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5 de setembro de 2011

Menina-Mulher - Madrinha-Morte (textimagens 3)


"Conheço essa voz", disse Frida. "Ouvi-a pela primeira vez quando tinha uns seis anos e vivi intensamente a amizade imaginária com uma menina da minha idade." A mulher acenou com a mão, convidando-a a prosseguir com seu relato: "Foi na janela daquele que era na época o meu quarto e que dava para a calle de Allende. Cobri com um sopro do meu hálito os vidros da janela e com o dedo desenhei uma porta e por essa porta saí voando alegre e veloz.



"Lembro-me disso como se fosse ontem, Frida, minha linda afilhada. Bem-vinda à minha casa, à qual você pertence", disse a mulher.
"[...] eu sou o mais comunista de todos os seres. Para mim, não há ricos nem pobres, nem grandes, nem pequenos. Todos, sem exceção, terminam aqui, comigo."





Trechos do livro "O segredo de Frida Kahlo" de Francisco Haghenbeck
Imagens:
"Menina com máscara da morte", obra de Frida Kahlo
"Anjo da morte", Jéssica Lange no filme "All that Jazz"
"Frozen", vídeo clip de Madonna

3 de setembro de 2011

A dança tétrica (textimagens 2)

"Sua majestade", acrescentou o Judas, rindo sem parar.
"A chegada da Senhora", rematou a escultura de pedra.
Frida, convidada para tão agradável festança, não questionou a necessidade de esperar pela anfitriã e, para matar o tempo, distraiu-se vendo como as frutas da mesa executavam sua dança de acasalamento cantando muito afinadas "La Llorona".



E eram mesmo muito afinados. Aqueles cocos, pimentas e pêssegos sabiam conduzir muito bem o ritmo. Seu canto fez dançar um par de bonecas, uma de papelão e outra vestida de noiva, que ficava corada com os sorrisos sedutores da melancia. Enquanto transcorria o espetáculo musical, abriu-se um par de cortinas para mostrar uma enfeitada figura vestida com saia cor de goiaba, salpicada de sementes tecidas e ornadas de flores nervosas que faziam soar suas pétalas como guisos. A blusa era todo um redemoinho em ebulição, onde as cores das pimentas lutavam para destacar-se da cor de molho escuro do tecido.



A aparição da mulher foi impressionante, digna de uma imperatriz, mas Frida sentiu-se frustrada por não poder ver o rosto que ela escondia atrás do véu.




Trechos do livro "O segredo de Frida Kahlo" de Francisco Haghenbeck.
Imagens:
"Danza de la muerte", de Michael Wolgemut
"A noiva cadáver", de Tim Burton
"La Catrina", personagem de José Guadalupe Posada

2 de setembro de 2011

Na Ceia da Morte (textimagens 1)


Todo o lugar estava iluminado por milhares de velas que dançavam ao ritmo das chamas consumidas pela cera. Velas grandes e robustas, pequenas e gastas. Todas tão diferentes como as pessoas que existem nesta vida. Entre aquelas velas, a sombra de Frida tentava alcançar uma mesa elegantemente enfeitada com flores e frutas tropicais, que mostravam seu interior carnudo como sensuais exibicionistas. Havia travessas com graviolas, romãs e melancias rosadas, que compartilhavam o espaço com um enorme pan de muerto, cujos ossos, perfeitamente moldados, estavam cobertos com refinado açúcar.



"Bem-vinda! Convidamos todo mundo para a festa", disse um dos convidados do banquete.
"É preciso esperar a chefa para começar", anunciou a caveira.




Trechos do livro "O segredo de Frida Kahlo", de Francisco Haghenbeck
Imagens:
"Catrina de Frida", Jesus Buenrostro Galicia

27 de outubro de 2010

"Mostre em vez de dizer"


Cozinhando na televisão, Julia Child foi pioneira na utilização das imagens em primeiro plano, para permitir o acompanhamento das mãos movendo-se de uma tarefa para a seguinte. Da mesma forma, as ilustrações de seu livro enfatizam os procedimentos mais difícieis a serem desempenhados pela mão.

Nas instruções de suas receitas, Child tem o foco voltado para a empatia em relação ao cozinheiro, para o protagonista humano. Sua linguagem é cheia de analogias, antes vagas que exatas, por um motivo específico: 'cortar o tendão da galinha é como cortar um barbante'.

Ser "como" alguma coisa mas não "exatamente o mesmo" faz com que o cérebro e a mão se concentrem no próprio ato de cortar o tendão. Existe também uma questão emocional nas analogias vagas: a ideia de que um novo gesto ou ato é mais ou menos semelhante a alguma coisa que já fizemos tem o objetivo específico de inspirar confiança.


(...) o especialista orienta antecipando as dificuldades para o novato; associam-se a simpatia e a preensão. É o método de Julia Child. (...) instruir de maneira expressiva.


Trecho do capítulo 6 (Instruções expressivas) do livro "O Artifice" de Richard Sennett
Imagens do filme "Julia e Julie"
capturadas em:
http://www.cinemaemcena.com.br/ficha_filme.aspx?id_filme=5320&aba=detalhe

24 de setembro de 2010

inteligência é ver


"O ato da inteligência é ver e comparar o que vê. Ela o faz, inicialmente, segundo o acaso. É-lhe preciso procurar repetir, criar as condições para ver de novo o que ela já viu, para ver fatos semelhantes, para ver fatos que poderiam ser a causa do que ela viu. É-lhe preciso, ainda, formar palavras, frases, figuras, para dizer aos outros o que viu."

Citação do livro "O Mestre Ignorante" de Jacques Rancière
Foto: Odailso Berté

21 de setembro de 2010

corpos livros a dançar


"O livro é a igualdade das inteligências. (...) livro - pensamento tornado matéria à disposição dos homens da matéria, discurso ao mesmo tempo mudo e tagarela, errando ao acaso entre aqueles cujo único negócio é pensar."


Citação do livro "O Mestre Ignorante" de Jacques Rancière
Fotos: Odailso Berté

20 de setembro de 2010

Wonder Woman

Mas, toda vez que me sinto mal, tento me lembrar do que uma garotinha me disse uma vez. Ela tinha bastante personalidade - tão feia que era bonitinha. E dava para perceber que ela também sabia disso.

- Carrie? - ela pergunta. E se em outro planeta eu fosse uma princesa? E ninguém deste planeta soubesse?

De certa forma, aquela pergunta ainda me deixa meio embasbacada. Quero dizer, não é verdade? Quem quer que sejamos aqui, podemos muito bem ser princesas em outro lugar. Ou escritoras. Ou cientistas. Ou presidentes. Ou quem diabos queiramos ser que todo mundo diz que não podemos.


Citação do livro "Os Diários de Carrie" de Candace Bushnell
Imagem: detalhe da capa do mesmo livro

Ti Ti Ti filosófico


"As camponesas pobres dos arredores de Grenoble fabricam luvas; pagam-se-lhes trinta centavos a dúzia. Mas, desde que se emanciparam, elas se aplicam a olhar, a estudar, a compreender uma luva bem confeccionada. Elas adivinharão o sentido de todas as frases, de todas as palavras dessa luva. Acabarão por falar tão bem quanto as mulheres da cidade, que ganham sete francos por dúzia. Trata-se somente de aprender uma língua que se fala com tesouras, agulha e linha."

Citação do livro "O Mestre Ignorante" de Jacques Rancière
Imagem: obra "As Costureiras" de Tarsila do Amaral, capturada em:
http://pesponteando.blogspot.com/