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12 de março de 2016

A dança corrompida e pseudopatriótica

Cena do filme Pina (2011), de Wim Wenders.

Frame do vídeo tutorial da coreografia "Seja patriota".

Hoje duas imagens de dança turvaram-me o olhar: o filme Pina (2011), de Wim Wenders, exibido pelo canal Curta!, e o vídeo tutorial que ensina os passos da coreografia "Seja patriota", postado no facebook por um grupo que se intitula "Consciência patriótica". Não vou descrever aqui todas as sensações que tive nesses dois momentos, apenas digo que foi uma passagem de prazer à agonia, respectivamente. E perguntas brotaram-me no corpo: como pode a dança prestar-se a propostas tão distintas? Isso faz parte de seu potencial polimorfo? Qual a necessidade de dançar nesses tempos em que a corrupção vem mostrando suas/seus caras em nosso país? O que pode a dança em meio a tudo isso?

Lembra-nos a crítica de dança Helena Katz, e já o sabiam tantos dançarinos e coreógrafos, que A DANÇA É CORPO. Diferente de outros artistas que geram produtos/obras externos ao corpo (quadros, esculturas, músicas, textos, filmes), a obra de dança não existe, concretamente, fora do corpo que dança. A dança se dá em ato, no momento em que o corpo dança. Quando o corpo para de dançar, a obra-dança também para. Obviamente, permanecem sensações, ideias, afetos, no corpo que dança e no corpo que assiste. Mas a obra artística - dança - existe enquanto o corpo dança, não fora ou independente dele.  No caso dos dois artefatos aqui comentados (filme e vídeo), temos um registro da dança, ou a geração de outro tipo de obra/artefato a partir da dança: um filme e um vídeo.

Diz o filósofo existencialista Merleau-Ponty que NÓS SOMOS CORPO e não apenas temos um corpo como temos casas, discos, livros, carros, pratos etc. Corpo não é coisa, é ser - eu - você - nós. Se a dança é corpo e nós somos corpo, então a dança é o que nós somos - nós somos a nossa dança. Aquilo que dançamos (ideias, sensações, músicas, imagens, temas, histórias...), faz parte do que somos, do que nos constitui como seres-corpos humanos. As danças que admiramos, cultivamos e que dançamos dizem muito de nós. Mas o que o filme Pina e a coreografia "Seja patriota" tem a ver com isso? Pensemos...

Pina Bausch (1940-2009) foi uma coreógrafa que, em dado momento de sua trajetória artística, passou a "coreografar" de uma maneira diferente da tradicional: ela não criava a dança e passava para os dançarinos repetirem até decorar. Pina fazia perguntas que, por sua vez, faziam os dançarinos pensar em suas historias de vida. A resposta a essas perguntas eram em forma de movimentos, gestos, ações, pequenas falas. Pina dizia: "não me importa como o corpo se move, mas o que move o corpo". Ela se importava com as experiências de vida dos corpos e como elas podiam mobilizar a dança deles. Os corpos/dançarinos de Pina dançavam aquilo que eles eram.

Na coreografia "Seja patriota", são executados passos de dança bastante conhecidos, vistos em muitas outras danças. Talvez, para alguns, esses passos podem ser mais bonitos e prazerosos do que os movimentos da dança de Pina Bausch (não muito comuns e até difíceis de serem aprendidos e repetidos, porque eram sempre inéditos, configurados com exclusividade em cada novo processo criativo). "Seja patriota" é uma coreografia - conjunto de passos, vistos em muitas outras danças, que podem ser usados para transmitir qualquer coisa, tudo ou nada ao mesmo tempo. É um conjunto de movimentos que servem apenas como veículo de transmissão de uma mensagem pronta e predeterminada. Aí estão corpos tomados como coisa/instrumento/veículo, sobre os quais pesa uma música, uma letra, uma ideologia que esmaga a dança e faz dessa arte um mero panfleto de politicagem que: incita o ódio e o combate à corrupção apenas de um partido político; cega os corpos para não verem a corrupção de tantos outros partidos, especialmente daqueles que promovem e incentivam essa mesma "dancinha patriótica".

Esta é uma situação em que a dança se torna um mero instrumento para o velho ditado: "a melhor defesa é o ataque". Atacar a corrupção do outro para esconder a minha. Um caso em que os corpos enfileirados, repetindo os mesmos movimentos, ao mesmo tempo, encarnam aquela musiquinha: "marcha soldado, cabeça de papel". Impõe-se aos corpos uma ideologia nefasta (classista, racista, homofóbica, sexista) e os corpos a confirmam na medida que a incorporam e passam a viver de acordo com ela. Ao repetir a coreografia pseudopatriótica (pois é um falso patriota aquele que diz combater a corrupção atacando apenas uma parte dela e escondendo a sua), os corpos se moldam a esse tipo de ideia e passam propagá-la e comunicá-la para contagiar outros corpos.

NOSSA DANÇA É O QUE NÓS SOMOS! Ao dançar a ideologia pseudopatriótica os corpos dançam aquilo que são, ou seja, as ideias que lhes foram impostas e que eles incorporaram. Os corpos dançam aquilo que compõem sua história, sua vida, sua forma de ser. Nessa ótica, tanto os corpos da dança de Pina Bausch como os corpos da dança pseudopatriótica dançam as suas experiências, aquilo que vivem, que aprenderam ou que lhes foi imposto e assimilaram de modo acrítico. Para não pensarmos que tudo é farinha do mesmo saco, algumas diferenças gritantes: os passos da dança de Pina Bausch não são facilmente reconhecidos, pois eram criados por cada um dos dançarinos, de acordo com as experiências que recordavam através das perguntas. Ou seja, eram passos - que prefiro chamar de movimentos (pois passo se restringe aos pés e movimento pode referir o corpo todo) - que nasciam sempre novos. Já os passos da dancinha pseudopatriótica, são facilmente reconhecidos, não criados em conexão com experiências de vida dos corpos que os dançam, mas ajuntados aleatoriamente e repetidos para dizer qualquer coisa desconectada deles. O que garante o significado desses passos de dança não são eles próprios ou a relação dos dançarinos e do público com eles, mas a ideológica letra da música que essa dança tenta ilustrar. Uma dança-ilustração da ideologia incorporada e confirmada pelos corpos.

Enquanto a dança de Pina Bausch (e muitas outras formas de dança) convida os corpos que assistem a construir diferentes significados para os movimentos que os dançarinos criam, a dancinha pseudopatriótica impõem, aos corpos que a dançam e aos que a assistem, um único significado predeterminado. Este significado, ditado pela letra da música, incita o ódio entre os corpos e propõem um falso combate à corrupção, olhando apenas para uma faceta do problema e cegando os corpos de perceberem a conjuntura da atual situação do nosso país.

Olho para uma das últimas cenas do filme Pina, em que uma dançarina usa uma pá para jogar terra sobre a outra que dança no chão... Apesar de estarem tentando enterrá-la, ela não desiste de dançar, segue movendo-se toda empoeirada. A terra entra nos cabelos, nos olhos, nas orelhas, mas ela não sede. Ela dança, dança, dança, pois do contrário, se parasse, estaria perdida, liquidada, enterrada. Essa é uma das máximas de Pina Bausch que encerra o referido filme: "dance, dance, dance, do contrário estaremos perdidos". Assim, também quero encerrar esta pequena reflexão no sentido de seguirmos dançando nossas experiências, aquilo que nos constitui, a nossa relação com os outros e com o mundo.

Façamos com nossas danças, também uma espécie de espelho para (re)conhecermos constantemente aquilo que somos, aquilo em que acreditamos, que defendemos e que, portanto nos constitui. Não façamos da dança um panfleto ilustrativo de ideologias perversas, mas uma forma do corpo (re)organizar e dizer dos modos como se relaciona com o mundo. Penso ser muito mais patriótica, democrática, amante e defensora do seu país a dança que possibilita aos corpos pensarem em si, nos outros e no mundo; a construir diferentes significados e não engolir significados únicos e prontos. Acredito, faço e luto por danças que possibilitem aos corpos serem autônomos e não autômatos.    

Odailso Berté
Doutor em Arte e Cultura Visual (UFG)
Mestre em Dança (UFBA)
Especialista em Dança (UNESPAR)
Licenciado em Filosofia (UPF)
Coreógrafo e Professor de Dança

18 de outubro de 2015

Solidão Pública: o estar só que nos questiona

Adilso Machado em "Solidão Pública", 16/10/2015.

