25 de junho de 2011

Das aves que posso ser


Entre as sobriedades que encontro pela vida afora, deixo aflorar sentimentos e vontades de estar só, talvez para me conhecer melhor, saber porque sou mais assim e menos assado.

Vou me dando conta que entre fins, meios e começos, deixei um menino para trás, um moleque sonhador que cheirava a relva e sonhava com as luzes de um palco. Acho que ainda sou um pouco assim.

Como um cisne negro, desloco minhas dualidades para que dancem e jamais se entreguem ao sono da previsibilidade que apaga a surpresa, o encanto, a criatividade. Picardia não se apanha ao relento, se tece como rede, entre os vários fios, pontos e nós do dia a dia.

Entre minhas penas, me faço cisne, pombo, águia e galinha, falcão de vez em quando. Entre alçar voos, rasgar nados, ciscar terrenos, passo tempos pensando que sou pássaro, para que passem os dias e eu chegue lá.

Imagem capturada aqui.

24 de junho de 2011

Quando o fim se faz em azul

A dor é a personagem que melhor atua quando a cena é o final de um romance. Todavia, ainda é possível não ser piegas ao produzir imagens, ações e canções para dizer que um amor acabou.

O fim de um processo, o fim da permanência em um local, o final de um curso, o fim de uma relação... Elementos vivos se cruzam com a imagem viva na tela. Vida e cinema se abraçam e trocam afinidades fazendo do corpo (m)eu, o lugar desse encontro melancólico.


"Blue Valentine" (2010), que nada tem de "namorados para sempre", é um filme desses que se arrastam com a gente para casa. Consegue pintar de um azul doído o fim de um relacionamento e reporta-nos para as tantas perdas que na vida ganhamos.

Michelle Williams e Ryan Gosling atuam numa espécie de tradução carnal dos malgrados que um fim pode instaurar. Devolvem-nos a inocência e a culpabilidade das sentenças que uma convivência decreta.


Talvez, o que nos namore para sempre sejam os tons azuis, ou de outras cores também, de um fim que volta e meia torna a terminar na lembrança que não finda. Enfim, finitudes assopram nas estridências de uma voz feminina que, cantando, se intercala ao coro que insiste... "You and me... You and me..."

Imagens capturadas aqui.

4 de junho de 2011

Magnetizando sentimentos de metal


Quando se está aprendendo a ser só acontece um tipo de mutação. O homem de ontem não é mais o de hoje. Em mínimos percentuais a evolução vai instaurando suas transformações cotidianamente. Somos ex-homens, x-men, que se modificam em suas relações.

Sem apologia à diferença e sem vitimizações simplórias, entendo que diferir pode doer. Assumir postura provoca ruptura, implica em constituir uma pergunta, no corpo que se é, que nem sempre pode ser respondida.

O personagem Magneto (Michael Fassbender) do filme "X-men: first class" (2011), dirigido por Matthew Vaughn, é um menino que descobre aquilo que pode em meio às perdas afetivas que vão se concretizando em sua vida. E um cuidado importante que se configura é equilibrar o poder entre a raiva e a serenidade.

Quando alguém que nos constitui é tirado de nós, forças quase inexplicáveis ditam normas que soam como lâminas afiadas, enrubecem o corpo e dissolvem o filtro da ética que por vezes guia o agir. Perder, possibilita ganhos contraditórios, que anseiam por um equilíbrio que nem sempre temos de imediato.

Aleatoriamente, vamos tecendo modos de despir a diferença que constitui o eu opositor que somos. Entre malandragens e hipotermias emocionais, se ajusta um corpo que interfere no ambiente por onde passa, magnetizando sentimentos de metal, seus e de outros.


Imagem capturada aqui

4 de maio de 2011

Para recriar Kahlo no Corpo


Pintei o céu de azul celeste
Quando acordei com o dia nublado e de cor
Triste amarelada fiz o dia entardecer.
Eu me canso de chorar e não amanhece.
Bem no meio da minha pelvis ouço um grito
Interminável, choram lágrimas vermelhas
E eu rio melancólica, dessa vez não menstruei.
De Narcíso sinto e pinto o espelho do meu mundo
Do meu amor, eu sou perfeita!
Faço dos meus passos, coloridos
E atravesso o universo correndo.
Olhos que enxergam a alma, as cores
Os calos da minha vida souFrida.


