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1 de outubro de 2013

À revolução de Madonna e à pregação de m. feliciano, "show your ass"

Coincidentemente, nos dias em que assisti o filme “Secret Project Revolution” (2013), parceria da cantora Madonna com o fotógrafo Steven Klein, também me deparei com um vídeo de uma pregação onde o pastor e deputado m. feliciano ofende católicos e outra vez desmerece lésbicas e gays. Enquanto o pastor, nesta e em outras pregações, proclama que Deus matou artistas como John Lennon e Mamonas Assassinas, desdenha da confiabilidade da classe artística, condena negros, gays e mulheres e hostiliza católicos, a cantora pop se expressa em defesa de gays, negros, mulheres, artistas e em respeito a diferentes culturas e expressões religiosas.

Além das atrocidades proferidas por feliciano, “Secret Project Revolution” também me remeteu a fatos como a violência da Polícia Militar do Rio de Janeiro que, em 28/09/2013, agrediu violentamente professores/as que manifestavam exigindo melhorias em sua carreira, aos desmandos do STF em julgar e punir os ladrões engravatados do mensalão, à desvalorização dos educadores da rede municipal (que entraram em greve em 24/09/2013) por parte da prefeitura de Goiânia/GO e a tantos casos de agressão, desrespeito e intolerância nos quais facilmente seres humanos discriminam, ferem a dignidade e tiram a vida um do outro. Estas e outras situações estarrecedoras relacionadas ao referido filme me trazem a pergunta (que até parece clichê): Para onde estamos caminhando, queridos compatriotas humanos?
 
Criticada por ser rica, exibicionista, branca, mulher, ingênua, oportunista, etc., e propor reflexões e ações que podem levar a transformações no cenário de intolerância que se espalha pelo mundo, Madonna trás essas críticas para o filme, questionando o fato de, porque sendo ela mulher, loira, artista, não poderia ter atitudes revolucionárias. Em imagens extremamente bem criadas e articuladas e um uso cuidadoso da dança como metáfora, o filme, que prega uma revolução do amor, também é composto por uma narração na voz de Madonna. Ela expressa experiências e percepções vividas ao longo de sua turnê mundial em 2012, sua indignação, críticas que recebeu, sua vontade incessante e crescente de combater as injustiças e de unir mais pessoas nesse projeto que também visa (re)pensar o que é a liberdade de expressão.
No primeiro contato com o filme, o discurso/narração me pareceu tirar o foco das imagens ou querer explicá-las. Percebi mais a necessidade de Madonna falar do que, propriamente, a potência das imagens e da dança em questionar e instigar significados. Outras aproximações possibilitaram perceber afinidades, desencontros e fricções entre texto/fala e imagem/dança. O “Secret Project Revolution” está inserido num projeto maior chamado “Artforfreedom”, onde outros artistas são convocados a se manifestar acerca do que pensam sobre liberdade, preconceito, violência, etc.
 
Ao dizer “sou mulher, sou loira. Eu tenho peitos e bunda e um desejo insaciável de ser notada”, Madonna relembra que quando (na MDNA World Tour - 2012) ficou só de lingerie no palco e mostrou a bunda, alguns gostaram e outros acharam obsceno. Ela complementa dizendo que julgar a compaixão e temer o amor, isso sim é obsceno. Nesse momento do filme, uma voz forte e convocadora proclama: “Show your ass” (mostre sua bunda), o que me remete ao discurso moralista e inescrupuloso de m. feliciano ao dizer que católicos tem o corpo entregue à prostituição e todas as misérias humanas.
Me pergunto o que de fato ele entende por corpo e imagino as atrocidades que viriam na resposta a esta pergunta. Penso se ele tem refletido sobre o termo “prostituição”, principalmente em tempos onde se discute sua legitimação enquanto profissão. E o que seriam “as misérias humanas” a que ele se refere? E porque agora atacar os católicos? Seria receio de perder fieis para o carisma do Papa Francisco? Quão obscenas e desumanas considero as palavras de quem se propõe líder religioso ao passo que condena umas pessoas pela sua cor, raça, identidade, gênero, e imbeciliza outras com discursos moralistas e amedrontadores. Diante de ideias e atitudes assim, resta dizer: “Show your ass”, é menos vergonhoso e menos obsceno.
 
Falando em católicos, é intrigante ver membros de igrejas cristãs pentecostalistas repetindo discursos, condenações e atrocidades que a igreja católica fazia lá na idade média com mais estilo, convenhamos, pois certas performances “pastoricidas” estridentes são um descalabro.  E falando em prostituição, muito mais obsceno do que um corpo que presta serviços sexuais, e cobra por isso, é um corpo que berra e vomita discursos excludentes e discriminatórios atribuindo isso à vontade divina.
Madonna recorda ainda, em seu filme, que Jesus, Buda, Maomé, Moisés, entre outras celebridades religiosas, discursavam e agiam tendo em vista o amor entre as pessoas, sem usar a religião para fazer mal aos outros. Instigante o fato de uma artista pop, taxada de exibicionista, vadia, marqueteira, entre outros atributos, nos recordar dessa máxima religiosa e humanista. Se o corpo é pra louvar a Deus, como prega o pastor, e se Deus é amor e autor de todas as formas de vida, o corpo de quem viola os direitos humanos está longe disso. Penso que se certos líderes religiosos refletissem teologicamente, com sensibilidade e mais cautela intelectual, sobre o texto/poema bíblico da criação, poderiam talvez entender que, se Deus fez mulher e homem como corpos e disse que isso é sua imagem e semelhança, o corpo (com peitos, bundas, outros adereços e variadas cores, gêneros, identidades e orientações sexuais) é imagem divina.
 
