29 de janeiro de 2010

Horizontes em Casa


O ângulo que vi
O lugar onde sentei
Os textos que li
O sonho que tive
A prova que fiz
O medo que senti
O tanto que escrevi.
De volta voei
E agora aqui:
Me aceita Bahia
Me pega Goiânia
Que mestre serei?

Foto: Odailso Berté, visão da sacada da pousada Âmbar/Salvador.

21 de janeiro de 2010

Ronaldo Fragânsias de Pina


Longe dos pavilhões da Bienal em São Paulo, tive meu Fashion Day em casa, ao vivo, pela internet. Sou seguidor confesso da coreógrafa Pina Bausch, mas não era, até então, do estilista Ronaldo Fraga. Dele, apenas boatos: “Estilista transgressor”; “Estilo cotidiano de moda”... Enfim, fui a ele, por causa dela.

Bendita ida!

Enquanto os outros desfiles, dos quais vi partes dos melhores momentos, eram lisos, retilíneos, sisudos e neutros de picardia... Ronaldo, na sua coleção Outono-Inverno 2010, trouxe dança para a passarela. Uma dança não-dança, a dança de Pina Bausch. Trechos da vida passando, desfilando. Sob um holofote azul, uma dançarina tocava um manso acordeão. Cadeiras ao longo da passarela... Nuances do doce/amargo Café de Pina.

Modelos/personagens iam e vinham trazendo em seus looks/figurinos referências dos odores, cores e dores dos memoráveis espetáculos Bauschianos. Em cada peça, uma cena.

O rosto de Pina aparecia do avesso, em cada modelo, cabeças viradas, na passarela e na platéia. Foi como ver muitas Pinas desfilando... Ruivas, morenas, louras... Arremessando histórias, perguntando-nos performativamente: O que nos move? O que faz com que nos vistamos? Não como nos movemos ou nos vestimos.

Para selar a amarração moda – cotidiano – arte – vida, nos moldes bauschianos, as modelos de Ronaldo finalizaram o desfile indo até o público e cumprimentando as pessoas. Gesto singelo que desconcertou a estrutura sisuda da Fashion Week. Nesse estilo de moda/arte, não entender nada é entender tudo.

Majestoso feito de Ronaldo, deixar fragânsias coreográficas emPINArem na passarela.

Veja um trecho do desfile aqui

Imagem: Odailso Berté

19 de janeiro de 2010

CONFIDENCIAL

As sete postagens seguintes são imagens configuradas por mim, Odailso Berté, a partir da leitura das oito cartas que compõem o livro 'Confidencial' de Walderes Brito. São algumas das impressões que as palavras dele impingiram no meu corpo até então.

A volta do filho prodígio

Confidencial 7
"No momento, sinto-me bem. Disposto a escrever, dirigir e atuar na cena seguinte" (WB).

18 de janeiro de 2010

(Pa)Lavra Vulcânica

Confidencial 6
"Produzir um texto bom de ler é minha eterna busca. É minha maneira de dizer às pessoas que as quero bem. É a culinária que sei, a pintura que alcanço, a renda que me sai das mãos. E também meu desejo confesso de querer ser especial para a gente que amo. Algo de errado nisso? Escrever faz parte, ainda, do meu rito de ordenação de sentimentos" (WB).

15 de janeiro de 2010

Novela das mil Ave Marias

Confidencial 5
"(...) qualquer raladinho no dedão do pé, geralmente, é suficiente para ressuscitar a beata que há em nós (...)" (WB).

14 de janeiro de 2010

Pra não dizer que não falei das dores

Confidencial 4
"(...) a doença é uma espécie de manifestação de protesto do nosso corpo que precisa e tem direito a ser tratado com delicadeza. (...) Se há travas psicológicas na origem desta minha doença elas não estão nesta superfície (trabalho, estudo, afeto...). Se existem, estão num calabouço abaixo" (WB).

12 de janeiro de 2010

Seu Jorge, por favor, me empresta o violão

Confidencial 3
"Choro pelo que morreu. Cuido do que acabou de nascer. (...) Estou aprendendo a tocar meu corpo novo, assumi-lo. (...) Esse é meu corpo, agora. Esse sou eu, neste instante" (WB).

Olhai os lírios do corpo

Confidencial 2
"O fato é que somos irremediavelmente normais (...) O desafio é encontrar a medida da felicidade na desimportância, na nulidade, na insignificância do que somos" (WB).

Paixão de Corpus Tristi

Confidencial 1
"vivo no movediço, no provisório, no circunstacial e cada vez tenho mais certeza de que não há outro modo de viver. Ilusórias e falsas, mesmo, são as sensações de segurança e estabilidade" (WB).

