17 de setembro de 2012

Sobre sol e vento, beijos e bichos


Por vezes parece tão patético escrever sobre o que se vive, se pensa, se sente, que dá vontade de mandar o mundo se lixar. O mundo, as normas acadêmicas, os textos, as avaliações, a constituição. Até a dança, que na sua roupagem contemporânea, por vezes parece queimar as lantejoulas para vestir-se da mais abstrata massa cinzenta.

Na vida a gente bate perna pra chegar nalgum lugar, bate a cabeça pra decidir o mais correto possível, bate cabelo pra extravasar, bate portas pra cuspir a raiva, bate em portas pra que ambientes se abram, e o coração, essa metáfora pra falar de sentimento, também bate bombeando necessidades corpo afora.

O vento batia sofrido nas paredes, fatigado pelo calor, movia as etiquetas de viagem ainda não removidas da mala sobre o roupeiro. Uma saudade doída dos que ficaram e daqueles que estão por vir. Um resumo do querer ir embora ficou embrulhado no bilhete sobre os livros. Nada novo sob o sol que escalda cada fiapo do sentimento.

Sinto que trisco na dança sem dançar, toco no amor sem amar, vejo e só solidifico as imagens que a retina capta. Elas é que servem aos meus desejos incontáveis. Poucos dos humanos, contemporâneos meus, entendem que uma oportunidade já seria o meu troféu, que um beijo seria meu gozo, que um chão sem linóleo já seria meu palco, que um olhar cumplice já me clarearia o caminho.

De recompensa, em mais esse dia de baixa pressão, o 'leãozinho' do Caetano, tão fofo, me disse "pára de se entristecer". Minha pele, minha luz, minha juba ficaram enrubecidas, tontas de ternura. Já o 'passarinho' do Alexandre Nero, chegou de mansinho e me mostrou que "não tem nada, porque nada deseja", mas que "a terra verde é sua, o céu azul é seu". Daí que vi que ele "tem muito, muito, muito mais que eu".

Levantei os olhos, revi o que tinha escrito, mudei parágrafos de lugar, troquei de música. As batidas continuam, o vento me coça as costas, a dança segue com a mão estendida conclamando-me para a pista. Falta-me um beijo pássaro, um afago leão, um dia a mais para deixar que a continência se perca na noite e prostitua minh'alma, essa invenção ingênua do (m)eu corpo que geme saudades, desejos e conflitos.

Foto de Odailso Berté.

4 de setembro de 2012

Eu, romântico? I'm so worth it


Minhas pieguices e erudições seguem se misturando no jeito de andar, escrever, pensar, sentir. Até de romântico foi chamado meu modo de escrever. Não entendi se foi elogio, piada ou ironia, mas era verdade, adoro um temperinho para letras e sentidos. Mas não é forçado, it's so natural, misturas de filosofias e danças.

Com textos tão focados em história visual, meu filme cotidiano ganha trilha sonora de Wanessa (a filha do Zezé Di Camargo). Nenhuma incompatibilidade gritante, valha-me Adorno! A não separação do visual dos demais sentidos, proposta pelo texto, reverberou para além das elucubrações e me fez cantar e dançar empolgadíssimo: "When you see what you lost, you won't wanna pay the cost, you'll curse it, I'm so worth it! Just shut up, let me say, don't throw it all way, we were perfect, I'm so worth it... I'm so worth it".

Sinceramente, só o texto não teria jogado tanto gliter na auto-estima. Indústria cultural? De massa? Que massa! Use com moderação e faça carão de "bunita" para os marxistas de plantão, faz um bem danado.

Falando nisso, entre os filmes que deixaram imagens escorrendo pelo corpo, lembro de Meryl Streep vivendo a dona de casa contida e sonhadora, tentando salvar seu casamento em "Um divã para dois" (2012). Ao final do primeiro exercício dado pelo terapeuta, o semblante  satisfeito da mulher que se sente vitoriosa ao acordar envolta nos braços do marido enternece todas as vontades de amar que habitam o espaço/corpo que somos. Como nunca, dormir/acordar de conchinha me pareceu tão gostoso e necessário.

Com lindas e coloridas referências dos anos 80, "Rock of Ages" (2012) reascende o sonho vivido em "Burlesque" (2010), e em vários outros filmes, da moça que sai do interior para buscar o sucesso na cidade grande. Mas quem não fica enrubecido com sonhos assim? Eu me derreto todo refazendo todas as coreografias do musical qual protagonista possuído em 3D pela arte. Da coreografia dentro de uma igreja, liderada por Catherine Zeta-Jones, às coreografias no pole dance, na Venus Club, sob o vozeirão de Mary J. Blige, transporia qualquer limite ou moral, só pelo prazer de dançar, de discursar impropérios e conceitos com corpo.

Pois é benzinho, posso ser romântico e áspero, casto e promíscuo, pop e erudito, dançarino e filósofo, streaper e conferencista, monge e carnavalesco... Na mesma toda, no mesmo gingado. A questão é: qual deles você paga pra ver? a qual deles te apetece evocar?

Imagem do trailer do filme "Rock of Ages".

2 de setembro de 2012

"Cozumel? Acho que não vai ter mel..."


A cada bala de mel que saboreio, ferrões e doçuras se cruzam no paladar a lubrificar uma garganta doída, meio seca. "Cozumel? Acho que não vai ter mel...", lastimou duvidoso o novato garçom. Entalados, desejos mudos arranham conversas engolidas num "cala a boca" decidido. "CON...ZU... MEL...". Não, querido, C, O, Z, U, M, E, L, sem "n", como meu nome.

"N" alternativas seriam possíveis, mas a que restou é dormir com o cachecol vermelho xadrez, aquecendo-me a garganta. Fazendo-me companhia entre os travesseiros a escrever histórias de cama.

Apesar das dúvidas que semearam em mim, e que as vezes um e outro personagem dissipa ou confirma, o risco de manha que a garganta arranha, em mim assanha essa rima previsível me exigindo barganha. Mesmo que o garçom erre o nome do drink e desconheça o cardápio, o bar ganha.