Texto: Ricardo Albuquerque
Foto: Odailso Berté

22 de abril de 2011

Paixão de Corpos Tristes


Meu corpo em um triz tece dezenas de aves Marias, Ritas e Fátimas, (des)penadas de tanto acudir os filhotes que sobem e não conseguem descer.

Se a (c)alma me falta, é porque o corpo em quietude lança chamas dormentes e chama de volta os malgrados expulsos do paradisíaco (en)canto em que vivo.

Entre a cruz e a espada pairam cor, ação, fé, dor e tantas coisas mais. A dessemelhança também pode ser mera coincidência quando o mar vermelho se fecha para balanço de ondas.

Esta sexta, de santa tem só a intenção, pois a vontade é de quinta. E o momento em que encontro, me apresento, me contento e dou de ré ao satanás, pois faz sol assim. Deu sim, é bom, daremos todos um jeito nesse meu tempo que está relampejando.

Vou para a rua que me chama a proferir ousadias, para a chuva que me convoca a engolir melhorias, para a cama que me atesta tantas euforias. Ligeiras palavras vão passando pelo canal, mas raras são as que atingem o óvulo, nesse orgasmo lingüístico.

Assim seja. Amém, tiras e verdades retalham, apaixonadamente, a vida sacra desses corpos em um triz tecidos de amor em fios.

Imagem capturada aqui.

21 de abril de 2011

Com Pina Bausch, "para mim tudo é Japão"


Para Pina Bausch não havia limites entre céu e terra, tampouco desmistificações a serem feitas por quem vê um espetáculo seu pela primeira vez. Para esta coreógrafa, um dos gênios que teceu pontes entre os séculos XX e XXI, tudo pode ser motivo para dançar, desde os clichês até as formas mais indiretas de se referir a um conceito, uma pessoa, um lugar.

Em “Ten Chi” (Céu e Terra), espetáculo apresentado no Teatro Alfa em São Paulo, de 11 a 19 de abril de 2011, aparecem alusões muito concretas acerca do Japão experimentado pela coreógrafa e seus dançarinos durante a estadia na cidade de Saitama.


Situações corriqueiras, frases aparentemente esparsas, coreografias que se fazem parecer aleatórias, dramas e risos que aprofundam a atenção do espectador confeccionam uma trama complexa, permeada de poesia e de belas frugalidades humanas.

Um Japão sem gueixas, samurais e sushis óbvios. Um Japão onde a gueixa, o samurai, o sushi, o kimono, o rachi, podem ser eróticos, cômicos, dramáticos, complexos, elegantes e banais. Um Japão povoado de acontecimentos que podem ser sentidos como universais. Um Japão onde a tecnologia, a espiritualidade, o medo de terremoto e a caça às baleias, entre tantas outras, tornam-se situações vinculadas às escolhas que brotam das possibilidades advindas das relações entre corpos (est)éticos.


O sono como ensejo de sonhos, o nado como convite ao mergulho nas especificidades espalhadas pelo cotidiano. Perguntas como “Você sabe roncar?” e “Você sabe o que cai bem com champanhe? Eu!” fazem as situações vividas no palco atingirem um ‘entre-lugar’, que não é, e pode ser, tanto o popular quanto o erudito. Entre as tantas falácias de ‘anti – in – definição’ do que é contemporâneo, vejo na obra de Pina Bausch um exemplo concreto de um pensar-agir contemporâneo.

Uma baleia semi-mergulhada atravessa o palco permitindo espaços para os corpos se moverem. Essa baleia em momento algum é tocada pelos corpos, eles apenas dançam momentos da vida em torno dela, com afetuoso respeito e reconhecimento dos espaços que eles e ela necessitam para dançar e viver. Cálida e continuamente a neve vai caindo e cobrindo o palco de uma brancura esvoaçante. Baleia e bailarinos desenham um nado que em nada foge das doçuras e amarguras da vida, que podem ser vividas do Oiapoque ao Chuí, do Brasil ao Japão, de Ten a Chi.