Ao elucidar o medo da diferença como algo que leva à intolerância, em seu filme, a santa e pecadora Madonna ainda ironiza, provoca e invoca um discurso acerca do corpo dizendo: “Vem cá, baby, mostre a sua bunda. Mexa pra gente. Faça aquela dança que você faz tão bem, baby”. O convite a mostrar, mexer, dançar, me faz refletir outra vez sobre o que é SER CORPO, a desmistificar pregações imbecilizantes que veem o corpo como um saco de pancadas, como bode expiatório de pecados e louvores inventados, como instrumento submetido aos ditames de discursos e instituições dualistas/espiritualistas que desconsideram sua materialidade, humanidade, sexualidade. Conclamar os diferentes corpos a se amarem e a se importar com o bem comum seria menos obsceno que certos impropérios em forma de pregação.
 
Por Odailso Berté
Doutorando em Arte e Cultura Visual - UFG
Mestre em Dança - UFBA
Licenciado em Filosofia - UPF

4 de setembro de 2012

Eu, romântico? I'm so worth it


Minhas pieguices e erudições seguem se misturando no jeito de andar, escrever, pensar, sentir. Até de romântico foi chamado meu modo de escrever. Não entendi se foi elogio, piada ou ironia, mas era verdade, adoro um temperinho para letras e sentidos. Mas não é forçado, it's so natural, misturas de filosofias e danças.

Com textos tão focados em história visual, meu filme cotidiano ganha trilha sonora de Wanessa (a filha do Zezé Di Camargo). Nenhuma incompatibilidade gritante, valha-me Adorno! A não separação do visual dos demais sentidos, proposta pelo texto, reverberou para além das elucubrações e me fez cantar e dançar empolgadíssimo: "When you see what you lost, you won't wanna pay the cost, you'll curse it, I'm so worth it! Just shut up, let me say, don't throw it all way, we were perfect, I'm so worth it... I'm so worth it".

Sinceramente, só o texto não teria jogado tanto gliter na auto-estima. Indústria cultural? De massa? Que massa! Use com moderação e faça carão de "bunita" para os marxistas de plantão, faz um bem danado.

Falando nisso, entre os filmes que deixaram imagens escorrendo pelo corpo, lembro de Meryl Streep vivendo a dona de casa contida e sonhadora, tentando salvar seu casamento em "Um divã para dois" (2012). Ao final do primeiro exercício dado pelo terapeuta, o semblante  satisfeito da mulher que se sente vitoriosa ao acordar envolta nos braços do marido enternece todas as vontades de amar que habitam o espaço/corpo que somos. Como nunca, dormir/acordar de conchinha me pareceu tão gostoso e necessário.

Com lindas e coloridas referências dos anos 80, "Rock of Ages" (2012) reascende o sonho vivido em "Burlesque" (2010), e em vários outros filmes, da moça que sai do interior para buscar o sucesso na cidade grande. Mas quem não fica enrubecido com sonhos assim? Eu me derreto todo refazendo todas as coreografias do musical qual protagonista possuído em 3D pela arte. Da coreografia dentro de uma igreja, liderada por Catherine Zeta-Jones, às coreografias no pole dance, na Venus Club, sob o vozeirão de Mary J. Blige, transporia qualquer limite ou moral, só pelo prazer de dançar, de discursar impropérios e conceitos com corpo.

Pois é benzinho, posso ser romântico e áspero, casto e promíscuo, pop e erudito, dançarino e filósofo, streaper e conferencista, monge e carnavalesco... Na mesma toda, no mesmo gingado. A questão é: qual deles você paga pra ver? a qual deles te apetece evocar?

Imagem do trailer do filme "Rock of Ages".

17 de agosto de 2012

Não cabendo no peito, transborda pelos olhos


Eu queria vir a pé, mas uma solidária carona não deixou que gastasse o solado do tênis adentrando a brisa pelas ruas da noite, claro, lembrando você... Quando o ego dá esse rumo para o pensamento, o id pronuncia seu olhar de reprovação e veta toda e qualquer verba de consolo. Nesse tema eles não concordam, daí me percebo falando sozinho, sendo meio dualista, daquele jeito que não gosto e tanto critico.

No cinema, "À beira do caminho" (2012) conseguiu (co)mover lágrimas, saudades, lembranças e perdas através da simplicidade de frases de parachoque e canções de Roberto Carlos. Eu que nunca pensei chorar ao som do Rei, vi meu orgulho derrotado e o id - isibido - se desmanchando numa larga escala de risadas de pura satisfação.

João, Duda e Rosa saltam da tela e fazem da sala escura um pedaço do cenário de minha vida: das vezes não feitas de um pai, de um filho carente e sonhador, dos amantes que tremem ao mínimo toque e sofrem pela distância, por perdões e voltas. Poeirentas estradas, boléia de caminhão, fotos, um único cd, um endereço não mais habitado, afago materno, elementos que enredam histórias para dizer que viver é como desenhar tendo apenas lápis, sem nenhuma borracha para apagar. E que quando a saudade não cabe mais no peito, é pelos olhos que ela transborda.

Não bastasse as delicadezas do filme que perfuraram as membranas e autodefesas do ego, o debochado id, sem dó nem piedade, ainda destaca uma das canções do enredo e canta que canta, dança que dança... Sambando na cara do indefeso ego. Insisto em não ouvir, mas quem disse que o ingrato se cala?

Como Petrolina (um dos cenários do filme) faz divisa com Juazeiro, a noite me trouxe o perfume do agreste de Tieta, do Mangue Seco baiano. Entre o sabor de pamonhas e tantas possibilidades de navegação, Tonha, Perpétua, Amorzinho, Carmosina e a Cabrita Master inflaram saudades do tempo em que meus olhos infantes não bebiam a ousadia das insinuações vividas pelas personagens inspiradas na obra do amado Jorge. Hoje sim entendo que os berros de Tieta, se fazendo de cabrita, eram a mais pura intensão de uma lua cheia de tesão.