A solidão dele seria também nossa? Que solidão vertiginosa é essa que em vez de silêncio e reclusão sacode o corpo freneticamente como se estivesse numa have particular? Que corpo solitário é esse que soa como um "the walking dead" plugado numa tomada de 220 volts?

Adilso Machado, com a coreografia "Solidão Pública", apresentada no dia 16/10/2015, no Theatro Treze de Maio de Santa Maria/RS, instaura atravessamentos perceptivos que surpreendem a experiência estética acostumada a 'gostar' ou 'não gostar', 'achar bonito' ou 'achar feio'. Está aí uma forma de dança que empurra o corpo espectador nos precipícios interpretativos onde a dança é uma densa névoa e não floquinhos de neve.

Com a propriedade de um corpo atento a como seu treinamento se conecta com sua dança, seus estados corporais, articulados em cena, desenham formas, imagens, movimentos que não fornecem representações caricatas da solidão. Antes, desatam modos vertiginosos de ser e estar sozinho. Mesmo acompanhado em cena pelo DJ, que manipula a trilha em tempo real, Adilso é um corpo dançando só, imerso, envolto e comprometido com a configuração de sua dança.

"Solidão Pública" é uma dança que incomoda pois subverte a percepção estética convencional tirando o espectador do lugar comum de achá-la bonita ou feia. Pessoas na plateia se contorcem, conversam, alteram a respiração, arregalam os olhos e certamente se questionam: "Por que esse corpo faz o que faz em cena?". Conforme Katz (2004), a dança que causa esse tipo de tensão e indagação pode ser chamada de contemporânea. Não que a dança de Adilso necessite de classificação ou caiba dentro de um estilo de dança.

Não apenas pelo simples fato de ser um solo, mas, ao dançar só sua "Solidão Pública", Adilso possibilita acompanharmos seus trajetos de movimentação despertando-nos a preocupação de que a qualquer momento ele vai sucumbir, de que ele não vai resistir. Parece que a possibilidade de cansar, prostrar, cair, ceder, torna-se potência para resistir e (trans)formar o movimento e assim escamotear as possibilidades de enjaular a solidão em significações fáceis.


Odailso Berté
Doutor em Arte e Cultura Visual   
Mestre em Dança
Especialista em Dança  
Licenciado em Filosofia 

12 de outubro de 2015

Dançar Frida Kahlo é narrá-la: review do espetáculo Me Kahlo Sashay Away


Dançarino Crystian Castro no Espetáculo Me Kahlo Sashay Away (2015)
Foto: Patricia Cichelero
A abertura de sentidos de uma obra de arte se dá em detrimento de seus significados preestabelecidos (sic), já dizia Eco, não a ninfa, o senhor italiano, aquele que pode ser nobel de literatura esse ano.
A arte é inocente da obscuridade que projetamos num espetáculo. Esse negócio de luzes sobre a sensibilidade, de redução do sublime ao objetivo, é simplesmente absurdo. Claro que todos nós, em maior ou menor medida, nos sentimos burros diante de fatos com os quais não sabemos o que fazer: em qual gaveta do meu pensamento cotidiano irei colocar um bailarino sendo lenta e sincopadamente desenrolado por uma longa mangueira de jardinagem? Pessoas passando umas pelas outras com um sapato de salto alto em cima da cabeça? Na gaveta do absurdo, do nonsense - alguém responderia. De fato, é um tanto isso que a arte se propõe explorar – o absurdo.
Mas o preocupante é quando esse engavetamento de impressões não consegue se desgarrar do cotidiano, quando ficamos simplesmente estupefatos com o fato de estarmos esperando o desvelamento dessa coisa mística que é a arte, e vermos, ora essa, uma inexplicável mangueira de jardim.
É claro que a mangueira, no caso, pode ser uma referência (in)direta às bandagens que se enrolavam e desenrolavam em torno de Frida após seu acidente de bonde, e a expressão de tédio profundo do bailarino é demasiado próxima a de Hayek na cena equivalente no filme (FRIDA, 2002). A mangueira volta no final, como o clássico fechamento do (ou início de um novo) círculo, só que agora envolve outro dançarino e - minha opinião - a remontagem de uma das telas de Frida. É quase claro, pra mim, que aqueles sapatos em cima da cabeça formavam um ângulo de cunha com as mãos dos dançarinos e insinuavam sombrinhas burguesas em meio a convenções sociais de época: a introdução de Frida aos salões, quem sabe. Mas a despeito desses significados, ou possíveis significados, o preocupante é que muitas vezes a estupefação chega a interromper o fruir estético, ou mesmo aquela sensação de tentar fingir que sabia o que estava acontecendo infunde-se em nossa visão do agora.
            Saber, no fim, não é a questão. Se você não conhece a biografia de Frida, não deve esperar que um espetáculo lha forneça. Mas, veja bem, nem por isso o espetáculo deixa de ser uma narrativa, nem por isso ele não narra Frida. E, enquanto, uma narrativa pictórica e corporal que ele é, nos trará impressões mais diretas ainda que palavras, já que sem elas não há perda de tradução, e até mesmo aqueles que nunca ouviram falar de Frida podem sentir o que cada um daqueles lindos personagens, lúdicos e enfermos,  que se fundiam e se visitavam, expressava, e como cada um narrava uma Frida com seu próprio corpo. 
            E que há de mal em se perder? Que há de mal em suas lágrimas caírem e você não saber se é por compaixão biográfica ou paixão estética?
            Os quadros, as cores, os sofreres e os traços de Frida passeavam nas feições, motes gestuais, e ritmos dos moços e das moças dançantes. Passeadores entre flores, as flores nossas e de Frida.
Havia mo(vi)mentos nos quais era o puro corpo falando e nós espectadores entrávamos numa espécie de transe ancestral diante do movimento de sons e corpos. E no fundo era isso o que senti com toda a força e me arrebatou na noite de sexta (02/10): o movimento. A capacidade da dança compor uma narrativa dinâmica e arrebatadora me impressionou, pois costumo buscar tal coisa em literatura, ou seja, em palavras. Ali era tudo gestos, uma beleza que nos fazia ora sorrisos despronvindos de razões ora lágrimas inexplicadas.
Review do espetáculo Me Kahlo Sashay Away, direção de Odailso Berté, criação e produção do Laboratório Investigativo de Criações Contemporâneas em Dança (LICCDA), do Curso de Dança – Licenciatura da UFSM. O grupo promete ainda para esse mês de outubro algumas intervenções no cotidiano de nossa Santa Maria com especial intuito de abrir o debate acerca da dança/arte contemporânea. Atentemo-nos, e aguardemos as bonitezas que ainda estão por vir.

Por GIONATAN PACHEGO
Bacharel em Filosofia - UFSM

21 de março de 2015

STRIKE A POSE contra a homofobia!

Nos meados de março de 1990, Madonna lançava o videoclipe da música "Vogue". Vinte e cinco anos depois da música e videoclipe terem se propagado por todo o mundo - sem o veloz suporte da internet -, como fã de Madonna e pesquisador de Cultura Pop, pergunto: Por que ainda importa falar de Vogue? Por que faz sentido, hoje, no Brasil, perante tanta intolerância, fundamentalismo religioso, homofobia violenta, corrupção política, apelos a regimes ditadores e à família tradicional como modelo exclusivo, refletir sobre Vogue?

Videoclipe Vogue, direção de David Fincher

De modo estratégico, em 1990, Madonna se apropriou de elementos provindos de ambientes gays, articulados na década de 80: dança, desfiles, gestual, vestimentas, concursos, batalhas, performances. Forjado por gays e negros, esse ambiente underground de New York, especialmente no Harlem, chamado de Ball Culture, possibilitava, em diferentes clubes gays, que estes sujeitos expressassem, vivenciassem e se mostrassem de modos que, no dia a dia, a sociedade branca, patriarcal, machista e heterosexista  impedia que o fizessem.

No ambiente da Ball Culture surge a dança Vogue. A partir de imagens de revistas de moda (como Elle e Vogue), estrelas de cinema e de séries de TV, hieróglifos egípcios, movimentos de ginástica, poses de modelos, trejeitos femininos de passarela e de manuseio de instrumentos de maquiagem, era criada a dança Vogue. Entre os concursos e batalhas feitas nas "casas", como eram chamados os clubes, a dança Vogue era uma das categorias. Entre os expoentes da dança Vogue estão o dançarino e coreógrafo Willi Ninja (1961-2006), considerado "a mãe da Casa Ninja" e Jose Xtravaganza considerado "pai da House of Xtravaganza" e que dançou no videoclipe de Vogue com Madonna e em várias apresentações e shows da época. Jose estudou na School of Performing Arts, em La Guardia High School of Music and Arts e também foi bolsista na New School Ballet com 10 anos de idade.