Mais que ideias prontas a serem desmistificadas, Pina Bausch deixa perguntas que fazem o pensamento e o sentimento seguirem dançando depois do espetáculo.

Imagens capturadas aqui, aqui e aqui.

13 de abril de 2011

Me olhando bem


Recordo poemas e crônicas de Martha Medeiros e me vejo meio desistindo e meio lutando pelo verbo amar. Difícil discorrer precisamente sobre ele quando a conjugação atesta incompatibilidades.

Lentamente, as coisas vão voltando para o lugar, ao soar canções de Daniela Mercury, ao sombrear imagens de vampiros, ao saborear sangue e mercúrio das feridas no âmago do afeto sonhado.

O ontem já não interfere nas conversas de amanhã e muito menos nos devaneios de hoje. Pelo menos não até agora. Depois vemos o que pode vir ainda...

Sem traje a rigor passo por ultrajes inofensivos e me ofendo ao desnudar minha consciência pelada de sonhos e peluda de medos.

Revivo lembranças do colo da mãe, da voz de Natasha, dos passos incertos de uma adolescência santa e inquieta, onde a dança ia e vinha sem dizer ao certo o que queria de mim.

Sou o mesmo com enfeites mais arrojados? A que diabos vendi minha alma? Será que tive alguma um dia?

Parabéns pra mim que, como Adélia Prado, me entendo "bicho de corpo", dançarino de área, amante de berço e dramático de carteirinha.


Foto: Odailso Berté

12 de abril de 2011

8 de abril de 2011

Danço, pois do contrário estou perdido


Pina
Pinçou movimentos de perguntas
Pendurou percalços humanos em paredes polidas
Pensou problemas em forma de prazeres
Preferiu passos pequenos
Pediu pedaços de paixão do peito, dos pés e da pele
Primou por percursos primaveris
Passou pouco tempo por aqui
Prometeu possibilidades em dança
Protelou performances pertinentes
Prostrou-se promissora
Permanece nos poros que possuo





Imagens do filme "PINA" de Wim Wenders
Capturadas aqui e aqui.

7 de abril de 2011

Olhos sem face


Pensando em imagens que se deformam ao longo do tempo, vejo alguns semblantes que passaram por mim e sei que se parecem tanto com o retrato de Dorian Gray.

Lugares me marcam, como também canções, toques e afetos. Mas atitudes perversas de omissão, mesmo quando a ferida sara, evidenciam uma cicatriz que se prolonga na lembrança de uma imagem corroída.

Não era pra ser assim, mas somos as escolhas que fazemos. Mesmo que Sartre tenha razão em podermos mudar aquilo que nos fazem, por vezes, somos aquilo que fazem de nós.

Inventar um outro eu é como trocar de alma com uma pintura bonita de si mesmo, é como ser um Narciso nefasto que se vende por tão pouco, se mata crente de que se ama.

É atribuir a responsabilidade de viver e se relacionar a uma imagem bonita de si mesmo, impostora, que se dilui ao menor contato com a verdade.

Ser uma imagem pintada no ensejo da relação e não previamente esboçada com os tons da mera aparência.

Ser uma imagem que me resplandeça sem maquiagens e subterfúgios, desafio inerentemente humano.

Ser uma imagem que permanece no afeto do outro e ali se mantém pela sinceridade da entrega.


Imagem do filme "O Retrato de Dorian Gray"
Capturada aqui.

21 de março de 2011

meigos estilhaços


Invejando o que os outros veem de bom em mim, vou inventando jeitos diversos de ver as imagens dessas paisagens alheias de mim.

Os temores do amor apontam a seta da parada obrigatória, descer, esperar outro meio, permanecer num inteiro, procurar um parcial. Quem sabe?

Um levante se arma nesse exército solitário, batalhão “eu 32”, pronto para a luta, mas sem causa, sem estratégia e sem armas. Só o peito aberto.

Para quem só quer a companhia preciosa do amor, metáforas de guerra não atingem alcances esperados, só denotam a fraqueza do combatente de trincheiras vazadas.

Entre as pressões que empurram, sobem e descem, vai se desenhando um mapa desprovido de contentos, mas dotado de acalantos calados, traços e tantos.