Despedi a carona, tomei o rumo da cama e tentei deixar as memóras do dia à beira do caminho. No entando, o chato do id, possuído por uma entidade cabrito,  segue seu cantarolar agora quase em ladainha. Insatisfeito por não encontrar a versão do filme, de Nina Becker, ele tasca em meus ouvidos a canção na voz de Marjorie Estiano, e assim me embala para dormir:

... Esqueça, se ele não te ama, esqueça, se ele não te quer
Não chore mais, não sofra assim
Porque posso te dar amor sem fim
Ele não pensa em querer-te, te faz sofrer e até chorar
Não chore mais, vem pra mim, vem
Não sofra, não pense, não chore mais, meu bem ...

E assim dorme o ego, tendo o id ninando seus sonhos que vão lentamente se desvanecendo num percurso que mistura fatos, filmes, fotos e fins... Fazendo da cama a continuidade de um caminho cheio de eiras e beiras.

Imagem editada da original capturada aqui.

28 de julho de 2012

Batman, entre terroristas e rosas, morcegos e gatas


O que pode haver quando rosas crescem nos caminhos de morcegos, gatas e terroristas? Qual a medida e o limite da entrega de alguém em prol de uma causa, nação, povo? A que custos um homem pode se tornar herói?

O bem sucedido e nascido em berço de ouro Bruce Wayne (Christian Bale) divide sua vida entre ser o homem de negócios e festas da alta sociedade e encarnar a secreta identidade do herói homem-morcego. A máscara de Batman, como ele próprio sustenta, não é para se esconder, mas para proteger aqueles que ama.

A sedutora e nascida sem berço Selina Kyle (Anne Hathaway), alterna sua vida entre bancar a boa moça trabalhadora e ser a gatuna que alega roubar para comer e que se alia a bandidos quando preciso. Uma identidade felina de quem sabe agradar quando necessita, que teme diante do mal e treme diante do amor.

A ladra e o abastado dançam no mesmo baile. Sussurrando ao pé do ouvido, a gata arranha a consciência dele: "Acha que isso pode durar? Uma tempestade se aproxima [...]. Quando ela chegar, vão se perguntar como acharam que podiam viver com tanto e deixar tão pouco para o resto de nós."

Entre textos, imagens e metáforas que falam de nossa própria sociabilidade, das desigualdades sociais, do quanto podemos ser ideológicos e viver em torno de discursos inócuos, um terrorista insurge contra o poder local. Seu desejo é destruir a lendária cidade de Gotham usando como arma uma bomba atômica que os próprios ricos empresários criaram com o intuito humanitário de gerar energia sustentável.

Que doce ironia, quando o produto escapa das mãos do criador e ameaça destruí-lo junto de tudo o que ele mais ama. A Rosa de Hiroshima, cultivada pelos humanos, ameaça florescer para embelezar os seus túmulos. A rosa mostra seus espinhos, o morcego suas asas, a gata suas unhas, e o baile onde caem as máscaras abre o salão para a dança.

Dirigido por Christopher Nolan, "Batman: o cavaleiro das trevas ressurge" (2012), encerra sua magnífica trilogia e comove o olhar com uma bela humanização dos heróis. Redesenhados em contextos socioculturais que representam os problemas que hoje presenciamos, demonstram os dramas que os dividem entre cuidar de suas próprias vidas, seus amores e desejos, ou entregarem-se em prol de uma causa que pode custar sua vida.

Imagem capturada aqui.   

20 de julho de 2012

Sobre flores, xícaras e espadas

Quantas similaridades e colisões podem haver entre xícaras e espadas, o pó da maquiagem e o suor do esforço de uma luta... De "O Tigre e o Dragão" a "Memórias de uma Gueixa", Michelle Yeoh e Zhang Ziyi corporificam identidades femininas vestindo-se de singelezas e rigidez, firmezas e ternuras.

A jovem Jen, vivida por Ziyi em O Tigre e o Dragão, embora ostente o obstinado sonho de ser heroína, está prometida em um casamento político. Seus intuitos se dividem ao conhecer Shu Lien, uma heroína vivida por Yeoh. Entre ser irmãs e inimigas, as vidas destas mulheres se cruzam através de tradições quebradas e intensas perdas afetivas. Ambas lutam em voos sagazes, medem forças, trocam (des)afetos e padecem com a irrealização de seus amores.


A pequena Chiyo (Ziyi), em Memórias de uma Gueixa, deixa seu labor de escrava quando Mameha (Yeoh) torna-se sua mentora. Pelas hábeis mãos educadoras de Mameha, em intensas artes e ofícios, Chiyo se torna Sayuri, a mais bela e importante gueixa do local. Entre os segredos de ser uma gueixa também vivem renúncias, humilhações, ostentações, pois mais que mulher, uma gueixa precisa ser uma artista: cantar, dançar, agradar e seduzir com o simples gesto de servir uma xícara de chá.


Estas imagens de sabor oriental, chinesas e japonesas, ainda se ligam à lenda da destemida Mulan. A jovem que para poupar o pai já convalescente do alistamento imperial, ocupa o lugar deste e assume uma identidade masculina dentro do exército. Uma pequena flor desabrocha em meios às adversidades, sob o peso da honra tradicional e o ímpeto de descobrir sua própria imagem.


As mulheres que me encantam são assim, destemidas, tênues e vorazes. São corpos-fêmeas que subvertem sistemas e confrontam tradições com o toque de palavras, beijos, punhos e perfumes. Sua fragilidade se faz força quando não se calam e desatam nós enroscados em suas gargantas, dedos e joelhos. Inclinar-se a injustiças é uma prece não atendida em seus milagres furtivos. Entre ser mãe, rainha do lar, heroína, bruxa, artista, freira ou prostituta, fazem-se mulheres, desenham histórias e comovem olhares de homens como eu.

Imagens capturadas aqui, aqui e aqui.     

11 de julho de 2012

O Novo Mundo, sobre vestidos e penas, corpos e águas, perdas e banhos


Pocahontas sempre me foi uma personagem deveras estimada. Sua beleza, coragem, medos, ternura e irmandade com o ambiente e as demais espécies sempre me comoveram. Seu modo de ver os estrangeiros (invasores/colonizadores), ou seja, os diferentes, ainda me toca de modo particular.