Jose Xtravaganza. Foto de Len Prince.

Recentemente, Jose, junto com Slam, outro dançarino do videoclipe Vogue, em homenagem aos seus vinte e cinco anos, gravaram um vídeo, onde dançam... Motivo este que despertou-me, com emoção, essas palavras. Vinte e cinco anos depois, já não mais tão jovens, mas extremamente ágeis e exímios na execução de cada gesto da dança Vogue, essas imagens me questionam acerca da força política dessa dança, de outras danças, do corpo, do gesto.

Homens dançando Vogue, Stiletto, Stret Jazz, com ou sem sapatos de salto alto, são imagens de contravensão e subversão perante sistemas dogmáticos, fundamentalistas e homofóbicos. São imagens e ações performativas que instauram estranhamento, excedem as ações cotidianas que repetem, potencializam formas de uma política estética, (re)criam realidades possíveis e forjam políticas de representação e reconhecimento identitário dos sujeitos LGBTT.

Quando Madonna lança o produto Vogue, música e videoclipe, sim, ela produz mais uma mercadoria artística no vasto mercado da Cultura Pop, fruto de seu trabalho e daquilo que ela se propõe como cantora pop. Me instiga pensar que, a produção e venda de Vogue vem aliada à sua prática de defesa e reconhecimento dos direitos LGBTT, desde o princípio de sua carreira até hoje. Madonna nunca escondeu sua predileção por frequentar boates gays, conviver, trabalhar e defender estes sujeitos.

Penso que dançar Vogue, fazer pose e recriar esse estilo de dança na contemporaneidade é uma forma de fazer política, criar discursos gestuais críticos, criativos e performativos. É um modo de combater a ignorância, o fundamentalismo religioso, os falsos líderes que imbecilizam sujeitos com seus gritos, ritos e violências sagrados e ainda ocupam cargos políticos. Roubam seus fiéis, roubam os cofres públicos e ainda pregam a mais falsa, prepotente e misógina moral que se aplica somente ao sexo, àquilo que temos entre as pernas. Repudiam um beijo de novela entre duas mulheres? Jesus e seus discípulos se cumprimentavam com beijos, o ósculo da paz, diz na bíblia. Sim, homens se beijando.

Eles mutilam o próprio amor cristão, pois Jesus era um nazareno lindo, apaixonado pela vida e defensor de todos os excluídos e injustiçados e não esse bocó, branquelo e mágico-curandeiro que as religiões veneram. Perante esses que violentam as diversas expressões identitárias e a dignidade humana, repito a frase de Madonna (não à toa, Nossa Senhora): STRIKE A POSE - FAÇA POSE! O corpo é meio e mensagem ao mesmo tempo, portanto faça sua pose - política, faça jus à democracia e se expresse. AMÉM, IRMÃS!!! Come on, Vogue!

Prof. Dr. Odailso Berté

23 de novembro de 2014

SEDANCE - pés firmes e provocadores na estrada da dança


Em junho de 2014, quase um mês após ter chegado na Universidade Federal de Santa Maria/RS, como professor do Curso de Dança - Licenciatura, iniciamos as projeções e primeiros insights para este que seria o I SEDANCE - Seminário de Dança, Contemporaneidade e Educação. Superando nossas expectativas de ser um 'evento caseiro', o SEDANCE, entre os dias 21 e 22 de novembro de 2014, aproximou bailarinos, coreógrafos, professores, estudantes e pesquisadores das cidades gaúchas de Santa Maria, Pelotas e Porto Alegre e também de São Miguel do Oeste/SC, Campinas/SP e Goiânia/GO.

Com sua larga competência e sensibilidade, a Profa. Dra. Márcia Strazzacappa nos brindou com instigantes reflexões sobre o artista-docente e os tantos processos artísticos, pedagógicos e institucionais que integram o fazer-pensar dança na Universidade. Com sua habilidade e simpatia, o Prof. e Coreógrafo Jean Guerra, nos fez dançar e suar no curso sobre práticas artísticas e pedagógicas no campo das danças urbanas.

A tarde do dia 21 de novembro ainda foi repleta de compartilhamentos, trocas de ideias e questionamentos em torno de diferentes pesquisas em dança. Os grupos temáticos congregaram trabalhos sobre processos pedagógicos, criativos e questões contemporâneas sobre corpo envolvendo os campos da saúde, da cultura, da arte e da educação. Instigantes provocações emergiram no sentido de (re/des)construirmos formatos acadêmicos enrijecidos a partir das mobilidades e performatividades do campo da dança.

A noite do dia 21 acentuou o caráter artístico do I SEDANCE trazendo para o palco do Teatro Caixa Preta da UFSM coreografias de diferentes grupos, bailarinos e coreógrafos, comentadas pelos professores e coreógrafos Carlise Scalamato, Jean Guerra, Márcia Strazzacappa e Sílvia Wolff. Propostas coreográficas ousadas, provocadoras e emocionantes denotaram a diversidade de possibilidades para se criar, pesquisar e questionar os fazeres contemporâneos em dança.

Nem mesmo a ameaça de chuva impediu que, no dia 22 de novembro, o I SEDANCE parasse o trânsito do centro da cidade de Santa Maria, junto da Muovere Cia de Dança dirigida pela Professora e Coreógrafa Jussara Miranda, de Porto Alegre/RS. Com o projeto DESVIO - ganhador do Prêmio FUNARTE Artes na Rua (Circo, Dança e Teatro)/2014 - que integra intervenção urbana, oficina de dança e espetáculo, a Cia Muovere interviu no cotidiano do centro da cidade, dançando e fazendo os congressistas do I SEDANCE dançar em plena avenida, sobre a faixa de pedestres. Um ato político-estético de provocações impactantes que (con)fundem arte e vida evidenciando a potência da dança contemporânea e suas interpelações ao ensino - criação - pesquisa em dança, conforme propunham as intenções do I SEDANCE.

Na tarde do dia 22, com a coordenação da Profa. Dra. Daniela Castro (UFPel), o I SEDANCE abrigou o I Encontro Estadual dos PIBIDs Dança do RS, reunindo docentes e estudantes gaúchos em torno de reflexões e vivências acerca de práticas interdisciplinares para o ensino de dança na escola. Na sequência, as apresentações de pôsteres sobre pesquisas possibilitaram um panorama das ações artístico-pedagógicas do PIBID Dança desenvolvidas em diferentes contextos gaúchos.

O encerramento desses dois dias intensos de muita dança, pesquisa e possibilidades para o ensino de dança e atuação do artista-docente, não podia ter sido mais encantador. A Muovere Cia de Dança fez do gramado traçado com cal, ao lado da Reitoria da UFSM, o palco para a apresentação de dança em cena aberta DESVIO. Participantes do I SEDANCE e habitantes de Santa Maria que visitavam o campus da UFSM foram brindados com a perspicácia, a sagacidade, a ironia e a provocação de Diego Mac, Jussara Miranda e os bailarinos da Muovere. Risos, emoções e reflexões sobre tantos e diferentes trajetos, pegadas, indicações, caminhos e formas de mobilidade  deixaram a certeza e vontade de querer fazer, ver e dançar "it again".

E assim, tantas provocações trazidas e emergidas no I SEDANCE permanecem repercutindo nos corpos. O SEDANCE (de)marca com afetos, movimentos e rastros de cal na grama, a vontade e o ímpeto do Curso de Dança - Licenciatura da UFSM de fazer-pensar dança em diálogo com a contemporaneidade, com os corpos e danças que vêm para a Universidade aprender e ensinar, construir e expandir a dança enquanto arte e área de conhecimento. Temos muito o que dançar e para isso, muito me animam as palavras da Coreógrafa Jussara Miranda acerca de sua participação no SEDANCE: "Realizado artesanalmente e a quatro mãos e braços alunados, o SEDANCE colocou-se na estrada da dança com pés firmes e provocadores, sem medo!"