Só o que há de vir dirá como será e quem sabe assim se entenda o que é agora e o que foi ontem. E para me amar um pouco, rabisco estas autocartografias simplórias, delicadezas de um louco.


Imagem: Obra "Dois nus num bosque" de Frida Kahlo.
Capturada aqui.

16 de março de 2011

(m)eu agora


Pedaços do passado se juntam a meados de saudade e constroem um dossiê de perguntas, toques e ideias levemente doídas.

Sou eu mais uma vez solto em meio aos desatinos que esse destino de agora me tem regalado. Se eu aderir a eles, desisto de outros quereres, prazeres e outras coisas.

Atento, tento não desviar das vias que tem deixado meu eu mais neutro de destroços. Normalizo o andar e o sorriso para que o tempo me veja passar com serenidade mais amena.

Eis o homem que ontem foi menino, sonhou ser dançarino e ainda cultiva desejos semeados em canteiros por onde até hoje garças sobrevoam cheias de graça.

Sabendo que meu discurso é dito e feito no corpo, vou além das tendências que me tentam a ser modesto nas tentativas. Tempestivas licenças liberam meu eu para mais amor sem mais delongas.


Foto: Odailso Berté

10 de março de 2011

Daniela Mercury sabe carnavalizar com arte

Teatro... Eu queria ser uma outra personagem cada dia, dirigir e escrever, vestir tristeza e alegria.


Artes Visuais... Pela lente dos meus olhos fazer do imundo poesia.


Dança... Esculpindo palavras e notas e gestos, escrevendo cores, desenhando gestos. Um mercador de sons, de sonhos. Um mercador de movimentos.


Música... Num batuque apaixonado fazer samba lá na tela, com você sempre ao meu lado pra mostrar que a vida é bela.



Citações da letra da música "Trio em Transe" de Daniela Mercury.
Imagens capturadas no
site de Daniela Mercury.

8 de março de 2011

Será que era eu quando ela passou por mim?


Começo com a pergunta dos Tribalistas, na canção “Carnavália”, para lembrar daquela mulher explodindo emoções, expelindo vibrações pelos poros e incendiando a multidão que me continha. Me pergunto, por que isso me toca com afeto tão intenso?

Dani, ela, mulher, bailarina, mãe, cantora... Me soa como irmã, como rainha, como pessoa que ensaia para tocar corpos com o fluxo que parte do seu.

Estive como ponto minúsculo entre os tantos que festejavam envolvidos pelo som e pelo laço dessa mulher maravilha. Um microfone, a potência sonora e a altura do trio nos distanciavam numa proximidade que fazia dançar por encantamento.


Olhá-la cá de baixo, tão altaneira em cima do seu palco que desfila, tornava-a ainda mais intocável. Pessoa de verdade dando vida às imagens sonoras de “Swing da Cor” e “O Canto da Cidade” que saltaram para fora de minha memória menina e se entrelaçaram com a performance em ação.

Da noite de 07 de março de 2011, no carnaval de Salvador, ficam o cansaço, aquela voz que ainda ressoa aqui no corpo, a emoção que sua imagem me traz e um desejo sem nome, sem voz e sem forma que só sussurra num canto abafado dentro em mim para que algo aconteça...



Imagens capturadas aqui.

6 de março de 2011

enquanto o Crocodilo não passa




Me enfeito de Abaporú pintado em abadá e, como canta a rainha, espero ter um futuro aquecido num gerador de estrelas e, pro meu bloco Crocodilo, um choque de beijos pra ver tremer esse céu de março. Sonho brincar com Tarsila e dançar com Daniela: me leve na avenida com você...


Referência à música "Trio de Metal" (Daniela Mercury)
Imagens digitalizadas por Odailso Berté

4 de março de 2011

carnavalizando só





Enquanto grande parte da cidade de São Salvador brinca o carnaval, brinco com imagens seguindo um trio em transe dentro de quatro paredes.
Pensando que o amor é bobagem que a gente não explica, misturo Danielas e Arys, Mercury e Barroso, como moço do lugar que sobe a Baixa do Sapateiro e acredita que a terra da felicidade só traz mesmo é a saudade.


Imagens do Filme "Você já foi à Bahia?" - Walt Disney
Capturadas aqui.