Mais intrigado e apaixonado fiquei quando soube que Pocahontas não era só uma princesa inventada pela Walt Disney, e diga-se de passagem, entre estas, a mais desprezada. Seria porque para esse mercado, uma princesa indígena não é vendável? Enfim, Pocahontas foi uma importante líder de seu povo, por volta de 1600, no estado da Virgínia, Estados Unidos.

Entre memórias e poemas, como uma salmodia romântica e dramática, o filme "O Novo Mundo", dirigido por Terrence Malick, constrói uma narrativa aleatória e coesa para recontar a história da colonização dos territórios norte-americanos pelos ingleses.

O ritmo desacelerado da trama, sem desmerecer o drama e a força dos acontecimentos, torna mesmo as batalhas imagens/memórias que tremulam afetuosamente quando recontadas pelos personagens que encarnam os protagonistas da história passada. O cenário, que pertence ao território onde os fatos ocorreram, vivifica o enredo com pertinência impactante.

A fotografia se demora deixando pungente a perspectiva de imagens, ou melhor, a flexibilidade de um ambiente vivo que reconta e preserva, qual visita/mergulho in loco, impactos culturais, vestígios encobertos, memórias que pairam, pegadas apagadas, carícias trocadas, mortes lamentadas, acordos insanos. Como se nos desenhos geográficos de lá, ainda ressoassem as cantigas, as crenças, as chegadas, os beijos, os lamentos, os passos, os banhos, as partidas...

A suavidade da atriz Q'Orianka Kilcher, dá vida à uma Pocahontas terna e firme, que segue, às duras penas das escolhas que se interpõem, um caminho de perdas irreparáveis, mas que conecta corporalmente o cruzamento entre o velho mundo invasor e o novo mundo invadido. Sua sutileza simples e transparente dança no ambiente evidenciando a conexão humano/animal, cultura/natureza que hoje parece tão esquecida e devastada.

E o coração da índia princesa, quantos golpes acalentou, quantos dias contou, por quanto de amor definhou. Entre as penas que abandonou e o vestido que aceitou, um corpo vermelho permaneceu, tênue de certezas, laico de avarezas, prenhe de sentidos e livre para o fim que a esperava do outro lado das muitas águas. E o rio que ficou, chorou por não mais trocar com ela seus beijos molhados de amor.

Imagem capturada aqui.

21 de maio de 2012

A Sete Palmos adentrando em mim


A ternura incondicional da mãe (Ruth), restringida de seus sonhos e de suas mais íntimas realizações pessoais para a plena dedicação aos seus filhos.

Os encontros e desencontros da filha mais nova (Claire), no intuito de se construir uma artista.

Os dramas do filho do meio (David), para alicerçar sua identidade homoafetiva, superar traumas e lutar pela sua união com Keith.

A trajetória do filho primogênito (Nate), nas idas e voltas com Brenda, para realizar-se enquanto homem, profissional, marido, pai... Antes que o cronômetro da corrida da vida marque o fim do percurso.

Uma família mórbida, trágica e cômica que se constitui numa casa funerária, transitando cotidianamente por entre os labirintos onde se cruzam vida e morte. Uma "Família Adams" sem artifícios, truques ou maquiagem. Um retrato das nossas dores, medos, anseios e mistérios subjetivos.

A cada episódio, um nascimento às avessas - uma morte - que desencadeia muitas relações de vida. No confronto com a perda, a dor e os pêsames, nas flores que adornam túmulos e caixões, o perfume e o pólen que germinam tantas possibilidades de nos relacionarmos com o fim e articularmos outros começos.

Não receio dizer que comecei a repensar meu medo da morte adentrando Sete Palmos de mim. As imagens, textos, relações, atitudes de cada personagem, vão como que abrindo covas, erguendo sulcos, inscrevendo lápides no corpo (m)eu... Insinuando que o fim e o começo são possibilidades que pulsam tanto quanto o coração. E notificando que, entre parar e continuar, o relógio da existência obedece ao mestre tempo que só aponta para frente, sem chances de retorno.

A série A Sete Palmos (2001-2005), criada por Alan Ball, faz transparecer a óbvia e pungente constatação de que somos finitos, passamos, envelhecemos e deixamos de existir. Enrugamos, murchamos e despedaçamos tal e qual a mais bela flor reluzindo em cores num jardim. E mais do que isso ser uma pesarosa constatação, embora nos entristeça, possamos ver como a noção que nos move a viver intensamente, buscar ser/fazer/ter o que mais desejamos, realizar os sonhos-projetos para os quais nos sentimos aptos e impelidos... Porque a vida é só uma, e ela passa. E o luto pode mover lutas em favor dessa vida passageira.


Imagem capturada aqui.

5 de maio de 2012

Piñero, em tua sombra, um deleite


"Eu nunca quis ser ninguém. Uma vez um cara me disse que eu escrevia bem, que escrever me tiraria da prisão. Tirou e não, porque tive que voltar para poder escrever bem."

Um poeta, um escritor, um ator, um bêbado... Um Cristo drogado. Um satã do céu. Um arcanjo, Miguel Piñero. Um nova-riquenho, Mikey Piñero. O criador da famosa peça "Short Eyes" (1974), apresentada na Broadway e adaptada para o cinema em 1977.

No filme "Piñero" (2001), dirigido por Leon Ichaso, Benjamin Bratt assume em sua interpretação o homem que seguiu à risca o conselho de sua mãe: "fale com os olhos e olhe com a boca". Um corpo cambaleante, tenaz e sedutor, que proclama poesia com seus olhos gritantes e desfere desejos com sua boca observadora.

Bratt, ao (prot)agonizar os prazeres e agonias de Miguel Piñero, se faz inventor e vendedor de esponjas, peixes e pérolas. Sua poesia absorve os líquidos e as poeiras da vida, exala os perfumes e os maus odores do cotidiano e apresenta os tesouros e as misérias que cada humano constrói. Um poeta submerso, underground por opção, que ao invés do dinheiro e da fama dos artistas consagrados, só cobiçava chamar sua atenção.