Gostaria de escrever sobre a viagem que não almejo fazer, sobre a novela que acabei de ver, sobre o texto que preciso ler, mas aquele cachecol não pára de tremular na beira da cama.

Não é ritual de espera, não é prece ou simpatia. É só um restinho tolo de vontade que se apoia num pedaço de pano vermelho xadrez. Artefato pequeno que deixa grande o descuido. Além de aquecer a garganta que mais nada pede, ele recorda um outro 'não' da série que tenho colecionado.

Seu 'não' se mistura ao mel do sol que escorre cerrado afora, meio dia em brasa; se junta ao nada que me prende aqui; pigmenta em vermelho lençóis e travesseiros; joga no xadrez o raquítico desejo que se fez nó na garganta.

O garçom há de entender, um dia, que Cozumel só parece doce no nome. Já eu, erotizo o castigo de Judas tecendo ternuras na nuca sem sal e limão. Nesses avessos, o charme de um cachecol em pleno verão me diz que ainda faz calor aqui dentro, mas só estou aqui passando uma chuva.

Foto de Odailso Berté.

26 de agosto de 2012

Indelével recado


Caro amigo mascarado de ladrão (ou vicer-versa), qual será seu próximo disfarce? De Papai Noel ou quem sabe de Madonna, pra me agradar? Tenho de concordar que suas estratégias são táticas de novela. Me pergunto qual dos grandes autores globais usariam tais genialidades que você retira de seus mundos paralelos. Comparadas a você, "A próxima vítima" e "Vale tudo" são piadas previsíveis e sem graça.

Pensou que a ficha demoraria muito para cair? Até onde você deseja que eu lhe dê corda? Vou segurar aqui, pois você já está na beira do abismo. Veja com seus próprios olhos e cuidado com a queda. Que ela lhe conserve pelo menos os olhos esbugalhados para que possa ver que continuarei em pé enquanto você definha.

O que você realmente deseja de mim? Apenas esses aparelhos estúpidos que podem ser adquiridos em qualquer esquina? Pois se contente com sua insignificância e insucessos, aquilo que sou jamais lhe pertencerá. Meu conteúdo e estrutura, meus modos de ver o mundo e dar sentido às coisas jamais serão seus. Nem nascendo de novo o conseguiria, pobre diabo. Um dia você acaba se afogando nesse inveja lamascenta qua transborda pelo seu olhar peçonhento fingindo ares de inocência.

Sei que viestes no tempo certo, na hora marcada. Sei também que uma exposição, um café e um terreno baldio podem lhe servir de alibis. Sempre preferi acreditar que as pessoas são boas e que não existem complôs. Mas querido, você é a prova viva, o complô corporificado, ontem e hoje. Agora, fique atento, eu também posso ser um garoto mau, a meu modo, claro, sua sujeira não me contamina.

A lei do universo é ciclica, portanto, sua parte chega em tempo, confie. Não saímos ilesos da maravilhosa aventura terrestre. Me desculpe, eu já tenho rido com seus infortúnios e estou certo de que meu riso se dará em coro, orquestra e sinfonia com o que há de vir. Não por maldade, eu juro, não sou como você. Apenas por prazer, para aliviar as tensões que você deixou. O que, tenho certeza, são bem menores que sua desgraça.

Entenda, o que você realmente necessita é impossível de ser roubado. E se cuide, seus malgrados podem estar lhe esperando bem ali, na próxima esquina.

Imagem capturada aqui.

25 de agosto de 2012

Tietagens, preces e negações

 
As gotas quentes foram tocando-lhe a cabeça, encharcando os cabelos fio a fio. Pensamentos humedecidos, lembranças como unguentos escorrendo pelo corpo, molhados anseios, baldes de agua fria nas vontades. Desejos de escrita e representação, comunicado qualquer.

Não quis mais arregaçar as mangas, os 'nãos' que lhe foram dados em tão pouco tempo apontam a necessidade de ajuntar pedaços. Vendo-se como peixe e seu próprio pescador, apesar do banho, do suor e das lágrimas, encontra-se fora d'água.

Concursos, projetos, amores, furtos, compras... 'Nãos' encadeados como coreografia, sem entorno, sem fuga, sem arrego. Diretos, sem rodeios, cortantes. Bem mais que Pedro em suas míseras três vezes, negado, credo em cruz, agnus dei. Engolindo caroço de caju podre. Chateado com a academia que só faz é o povo engordar ao invés de ficar bonito. E, ainda, roubado, por ladrão infeliz e mequetrefe.

Os risos desses dias são contados com marca páginas rosa adornado com flor verde e amarela. Ele conta as folhas dos enredos da diva brejeira de Jorge Amado, puta e santa, cabrita e pomba, diva das dunas de Mangue Seco. Ela é quem lhe cochicha possíveis voltas, desgraças que podem frutificar ganhos nem sequer esperados. Eta, seria uma luz de Tieta?

O que ainda cabe a um cabrito, com porte de bode, que destrincha a idade de Cristo sem mistérios gozosos? Só terços dolorosos, em quartos sozinho. Melhor seria o quinto dos infernos, por segundos de paz e fogo... Velas perpétuas acesas, mais magras que a necessidade que o ronda. E ele é só um misto de cabrito e pastor que almeja um campo de aveia verde para dançar. Esse, o céu dos seus sonhos.   

Voltar? Rever o percurso de antes? Ou apenas entender um aparente regresso como parte do trajeto a seguir? Afinal, a vida não é tão linear como pretendem os clássicos historiadores. Dessas humidades, talvez outra cidade, da saudade, quem sabe felicidade. Se faz sentido pensar de modo rizomático: Amém! Que assim o seja.

17 de agosto de 2012

Não cabendo no peito, transborda pelos olhos


Eu queria vir a pé, mas uma solidária carona não deixou que gastasse o solado do tênis adentrando a brisa pelas ruas da noite, claro, lembrando você... Quando o ego dá esse rumo para o pensamento, o id pronuncia seu olhar de reprovação e veta toda e qualquer verba de consolo. Nesse tema eles não concordam, daí me percebo falando sozinho, sendo meio dualista, daquele jeito que não gosto e tanto critico.