Prof. Dr. Odailso Berté

14 de julho de 2014

(in/re)flexões sobre uma mostra de dança



De 'um filme, um objeto, um círculo, um quadrado', para uma 'torta de amora', um 'stillo' ousado, um 'aripuruc' lindo como 'a mesa verde' do querido Jooss... Algo 'moderadamente lento, seresteiro' beijou-me os olhos ao passo que algo 'orbital' mudou-me o foco... 'Me deixe ver seus olhos' foi um singelo pedido em forma de movimentos que, sim, entre lágrimas transportou-me para outro modo de ver 'a olho nu'. Com 'vela sobre água' senti-me instigado, tocado por 'alguma coisa nossa' que, entre 'concepção urbana' e 'corpo nordestino', possibilitam pensar-dizer, aqui, algo do que lá senti.

Prestigiar formas de organização coreográfica, perceber diferentes modos de composição e interpretar diversificados caminhos e afetos que podem ter desencadeado processos, são ações viáveis quando nos deparamos com trabalhos pungentes de significações. Me refiro aos trabalhos apresentados na I Mostra Artística dos Alunos dos Cursos de Licenciatura e Bacharelado em Dança da Universidade Federal de Santa Maria, no Teatro Caixa Preta, em 10 de julho de 2014.

Complexidades, cotidianidades, musicalidades e culturalidades se transfiguraram na cena e possibilitam-me ver a(s) dança(s) como imagens do e no corpo que podem aludir e iludir, agradar e agredir, imitar e limitar... Os modos de ver e compreender a dança são tão infindos quanto os modos de vida que com ela se relacionam, ou seja, quanto os corpos que assistem/percebem os corpos que dançam.

Trabalhos como 'a olho nu', 'aripuruc', 'torta de amora' e 'moderadamente lento, seresteiro' produzem uma densidade cinestésica, acometem a imaginação e desdobram diferentes ideias acerca de relações interpessoais, de desejos e escolhas que conformam subjetividades. 'Um filme...', 'vela sobre água' e 'orbital' são construtos coreográficos instigantes que provocam o pensamento deixando reticências poéticas, vontades de ver mais.

'Alguma coisa nossa' e 'corpo nordestino...' atentam para traços celebrativos, festas do corpo que estão tão dentro quanto fora, no quarto e na praça, no eu e no grupo. 'Stillo' assalta a percepção ao borrar fronteiras de feminino e masculino, ao desfilar no palco uma política queer, ao esboçar reposicionamentos de discursos, gestos e imagens da cultura pop muitas vezes taxada de mercadoria alienante por certos discursos acadêmicos tão enfadonhos e deterministas. 'Me deixe ver seus olhos', 'partida' e 'por bendizer-te' sugerem diferentes modos de lidar coreograficamente com a singeleza, a serenidade, a saudade, sentimentos/afetos tão dignos quanto os pensamentos/ideias.  

Entre processos e produtos, construções e construtos, aqueles corpos mostraram seus feitos, ações que estão se fazendo, outras ainda por fazer e/ou refazer. A potência e a perspicácia desses jovens dançarinos alargam as possibilidades de constante (des/re)construção da dança como arte e área de conhecimento. Dos trabalhos não citados aqui, não significa que não tenham excitado a percepção e a imaginação, trata-se apenas das diferente formas de eloquência, dialogicidade e interação que, no conjunto, proporcionaram.

Diante desses instigantes potenciais, emergem sonhos, projetos, produtos e outros processos ainda em devir. Renova-se uma escolha que em momento algum deixa olhar pra trás como forma de arrependimento. Escolher a dança como projeto de vida, área de atuação, modo de comunicar-se com o mundo, fortifica-se diante de danças assim.

Odailso Berté
Coreógrafo e Professor de Dança
Doutorando em Arte e Cultura Visual
Mestre em Dança
Especialista em Dança
Licenciado em Filosofia

Foto: Giacomo Giacomini
Dançarinos: Amanda Silveira e Crystian Castro

28 de agosto de 2013

"Só a bailarina que não tem", ahãm, Cláudia...


Francine Piaia fazendo 'quadradinho de oito' vestida de bailarina
 
Certo dia me deparei com um cartaz, colado num poste, que dizia: “Contrata-se dançarinas (sem experiência)”. Isso me remeteu à correção que recebi de uma pessoa quando eu escrevia uma crítica de dança e chamava as artistas do referido espetáculo de “dançarinas”. A correção se deu no sentido de que eu não poderia chamá-las assim, pois dançarina é quem dança em boates, bandas, programas televisivos... Nessa forma de pensar, o correto, para quem é profissional da dança, seria “bailarina”. [Ahãm, Cláudia, senta lá...].
O cartaz e a correção podem ascender questões pertinentes para se refletir em torno da DANÇA como arte, profissão, área de conhecimento. Uma mácula parece acompanhar a dança e o corpo ao longo dos tempos, aproximando-os do sexo, do desejo, da sensualidade, como se fossem pecados, sujeira, impurezas. Daí, talvez, ainda derivem, no imaginário de muitos/as, as imagens equivocadas de dançarina/o como puta/o, promíscua/o, lasciva/o.
Pensando na história da dança cênica ocidental, o balé, ou a dança clássica, foi a primeira técnica de dança codificada (Eugênio Barba, 1995). Nascido na corte do rei Luís XIV, esta modalidade de dança – e não base para toda a dança – é o que de mais erudito ainda se cultua no campo da produção de dança e na preparação de profissionais de dança. O balé ainda é tomado como referência suprema que determina e até “purifica”, sacraliza o que seria a boa dança, longe de promiscuidade e lascívia. Não à toa este estilo de dança foi e é tomado como instrumento de disciplina e boas maneiras. Curiosamente, foi o único estilo de dança permitido por Hitler, durante o regime nazista.
As imagens da bailarina [princesa, fada, sílfide], ser sobrenatural e esvoaçante, “que não tem pereba, pecado, namorado, sujeira, irmão zarolho, remela, piolho...”, como diz a canção de Edu Lobo e Chico Buarque, contrastam com imagens de dançarinas de funk, de streapers, das dançarinas do Faustão, de quem usa formas de dança como estratégia de atrativo sexual, entre outras. Na imagem acima, a ex-BBB Francine Piaia faz o "quadradinho de oito" vestida de bailarina, uma atitude que pode ferir os sentimentos de quem sacraliza o balé em detrimento do funk e outras danças que evidenciam o erótico, a sexualidade e o prazer. De fato existem diferenças nas funções, ações, danças que esses corpos desempenham. Todavia, me inquietam os preconceitos, os receios, os equívocos em torno dos termos “dança”, “dançarina/o”.
O termo “dançarino/a” surge por volta do século XVIII, provavelmente calcado do termo italiano “ballerino/a” (Antônio Cunha, 1986). Segundo a Classificação Brasileira de Ocupações – CBO, no grupo “artistas da dança” compreende-se bailarinos, dançarinos, coreógrafos, dramaturgos, assistentes, ensaiadores e professores de dança (Carla Morandi, 2010). Suas competências, de acordo com cada função, compreendem concepção/concretização de projetos cênicos de dança, criação de obras coreográficas, realização de apresentações públicas, preparação corporal, pesquisa de movimentos, ensaios e ensino de dança. Sobre a formação e experiência, embora ainda não seja exigência, estas seguem a tendência mundial no campo das artes baseada na formação por meio de curso superior na área.
A dança, vista/pensada/executada como arte, profissão, área de conhecimento, abarca questões e possibilidades artísticas, expressivas, educacionais, de saúde, bem estar e relações sociais. Tratar de dança é tratar de um fenômeno, uma ação cultural que transpõe os limites das conhecidas sistematizações e classificações. A dança está nos palcos, nas academias, nas salas de aula e para além destes espaços. A dança está presente no cotidiano sociocultural, seja como arte, linguagem, forma de comunicação, lazer, entretenimento, área de conhecimento, evento social, elemento de festas, bailes, celebrações, shows e rituais, podendo envolver relações de afeto, prazer, saber e poder.
Interpretando o termo “artista da dança”, penso que os receios em torno do termo “dançarino/a” carregam uma falta de compreensão da abrangência que a dança possui, além de preconceitos classistas/elitistas/puritanos que aumentam os abismos entre as “danças da corte” (eruditas/alta cultura/arte) e as “danças da plebe” (populares/de massa/midiáticas/entretenimento). Elementos de dança perpassam estes diferentes ambientes, compostos por diversos corpos-sujeitos e variados modos de usar/fazer/entender dança. É um equívoco pensar que só podem ser entendidas como DANÇA (boa dança - arte) as danças eruditas, da alta cultura, do sistema das belas artes e também as folclóricas e tradicionais.
As diferentes formas de dança e de uso da dança não devem ser niveladas, nem vistas sob os mesmos ângulos e olhares. Cada estilo de dança e cada profissional da dança merece a devida consideração em relação a sua história, trajetória, formação e experiência. Para quem somente dança balé, penso que o termo que melhor o/a identifica, se assim preferir ser chamado pelo estilo ao qual se dedica, pode ser “bailarino/a”. Para quem dança e faz da DANÇA sua área de atuação, profissão, formação, criação, independente de ser dança clássica, moderna, contemporânea, de salão, de shows, de pole dance, em boates, no teatro ou no programa do Faustão, às favas o receio/preconceito de ser chamado/visto/reconhecido como DANÇARINO/A.