Numa sequência de imagens em nada lineares, que alternam-se entre o colorido e o preto e branco, a história se faz de pedaços, pedaços de uma vida vivida aos pedaços... Vida despedaçada. Entre encenação e realidade o filme vai se montando como um quebra-cabeça, como um teatro feito de atos desolados.

E o que perdura é a trajetória infame de um Piñero que floresce na aridez da prisão. Desordeiro, errante e comovente. Artista e bandido que, como ninguém, fazia de um cinzeiro seu cemitério de lembranças. Um homem que enquanto vivo e mesmo depois de morto, em forma de cinzas, foi absorvido pelas ruas.


Imagem capturada aqui.

14 de abril de 2012

Pina, com tua luz a claridade do mundo me hospeda*


Porque
Imagens
Nascem
Afetivamente


Como falar de uma obra que acaricia os sentimentos, abraça os pensamentos, enternece os conhecimentos, resignifica os acontecimentos? Pina Bausch já conseguia isso com a dança. Wim Wenders perpetua isso com o filme.


Wim articula seu filme com o elemento que movia a dança de Pina: as experiencias dos dançarinos. Lembranças, olhares, perguntas, imagens, falas, fatos que cada um viveu com ela, são pequenas maravilhas que desencadeiam e mobilizam a bricolagem não linear de cenas dos espetáculos (criados com pedaços das suas historias de vida). Essas cenas, recolocadas em cenários vivos, devolvidas ao cotidiano, geraram tão belas fotografias cinematográficas.


O modo como imagens mais antigas se encontram com imagens mais recentes - e vice-versa - sem corte, sem fade in e fade out perceptíveis, junta três gerações de dançarinos e trás a própria Pina dançando de novo no seu Café de memórias, (des)encontros e solidões. Pina e Helena - sua substituta em "Café Müller" - são duas e a mesma, ambas e uma só, com uma languidez única, olhos fechados e braços alados... Tudo isso nos chega por meio de câmeras que dançam com os dançarinos, um olhar cinematográfico que se move aos soluços, gemidos e gotas dos corpos enfocados.


Nesse passeio imagético entre arte e vida, estética e estesia, o 3D transborda a tela e se justifica em cada centímetro/segundo de sua presença. O corpo - eu e você - é tridimensional e, nesses sentidos, a tridimensionalidade da dança, a profundidade e perspectiva pluridirecionais do gesto/movimento, qualificam e dão a mais terna sensatez ao 3D do cinema.


Recordei com olhos umedecidos e garganta emudecida dos movimentos singelos de "Para crianças de ontem, hoje e amanhã", "Café Müller", "Sagração da Primavera" e "Ten Chi", obras de Pina que tive a honra, o desafio, o desejo, a carência, o prazer, a tristeza e a felicidade de ver, assentir, acolher, assistir, experienciar e guardar no corpo.


(Vi)ver o filme "Pina" (2010) foi uma experiência que acariciou meu ser infante, aprendiz, órfão e amante. Humano demais, me deixei banhar por cada imagem que ascendeu a saudade daquela que apenas beijei com os olhos e que segue coreografando todo meu dançar. Solícito ao conselho desta diva, eu danço, danço, danço, pois do contrário estaria perdido. Dançando, me acho a cada dia e disfa(r)ço essa minha orfandade que a claridade do mundo não mais hospeda sem a luz de Pina.




Imagens capturadas aqui, aqui, aqui.
*Paráfrase de fragmento do poema "O homem humano" de Adélia Prado.

14 de março de 2012

W.E. - Imagens que dançam e su(o)am perguntas


Para quem acha que Madonna é só mais uma entre as tantas e repetitivas cantoras pop do momento, se engana. Ela também pode não ser, ainda, uma grande diretora e roteirista de cinema, mas soube, primorosamente, compor, enquadrar, escolher e dar movimento às imagens que estruturam o filme "W.E. - O Romance do Século" (2011).

Como objetos de importância pessoal ganham notoriedade e importância pública com o passar do tempo? Por que depositamos valores econômicos, sentimentais e afetivos em coisas que pertenceram a outros? Como os objetos, as histórias, as imagens de outros podem influenciar na nossa própria história? Que rumo nossa vida pode tomar a partir de uma simples imagem?

Um rei abandona o trono por uma plebeia. E a plebeia, o que teve de abandonar por causa do rei? Esse, entre tantos outros ao longo da história, são os lados ocultados. São discursos femininos emudecidos. Pouco antes da Segunda Guerra Mundial, Wallis (Andrea Riseborough), a plebeia, precisou sobreviver ao romance (com o Rei Eduardo VIII) que escandalizou a Inglaterra.

Entre grandes acontecimentos históricos, micro-histórias tecem redes afetivas, influenciam decisões políticas, fundamentam tomadas de posição, sedimentam a vida pública de grandes autoridades. O cotidiano miúdo determina rumos, modos de ser, escolhas.

Noutro tempo, noutro lugar, como essas histórias ganham novo significado e podem mobilizar a vida de outras pessoas? Separada de tais eventos há quase seis décadas depois, em NY, Wally (Abbie Cornish) é movida, tocada pela história de Wallis. História que ela lê, vê e toca por meio de imagens, objetos, cartas. Como a história de uma mobiliza a vivência da outra? Por que nos apegamos à experiência do outro de modo que ela determine nosso agir? Que teias "misteriosas" são essas que nos unem desrespeitando fronteiras de tempo e espaço?


Madonna e sua equipe técnica/artística conseguiram produzir imagens que dançam e, como gotas de suor brotadas do belo e incansável movimento, expelem perguntas que movem o pensar/sentir de quem sintoniza sua atenção com a obra.


Imagens capturadas aqui.

5 de março de 2012

Histórias Cruzadas, preto no branco para desmontar superioridades inventadas


Quando um filme acontece em nossa vida, quando histórias se cruzam com a nossa, nos sentimos mais enredados nessa verdadeira rede de enredos chamada vida.