11 de janeiro de 2010

Meus tipos inesquecíveis


Eu tinha medo de que ela se fosse
De ser eu
De passar de ano
De fazer vestibular
De festivais
De cobra
De ficar pelado
De escuro
De transar
De dançar em público
De amar alguém
De sair do seminário
De não passar na seleção de mestrado
Medonha vontade de mudar isso
Vem dando certo
Amadureci
Acostumei
Atenuei

Leia sem soletrar

O que atrapalha ao escrever é ter que usar palavras. É incômodo. Se eu pudesse escrever por intermédio de desenhar na madeira ou de alisar uma cabeça de menino ou de passear pelo campo, jamais eu teria entrado pelo caminho da palavra (Clarice Lispector).

5 de janeiro de 2010

Som e Luz em Corpos



Espetáculo Som e Luz em Corpos
Coreografia e encenação realizadas no Sítio Arqueológico e nas Ruínas de São Miguel das Missões/RS.
Dança-teatro que tem como palco o mesmo lugar onde a história real, da dizimação dos Índios Guarani, aconteceu.
Produzido pela Cia. Sarx de Teatro-dança
Criação e direção de Odailso Berté

MMX

A primeira dezena dos dois mil chegou. Dez anos dentro do novo milênio e o mundo não acabou. Nós é que seguimos acabando e (re)começando, destruindo e (re)compondo, (des)fazendo e aperfeiçoando nossos mundos. Anjos e demônios seguirão em nossas vidas, queiramos ou não, eles fazem parte de nós. O bom é poder dialogar com ambos, saber dosar e provar dos seus talentos diferentes. Reiniciar o ano é dar seguimento ao processo de vida... Essa trilha cheia de nuances que moldamos e que nos moldam. Bom é começar cuidando de mim para poder cuidar do que está ao meu redor.

Emblemáticas

Entre as mulheres que levo no peito estão heroínas, índias, cantoras, rainhas, dançarinas, professoras, tias, mães e amigas. São as divas que fazem o maior sucesso no público subjetivo meu. Algumas já viraram emblemas de camiseta, memórias fêmeas cicatrizando em mim, esculpidas a punho e pincel.

Pisando

Descalço dos passos antigos, calço novos passos para fazer outros tantos passeios.
Passear, passar, ser passageiro que deixa pegadas, que tem boa pegada.
Pegar e levar, tocar e deixar, apenas olhar.
Pensar até com os pés, pesar e pestanejar.
Apenas penar não vale.
O vale que atravessamos pode ser sítio de pica-paus amarelos.
Picas e paus de todas as cores, de voar, de entrar, sair e gozar.
Pelas piadas desses pintos passamos, com pilhas de nervos.
Pêlos nos pés, meias e tênis novos, para novas passagens.

Lô 2010 chegou

Oi Lorelai, amiga querida. Faz tempo que não te falo assim, de pertinho. Foram tantas (an)danças. Terminei 2009 cansado, mas com muita coisa bem terminada. Já não estou mais na Cidade dos Anjos, quis sair logo depois do show, sem dar show... Será coisa de artista? Enfim, me mudei. Peguei Papai Noel de surpresa e comecei as mudanças já antes dos feriados. Nesse ano novo, Lô, quero ficar mais perto de quem mais amo. Pretendo duas coisas grandes: um estudo grande e um namoro grande. Sabe, Lô, a densidade dessa cidade mudou, é como tomar GYN em goles novos. Já não pesa sobre mim como antes. Estou me vendo em novas condições... Bom demais. Então tá, prometo não demorar tanto em falar contigo de novo.

