Há dias algumas imagens e falas me interpelam, atravessando (des)respeitosamente meus modos de ver, pensar e sentir...
A primeira é a bela imagem de Julianne Moore vestida de noiva no filme "As Horas". A fotografia aparece nas mãos de seu filho Richard que, já adulto e convalescente pelo HIV, contempla em prantos a mãe em trajes matrimoniais, o que, em relação à sensação de aprisionamento que ela vivia, também representava uma mortalha. Tal imagem mistura, no mesmo branco da veste, tanto a pureza da noiva fiel e submissa quanto a morte que essa relação significava para a personagem. Diante da foto, Richard opta pelo suicídio, pois o passar das horas o fatigava, de modo que morrer seria libertar-se.
A segunda é a imagem de Madonna em seu recente show, da "MDNA Tour" (2012), em Berlin, chorando durante a performance "Like a Virgin". Desde que me lembro da cantora, e isso é desde a infância, não recordo de qualquer comentário a respeito de Madonna chorar. Quando penso na primeira performance desta música, vejo uma garota ousada vestida de noiva, rolando no chão e engatinhando, cantando de modo libidinoso. Hoje, às vésperas dos seus 54 anos, vejo uma mulher forte, com uma carreira meteórica de quase 30 anos, que leva tatuado às costas o dizer "no fear" e que derrama lágrimas ao cantar dolorosamente a mesma canção. A tensão aumenta com a entrada de um dançarino que veste nela um corpete e o aperta comprimindo fortemente sua cintura. Porém ela precisa continuar cantando sobre a donzela tocada pela primeira vez.
A imagem que complementa esta tríade é da atriz Emma Stone encarnando a personagem Gwen Stacy no filme "O Espetacular Homem-Aranha" (2012). Numa cena que lembra tantos outros filmes, entre muitos guarda-chuvas sob um temporal, a personagem marcha para o funeral de seu pai. Esta imagem resume para mim toda ternura e poesia que permeia a nova versão do herói aracnídeo. A história se centra nos dramas afetivos dele: a perda dos pais e do tio que o criou, a paixão por Gwen, o conforto maternal de sua tia May, a construção de sua identidade. A mim o filme soa como uma bela imagem/metáfora da indissociabilidade natureza/cultura que conforma um corpo em crescimento, transformações, adaptação e descobertas. Com uma poética darwinista, eu diria, as mudanças genéticas/biológicas estão imbricadas com a aprendizagem de casa e do convívio social no seio da cultura. E o herói, mesmo sob o peso da utópica responsabilidade de salvar a "América norte-americana", chora sem qualquer receio de transparecer que também é vulnerável.
É brincando com estas e outras visualidades contempoprâneas, que me rodeiam e flutuam em torno de mim, que entendo o quanto elas também configuram o que sou, trançando relações de afeto, prazer e poder. Com elas me pergunto: Por que tais imagens me atravessam de modo tão peculiar? O que elas dizem de mim? Permitir isso não seria prejudicar minha reputação de futuro doutor? Embora eu me relacione com elas, quer expresse isso ou não, a que custos eu negaria ou manteria isso trancado na solidão do meu quarto?
Lembro-me da cômica descrição de Felipe Gutiérrez, publicada nos trechos de livros da Folha de São Paulo, sobre o que é ser um escritor cult: inovador e contra todas as correntes literárias do momento, hermético para seus contemporâneos, publicar pouco e melhor ainda se depois de morto, negar-se a entrevistas, usar pseudônimos, levar uma vida licenciosa e turbulenta, habitar o submundo e flertar com a morte. Isso me enreda com a fala de um conhecido que recordava uma cena do seriado "Glee", onde Emma, a orientadora da escola, após aconselhar os alunos a não se lamentar por amor, aparece trancada no carro chorando e cantando "All by myself". Com isso, perguntava ele: De que adianta fazer a linha cult se quando terminamos uma relação choramos ouvindo "Nuvem de lágrimas" da Fafá de Belém?" Ou seja, de que adianta primar pelos discursos elevados e pela erudição se somos tão pop e lamentamos nos aproximando daquilo que mais fala dos nossos pesares?
A meu ver, a licenciosidade e hermeticidade do escritor cult soam de par com a cena da orientadora "faça o que digo e não o que faço" e a pergunta em torno dela. Somos eruditos e populares na mesma toada. O que conseguimos, por vezes, é disfarçar isso no convívio. Mas entre as paredes dos nossos cantinhos subjetivos, fachados de risos amarelos ou irônicos, deslizamos de Beethowen a Paula Fernandes, de Hitchcock a James Cameron na boa, lamentando-nos como pássaros feridos por um épico naufrágio. E o bacana é que não precisaríamos nos envergonhar disso. Piegas são alguns trechos dos discursos classificatórios e divisórios de Adorno e Horkheimer, não os modos como usamos e nos damos conta do afeto que investimos para com esses produtos culturais.
Há dias algumas imagens e falas me interpelam... Elas trazem gotas de lágrimas e de chuva... Umedeço e tranço com elas, um jeito bom de existir que me faz organizar a vida entendendo como cotidiano desde os assuntos acadêmicos até as amenidades e fazeres frugais do dia a dia. Nada escapa dessa desierarquização travessa e perspicaz que o corponectivo que sou articula prazeirosamente.
Imagens capturadas aqui, aqui e aqui.
Mostrando postagens com marcador IMAGEMINHAS. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador IMAGEMINHAS. Mostrar todas as postagens
10 de julho de 2012
10 de junho de 2012
6 de abril de 2012
Corpus Via Crucis by Madonna
Condenação