1962, Estados Unidos, Mississippi, na cidade de Jackson, a luta pelos direitos civis encorajava muitos ao reconhecimento, à participação social, ao respeito. Tudo isso com especial referência aos negros e negras.

Dando atenção às mulheres negras (às mulheres negras domésticas), a história particulariza a vida de pessoas não ouvidas, não consideradas, contadas enquanto classe separada. As mulheres que embelezavam os lares, criavam os filhos, preparavam os alimentos... Não eram dignas nem sequer de usar o banheiro da casa. Atitude humana? Sim, postura de brancas e brancos, que se entendiam "superiores". Superior em que mesmo?

Baseado no romance "A Resposta" (The Help), de Kathryn Stockett, o filme "Histórias Cruzadas" (2012), dirigido por Tate Taylor, traz Viola Davis e Octavia Spencer vivendo personagens, ou melhor, mostrando-nos pessoas que, com suas trajetórias de dores e coragem, arrebentam sensivelmente com nossa burra postura que em tantos momentos nos faz preconceituosos.

Elas e tantas outras mulheres negras domésticas narram suas histórias como possibilidade de luta, como forma de serem vistas, ouvidas, respeitadas. Quando narrar a própria experiência é uma forma de continuar vivas, pessoas compartilham frugalidades, dores, pedacinhos miúdos de vida capazes de mover estruturas sociais e culturais por tempos arraigadas.

Ficam em mim semblantes de mães negras - divas, dádivas - capazes de amar, educar e alimentar mesmo quando o "pseudo superior" e a oposição preto x branco impõem-se com crueldade. A doméstica negra dando o amor que a mãe branca não sabia dar à própria filhinha, desmonta qualquer superioridade.

Ouvir e valorizar as histórias pessoais pode ser um comecinho do pagamento de uma dívida que, enquanto brancos e brancas, jamais conseguiremos saldar. Com isso penso na imensa inferioridade das classificações e discriminações que inventamos.

Ao ver Aibileen (Viola Davis) finalizar a trama andando, ao som da bela canção-tema "The living proof", tendo pela frente a profundidade de um caminho, vejo, literalmente, essa doméstica (que me representa tantas outras pessoas), como prova viva dos possíveis "milagres" cotidianos que somos capazes de realizar.



Imagem capturada aqui.

25 de fevereiro de 2012

A Dama de Ferro, pérolas e xícaras


Ao ver a inquebrantável "dama de ferro" idosa, vivida pela inquestionável Meryl Streep, encerrar sua performance lavando um xícara e apreciando os sons do cotidiano, perguntas e lágrimas se juntam para desforrar uma série de aprendizados e sentimentos.

Essa mesma personagem, Margaret Thatcher (Primeira Ministra Britânica de 1979 a 1990), quando jovem, no ímpeto de mudar o mundo por meio da política, ao ser pedida em casamento, disse que não era mulher para passar a vida lavando xícaras.

Penso que a última cena do filme e enfática fala da jovem Margaret não se tratam de uma inocente contradição cinematográfica, mas de uma boa oportunidade para se pensar acerca de: público e privado, homem e mulher, política e família. A quem pertence o que? Quem deve estar aqui ou ali? Quem pode exercer essa ou aquela função?

Entre "falos" e "falas", a primeira mulher a exercer o cargo de Primeira Ministra Britânica experimentou a hostilidade machista para ser aceita como uma política respeitada. Dos políticos, assessores e secretários até a lembrança do falecido marido, a saga da personagem se desdobra em tolerar, convencer e se desvencilhar dos ditames masculinos. Fazer-se forte como eles para ser aceita.

Entre os compromissos políticos e os comprometimentos familiares, a dama de ferro, pérolas e xícaras faz uma travessia desafiadora. Esse caminho, ela desfia em memórias ao longo do enredo de imagens, acordando saudades, causas e perdas no imaginário do espectador.

Sob direção de Phyllida Lloyd, "A Dama de Ferro" (2011) narra a trajetória de uma mulher, filha de um quitandeiro, que deixou sua presença impressa no mundo ocidental. Marcas frias de um pulso firme e autoritário. Entre a demência e o autoritarismo, o poder e a fragilidade, se move a personagem absorta em lembranças.

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5 de novembro de 2011

A pele que habito... lobo em pele de cordeiro


A impecabilidade almodovariana segue na medida certa do cinema não convencional, desta vez transitando entre a epiderme, a derme e a hipoderme.

As mínimas coisas que escolhemos fazer ou deixar de fazer, acarretam consequências previsíveis ou sequer imagináveis. Uma hora, um local, uma pessoa, certos ou errados, desencadeiam fatos que podem tecer diferentes rumos para uma trajetória. Assim é a vida, assim é trama almodovariana.

Sem nem passar perto do equívoco dualista "habitar um corpo", o enredo desfia o drama de um corpo-sujeito revestido por uma pele estranha. Experiência desoladora a de ter uma aparência exuberante que não lhe pertence. Vivência desconcertante o corpo estar revestido de uma pele que não é a sua.



Como entender a própria identidade quando, da aparência desta, restam apenas os olhos assustados?

O que nossa aparência pode dizer daquilo que realmente somos (ou somos forçados a ser)?

A quantas camadas de pele está nossa identidade?

O encontro de cores orquestrado por Almodóvar revela a delicadeza de um olhar sensível em encantar, motivar e questionar outros olhares. Os personagens hediondos, as mulheres incríveis, os gêneros duvidosos, os enquadramentos excêntricos, as situações polêmicas, tudo bricolado com a picardia ardilosa do "Pedrinho", o menino cineasta que constrói travessuras belíssimas em forma de imagens.



Para quem nunca duvidou da própria pele, convém se enxergar direito, depois de uma dose do elixir imagético do diretor Pedro Almodóvar. Nem precisa ser bom entendedor, as perguntas transpiram pelos poros involuntariamente.