No cinema, "À beira do caminho" (2012) conseguiu (co)mover lágrimas, saudades, lembranças e perdas através da simplicidade de frases de parachoque e canções de Roberto Carlos. Eu que nunca pensei chorar ao som do Rei, vi meu orgulho derrotado e o id - isibido - se desmanchando numa larga escala de risadas de pura satisfação.

João, Duda e Rosa saltam da tela e fazem da sala escura um pedaço do cenário de minha vida: das vezes não feitas de um pai, de um filho carente e sonhador, dos amantes que tremem ao mínimo toque e sofrem pela distância, por perdões e voltas. Poeirentas estradas, boléia de caminhão, fotos, um único cd, um endereço não mais habitado, afago materno, elementos que enredam histórias para dizer que viver é como desenhar tendo apenas lápis, sem nenhuma borracha para apagar. E que quando a saudade não cabe mais no peito, é pelos olhos que ela transborda.

Não bastasse as delicadezas do filme que perfuraram as membranas e autodefesas do ego, o debochado id, sem dó nem piedade, ainda destaca uma das canções do enredo e canta que canta, dança que dança... Sambando na cara do indefeso ego. Insisto em não ouvir, mas quem disse que o ingrato se cala?

Como Petrolina (um dos cenários do filme) faz divisa com Juazeiro, a noite me trouxe o perfume do agreste de Tieta, do Mangue Seco baiano. Entre o sabor de pamonhas e tantas possibilidades de navegação, Tonha, Perpétua, Amorzinho, Carmosina e a Cabrita Master inflaram saudades do tempo em que meus olhos infantes não bebiam a ousadia das insinuações vividas pelas personagens inspiradas na obra do amado Jorge. Hoje sim entendo que os berros de Tieta, se fazendo de cabrita, eram a mais pura intensão de uma lua cheia de tesão.

Despedi a carona, tomei o rumo da cama e tentei deixar as memóras do dia à beira do caminho. No entando, o chato do id, possuído por uma entidade cabrito,  segue seu cantarolar agora quase em ladainha. Insatisfeito por não encontrar a versão do filme, de Nina Becker, ele tasca em meus ouvidos a canção na voz de Marjorie Estiano, e assim me embala para dormir:

... Esqueça, se ele não te ama, esqueça, se ele não te quer
Não chore mais, não sofra assim
Porque posso te dar amor sem fim
Ele não pensa em querer-te, te faz sofrer e até chorar
Não chore mais, vem pra mim, vem
Não sofra, não pense, não chore mais, meu bem ...

E assim dorme o ego, tendo o id ninando seus sonhos que vão lentamente se desvanecendo num percurso que mistura fatos, filmes, fotos e fins... Fazendo da cama a continuidade de um caminho cheio de eiras e beiras.

Imagem editada da original capturada aqui.

16 de agosto de 2012

Sobre diabos, confissões e tipos


Sim, sou do tipo que idolatra Madonna, chora com comédia romântica, às vezes tem vontade de morrer, adora assistir e cantar com as empreguetes, se decepciona com a Joelma dizendo que Jesus pode curar um gay, acredita em amor, assiste várias vezes "O diabo veste Prada" e "Miss Simpatia", sofre quando não é aceito, lê "Os diários de Carrie" e torce pelo "Sex and the city 3". Triste demais pra você? Problema seu. Ah, também sou filósofo, dançarino e quase doutor, se ajuda a manter seu ar de reprovação. Se isso fosse bate-papo, agora viria um KKK.

Existem diabos que vestem Prada, diabos que roubam Dell, diabos que ouvem Madonna, diabos que inibem afeto. Adoraria vê-los todos juntos, cada um dizendo a que veio, sem se esconder ou ter que arrombar portas. Adoraria dormir com o inimigo, isto é, se já não o tenho feito.

Sou do tipo que não faz a linha "Baby" (da Família Dinossauro): "Você tem que me amar!" Todavia, sentir saudade de algo que não tenho, às vezes incomoda bastante. E vejo, descaradamente, o quanto se tornam patéticos os que se acham "os desejados", ridicularizando os desejantes. Tão patético que dá canceira na paixão.

Não tenho ouro nem prata, incenso ou mirra. Não tenho paciência para tratar quem quer que seja como rei, messias ou senhor. Não tenho oferendas para conquistar afeto. Apenas constato que mesmo se fosse livre, se afogaria nesse poço do sentidos, afeto e prazeres que posso ser.

Quase como canta Madonna em "Evita": Eu não espero que meus romances deem certo ou durem muito, não me iludo mais que sonhos vão se realizar. Acostumado aos problemas, eu os antecipo, todavia, odeio isso. Você não odiaria? Nas intempéries da vida se aprende a remar, construir, esquecer, perder e obter ganhos que vem das margens.

Sou do tipo que vai e volta sem stresses para recomeçar, quando a paciência permite. Acostumado a perdas grandes e menores, como de mãe e de computador, digo que estou de volta. Podem tirar-me os anéis, que ainda terei dedos para coçar o saco e o pescoço. Podem levar os instrumentos, pois as ideias, as imagens, os gestos, o ímpeto criador de cada ação segue pulsando aqui dentro. Pode tentar inibir meu afeto, pois eu... Posso dar um jeito nisso também... "You'll see"!

Imagem capturada aqui.

5 de agosto de 2012

Amizade em fase de teste


Alguns conhecidos, ao partilharem suas experiências com seus supostos amigos, por vezes me intrigam a ponto de mobilizar a vontade redativa. Talvez os tais supostos amigos nem reflitam com acuidade acerca do que dizem, talvez nem conheçam o sentido da palavra acuidade. E para pensar sobre tais ditos nem é preciso recorrer a Freud, Sócrates, Darwin, Jesus ou qualquer outro figurão. Os Backstreet Boys já fornecem pertinentes possibilidades reflexivas: Diga-me por que   (I want it that way); Mostre-me o significado de ser sozinho (Show me the meaning of being lonely).