Odailso Berté
Dançarino, coreógrafo e pesquisador em dança contemporânea
Doutorando em Arte e Cultura Visual - UFG
Mestre em Dança - UFBA
Especialista em Dança - FAP
Licenciado em Filosofia - UPF

Imagem capturada aqui.

15 de dezembro de 2012

Madonna, o corpo metáfora (MDNA Tour 2012)

Tanta ou maior que a de 2008, quando a Sticky & Sweet Tour veio ao Brasil, foi minha atual expectativa para (re)ver Madonna em sua MDNA Tour (2012). Hoje ela também faz parte dos afetos – cheios de razões – que movem meus interesses de estudo e pesquisa. Fã e pesquisador se misturam e, por mais que Adorno e Horkheimer pensassem o contrário, o ato eufórico e encantado de experienciar/cantar/dançar/chorar com o show de Madonna não está separado do ato de pensamento e construção de significados. Esse é um momento que elucida o fato de que, no corpo, razão e emoção nunca estão separadas.


O nono dia de dezembro de 2012 foi marcado pelo meu reencontro com a Rainha da música pop, a ‘girl gone wild’ que faz jus em ter o nome de “nossa senhora – Madonna”. Afinal, há que ser muito poderosa para orquestrar um espetáculo de tamanha magnitude, além de cantar (ao vivo) e dançar (eu falei dançar, não passinhos pra lá e pra cá). Bem antes do espetáculo iniciar, um ensaio trouxe Madonna e seus dançarinos ao palco. As imagens artefatos, antes vistas, tornam-se imagens ações que se movem diante dos olhos, criando refrações no corpo todo. Um pensamento/sentimento ingênuo emerge: “Madonna é de verdade”! Tão real e próxima que, como qualquer mortal, precisou se proteger do sol.


O show inicia como um missa. O cenário, uma imponente catedral com direito a monges, gárgulas, sino, turíbulo e ladainha com o nome Madonna. Ao soar uma penitente e sensual voz feminina, dizendo “Oh my God”, a catedral se abre para a entrada de um oratório suspenso que mostra a silhueta de uma mulher ajoelhada, de mãos postas, rezando a oração do ato contrição. Ela levanta, empunha um rifle a quebra os vidros do oratório para cantar “Girl Gone Wild”. Sim, é a própria Madonna, a santa que empunha um rifle, ao passo que os monges se despem e dançam sobre sapatos de salto alto. Inversões, provocações, subversões... Dicas e picardias para os conservadores religiosos (católicos, evangélicos e do diabo a quatro) e demais simpatizantes que abominam a homoafetividade. São sinais de nossa senhora – Madonna... Interpreto e obedeço, piedosamente. Amém!


Já no terceiro bloco do show, Madonna interpela o olhar do espectador perguntando: “What are you looking at?” Sugerindo questões referentes a corpo, gesto, imagem, pose, comportamento, a performance do sucesso “Vogue” é genialmente articulada e desfilada por modelos/looks que remetem a diferentes gêneros, épocas, personagens, cenários. A sequência se dá com o mashup, pra lá de sensacional, de “Candy Shop” com “Erótica” que ambienta um ousado e polido cabaré onde corpos trocam gracejos, prazeres, toques e afetos. Com “Human Nature”, Madonna se relaciona consigo mesma diante de espelhos e com mãos que buscam tocá-la, aludindo a temas como identidade, desejo, fetiche, objetificação, sexualidade. Ela encerra este momento se despindo e proferindo um caloroso e emocionado discurso em prol das mulheres de todo o mundo.


Outro destaque especial merece a dança no show de Madonna. Dançarina profissional, quase graduada em dança pela University of Michigan, ela também vivenciou a técnica de dança moderna de Martha Graham, uma das fundadoras dessa modalidade a nível mundial. Com toda essa bagagem, é de se esperar e comprovar que em seu show, Madonna e seus dançarinos não fazem da dança uma mera ilustração para a letra das músicas. Trata-se sim, de configurações coreográficas que ora convergem ora divergem com a música. São estruturas de movimento que adensam as propostas estéticas do show e propõem diferentes formas de ver, analisar, sentir, perceber o espetáculo. O corpo não é apenas um objeto virtuoso da arte, mas um corpomídia que constrói informações, imagens e metáforas para se comunicar com os demais corpos. É impressionante os modos como Madonna não simula o ato de dançar em função do ato de cantar. Pude vê-la, a menos de três metros de distância, no auge dos seus 54 anos, dando saltos, fazendo rolamentos, giros e sequências efusivas de movimento. É simplesmente... Uau! Ela acompanha, equiparadamente, os dançarinos mais jovens e ainda canta e toca. Que estrela!


Entre canções, imagens e coreografias, a ópera pop de Madonna desliza e adentra por catedral, quarto de hotel, combate, lutas, banda marcial, balizas e líderes de torcida, luau basco, cabaré, celebração mística e festiva, críticas sociais, políticas e religiosas. Uma cadência impressionante, uma tecnologia espetacular, performances arrebatadoras, um produto muito bem amarrado estética, imagética e conceitualmente que confirma a arte de Madonna como uma potência cultural e econômica consolidada e abrangente.


Mística e erótica, razão e emoção não encontram barreiras entre si quando o corpo se relaciona com algo assim. Vida longa à Rainha do pop. Que no alto dos seus sessenta anos possamos ainda ver Madonna interpelando o mundo com suas criações e, como ela mesma diz, fazendo de seu corpo uma metáfora para provocar.

Odailso Berté
Coreógrafo e dançarino
Doutorando em Arte e Cultura Visual
Mestre em Dança
Licenciado em Filosofia

Fotos de Odailso Berté 

25 de novembro de 2012

Corpoesias no 'Cesta de Dança - 2012'

Seis coreografias, dentro do evento Cesta de Dança - 2012, se inspiram em obras literárias, cidades, elementos naturais e singularidades do corpo, gerando experiências que interpelam e emocionam. Nas noites de 23 e 24 nov. 2012, a Sala-Teatro Julson Henrique, do Espaço Quasar, foi palco para criações independentes de bailarinos da Quasar Cia de Dança e demais convidados.

"Irene", de Marcos Buiati

“Irene”, de Marcos Buiati, põe em relação três personagens inspirados nas ‘cidades invisíveis’ de Ítalo Calvino. Sutilezas circenses remetem as possibilidades interpretativas para imagens de filmes como “O Palhaço” e “O Labirinto do Fauno”, criando uma rede de associações entre a gestualidade dos dançarinos e as experiências do espectador. Entre mãos que enxergam, olhares que tocam, tiras de tecido, bolinhas de gude e guarda chuva, lúdico e afetivo tecem alegorias dramáticas por meio dos movimentos ternos e precisos de José Villaça, Marcos Buiati e Paula Machado.
 
“Retalhos de Cetim” entrelaça a poesia musical de Benito Di Paula, a acuidade coreográfica de Valeska Gonçalves e a visceral interpretação de Flora Maria. Enquanto fragmento do Espetáculo “Nega Lilu”, da Nega Lilu Cia de Dança, inspirado no conto “Sem Palavras” de Larissa Mundim, este solo condensa instantes em que sensações de ambas as personagens do conto coexistem no mesmo corpo. A coreografia exala sensualidade, paixão, saudade e convida o olhar a vislumbrar diferentes formas de amar.

“Stamina”, coreografada por Gabriela Marques, mistura diferentes intérpretes e inspirações como elementos naturais, desejos e a relação mente e cosmo. Nessa rede holística, os jovens dançarinos alternam formações coreográficas visualmente interessantes. Entre saídas e entradas, determinadas formas de ocupar o espaço cênico e um figurino padronizado em tom preto, o trabalho denota escolhas um tanto datadas no que tange a organização coreográfica. A movimentação densa e maleável é instigante e, por vezes, sugere que a intenção parece ser maior que a dança.
"Barcelona", de Martha Cano

“Barcelona”, coreografada por Martha Cano, com gestos dedilhados parece flertar com a possibilidade de ser ora ilustração ora ironia da música. Com nuances espanholas e inspirada em elementos de escritos de Suzana Cano, a movimentação cria cenas brincantes que sugerem interligações entre infância, afetos, galanteios e aproximações.