"A pele que habito" (2011) pode deixar nossa indignação, ética, medos, emoções e preconceitos à flor da pele, como se as imagens nos tocassem causando arrepios e lágrimas bem no suspiro final, quando voltar para os braços da mãe pode (re)significar tudo.



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3 de novembro de 2011

O Palhaço... ventilando risos e dores


Nas poeirentas estrados do interior de Minas Gerais, diante de canavieiros apegados ao labor, a esperança passa montada na caravana de uma trupe circense. Assim, as belas imagens do filme "O Palhaço" (2011), dirigido por Selton Mello, sopram ventos de dramas, risos, silêncios e doçuras no picadeiro de nossa imaginação.

O gato bebe leite.
O rato come queijo.
Eu sou palhaço.
E você?

Sem tantas acrobacias, a simplicidade dessas palavras afronta as posturas cômodas em relação à identidade. Questionam metaforicamente acerca do que significa ter a identidade na mão. O documento verdinho e aquilo que identifica nosso ser no mundo que, por vezes parece complexo de conceituar, mas se nota no corpo, no que se faz, se diz, se expressa e que é de tantas cores.



Eu faço o povo rir.
Mas quem vai me fazer rir?

A vida artística itinerante evidencia, além dos risos e aplausos, certas ventanias que ameaçam as certezas da realização pessoal. Caso não se esteja seguro daquilo que se é, projetos e sonhos podem esmorecer. A magia do circo é tão humana fora do picadeiro.

A ternura de um pai que vê e ouve sem demonstrar que está olhando e escutando, instiga a saudade de casa, de aconchego, de proteção. Dá vontade de ser filho pra sempre. De pedir a benção antes de dormir. De ajudar nas tarefas cotidianas. De voltar pra casa e ser recebido com abraço apertado e lágrimas. De sentir de novo a brisa do lar.



Não se nasce com a identidade de artista. Talento não é dom que cai do céu. Ser artista é aprendizado, trabalho, esforço cotidiano, cansaços, aplausos, vaias e alegrias que se misturam ao longo da trajetória de cada um. A vida, a identidade, precisam ser constantemente ventiladas...



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5 de outubro de 2011

Elvis e Madona, um conto de amor (trans)viado

Quando o inusitado inunda nossa percepção de amor, risos e ousadia... O romance entre Elvis (Simone Spoladore), uma lésbica, e Madona (Igor Cotrim), uma travesti, ao parodiar os nomes do rei do rock e da rainha do pop, abraça nossos sentidos e dá um choque no preconceito.

Entre pizzas, um show, um bandido e um bebê, a trama tece possibilidades de ser, de amar, de se relacionar, de sonhar, de perder e ganhar. Spoladore e Cotrim desfiam sutilezas na interpretação fazendo de seus personagens pessoas de verdade, sinceras, bonitas, ousadas, meigas, ousadas, ciumentas, sonhadoras... Como todos nós, assim, diferentes e únicos.



Madona é cabelereira e sonha ser uma estrela. Elvis é entregadora de pizza e sonha ser fotógrafa. O cotidiano de ambas vai revelando detalhes e situações onde: a estrela tem um brilho que se expande do salão de beleza, pelas calçadas de Copacabana, até o palco; a entregadora de pizza, ao se deparar com as belezas frugais do cotidiano, registra e cria imagens a partir de um olhar sensível.



Para quem acredita que o amor vale a pena, independente de sua forma e dos padrões que regem a pretensa "boa conduta" das relações de gênero, o filme "Elvis e Madona" (2011), dirigido por Marcelo Laffitte, traz sentidos cheios de graça e de razão. Da ousadia, simplicidade e esperança de Madona, guardo a frase: "Às vezes a vida te tira tudo. Mas se você precisa e merece, no momento certo ela te dá de volta".





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24 de junho de 2011

Quando o fim se faz em azul

A dor é a personagem que melhor atua quando a cena é o final de um romance. Todavia, ainda é possível não ser piegas ao produzir imagens, ações e canções para dizer que um amor acabou.

O fim de um processo, o fim da permanência em um local, o final de um curso, o fim de uma relação... Elementos vivos se cruzam com a imagem viva na tela. Vida e cinema se abraçam e trocam afinidades fazendo do corpo (m)eu, o lugar desse encontro melancólico.


"Blue Valentine" (2010), que nada tem de "namorados para sempre", é um filme desses que se arrastam com a gente para casa. Consegue pintar de um azul doído o fim de um relacionamento e reporta-nos para as tantas perdas que na vida ganhamos.

Michelle Williams e Ryan Gosling atuam numa espécie de tradução carnal dos malgrados que um fim pode instaurar. Devolvem-nos a inocência e a culpabilidade das sentenças que uma convivência decreta.


Talvez, o que nos namore para sempre sejam os tons azuis, ou de outras cores também, de um fim que volta e meia torna a terminar na lembrança que não finda. Enfim, finitudes assopram nas estridências de uma voz feminina que, cantando, se intercala ao coro que insiste... "You and me... You and me..."

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4 de junho de 2011

Magnetizando sentimentos de metal


Quando se está aprendendo a ser só acontece um tipo de mutação. O homem de ontem não é mais o de hoje. Em mínimos percentuais a evolução vai instaurando suas transformações cotidianamente. Somos ex-homens, x-men, que se modificam em suas relações.

Sem apologia à diferença e sem vitimizações simplórias, entendo que diferir pode doer. Assumir postura provoca ruptura, implica em constituir uma pergunta, no corpo que se é, que nem sempre pode ser respondida.

O personagem Magneto (Michael Fassbender) do filme "X-men: first class" (2011), dirigido por Matthew Vaughn, é um menino que descobre aquilo que pode em meio às perdas afetivas que vão se concretizando em sua vida. E um cuidado importante que se configura é equilibrar o poder entre a raiva e a serenidade.