1 de outubro de 2009

Um Café filosófico - Um intervalo cênico - Uma Primavera visceral

A passagem do Tanztheater Wuppertal por São Paulo, apresentando os mesmos espetáculos da vinda em 1980, expressou o vigor ainda vivo da Diva da Dança, que se foi, Pina Bausch.
Café Müller é uma filosodança, uma filosofia no corpo, sem legendas deterministas, apenas corpos/pessoas (re)vivendo relações desencontradas, filosofazendo-nos refletir acerca dos nossos próprios desejos, intenções, estupidez, afeto e abandono. Esta era a peça em que Pina dançava... O (m)eu corpo não separa emoçãorazão ao falar disso. Pina é a mulher que aprendi a amar de longe, pelas fotos, pelos livros, pelos filmes, pelos espetáculos. A dançarina substituiu-a muito bem, mas foi ela que imaginei ali no palco. Alta, esguia, singela, forte e doce, arremessando-me suas vivências naqueles gestos, naquele inesquecível movimento de braços, deslizando fluidamente, desenhando histórias. No final, é esta personagem cega que fica sozinha, batendo-se nas cadeiras e mesas, sem ninguém para abrir-lhe caminho. Apenas herdando dos outros personagens uma peruca, uma casaco e um par sapatos... Era Pina que desaparecia solitária no escuro do seu Café... Enchendo-nos de sentimentos e razões únicas, eternas.
O intervalo deu-se de cortinas abertas, deflagrando cenas impressionantes da montagem do cenário para o próximo espetáculo. Cotidiano e arte se (con)fundiam no palco. A disposição dos utensílios e a maneira como se moviam aqueles corpos (técnicos e assessores de palco) davam-me a impressão não de intervalo, mas de seqüência da arte que se mistura com a vida, ou, que leva a vida para o palco não importando ‘como os corpos se movem, mas o que move os corpos’, conforme a filosofia da mestra Pina Bausch.
Sagração da Primavera, apresentada, coincidentemente, nos dias em que chegava a estação da primavera, 22/09. Uma dança de tensões – flexões – (re)flexões. Uma dança (con)sagrada pela fertilidade dos corpos, pela efervescência com que se movem, pela paixão quente com que pensam no movimento que executam. Tantas relações emaranhadas na intencionalidade daqueles movimentos, possíveis relações de gênero, onde os corpos femininos são coagidos pelo severo olhar masculino. O palco coberto de terra alude a relações férteis, fortes, convulsivas. Os corpos dos dançarinos suados em contato com a terra escura, se metamorfoseavam na cor, na expressão e no movimento, como se a própria (T)terra gemesse em dores de parto. Na última cena, apesar dos olhares tensos dos demais dançarinos (e também do público), uma mulher dança até morrer. Deixando-me a sensação de que a dança, a vida, a Pina... seguem registradas em nossos corpos. Uma sensação de que temos o poder de continuar...

2 de setembro de 2009

(d)EFICIENTES

Dança para deficientes?
Não. Para diferentes. Porque aquilo no que eles diferem, falta para ‘os normais’.
E eles dançam. De modo que, o movimento que aparece em seus corpos, não é um intervalo defeituoso entre a dança que eles tentam fazer e a dança que eles deveriam atingir, é dança mesmo. Pois dançar deriva da capacidade de se mover, que todos temos, mesmo quando estamos parados. Já pensou nisso?
Para entender isso, dispa-se dos modelos de danças prontas, aquelas que precisam ser repetidas tal e qual, tipo aquela criada para expressar os caprichos da corte do Rei Sol. Pense numa dança inédita, de agora, contemporânea. Pense na dança. Uma dança que não te dá gestos prontos. Mas te faz pensar: que gestos são esses?
Essa dança, os diferentes fazem, sem os entraves/preconceitos/receios dos ‘normais’.
Portanto, não aplauda por compadecimento, mas por pensamento... Se suas vias pensantes não estiverem deficientes... Se bater a emoção, que não seja por dó, mas por reflexão.
Corpos diferentes também pensam, também dançam, também tem seus dançamentos. Não subestime o que não conhece direito.
Sim, eles dançam. Com eficiência.

1 de setembro de 2009

Esvadiando um pouco

Quando um certo vazio preenche nossos espaços, é alguma coisa que está ali, ou é a ausência dessa tal coisa que está ali? Quem ou o quê ocupa o lugar vazio?
Lorelai não me respondeu. Pergunta difícil.
Mas nem é pergunta, é algo que me ocorreu.
Ah, você se sente vazio hoje? Ou vazio, ou cheio demais.
Pode ser o clima interferindo no metabolismo. Podem ser tantas coisas, as que me dou conta, as que não percebo, as que agem independente de minha consciência. Pode ser que eu nem queira dizer isso.
O que me importa dessa vez é fazer algo fora do comum. Semelhante ao tom rosado das rosas empalidecendo as pétalas caídas. Ou fazer algo bem dentro do comum... Tipo dois homens se beijando publicamente sem ninguém pra se importar e nem fazer piada.
Tirar-me do sol por alguns dias, pois seu incômodo demasia a fraca performance dos meus atos, fico sentindo mais por dentro.
Junto disso, penso que pipoqueiros de cinema fazem cultura também, desde que não lhes tirem das pipocas. Sem elas eles não se encontram direito, ficam se achando.
O vazio e o calor dizem coisas entrecortadas. Pode ser que eu não entenda.
Pelo menos dançar me livra de certas mazelas hipotéticas. Mexe e varre picuinhas que tendem grudar nos tendões.