“La Cosa”, enfatiza a sensibilidade da coreógrafa Valeska Gonçalves em perceber as particularidades do corpo da intérprete Martha Cano. Criando tensões entre mobilidade, flexibilidade e impossibilidade de deslocamento, a coreografia dá destaque para certas capacidades do corpo, fazendo destas, motes para a criação. Ao se inspirar no, tematizar o, se dar a ver no corpo, ‘La Cosa’ abre possibilidades para ver/pensar/entender o corpo não só como suporte da dança e da representação, mas como sujeito que dança.
"No Crivo da Rosa", de João Paulo Gross

“No Crivo da Rosa”, de João Paulo Gross, mergulha fundo no universo poético-literário de Guimarães Rosa e dilata tempos, imagens e movimentos. Criando imagens que se metamorfoseiam, a coreografia (co)move e guia o sentir-pensar do espectador por caminhos imaginários que podem ser próximos, distantes, tortuosos, sem volta. Intercalando pó, poros e poesia, os corpos dos intérpretes João Paulo Gross e Carolina Ribeiro traçam descobertas, inventam percursos, trocam afetos, um no outro, um com outro, um para o outro. Simplicidades e complexidades na configuração coreográfica situam uma pesquisa de movimento que ora perambula no quintal daquilo que já sabe ora salta a cerca desse quintal denotando algo novo e singular.

Entre memes conhecidos e replicados, alguns já transformados e outros inéditos, conforme os processos evolutivos naturais-culturais de expansão/transformação da dança, as coreografias que integraram o Cesta de Dança – 2012, cada uma a seu modo, instigam diferentes gostos, afinidades, identificações, opiniões, comentários e modos de ver do público goiano. Este, cada vez mais bem servido com eventos, pesquisas e criações de dança de diferentes procedências, configurações e estilos.


Odailso Berté
Coreógrafo, dançarino e pesquisador em dança contemporânea
Doutorando em Arte e Cultura Visual - UFG
Mestre em Dança - UFBA
Licenciado em Filosofia - UPF
Imagens de Odailso Berté e Larissa Mundim

Quando a dança 'Por Acaso' gera (des)construções

Pensando sobre crítica de dança, apreciação artística, análise estética... Ser mais romântico ou mais rigoroso? Ser marxista, positivista, semioticista, subjetivista? Ser popular ou erudito? Vulgar ou enrustido? Descrever uma experiência de construção de sentidos/significados? Narrar uma particular relação com a obra/evento/dança? Dizer ‘gostei’ ou ‘não gostei’? Apontar ‘que bom’, ‘que tal’, ‘que pena’? Determinar o que eu ‘acho’ que o autor quis dizer? Direcionar o olhar dos outros com o meu ‘achado’? Os caminhos se cruzam, as possibilidades se misturam, as vontades se abraçam.

Skatistas, patinadores, uma galera do ‘cachimbo da paz’, casais apaixonados, homens que usavam o WC feminino, música sendo ensaiada, nuvens prometendo chuva, uma bela de rosa e preto que performava poses sensuais... Entre tudo isso e tantas outras formas de vida, ação, movimento, que compunham o cenário da Praça Universitária de Goiânia/GO, no dia 24 nov. 2012, aconteceu o “Por Acaso – Tardes de Improviso”, sob coordenação do Por Quá Grupo Experimental de Dança, dirigido por Luciana Ribeiro.

Como o próprio grupo descreve, Por Acaso – Tardes de Improviso é uma jam session que busca reunir artistas para improvisar músicas e danças quentíssimas. Costumeiramente, acontece na Fábrica Cultura Coletiva, todavia, por ocasião da Mostra de Arte Insensata (22 a 24 nov. 2012), a sessão de improviso deslocou-se da Fábrica para a Praça. Dialogando com a cidade e com artistas, o Por Acaso objetiva criar encontros, intervenções e experiências sonoras, físicas, plásticas e visuais.

Esses entrelaçamentos de sensações/sentidos/experiências – que não prescindem do pensamento, pois tudo está junto no corpo – possibilitam modos de apreciação da dança que se articulam entre o assistir e o dançar junto. Ver e fazer seduzem um ao outro e se (con)fundem, abrindo possiblidades de apreciação, envolvimento, diversão, criação, diálogos sensíveis e estéticos. Os corpos, literalmente, caem na dança. Do mais ao menos iniciado, todos dançam, esgarçando as fronteiras da dança enquanto arte, área de conhecimento, profissão, entretenimento, evento social, ação-pensamento do corpo. Quer arte mais (in)sensata que isso?

Por Acaso possibilita pensar-sentir-fazer questões em torno da acessibilidade a artefatos e obras artístico-culturais; a democratização da experiência estética; a desfronteirização palco/platéia; criações coletivas; relações corpo e ambiente; contemplação e participação; crítica e apreciação; etc. Múltiplos vieses de interpretação emergem quando a dança aponta para além de si própria, abrindo canais para, por meio do corpo, ver o mundo.

Suor, ideias e sentimentos emergem do corpo ao ver os demais corpos imersos na dança e ao deixar-se envolver, dançando junto. E o crítico, é o que fica diante de? É o que se relaciona com? É o que discursa sobre? É aquele que fala o que ele próprio faria se fosse o artista?  Lembrando o filósofo Jacque Derrida, talvez a ação do crítico possa ser entendida como uma (des)construção. Crítico é o (m)eu corpo que, tocado pelo que vê, imerso no que experimenta, configura uma fala acerca disso. Esta fala pode não ser mais o visto e experimentado e sim uma desconstrução, uma outra construção, um dos possíveis modos de ver, dizer, interpretar aquilo.

Odailso Berté
Coreógrafo, dançarino e pesquisador em dança contemporânea
Doutorando em Arte e Cultura Visual - UFG
Mestre em Dança - UFBA
Licenciado em Filosofia - UPF
Fotos de Odailso Berté

15 de novembro de 2012

Corpografias de Nega Lilu

Romeu e Julieta, A Bela e a Fera, Alexandre e Heféstion, Frida e Diego, Lampião e Maria Bonita... Nega e Lilu. Reais e fictícias, épicas e populares, estas e outras histórias compõem nosso imaginário e traduzem diferentes formas de amar. Misturando sutilezas e intensidades afetivas, o espetáculo “Nega Lilu” impacta, comove e questiona acerca da busca da plenitude do amor, em apresentação realizada no dia 11 de novembro de 2012, no Teatro Goiânia.

Flora Maria e Valeska Gonçalves (foto de Lu Barcelos)
 
Com ousadia e sensibilidade, a coreógrafa e bailarina Valeska Gonçalves da Nega Lilu Cia de Dança faz uma transposição do verbal ao gestual sem produzir caricaturas ou personagens estereotipados. Em vez de narrar linearmente o romance, a coreografia descarta obviedades captando e traduzindo sensações e estados das protagonistas. Estes sentimentos passeiam pelos corpos das bailarinas seduzindo e engajando o público a descobrir, encontrar, construir quem é Nega e quem é Lilu. As surpresas, emoções, tensões e reflexões geradas pelo espetáculo, criam uma atmosfera de diálogo entre arte e vivências, possibilitando que o espectador entrelace a dança com suas próprias experiências afetivas.

 Os auges e tropeços, tão característicos nas relações amorosas, ganham visceralidade com a instigante interpretação das bailarinas Valeska Gonçalves e Flora Maria. Gestos detalhados e delicados acentuam a profundidade de pormenores que estabelecem a reciprocidade entre duas pessoas. A sonoridade de um sapateado flamenco entrecortado exacerba a lástima e, ao mesmo tempo, a fortaleza de uma mulher lidando com a ausência.
 
Valeska Gonçalves (foto de Lu Barcelos)

 A movimentação de um corpo em contato com uma banqueta sugere nuances de uma sensualidade feminina que se enuncia entre desejos e distância, escorregando dos fios de cabelo ao salto do sapato. São genialidades coreográficas que possibilitam ver a dança não apenas como algo sentimentalista, mas como uma inteligência do corpo que não separa sentir e pensar.
 