Primeira queda

Encontro com Madonna

A ajuda do Cirineu

Enxugando lágrimas

Segunda queda

Encontro com as mulheres

Terceira queda

Despojado de suas vestes

Crucificação

Morte

Pietá

Sepultamento

Ressurreição

Imagens do music video "Girl Gone Wild" (2012), de Madonna
9 de março de 2012
Coesos contrastes que me constituem

Madonna: Like a virgin e Erótica.
Che Guevara: Endurecer sem perder a ternura.
Jesus de Nazaré: Sejam simples como as pombas e prudentes como as serpentes.
Pepeu Gomes: Ser um homem feminino não fere o meu lado masculino.
Daniela Mercury: Eu viro uma escrava de você, Preto.
Lenine: [...] quando o corpo pede um puco mais de alma.
Pina Bausch: Não me importa como as pessoas se movem, mas o que as move.
Frida Kahlo: Pés, para que te quero se tenho asas para voar?
Imagem: Cartaz do show de intervalo - Super Bowl 2012 - Madonna.
Lenine: [...] quando o corpo pede um puco mais de alma.
Pina Bausch: Não me importa como as pessoas se movem, mas o que as move.
Frida Kahlo: Pés, para que te quero se tenho asas para voar?
Imagem: Cartaz do show de intervalo - Super Bowl 2012 - Madonna.
28 de fevereiro de 2012
... o 27 já passou

Os dias passam... E nada como um após o outro para recobrarmos as forças gastas em situações sem volta. Quando a fortaleza pessoal se reergue, uma sensação de indestrutibilidade invade todos os espaços do corpo, como se fossemos de titânio (metal de transição leve, forte, cor branca metálica, lustroso e resistente à corrosão, sólido na temperatura ambiente).
Algo assim:
"Sou à prova de balas, não tenho nada a perder
Atire, atire
Ricocheteia, mire
Atire, atire
Você atira em mim, mas eu não caio
Sou feito de titânio
Você atira em mim, mas eu não caio
Sou feito de titânio"*
Como música que coça no ouvido e faz querer dançar a todo instante. Como se a vida fosse uma mistura de pista e passarela. Como se imagens de vídeo clipes e filmes ajudassem a narrar meus pensamentos. Como se no modo leve de guardar a lembrança, o fato nem tivesse acontecido.
Hoje é dia 28, porque o 27 já passou.
Foto: Luana Brant
Edição: Odailso Berté
*Refrão da música "Titanium" (David Guetta e Sia)
27 de fevereiro de 2012
aquecido pelo sol da meia-noite