Até que ponto um tema/situação assim merece atenção e a mobilização de reflexão e palavras? Qual seria sua reação se uma pessoa que você admira dissesse que a amizade entre vocês está em fase de teste? Nesta "admiração" não imagine uma paixonite boba, mas coloque ingredientes como bem querer, apoio, solidariedade, estímulo profissional, entre outros sentimentos, gestos, auxílios. Mesmo assim, a pessoa que você admira diz que está lhe testando.

Quais os pesos, níveis e medidas que podem estar sendo testados? Os ganhos, as possibilidades, os lucros que o outro pode favorecer? Relações seriam um tipo de experimento em que um sujeito neutro observa e pesquisa o outro/objeto para testar até que ponto este pode lhe servir? As relações seriam isso: experimentos premeditados, testes?

Um comentário curioso, do conhecido que passou por esse incidente, dizia que, tais amigos testadores, quase sempre, podem ser pessoas que usam de supostos sentimentos no intuito de adquirir, ganhar, obter, receber, angariar coisas/possibilidades/seguranças com a relação. Com o tempo se percebe que, como passam boa parte da vida apoiando-se em uns e testando outros, pouco constroem de sólido, que venha de seu esforço ou cooperação. Vão-se as relações/testes, vão-se os ganhos e as seguranças. E o que fica? Então diga-me, por que?

Será que para esse tipo de amizade vale o conhecido dito popular "antes só do que mal acompanhado"?

Sigo acreditando que as relações devem simplesmente acontecer, discorrerem pelo espaço-tempo, serem vividas como uma experiência que não tem cartilha, avaliação e revisão preestabelecidos. Eu prefiro desse jeito: os modos de ser/agir/sentir de ambos os sujeitos envolvidos vão mostrando limites, trocas, cumplicidades... Que não necessitam ser testados a priori, mas sentidos, experimentados e compartilhados ao longo da relação que é sempre algo processual.        

Imagem capturada aqui.

31 de julho de 2012

Bicho de corpo


Eu o quis com paixão e o vesti como um rito... Ficou meu cheiro nele, meu sonho, meu corpo ido. Agindo como faca contra a pele, a vida me ganha em ironia e hipocrisia... A mesma pele que me veste e me faz refém.

Me faço de inseto que se lança às chamas, danço com o diabo mas retenho meus demônios. E o diabo ainda uiva algemado nas profundezas do inferno enquanto eu tiro a roupa do corpo, pois ele sabe que eu tenho um corpo talhado para prazeres só e guerra. Ele sabe que meu coração palpita desesperado onde minhas pernas se juntam.

Mesmo quando a tribulação insiste em me seduzir, eu creio que essa vã oração poderá me manter respirando. O formigamento no peito, quando tua presença se impõe, é como se toda minha força quisesse curvar-se. Mas a pele, que só altera a temperatura, mantém-me exilado.

Não deveria contentar-me com esse pouco que se faz sempre tão suficiente. Se correr, a direção é única, uma ideia de exílio e túnel. Vendido, trocado por miúdos, pedinte, provando das escórias do afeto, prostituindo os desejos do corpo e a metafísica que exclamam indulgentes: como és bonito!

Quero ofertar-lhe as vontades do meu corpo, mostrar-te que estou pronto e do que sou capaz. Dizer-te que uma alma quer outra alma e seu corpo e que sem o corpo a alma não goza. Guia-me com teu cajado, rega-me com teu poder, sabedoria e verdade, ser divinamente humano.

O calor que teus olhos me inflamam, os arrepios que teus pelos me tecem, a excitação que tuas mãos me trazem, seguirão impressos a ferro e fogo na linha da vida que inicia na palma das minha mãos e se ramifica por todas as partes, altas e baixas, do (m)eu corpo.

Habito nele, e mesmo que minha condição não permita e que a fogueira possa ser meu destino, invado a inquisição e imploro: O que farei com este corpo inóspito já que não respondes nem me abres a porta?

E toda essa fugaz imagem, mística e erótica, fica num modo tristonho de certos entardeceres, quando o que um corpo deseja é outro corpo para escavar. Assim, entre fósseis dessa arqueologia estética e pérolas de Wynter e Adélia, sigo imaginado que ter um corpo é como fazer poemas: pisar margem de abismo.


Paráfrases, citações e adaptações da letra da música "Stimela", de Wynter Gordon, e de poesias de Adélia Prado, da obra Poesia Reunida.
Foto de Agno Santos.

28 de julho de 2012

Batman, entre terroristas e rosas, morcegos e gatas


O que pode haver quando rosas crescem nos caminhos de morcegos, gatas e terroristas? Qual a medida e o limite da entrega de alguém em prol de uma causa, nação, povo? A que custos um homem pode se tornar herói?

O bem sucedido e nascido em berço de ouro Bruce Wayne (Christian Bale) divide sua vida entre ser o homem de negócios e festas da alta sociedade e encarnar a secreta identidade do herói homem-morcego. A máscara de Batman, como ele próprio sustenta, não é para se esconder, mas para proteger aqueles que ama.

A sedutora e nascida sem berço Selina Kyle (Anne Hathaway), alterna sua vida entre bancar a boa moça trabalhadora e ser a gatuna que alega roubar para comer e que se alia a bandidos quando preciso. Uma identidade felina de quem sabe agradar quando necessita, que teme diante do mal e treme diante do amor.

A ladra e o abastado dançam no mesmo baile. Sussurrando ao pé do ouvido, a gata arranha a consciência dele: "Acha que isso pode durar? Uma tempestade se aproxima [...]. Quando ela chegar, vão se perguntar como acharam que podiam viver com tanto e deixar tão pouco para o resto de nós."

Entre textos, imagens e metáforas que falam de nossa própria sociabilidade, das desigualdades sociais, do quanto podemos ser ideológicos e viver em torno de discursos inócuos, um terrorista insurge contra o poder local. Seu desejo é destruir a lendária cidade de Gotham usando como arma uma bomba atômica que os próprios ricos empresários criaram com o intuito humanitário de gerar energia sustentável.