Flora Maria (foto de Lu Barcelos)

O espetáculo de dança “Nega Lilu” constrói corpografias a partir de um conto contemporâneo de Amor, mediado por contatos físicos e virtuais, presenças e ausências. “Sem Palavras”, escrito por Larissa Mundim, também vem sendo comentado, transformado e difundido pelas linguagens da literatura, audiovisual, body art, street art e performance.

Na dança e no conto, os corpos escrevem uma história que vale cada instante e inscrevem no corpo do espectador a sensação de que o amor é eterno no tempo em que ele acontece. Estas escritas do/no corpo, ao passo que nos deixam sem palavras, também possibilitam a enunciação de mais de 100 palavras sobre amor, permanência, efemeridade, amadurecimento... Que tão bem descrevem os ciclos de vida de cada pessoa.


Odailso Berté
Coreógrafo e pesquisador em dança contemporânea
Doutorando em Arte e Cultura Visual - UFG
Mestre em Dança - UFBA
Especialista em Dança - FAP
Licenciado em Filosofia - UPF

4 de novembro de 2012

Entre Pina Bausch e Madonna, uma dança contemPOPrânea

Você já ouviu expressões do tipo: A dança... “Vem lá de dentro”... “É um dom divino”... “Brota da alma”... “É a expressão do sentimento”... Ou... “É coisa do capeta”? Ingênuas ou equivocadas, estas são formas como alguns veem e entendem a dança. Lembra do filme “Footloose” de 1984? Ele narra um fato curioso, a proibição da dança numa cidade. O reverendo de uma igreja cristã busca impedir o movimento, a liberdade, a expressão do corpo, do “pé solto – footloose”, como diz o título. Essa história é antiga e real. Dança e corpo foram, por muito tempo e ainda hoje, associados à sensualidade, ao sexo, ao pecado, ao demônio. A alma, o espírito, a mente, o pensamento, a teoria, foram erroneamente entendidos como superiores e separados do corpo, do afeto, do prazer, dos sentimentos, da prática.

Kevin Bacon em "Footloose" (1984)

Em “Footloose”, a rebeldia de Ren McCormick (Kevin Bacon) mostra-se no seu corpo: em seus modos de se mover, dançar, falar, se comunicar com os corpos submetidos ao conservadorismo e de enfrentar os corpos conservadores. Quando um pintor faz sua obra, o quadro que ele cria é um objeto externo ao seu corpo. Já um dançarino, quando faz sua obra, a dança, esta não está separada do seu corpo, ela é o seu corpo. Nesse sentido, podemos entender que o corpo é o lugar e o sujeito da dança, ou ainda, que dança é corpo.

Na dança contemporânea nem sempre o coreógrafo cria e os dançarinos repetem. Os modos de configurar a coreografia podem ser compartilhados e misturados com várias outras formas e técnicas artísticas. Ações como andar, correr, sorrir, falar, etc., podem ser vistas no palco, criando um estilo de dança que, muitas vezes, borra as fronteiras entre a arte e a vida cotidiana. Entre os tantos artistas, nacionais e internacionais, destaco o diferenciado trabalho da coreógrafa alemã Pina Bausch (1940-2009), recentemente homenageada pelo cineasta Wim Wenders com o filme “Pina” (2011) e que já tinha aparecido em “Fale com Ela” (2002) de Pedro Almodóvar e “E La Nave Va” (1983) de Federico Fellini. O modo de Pina coreografar era surpreendente. Ela fazia perguntas aos seus dançarinos e eles deveriam respondê-las com movimentos, palavras, gestos relacionados às suas experiências vividas. Com as criações de seus dançarinos Pina organizava as coreografias e espetáculos.

Espetáculo "Bamboo Blues" (2007) de Pina Bausch. Foto de Jong-Duk Woo.

Com esses modos de pensar-fazer dança tem sido possível compreender que o corpo não é uma máquina, a prisão da alma, o lugar do pecado ou somente um repetidor de passos. Mas sim, que o corpo pensa e pode organizar e executar a dança a partir das suas experiências. Pensar é uma ação do corpo. Próximo do que diz a crítica de dança Helena Katz, a dança pode ser compreendida como pensamento do corpo. Ou seja, quando o corpo dança, está pensando/sentindo/comunicando ao mesmo tempo.

Dança é arte e uma área de conhecimento/criação/pesquisa, um curso presente em várias universidades do Brasil e do mundo. Mas sem se restringir a isso, a dança está também em festas, boates, videoclipes, shows, filmes. Entendida como arte ou como entretenimento, dentro dos padrões estéticos tradicionais ou dos padrões da cultura de massa, trata-se de dança e de corpos que dançam. Não vejo maior ou menor valor na dança de um espetáculo de Pina Bausch ou na dança de um show de Madonna... Entre um corpo que assiste uma coreografia de Pina e outro corpo que sua dançando na boate ao som de Madonna.

Coreografia de "Girl Gone Wild" - MDNA Tour (2012). Foto de Rêmulo Brandão.

Demonizar Madonna como cantora de música pop – cultura de massa destinada aos prazeres do corpo e sacralizar Pina Bausch como coreógrafa de dança contemporânea – arte destinada à contemplação mental/espiritual, são atitudes equivocadas, mas muito difundidas. Madonna e Pina Bausch tiveram contato direto com a técnica de dança moderna da coreógrafa norte-americana Martha Graham (1894-1991) em NY. Nos diferentes trabalhos das artistas percebe-se o destaque do corpo, da dança e de um conjunto cênico produzido cuidadosamente. Os chamados ‘erudito’ e ‘popular’ se misturam de muitas maneiras no cotidiano das pessoas, nos mais diferentes modos como nós curtimos, consumimos, usamos, aprendemos, reinventamos ou repudiamos danças, imagens, produtos, roupas, músicas, etc.

As proibições, demonizações, sacralizações e separações já não dão conta dessa profusão contempoprânea. A neurociência tem mostrado que razão e emoção são funções do corpo e que elas operam juntas, sempre. Compreendendo que somos corpos ‘sentipensantes’, busco ver-pensar-fazer uma dança contempoprânea: que é “footloose”, dos pés soltos, do corpo livre, indomável, criativo... Que borra fronteiras, separações, preconceitos... Que está misturada com a vida cotidiana, com os afetos, experiências, prazeres, desejos, sentimentos e pensamentos dos corpos.

Odailso Berté
Coreógrafo e pesquisador em Dança Contemporânea
Doutorando em Arte e Cultura Visual - UFG
Mestre em Dança - UFBA
Especialista em Dança - FAP
Licenciado em Filosofia - UPF

Imagens captutadas aqui, aqui e aqui. 

22 de outubro de 2012

Sobre filosofia e dança contemPOPrâneas

Por volta de 1997/98, quando as Spice Girls se tornavam conhecidas no mundo, Madonna lançava o disco “Ray of Ligth” e o impactante videoclipe de “Frozen” (entre vários outros fatos também relevantes), eu iniciava a faculdade de filosofia. Entre os comentários que se pretendiam revolucionários no intuito de “derrubar cercas” e combater a ideologia dominante, diziam que a música pop era uma das armas dos poderosos capitalistas sempre prontos a nos dominar.

Madonna no music video "Frozen" (1998)

Isso hoje me soa tão épico e mexicano, do tipo: “Own, e agora quem poderá nos defender?” Como se uma entidade vermelha – tão ideológica quanto a combatida – fosse baixar, instaurar um novo mundo e derrotar o inimigo dominador. So sweet... Como num filme onde a bonanza paira após a dura tempestade. As Spice Girls se foram, vieram os Backstreet Boys e seus derivados (que também já se foram), Madonna - apesar do marxismo - está aí firme e forte (talentosa e ousada) há 30 anos, Michael Jackson já partiu... E há quantos a “arma pop” matou? Até onde sei, ninguém morreu alienado por ouvir/dançar “Wannabe”, “Thriller” e mais recentemente “Girl Gone Wild” .

Entendo a crítica do marxismo num tempo onde ditadores como Hitler criavam signos, gestos, símbolos, imagens, com os quais as massas poderiam se identificar no sentido de aderir e seguir cegamente a um líder no qual se sentissem amparadas e representadas. Nesse sentido a cultura de massa também poderia ser (e por vezes o é) uma estratégia de manipulação a serviço de articulações capitalistas de mercado/consumo.

Seria instigante pensar (para além das estatísticas e ibopes do quê e quanto é vendido) acerca dos modos como são usados tais produtos, as reinvenções, as distorções, as histórias que são inventadas a partir deles nos mais diferentes cotidianos. Mesmo as danças de videoclipes, da TV, das massas (que muitos alunos/crianças/jovens adoram aprender e repetir), tão combatidas por certos educadores e profissionais da dança... Como elas podem envolver o afeto, o prazer, o desejo dos alunos? Como, ao invés de demonizá-las, ver nelas possibilidades de aproximação, identificação, crítica e criação?