Quando alguém que nos constitui é tirado de nós, forças quase inexplicáveis ditam normas que soam como lâminas afiadas, enrubecem o corpo e dissolvem o filtro da ética que por vezes guia o agir. Perder, possibilita ganhos contraditórios, que anseiam por um equilíbrio que nem sempre temos de imediato.

Aleatoriamente, vamos tecendo modos de despir a diferença que constitui o eu opositor que somos. Entre malandragens e hipotermias emocionais, se ajusta um corpo que interfere no ambiente por onde passa, magnetizando sentimentos de metal, seus e de outros.


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16 de fevereiro de 2011

Burlesque, uma vida, um estilo, uma necessidade


Há tempos um filme não me levava mais de uma vez ao cinema. Há tempos um filme não me deixava com vontade de dançar. Há tempos que eu não percebia o tempo passar durante o filme. Há tempos eu não desejava que o filme continuasse...

Como é preciso saber criar e dar oportunidade ao outro. Para que se expresse, se posicione, se mostre e faça-nos ouvir não só a nossa voz. Para que nos faça perceber o inédito que pode surgir quando, simplesmente, ‘abrimos as cortinas’ e deixamos que ele nos mostre que o palco é o seu lugar.

O cuidado com o lugar que concretiza um sonho resignifica o sentido de pertencimento a uma pequena comunidade artística que, a partir do seu modo específico de organização, ocupa um lugar outro no mundo. É comovente o apreço em manter vivo o lugar onde nascem as estrelas.

Dono de cores cintilantes, diálogos leves e bem humorados e um enredo dançante que se resolve em meio a belos números musicais, Burlesque (USA, 2010) se apropria de um argumento simples e deixa falar alto a picardia da imagem, do sonho e da dança.

A vontade que fica é de compor a vida de forma burlesca, ser sempre o menino que sonha, o homem que é e faz arte com corpo.


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14 de fevereiro de 2011

Burlesque: histórias comuns também brilham


Será que só as biografias de mártires, reis e rainhas rendem bons filmes? Por que as histórias comuns não (co)movem os olhares críticos?

Sem adesões ao ‘lixo cultural’ que muitos produzem, vejo um sentido inovador quando Boaventura Sousa Santos diz que todo conhecimento ou ciência deve se ‘sensocomunizar’, ser acessível, fazer sentido ao dia a dia humano. Entre aquilo que se chama senso comum e aquilo que se entende como senso erudito, há mais complementaridade do que certos críticos podem ‘achar’.


Pensando em histórias comuns, tachadas de ‘clichês’ e 'previsíveis', olho para a simplicidade burlesca de Tess (a lenda) e Ali (a estrela), personagens vividas por Cher e Christina Aguilera em Burlesque (EUA, 2010), dirigido por Steve Antin. Um filme musical com traje a rigor que assume o comum com sinceridade, brilho, maquiagem, luzes e números musicais e coreográficos de bom porte sonoro e imagético.

O enredo da garçonete que vem do interior para tentar o sucesso como artista na cidade grande, já é deveras conhecido. Todavia, o que encanta é como recriar tramas já vistas com paisagens surpreendentes.


O empenho em manter viva sua fábrica de teias e enredos, faz do artista um trabalhador incansável que dirige, costura, canta, dança, pinta e borda. Alguém que desponta no palco e conserta figurinos com o mesmo brilho. Embora pareça utopia no meio artístico, esses são egos (est)éticos, capazes de reconhecer e potencializar o talento do outro sem tê-lo como ameaça ou sombra, mas sim, como mais um protagonista no fazer artístico.

Ao invés de narrar só a ascensão da estrela, Burlesque mira o foco para o ambiente onde esta desponta. As luzes do pequeno palco onde sonhos, teias e enredos ganham vida merecem seguir acesas, como o céu que continua firme, ajam estrelas ou não.


Acredito em contos comuns, de verdade, que fazem espetáculo de coisas pequenas, que emocionam ao deixar que garçonetes mostrem a voz e a sensualidade por vezes escondidas entre mesas, aventais e bandejas. Histórias assim, fazem canção e dança com a feiúra e a boniteza que a vida tem.


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11 de fevereiro de 2011

O Discurso do Rei: entre linhas e imagens

“Eu tenho voz!” Uma frase, aparentemente, simples de ser dita e um tanto obvia, dado que, a apriori, os humanos são seres falantes. Todavia, pode ser um discurso pesado para alguém que, movido por um sentimento de inferioridade, tropeça nas palavras de um ‘eu’ gago e receoso em expressar sua coragem.

O Rei inglês George VI, protagonizado com maestria por Colin Firth, ao assumir o trono abdicado pelo irmão, mais do que enfrentar todo o povo inglês e a iminência de uma guerra, precisa lutar com sua gagueira.


O desafio de falar em nome de um povo quando não se consegue falar direito pode ser a ruína de um reinado que depende de diplomacia, acordos e discursos.

Como manter as relações ternas quando tudo ao seu entorno torna-se frio, burocrático e simbólico?
Como reencontrar traumas passados, fatos que parecem sem importância diante da relevância de um reinado, para, a partir deles, compor uma auto-expressão e uma liderança forte?
Como dar-se conta de que as grandes posições vêm das frugalidades cotidianas?


O companheirismo de uma esposa atenta e solidária, interpretada com beleza e sensatez por Helena Bonhan Carter, apresenta traços de um afetuoso matrimônio que suporta e atenua as dificuldades.

A simplicidade e o talento de um pseudo-profissional de problemas da voz, vivido sagazmente por Geoffrey Rush, oferece o ombro, os ouvidos e o coração abertos para acolher o outro em sua pequenez sem nobreza, mostrando que entre amigos é possível ensaiar discursos onde o ‘eu’ pode se mostrar sem medo algum.


O Discurso do Rei (2010), dirigido por Tom Hooper, traz, na sutileza e na inocência de uma gagueira, a magnitude gestual de quem, embora tropeçando na verbalidade, traz reinos encantados no coração e consegue desenhá-los a toque de dedos, fazendo com que imagens beijem-nos olhos, peito e lembranças.


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