
O lugar onde sentei
Os textos que li
O sonho que tive
A prova que fiz
O medo que senti
O tanto que escrevi.
De volta voei
E agora aqui:
Me aceita Bahia
Me pega Goiânia
Que mestre serei?

Bendita ida!
Enquanto os outros desfiles, dos quais vi partes dos melhores momentos, eram lisos, retilíneos, sisudos e neutros de picardia... Ronaldo, na sua coleção Outono-Inverno 2010, trouxe dança para a passarela. Uma dança não-dança, a dança de Pina Bausch. Trechos da vida passando, desfilando. Sob um holofote azul, uma dançarina tocava um manso acordeão. Cadeiras ao longo da passarela... Nuances do doce/amargo Café de Pina.
Modelos/personagens iam e vinham trazendo em seus looks/figurinos referências dos odores, cores e dores dos memoráveis espetáculos Bauschianos. Em cada peça, uma cena.
O rosto de Pina aparecia do avesso, em cada modelo, cabeças viradas, na passarela e na platéia. Foi como ver muitas Pinas desfilando... Ruivas, morenas, louras... Arremessando histórias, perguntando-nos performativamente: O que nos move? O que faz com que nos vistamos? Não como nos movemos ou nos vestimos.
Para selar a amarração moda – cotidiano – arte – vida, nos moldes bauschianos, as modelos de Ronaldo finalizaram o desfile indo até o público e cumprimentando as pessoas. Gesto singelo que desconcertou a estrutura sisuda da Fashion Week. Nesse estilo de moda/arte, não entender nada é entender tudo.
Majestoso feito de Ronaldo, deixar fragânsias coreográficas emPINArem na passarela.
Veja um trecho do desfile aqui
Imagem: Odailso Berté
As sete postagens seguintes são imagens configuradas por mim, Odailso Berté, a partir da leitura das oito cartas que compõem o livro 'Confidencial' de Walderes Brito. São algumas das impressões que as palavras dele impingiram no meu corpo até então.
Confidencial 6
Confidencial 4
Café Müller é uma filosodança, uma filosofia no corpo, sem legendas deterministas, apenas corpos/pessoas (re)vivendo relações desencontradas, filosofazendo-nos refletir acerca dos nossos próprios desejos, intenções, estupidez, afeto e abandono. Esta era a peça em que Pina dançava... O (m)eu corpo não separa emoçãorazão ao falar disso. Pina é a mulher que aprendi a amar de longe, pelas fotos, pelos livros, pelos filmes, pelos espetáculos. A dançarina substituiu-a muito bem, mas foi ela que imaginei ali no palco. Alta, esguia, singela, forte e doce, arremessando-me suas vivências naqueles gestos, naquele inesquecível movimento de braços, deslizando fluidamente, desenhando histórias. No final, é esta personagem cega que fica sozinha, batendo-se nas cadeiras e mesas, sem ninguém para abrir-lhe caminho. Apenas herdando dos outros personagens uma peruca, uma casaco e um par sapatos... Era Pina que desaparecia solitária no escuro do seu Café... Enchendo-nos de sentimentos e razões únicas, eternas.
O intervalo deu-se de cortinas abertas, deflagrando cenas impressionantes da montagem do cenário para o próximo espetáculo. Cotidiano e arte se (con)fundiam no palco. A disposição dos utensílios e a maneira como se moviam aqueles corpos (técnicos e assessores de palco) davam-me a impressão não de intervalo, mas de seqüência da arte que se mistura com a vida, ou, que leva a vida para o palco não importando ‘como os corpos se movem, mas o que move os corpos’, conforme a filosofia da mestra Pina Bausch.
Sagração da Primavera, apresentada, coincidentemente, nos dias em que chegava a estação da primavera, 22/09. Uma dança de tensões – flexões – (re)flexões. Uma dança (con)sagrada pela fertilidade dos corpos, pela efervescência com que se movem, pela paixão quente com que pensam no movimento que executam. Tantas relações emaranhadas na intencionalidade daqueles movimentos, possíveis relações de gênero, onde os corpos femininos são coagidos pelo severo olhar masculino. O palco coberto de terra alude a relações férteis, fortes, convulsivas. Os corpos dos dançarinos suados em contato com a terra escura, se metamorfoseavam na cor, na expressão e no movimento, como se a própria (T)terra gemesse em dores de parto. Na última cena, apesar dos olhares tensos dos demais dançarinos (e também do público), uma mulher dança até morrer. Deixando-me a sensação de que a dança, a vida, a Pina... seguem registradas em nossos corpos. Uma sensação de que temos o poder de continuar...
Dança para deficientes?
Quando um certo vazio preenche nossos espaços, é alguma coisa que está ali, ou é a ausência dessa tal coisa que está ali? Quem ou o quê ocupa o lugar vazio?