Que doce ironia, quando o produto escapa das mãos do criador e ameaça destruí-lo junto de tudo o que ele mais ama. A Rosa de Hiroshima, cultivada pelos humanos, ameaça florescer para embelezar os seus túmulos. A rosa mostra seus espinhos, o morcego suas asas, a gata suas unhas, e o baile onde caem as máscaras abre o salão para a dança.

Dirigido por Christopher Nolan, "Batman: o cavaleiro das trevas ressurge" (2012), encerra sua magnífica trilogia e comove o olhar com uma bela humanização dos heróis. Redesenhados em contextos socioculturais que representam os problemas que hoje presenciamos, demonstram os dramas que os dividem entre cuidar de suas próprias vidas, seus amores e desejos, ou entregarem-se em prol de uma causa que pode custar sua vida.

Imagem capturada aqui.   

27 de julho de 2012

Pelos prados de Adélia, danço tempos a fios


Quando converso com Adélia, não há como não lembrar de Madonna, Frida e Pina. A mulherada toma conta da imaginação e vai desatando fofocas, filosofias, receitas, elucubrações, provérbios, infortúnios, gesticulações e palavrões deliciosos.

Choramingo para Adélia, digo-lhe da vontade que sinto de voltar pela rua para tentar apalpar aquele perfume de corpo ido. Ela ri. Na gargalhada trincada de ternura, me oferece seu colo materno, e pede calma a esse (m)eu corpo inóspito que sussurra pela abertura da porta.

Então procuro falar dos meus escritos, do sonho de ser poeta como ela. Ela me fuzila com olhar doloroso, sem espanto ou hesitação. Olha para a janela aberta e acariciando meus cabelos diz: "Detesto escrita elegante, as tragédias são doces"*.

Mesmo gostando do carinho coçadinho na cabeça, levanto e suplico pela sua sabedoria de idade e poesia: Me aponte caminhos, a senhora que vive a mais tempo que eu. Questione esses maus modos de me apaixonar e diga para ocupar meu tempo com trabalho e estudo, afinal, dizem que é isso que dignifica o homem.

Ela só suspira. Pensei até que fosse me xingar e dizer para respeitá-la por ser mais velha. Toma um pano de prato e, pela ponta solta, desfia todo o crochê já desgastado de enxugar tanta louça. Me olha e pegunta se "ficou melhor assim". Meio desconcertado e obediente ao seu tom paciente, desfaço a cara de preocupação existencial.

Me chama para que eu sente de novo ao seu lado e prossegue. Me disse que um dia, quando tinha mais ou menos a minha idade, e pensando em coisas parecidas, sentou no sofá para assistir "Fashdance" na sessão da tarde e pensou: "Quero dançar e ver um filme eslavo, sem legenda, adivinhando a hora em que o som estrangeiro está dizendo eu te amo"*.

Me olhou, secou as lágrimas em meu rosto e suspirou conclamando minha atenção:

"[...] e fazendo o que sei, o ouvido no teu peito para escutar o que bate. Eu te amo, homem, amo o teu coração, o que é, a carne de que é feito, amo sua matéria, fauna e flora, seu poder de perecer, as aparas de tuas unhas perdidas nas casas que habitamos, os fios de tua barba."*

Pegou no meu queixo e sentenciou em interrogativa: "Filho, isso eu disse para o meu Zé, há um tempo atrás. E você, vai esperar quanto tempo para dizê-lo a alguém?"

Mas Adélia, eu... Não houve tempo, ela só me abraçou e, bocejando, ainda disse: "Vou tirar uma soneca agora porque depois vai passar "Dirty Dancing" na sessão da tarde." E saiu cantarolando... "I've had the time of my life..."

Foto de Odailso Berté.
*Fragmentos de poesias de Adélia Prado - Poesia Reunida.

25 de julho de 2012

Voto de castidade


Se ouvir minha trilha sonora
Saberá que o que me constitui também me representa
Saberá minha versão, tom e nota de agora
Saberá dos sentidos que oculto e daqueles que publico.

Se você se aproximar de mim
Sentirá os calores que emano e os frios que guardo
Notará os desejos que mostro e os gozos que retenho
Perceberá os perfumes de uma alquimia erótica
Que molha, sua e enxuga ao franzir da testa.

Se você provar de minha comida
Degustará do meu sabor
Que (trans)pira no tempero e no carinho
(Con)fundindo-se para alimentar suas narinas
E tudo o mais que habita seu peito e sua pélvis.

Se me tocar com as mãos
Do modo como me toca com os olhos
Verá que não tenho (pre)tensões
Nem 1ª, 2ª ou o 5º dos infernos das intensões
Apenas verá minha libido ativar
E qual larva em erupção
Transformar em rocha dura
Tudo o que tocar.

Se me deixar tocar em suas dores
Sejam elas lombares ou cervicais
Massagearei seu id e seu ego
Levando ambos a uma incestuosa provocação
Em acalanto de dedos, palma e punhos
Desatarei arrepios em sua pele
Deixarei em riste suas pontas
E em risco seus pelos e arestas.

Se suspeitar dessa (in)sanidade
Verá que só sonho acordado
Mais que surdo, mudo, calado
Deitado e remoto
Sem controle para esse pensar
Que por direito já me serve
E me sacia com imagens
Ao tecer, sozinho, luas na madrugada.

Foto de Odailso Berté.

20 de julho de 2012

Sobre flores, xícaras e espadas

Quantas similaridades e colisões podem haver entre xícaras e espadas, o pó da maquiagem e o suor do esforço de uma luta... De "O Tigre e o Dragão" a "Memórias de uma Gueixa", Michelle Yeoh e Zhang Ziyi corporificam identidades femininas vestindo-se de singelezas e rigidez, firmezas e ternuras.

