e afeto tem de estar sempre juntos? Que sentido tem 'fazer por fazer'? É possível sexo sem afeto? É, e bem o sabemos.

Nenhum sentimento moralista ou religioso está em jogo. Apenas questões próximas do velho binômio sexo x amor. Como fazer um sem o outro? Há uma necessidade biológica de prazer sexual no ser humano, aceita, válida e notória. Se é que sexo precisa ter sentido, onde encontramos sentido para transar?

Que sentidos se produzem em nós quando transamos sem amar? O sexo vale por si só ou necessita do afeto? Pessoas que necessitam que esses dois elementos andem juntos, são, necessariamente, problemáticas e antiquadas?

Os mistérios gozozos são infinitos. Mas, será que fazer sexo com amor seria só mais uma fantasia sexual? Penso que a carnalidade sexual está impregnada de sonho, desejo e sentido. No sexo os corpos se encontram e, sem romantismos adocicados, há um grau de intimidade recíproca nesse ato. Há afetos compartilhados, pois trata-se de entrar no corpo do outro, tocar-lhe o corpo de modo mais intenso e caloroso, não só com mãos que meramente 'pegam'.

Quem sabe existam certos corpos que encontram prazer na afeição. Afeiçoar-se é um modo de dar e receber, de relacionar-se, onde o cuidado com aquilo que se entrega ou se recebe molda o jeito de tocar, perceber e gozar. Quando o corpo se afeiçoa e afeta o outro, pode ser que o sexo não vire só gozação. Sexo e afeto são jeitos do corpo entrar em (con)tato com outros corpos, são modos do corpo proceder. Corpo, sexo e afeto são como fontes de vida e de prazer.

Para muitos, pensar/fazer sexo assim pode não ter sentido. E nem precisa. Para outros, o gozo chega inundado de afeição. De minha parte, empresto as palavras de Martha Medeiros e digo: "tragam flores para meus vasos sanguíneos". Doem afetos para (m)eu corpo humano.

Frase de Martha Medeiros no poema 32 do livro "Cartas Extraviadas"
Imagem: detalhe da capa do livro "Sex" de Madonna

2 de setembro de 2010

(s)ex and the crise


Uma segunda temporada que finda... Expectativas que também parecem findar. Esperanças que também parecem ficar. Desejos tênues de que um 'big' amor possa se fazer amizade... Bons amigos, como nos filmes.

Será que somos capazes de confeccionar uma amizade com os retalhos de um romance? Os sentimentos podem ser modulados? A sequência de notas pode ser mudada afim de se compor outro estilo de canção? Poderão os mesmos corpos vibrar em outros tons estando nas mesmas presenças?

Sabe aquela vontade boba de sempre que algo estranho ou corriqueiro acontece você querer contar à ex-pessoa? É possível fazer dessa vontade destemida um ingrediente para a pretendida amizade?

Não há nada de heroísmo nessa tentativa. É árdua a tarefa de transfigurar o sentimento no sentido de reconfigurar as figuras sentidas. As palavras embaralham, se repetem, se disfarçam para tentar propor outros significados. Ato falho.

Salve os bravos amantes que se transmutam em amigos. X-MEN pode ir além da ficção, HQ, cinema, animação. Um sentimento mutante pode ser a solução para a crise dos corações partidos.

Amantes ontem!? Amigos hoje!?
1 sente falta de 2. 100 crises!

Foto: Odailso Berté