Penso que se, por vezes, a dança contemporânea fosse menos ‘cabeção’ e mais contemPOPrânea, mais fecunda poderia ser. Para os guardiões da dança que acham que a sagrada arte e os profanos produtos da indústria cultural não se misturam, vale lembrar, por exemplo, que  Madonna foi aluna de Martha Graham – uma das renomadas coreógrafas que apontou novos rumos para a dança no mundo, justamente por pensar-fazer dança a partir de sentimentos, emoções e elementos da realidade vivida. Isso não significa que estou receitando repetir os passos/coreografias de Madonna, Martha e outros. Mas sim, entender como esses e tantos outros passos já estão misturados com os nossos, envolvendo nossos desejos, afetos e experiências, e, portanto, que histórias/movimentos podemos criar com e a partir deles.

Madonna em homenagem a Martha Graham
(Harper's Bazaar - EUA, 1994)

Penso que, mesmo diante da hostilidade marxista, eu poderia ter expressado sem receios minha preferência pelas Spice Girls e por Madonna. Tanto no sentido de que faziam e fazem parte de minha identidade/identificação quanto nos modos como tais artefatos/imagens/produtos/artistas podem interpelar o ser livresco, elucubrativo, abstrato e antiafeto/corpo de algumas formas de se fazer filosofia e dança. Penso sim, sem nenhum receio, que se a dança e a filosofia (a primeira enquanto arte e ambas enquanto áreas de produção de conhecimento) fossem mais POP (popularizadas), poderiam contribuir de forma mais e(a)fetiva para os corpos se (mo)verem de modos mais emancipatórios.

Isso, no sentido de que, reconhecendo as experiências vividas, dança e filosofia poderiam instigar possibilidades para os corpos perceberem o como investem seus afetos e razões nos usos que fazem de textos, músicas, roupas, danças, imagens... Sejam eruditos, populares, de massa... Pouco importa a classificação, pois todos são formas/produtos culturais com os quais nos misturamos cotidianamente, queiramos ou não.

Talvez assim o “conhece-te a ti mesmo”, de Sócrates, e tantas outras máximas filosóficas, fizessem mais sentido. Talvez assim, o materialismo histórico-dialético, mais próximo das contradições, paixões e lutas 'históricotidianas' que movem e são movidas pelos corpos, nos possibilitaria criar tantos e outros sentidos/razões.

Odailso Berté
Coreógrafo e pesquisador em dança contemporânea
Doutorando em Arte e Cultura Visual - UFG
Mestre em Dança - UFBA
Especialista em Dança - FAP
Licenciado em Filosofia - UPF

Imagens capturadas aqui e aqui. 

10 de outubro de 2012

Quasar Cia. de Dança: sentidos que entram no singular e saem no plural


A virtualidade, por vezes entendida como irreal, exacerba sua concretude existencial – corpórea – real na dança da Cia. Quasar. Com o espetáculo “No Singular” (2012), estreado em 07 de outubro, no Teatro Rio Vermelho, Goiânia/GO, a Cia. possibilita um olhar táctil e afetuoso para as relações mediadas pela tecnologia e pela interatividade. Corpos ágeis e frágeis são os sujeitos que, entre o excesso de imagens e informações, constroem suas identidades e identificações.

Henrique Rodovalho e os/as dançarinos/as da Quasar configuram no palco modos de dançar que sugerem a composição de um chat colorido e multifacetado. Um bate-papo tecido por textos entrecortados, por gestos curtos ou prolongados, por exposições e ocultamentos, por desejos, fetiches e imagens que, em rede, vão construindo, fragmentando, distorcendo e/ou (re)inventando novas formas de realidade.

Ao abordar a fluidez, a simultaneidade e a rapidez com que informações e imagens atravessam os corpos na contemporaneidade, o espetáculo possibilita pensarmos isso não só como uma questão sociológica/conjuntural. Mas, que o social e a conjuntura são estruturados pelas subjetividades e afetividades diversas, singulares, que, em seu contexto cultural, dão as cores, os tons, as marcas para a pluralidade.

De modo singular, a Cia. Quasar enuncia/denuncia/pronuncia que o corpo é contaminado e contaminador, próximo do que dizem Katz e Greiner (2001) ao refletirem sobre as relações corpo e ambiente. Um coro de vozes e movimentos é entretecido com gírias e códigos que usamos em conversas pela internet ou pelo telefone. São expressões e gestos que se proliferam e contaminam os mais diferentes sujeitos e espaços, criando como que acontecimentos em rede. Estas contaminações podem interligar ambientes e corpos, propagar mensagens e imagens, (des)construir identidades, mobilizar modos de ser, de se mover, de ver e ser visto, conforme pensa e propõe Tourinho (2011) ao discorrer sobre cultura visual e produção de subjetividades na relação com imagens.

Os risos que brotam no público podem ser vistos como identificações, como modos do espectador se ver na dança. Ao percebermos em cena as expressões que usamos cotidianamente, é como se não houvesse barreira entre palco e plateia, pois a dança toca nas relações que vivenciamos, dando margem à compreensão de que todos, artistas e público, somos corpos gestores de movimentos, relações, encontros, trocas...

Na perspectiva de aproximação com o público, a Cia. divulgou na internet, tempos antes da estreia de “No Singular”, um vídeo onde o coreógrafo convida pessoas a dançar com a Quasar e ensina, passo a passo, a sequência a ser dançada. Esta proposição aguça a curiosidade durante todo o espetáculo, no sentido de estar atento para perceber onde/como se dará a interação. Esta, anunciada como “o momento que todos esperavam”, vem a acontecer ao final do espetáculo, quando quem aprendeu a coreografia é chamado a subir ao palco e dançar juntos dos dançarinos. Esta instigante proposta deixa uma expectativa em aberto, possibilidades de maior enredamento com o todo do espetáculo, como o impressionante momento em que pessoas do público (organizadas previamente) atravessam o palco entremeando-se com os dançarinos, interpelando o olhar, suscitando perguntas, ampliando a criação de sentidos.

Durante todo o espetáculo há a sutil presença de um personagem que, ao fundo, sem interagir diretamente com os dançarinos, realiza colagens para um cenário montado em cena. Os recortes que vão sendo dispostos, por vezes, parecem pixels de uma grande figura em devir, um mosaico de fotografias, uma bricolagem de imagens, pedaços de espelho, recortes de histórias. Percorrendo os labirintos da fragmentação, da multiplicidade e da singularidade, também chama a atenção, a versatilidade e as nuances do figurino (clean, retro, bufante), assinado por Cássio Brasil. São peças, elementos que convocam a pensar/imaginar possíveis imbricações entre singular/plural, indivíduo/sociedade, especificidade/diversidade, permanência/mudança.

Quasar lembra aroma, perfume... Um corpo estelar que emite luz e ondas radioativas... Quasar lembra movimento. Quasar, a Cia. que, do centro-oeste do Brasil, irradia dança para o mundo e em seu mais novo trabalho aguça os sentidos possibilitando pensar que o virtual é real, cria realidades, relações, (re/des)encontros. Entramos no teatro no singular e saímos no plural por meio das visualidades e movimentos ‘contempoprâneos’ – presentes em nossos cotidianos – que a Quasar consegue organizar e nos devolver em forma de dança.

Odailso Berté
Coreógrafo, dançarino, professor, pesquisador em dança contemporânea
Doutorando em Arte e Cultura Visual - UFG
Mestre em Dança - UFBA
Especialista em Dança - FAP
Licenciado em Filosofia - UPF

Imagem: Foto com a dançarina Valeska Gonçalves
Capturada no facebook da Quasar Cia de Dança

Textos citados:
GREINER, C; KATZ, H. Corpo e processos de comunicação. In Revista Fronteiras: estudos midiáticos. São Leopoldo: UNISINOS, Vol. 3, n. 2, p. 65-75, dez. 2001.
TOURINHO, I. As experiências do ver e ser visto na contemporaneidade: por que a escola deve lidar com isso? In: MENDONÇA, R. (Coord.). TV Escola / Salto para o futuro: Cultura Visual e Escola. Ano XXI, Boletim 09, ago. 2011, pág. 09-14. Disponível em: http://tvbrasil.org.br/fotos/salto/series/14380009-CulturaVisual.pdf.