A jovem Jen, vivida por Ziyi em O Tigre e o Dragão, embora ostente o obstinado sonho de ser heroína, está prometida em um casamento político. Seus intuitos se dividem ao conhecer Shu Lien, uma heroína vivida por Yeoh. Entre ser irmãs e inimigas, as vidas destas mulheres se cruzam através de tradições quebradas e intensas perdas afetivas. Ambas lutam em voos sagazes, medem forças, trocam (des)afetos e padecem com a irrealização de seus amores.


A pequena Chiyo (Ziyi), em Memórias de uma Gueixa, deixa seu labor de escrava quando Mameha (Yeoh) torna-se sua mentora. Pelas hábeis mãos educadoras de Mameha, em intensas artes e ofícios, Chiyo se torna Sayuri, a mais bela e importante gueixa do local. Entre os segredos de ser uma gueixa também vivem renúncias, humilhações, ostentações, pois mais que mulher, uma gueixa precisa ser uma artista: cantar, dançar, agradar e seduzir com o simples gesto de servir uma xícara de chá.


Estas imagens de sabor oriental, chinesas e japonesas, ainda se ligam à lenda da destemida Mulan. A jovem que para poupar o pai já convalescente do alistamento imperial, ocupa o lugar deste e assume uma identidade masculina dentro do exército. Uma pequena flor desabrocha em meios às adversidades, sob o peso da honra tradicional e o ímpeto de descobrir sua própria imagem.


As mulheres que me encantam são assim, destemidas, tênues e vorazes. São corpos-fêmeas que subvertem sistemas e confrontam tradições com o toque de palavras, beijos, punhos e perfumes. Sua fragilidade se faz força quando não se calam e desatam nós enroscados em suas gargantas, dedos e joelhos. Inclinar-se a injustiças é uma prece não atendida em seus milagres furtivos. Entre ser mãe, rainha do lar, heroína, bruxa, artista, freira ou prostituta, fazem-se mulheres, desenham histórias e comovem olhares de homens como eu.

Imagens capturadas aqui, aqui e aqui.     

18 de julho de 2012

Profecias de quem apenas era...


Mirando o horizonte de nuvens rosadas, tingidas pelo foco/astro alaranjado - enfraquecendo lentamente em mais um crepúsculo - , ele suspirou em tons quase proféticos. Como um velho entretido em branquear os cabelos entre livros e imagens por tardes a fio, pensou outra vez em seus afetos contidos. A auto-reprovação apontou-lhe o dedo, todavia, estava claro que pensar sobre era só o que lhe convinha.

Da janela lateral ele cheirou telhados, acariciou o frio e beijou o entardecer como se fossem os membros do corpo querido. E nessa cena romântica, fugaz e solitária, ele admitiu em seu íntimo que o admitir era melhor que o negar. E que assim, permitindo-se sentir sem ter, fazia-se forte para aceitar as impossibilidades de toda ordem.

Com canções antigas, tão fora de moda, e uma taça com vinho, ele conclamou papel e caneta a tomarem nota de todo seu pesar, sentir, pensar, querer... Firmou em maiúsculas e minúsculas a assinatura de sua vivência passional, pois sabia que só o deus Cronos o salvaria da dita situação, depois de muitos ontens, hojes e amanhãs.

Como soprava a fêmea canção em seu ouvido, embora difícil de outrem acreditar, isso era tão normal. Entre cores vivas que se tornaram mórbidas e amores verdadeiros que se fizeram sórdidos, seu coração conhecia torres e cemitérios, o homem e seus velórios. Lembrança fatigante era um amor perverso. Mas agora ele apenas era... Mesmo que outrem não quisesse acreditar.

Novo mensageiro natural de coisas naturais brotava em seu palpitar cotidiano, insistia a limpidez da canção. Talvez cavaleiro de mistérios, casa e árvores, sem descanso nem dominical já cantarolava ele dançando abraçado à canção. Marginal e banhado em ribeirão, crescido sem termos de televisão, era como via o semblante desejado. Imagem folclórica que apaziguava seu imaginar.

De canção, escrita e janela, deixou-se embalar pelo odor colonial do vinho e agasalhou-se do frio nas lãs desse afeto só e tão seu. Admitiu outra vez calado e num último suspiro desenhou para suas frases a ternura do ponto final.

Paráfrases da música "Paisagem da Janela", interpretação de Elba Ramalho.
Foto de Odailso Berté.

16 de julho de 2012

Algo perdido por entre a ausência


Meus escritos pertencem a proprietários distintos, os poucos e estimados leitores que com eles tomam contato e o número considerável de sentimentos, imagens e vivências que tomam conta do meu cotidiano. Se nem sempre eles agradam, deem um desconto, contentar todos esses gregos e goianos não é o intento.

Hoje, após despedir-me de minha família que seguiu viagem depois de uma agradável visita, olhei para a casa vazia, um tanto bagunçada e tão silenciosa e pensei: Pronto, a solidão já pode voltar e tomar acento. Juntando os colchões lembrei que sempre amanhece, que a gente acorda, que o passeio termina, que a fome virá outras vezes.

Cada um a seu modo, deixou sorrisos, olhares, silêncios. Cada um se foi e se deixou em algo perdido por entre a ausência. Nessas ausências eu conto escritos e ditos, de mim para você, para quem tomar parte disso.

Se pelo menos as contagens e os contos forjados na ausência tocassem personagens reais a quem insisto agradar, eu tiraria boas lições dessas histórias com "e". Penso naquilo que um personagem disse poder me oferecer e sinto que, contrito, recebo essa oblação.

Tantas vezes ouvi que de "cavalo dado não se olha os dentes". Então, mesmo não se tratando de um unicórnio ou de um Pégasus, reúno os ternos apetrechos que emanam disso e sigo, ora como uma Moira cortando fios, ora como um senhor que gosta de tricotar e tecer sonhos de mentira, ilusões generosas, devaneios delicados.

Entre parentes e personagens, coisas tão simplórias e meio intensas que nem sei se vale a pena dizer. Coisas que conto só aqui e que tem até trilha sonora, nacional e internacional. Coisas assim, que me fazem tocar personagens, mesmo que só se trate de mais uma cena imaginária.