O escuro e a calada da noite revelam nuances de gato negro, suspiros de doce vampiro, olhares de medusa que paralisam, uivos de lobos e luas, risos que divertem bem perto.
Sem nenhum propósito supersticioso o negro felino atravessa o caminho, arranha o asfalto do peito, salta o muro da minha fortaleza, mia manhas e falas que reverberam em minhas manhãs.
Melanina cheirando a paixão, tom e odor café, coco queimado, chocolate meio amargo, marrom bombom... Latente impulso que vê na cor e no gesto a simétrica beleza de proporções gregas.
Gostos pressentidos nos lábios, misturando rosa e preto, tirando palavras do corpo e aquecendo afetos no calor do sol negro da meia-noite.
Fotos: Deivid Amorim
Edição: Odailso Berté
17 de fevereiro de 2012
Carnaval 2012: uma arca de emoções
15 de fevereiro de 2012
20 de dezembro de 2011
E a dança foi proibida
Outro dia me deparei com uma situação que recorda o conflito do filme Footloose: a dança sendo proibida.
O aviso incisivo proibindo "qualquer tipo de dança" chamou-me a atenção e despertou a curiosidade no sentido de: o que teria acontecido naquele local, uma calçada de fronte a uma avenida movimentada de Goiânia/GO, para que tal proibição fosse declarada? Que corpos ali se moveram e que movimentos teriam dançado para despertar tal repúdio?
Foi então que comentei o fato com um taxista que trabalha nas redondezas e ele me explicou com muita naturalidade o acontecido:
"O dono da casa de dança (bailão), que fica ali ao lado, proibiu, pois o pessoal vinha, ligava o som bem alto e dançava ali fora mesmo sem pagar nada."
Pois é... Fiquei pensando... Então, ali, só é permitido dançar conforme a música tocada na "casa de dança", dançar mediante pagamento, dançar em lugar fechado.
E eu que tinha imaginado que a proibição teria vindo de alguma instituição religiosa ou algo dessa ordem. Mas não, a "casa de dança" foi quem proibiu qualquer tipo de dança feita fora dela. Contraditório? Antidemocrático? Ou apenas pitoresco?
Foto: Odailso Berté
19 de dezembro de 2011
Com versão profana
Eu andava à deriva, me aventurando em novidades a cada dia que passava. A sede aumentava, eu queria mais, pois o calor do mundo tomava conta de mim.
Foi então que encontrei Ele...
Ele invadiu meu ser.
Ele tem poder.
Ele curou a minha sede.
Ele é dulcíssimo (muito doce).
Ele é rosa (rosa-chiclete).
Ele é de tutti frutti (de várias frutinhas).
Assim, me entreguei a Jesus, o glorioso guaraná de São Luis do Maranhão.
Foto: Odailso Berté.
20 de novembro de 2011
Sobre ruínas e o que pode o amanhã ser
As nuvens vão escurecendo lentamente. O azul e o cinza vão se misturando na ausência do sol que se despede ao anoitecer. Promessas de noite e chuva tomam espaço e um vento carinhoso beija meu rosto e sussurra que o tempo, em seu rotineiro movimento de "ir passando", deixa ruínas atrás de nós.
Ruínas que podem ser apreciadas por seus traços estéticos, por serem vestígios históricos, por conterem toques e guardarem gestos em segredo misterioso, velado e impingido em cores concretas, amortecidas pelos dias que se sucedem.
Ruínas adornam o sentimento de quem recorda passados, desenha futuros e, apesar dos olhos umedecerem de vez em quando, deseja que sorrisos, falas e beijos contornem os lábios para que esboços de felicidade floresçam entre as pedras.
Ruínas trazem saudade, medo do incessante tic tac, mas também encorajam a vontade de resistir, de manter-se firme apesar da fome cronológica do tempo, esse deus invisível e onipresente que a tudo envelhece.
Ruir, sentir, passar, lembrar, seguir... Verbos que se fazem carne quando pedaços de ontem atravessam o hoje e configuram aquilo que pode o amanhã ser.
Fotos da cidade de Alcântara - Maranhão
9 de novembro de 2011
Como Marilyn
Assinar:
Postagens (Atom)






