Foto: Jéssica Berté

13 de julho de 2012

Tecendo refrões antes da chuva


A lógica nem sempre resolve o problema. Ainda mais quando se trata dos nossos problemas. Será típico do ser humano almejar o que está além de sua alçada? Mas não me apetece o teor filosófico que pode ter a pergunta. Prefiro a insanidade cautelosa do sentimento.

Às vezes parece ser preciso buscar água na lua. Será isso, é preciso buscar água na lua? Não chegarei a tanto, tampouco transformaria areia em mar. Cada um na sua, areia areia, mar mar.

Fugir do problema sim, é possível. Mas esconder-se dele não. O bom senso toma parte da situação e reposiciona olhares e toques, somas e dividendos. Nada escapa aos princípios, nem o afeto. Desse modo, posso quase tudo, menos fingir que nada acontece.

Alienam-se os desejos aos mais remotos valores. Mesmo assim, encontraria um viés de caminho pela retina acesa, pequena e potente, que se deflagra em meio aos verbos trocados. Os ditos que aprendi desaparecem, mas essa fagulha reticente fica, pois precede o tempo.

Rir e chorar, viver e morrer, o caminho se faz no andar. Embora seja necessário enunciar a próxima pauta, o desligamento não é cartesiano, é merleau-pontyano. Pois implica sentidos, os cinco, e aqueles infinitos que imaginamos e criamos. No que vejo e que também me olha, visões deixam-se e encontram-se. Então você me olha e eu vejo que o caminho não é por aí.

Desmoronam sonhos, mas o mover das peças deixam outras formas passíveis de aconchego estético. E é por meio de refrões que teço cantigas para embalar os dias que seguem. Entre águas e possibilidades, tempos e olhares, mais uma vez entendo o que é e o que não deve ser.

Agora falemos da chuva, quem sabe...

Foto de Agno Santos.

11 de julho de 2012

O Novo Mundo, sobre vestidos e penas, corpos e águas, perdas e banhos


Pocahontas sempre me foi uma personagem deveras estimada. Sua beleza, coragem, medos, ternura e irmandade com o ambiente e as demais espécies sempre me comoveram. Seu modo de ver os estrangeiros (invasores/colonizadores), ou seja, os diferentes, ainda me toca de modo particular.

Mais intrigado e apaixonado fiquei quando soube que Pocahontas não era só uma princesa inventada pela Walt Disney, e diga-se de passagem, entre estas, a mais desprezada. Seria porque para esse mercado, uma princesa indígena não é vendável? Enfim, Pocahontas foi uma importante líder de seu povo, por volta de 1600, no estado da Virgínia, Estados Unidos.

Entre memórias e poemas, como uma salmodia romântica e dramática, o filme "O Novo Mundo", dirigido por Terrence Malick, constrói uma narrativa aleatória e coesa para recontar a história da colonização dos territórios norte-americanos pelos ingleses.

O ritmo desacelerado da trama, sem desmerecer o drama e a força dos acontecimentos, torna mesmo as batalhas imagens/memórias que tremulam afetuosamente quando recontadas pelos personagens que encarnam os protagonistas da história passada. O cenário, que pertence ao território onde os fatos ocorreram, vivifica o enredo com pertinência impactante.

A fotografia se demora deixando pungente a perspectiva de imagens, ou melhor, a flexibilidade de um ambiente vivo que reconta e preserva, qual visita/mergulho in loco, impactos culturais, vestígios encobertos, memórias que pairam, pegadas apagadas, carícias trocadas, mortes lamentadas, acordos insanos. Como se nos desenhos geográficos de lá, ainda ressoassem as cantigas, as crenças, as chegadas, os beijos, os lamentos, os passos, os banhos, as partidas...

A suavidade da atriz Q'Orianka Kilcher, dá vida à uma Pocahontas terna e firme, que segue, às duras penas das escolhas que se interpõem, um caminho de perdas irreparáveis, mas que conecta corporalmente o cruzamento entre o velho mundo invasor e o novo mundo invadido. Sua sutileza simples e transparente dança no ambiente evidenciando a conexão humano/animal, cultura/natureza que hoje parece tão esquecida e devastada.

E o coração da índia princesa, quantos golpes acalentou, quantos dias contou, por quanto de amor definhou. Entre as penas que abandonou e o vestido que aceitou, um corpo vermelho permaneceu, tênue de certezas, laico de avarezas, prenhe de sentidos e livre para o fim que a esperava do outro lado das muitas águas. E o rio que ficou, chorou por não mais trocar com ela seus beijos molhados de amor.

Imagem capturada aqui.

10 de julho de 2012

Ser cult, piegas, pop, brega ou ... O que importa?

Há dias algumas imagens e falas me interpelam, atravessando (des)respeitosamente meus modos de ver, pensar e sentir...


A primeira é a bela imagem de Julianne Moore vestida de noiva no filme "As Horas". A fotografia aparece nas mãos de seu filho Richard que, já adulto e convalescente pelo HIV, contempla em prantos a mãe em trajes matrimoniais, o que, em relação à sensação de aprisionamento que ela vivia, também representava uma mortalha. Tal imagem mistura, no mesmo branco da veste, tanto a pureza da noiva fiel e submissa quanto a morte que essa relação significava para a personagem. Diante da foto, Richard opta pelo suicídio, pois o passar das horas o fatigava, de modo que morrer seria libertar-se.


A segunda é a imagem de Madonna em seu recente show, da "MDNA Tour" (2012), em Berlin, chorando durante a performance "Like a Virgin". Desde que me lembro da cantora, e isso é desde a infância,  não recordo de qualquer comentário a respeito de Madonna chorar. Quando penso na primeira performance desta música, vejo uma garota ousada vestida de noiva, rolando no chão e engatinhando, cantando de modo libidinoso. Hoje, às vésperas dos seus 54 anos, vejo uma mulher forte, com uma carreira meteórica de quase 30 anos, que leva tatuado às costas o dizer "no fear" e que derrama lágrimas ao cantar dolorosamente a mesma canção. A tensão aumenta com a entrada de um dançarino que veste nela um corpete e o aperta comprimindo fortemente sua cintura. Porém ela precisa continuar cantando sobre a donzela tocada pela primeira vez.


A imagem que complementa esta tríade é da atriz Emma Stone encarnando a personagem Gwen Stacy no filme "O Espetacular Homem-Aranha" (2012). Numa cena que lembra tantos outros filmes, entre muitos guarda-chuvas sob um temporal, a personagem marcha para o funeral de seu pai. Esta imagem resume para mim toda ternura e poesia que permeia a nova versão do herói aracnídeo. A história se centra nos dramas afetivos dele: a perda dos pais e do tio que o criou, a paixão por Gwen, o conforto maternal de sua tia May, a construção de sua identidade. A mim o filme soa como uma bela imagem/metáfora da indissociabilidade natureza/cultura que conforma um corpo em crescimento, transformações, adaptação e descobertas. Com uma poética darwinista, eu diria, as mudanças genéticas/biológicas estão imbricadas com a aprendizagem de casa e do convívio social no seio da cultura. E o herói, mesmo sob o peso da utópica responsabilidade de salvar a "América norte-americana", chora sem qualquer receio de transparecer que também é vulnerável.

É brincando com estas e outras visualidades contempoprâneas, que me rodeiam e flutuam em torno de mim, que entendo o quanto elas também configuram o que sou, trançando relações de afeto, prazer e poder. Com elas me pergunto: Por que tais imagens me atravessam de modo tão peculiar? O que elas dizem de mim? Permitir isso não seria prejudicar minha reputação de futuro doutor? Embora eu me relacione com elas, quer expresse isso ou não, a que custos eu negaria ou manteria isso trancado na solidão do meu quarto?  

Lembro-me da cômica descrição de Felipe Gutiérrez, publicada nos trechos de livros da Folha de São Paulo, sobre o que é ser um escritor cult: inovador e contra todas as correntes literárias do momento, hermético para seus contemporâneos, publicar pouco e melhor ainda se depois de morto, negar-se a entrevistas, usar pseudônimos, levar uma vida licenciosa e turbulenta, habitar o submundo e flertar com a morte. Isso me enreda com a fala de um conhecido que recordava uma cena do seriado "Glee", onde Emma, a orientadora da escola, após aconselhar os alunos a não se lamentar por amor, aparece trancada no carro chorando e cantando "All by myself". Com isso, perguntava ele: De que adianta fazer a linha cult se quando terminamos uma relação choramos ouvindo "Nuvem de lágrimas" da Fafá de Belém?" Ou seja, de que adianta primar pelos discursos elevados e pela erudição se somos tão pop e lamentamos nos aproximando daquilo que mais fala dos nossos pesares?

A meu ver, a licenciosidade e hermeticidade do escritor cult soam de par com a cena da orientadora "faça o que digo e não o que faço" e a pergunta em torno dela. Somos eruditos e populares na mesma toada. O que conseguimos, por vezes, é disfarçar isso no convívio. Mas entre as paredes dos nossos cantinhos subjetivos, fachados de risos amarelos ou irônicos, deslizamos de Beethowen a Paula Fernandes, de Hitchcock a James Cameron na boa, lamentando-nos como pássaros feridos por um épico naufrágio.  E o bacana é que não precisaríamos nos envergonhar disso. Piegas são alguns trechos dos discursos classificatórios e divisórios de Adorno e Horkheimer, não os modos como usamos e nos damos conta do afeto que investimos para com esses produtos culturais.

Há dias algumas imagens e falas me interpelam... Elas trazem gotas de lágrimas e de chuva... Umedeço e tranço com elas, um jeito bom de existir que me faz organizar a vida entendendo como cotidiano desde os assuntos acadêmicos até as amenidades e fazeres frugais do dia a dia. Nada escapa dessa desierarquização travessa e perspicaz que o corponectivo que sou articula prazeirosamente.

Imagens capturadas aquiaqui e aqui.

22 de junho de 2012

Entre focos, fatos e fotos


Treze dias depois retorno à casa da escrita... Nada de incomum a dizer. As paredes e mobílias fonéticas parecem as mesmas. Todavia, o intento que move dedos e teclas (antes eu diria, a caneta) é apenas um meigo olhar, tímido e envolvente.

Um par de olhos miúdos, a quem pouco digo, mobiliza intentos graúdos a ponto de autorizar o doce querer de uma dança simplória sobre morros uivantes. Limitado ao momento em que encaro esse olhar, arremesso fins e começos para longe desse agora em que sou distante do foco que desejo ter sobre mim.

É uma e duas e percebo que mudo minhas cenas a partir das perspectivas desse olhar alheio. Olhar que me vê e me fotografa com intuito meio semiótico, com preceitos e ângulos que, mais que formatam, encantam e tecem vontades de permanecer sempre na pose, para ser por ele olhado um pouco mais.

Quando me enquadra, desenha cartografias íntimas que me fazem rir sozinho entre as pequenas paredes do cotidiano em que estamos cada qual no seu quadro. Quando penso no que poderia acontecer, os cantos da casa sorriem e aquelas fotos lançam fagulhas introvertidas, que aquecem o corpo e sussurram frases secretas entre eu, os ditos e os ouvidos.

Mas não permito que nenhuma das sensações inunde a aridez dos terrenos onde brotam meus afetos. Afinal, cada qual de nós atende interlocutores para além dos ângulos que ligam nossas retinas. Grito sem resposta, luta sem vitória, fingir sem ter, música tola que toca e apenas permite imagens que se desvanecem sem um gozo satisfatório.

Entre fotos intensas e fatos imersos, continuamos dizendo nos termos de uma amistosa convivência. Pois o dia depois de amanhã não guarda ativas esperanças. Só, talvez, mais imagens de beijos que se perdem ao foco do querer, que só permitem toques entre as meninas dos olhos, entre os meninos que guardamos nesses retratos inventados de nós.


Foto de Agno Santos.