30 de março de 2012

alimentado desejos com sílabas


Da vida que levo, fazes parte como ponto de intersecção.
Da viagem que planejo, poderias ser o aconchego da chegada.
Da virada que engendro, seja o motivo.
Da vingança que não quero, és o alívio.
Da vidraça que abro, imagino que entres.
Da vila onde vivo, ficarias tão bem na vizinhança.
Da vinícola dos meus desejos, já és um ardente Cabernet.
Da víbora peçonhenta, tens a sedução do veneno.
Da vista que admiro, tua silhueta reluz.
Da vinheta que ouço, teu cantar me diz delícias.
Da vitrine onde paro, teu corpo se expõe a mim.
Da vinda de algo bom, gostaria que fosses tu.
O dado lançado já ditou sortes e azares.
O dadivoso dia de te ter se desenha...
Porque teus ouvidos clássicos sabem ouvir o que há de mais pop em mim. Porque soa tão bem meu texto em tua boca.


Imagem capturada aqui.

25 de março de 2012

Por favor não pare, eu gosto


Nos lugares mais bravios dos meus desejos, residem facas de gume dobrado. São afiadas de pura libido tingida de púrpura, que deixa bege certas atitudes.

Às vezes mais, às vezes menos ímpeto, e esse (m)eu corpo acomoda e acomete tendências sumidiças, de ir e vir, de já e ainda não. Coleções de vontades que terminam entre quatro paredes, quatro pontos, de quatro.

Deixar? Deixar. Deixar que os prazeres sejam especificados ocasiona desde constrangimento até a risada mais gostosa. Entre querer, fetiche e prazer, encomendo especiarias e maneirismos da dominatrix e do estuprador, só para satisfazer esse pensamento bobo, de preto e branco, que acabou de passar a mão em mim.

Se o que me move não move tuas dicotomias não ditas, então libera essa louca de dentro, lidera essa boca aqui fora. Andar sobre a linha tênue da atração que gruda escrita e leitura pode ser dramático, mas pra decidir não dói.

Das tuas sete vidas, das tuas sete chances de negro gato, posso ouvir a história até chorar. Escalar teu telhado, gemer, miar. Dançar, ficar de lua. Saltar na tua nua pessoa.

Deixo sim... E se sobra esse pensamento felino, me embalo dançando um zouk sozinho, um brega querer sem tanto esperar. Quando (ex)citar trechos não resolver mais, (a)pelo à vergonha e me entrego à noite preta, para num gole do café de mesmo tom, beber da cor que me sacia. Porque gosto assim: preto no branco, ou vice-versa.



Imagem capturada aqui.

21 de março de 2012

Madonna is the "Girl Gone Wild"

Madonna rezando o Ato de Contrição?
Um homem excitado?
Um Cristo negro, nu?
Homens em trajes e trejeitos femininos?
Madonna crucificada?
Dois homens comendo uma mesma maçã ("o fruto proibido"), prenunciando um beijo (o ósculo da paz)?
Homens praticando sodomia?
Madonna pedindo perdão?
Madonna chorando lágrimas de sangue?


Terá ela perdido o controle?
É uma garota má?
Deveria ela agir assim?
Ela se desviou? Sua inibição sumiu?


O fato é que...
It's so hypnotic!
It's so erotic!
Hipnóticas e eróticas, as imagens dizem, mostram, questionam, interpelam, seduzem, possibilitam e ascendem falas e falos, preces e pressas, jaculatórias precoces e ejaculações premeditadas.


Credo em cruz! A simbologia articulada transfigura mística e erótica, sagrado e profano, rito e mito, fé e afeto, corpo e consagração, tensão e tesão. Separações nas quais insistimos e que certas mulheres, cheias de graça, tem isso tão bem ajuntado.


Em seu poema "Festa do corpo de Deus", Adélia Prado diz:
"Jesus tem um para de nádegas [...], o corpo humano de Deus. [...] Nisto consiste o crime, em fotografar uma mulher gozando e dizer: eis a face do pecado. Por séculos os demônios porfiaram em nos cegar com este embuste. E teu corpo na cruz, suspenso. E teu corpo na cruz, sem panos [...]. Eu te adoro, ó salvador meu [...], o que dizes é amor, amor do corpo, amor."


Sem comparações entre Adélias e Madonnas, imagens, ideias e sentidos entrelaçam-se suscitando e excitando ações, dizeres e prazeres.


Como de devasso e devoto cada um tem um pouco, agora é um macho que me espreita o pensar: Giorgio Agamben, com seu "Elogio da Profanação" diz que profanar significa restituir ao livre uso as coisas que foram tiradas da esfera do direito humano. Uma forma simples de profanação se dá através do contato, um tocar que desencanta e devolve ao uso aquilo que o sagrado havia separado e petrificado. Profanar: ignorar separações, ou, fazer delas um uso particular.


E quantas tem sido as situações, instituições, educações e orações que demarcaram separações, proibições e repressões em nossos corpos... De cores, amores, sabores, saberes, poderes e prazeres.


São encorajadoras as imagens que excitam e incitam o uso, o contato, o brincar, o profanar, o trazer de volta para o comum possibilidades, direitos, sentimentos e gestos que nos foram tirados, tolidos, sacrificados em altares de puro interesse.


Quando Madonna, Adélia e Giorgio se encontram em minha teia de imagens-ideias, o comportamento dança e atenta para fazer-pensar além das obviedades e conveniências inventadas pela nossa criativa cultura. Inventores somos todos. (Re)inventar podemos todos.


No music video "Girl Gone Wild", Madonna e o grupo de dançarinos Kazaky balançam as bases de preconceitos e preceitos, cruzando homoafetividade, corpo, erotismo, imagens, símbolos e textos sagrados. Um uso peculiar, um jeito particular de profanar, de desafiar e propor desfronteirizações, desconstruções e humanizações que, por incrível que pareça aos mais devotos que devassos, nada tem de pecaminoso e malvado. Bem pelo contrário.


Fazendo recordar de Like a Prayer, Vogue, Erótica, Justify My Love e Human Nature, Madonna reforça a pequena e poderosa coincidência de ter o mesmo nome que Nossa Senhora. De ser associada a um nome sagrado, ao passo que é vista, por muitos, como profana. O que, depois de Agamben, vira um glorioso elogio.


Salve Rainha (do pop), mulher que causa discórdia.
Quem é esta que avança como a aurora?
Ave Madonna, cheia de Graça!


Imagens capturadas aqui aqui aqui

18 de março de 2012

cisne negro


Já te aconteceu de ovelha, gato, cisne e joia rara se misturarem no pensamento e (con)fundirem imagens imprevisíveis?

Ovelha negra.
Gato preto.
Cisne negro.
Pérola negra.

Até um jeito particular de humor negro apetece a ideia que toca à distância, atropela vontades e deixa as verdades rubras de vergonha.

Fotonovela infante, alheia às falas vivas, adepta aos balões de diálogo colados sobre a imagem, romance intraduzível.

Mas naquele palco armado no infindo imaginário, esse cisne negro dança além de cantar. Mesmo achando que tem dois pés esquerdos, desliza ao andar. E quando seu sorriso derrama entonações, são seus odores que vocalizam ao ouvido.

Cisne pleno de sentidos. Reluz em negritude acesa. Transcende notas e apalpa dores em canções. Acalenta carinhos que não me pertencem. E a esmo fica esse modo de brincar com as palavras que só serve para falar sério de sentimentos.



Imagem original capturada aqui.

15 de março de 2012

entre (en)canto e (mu)dança


My music is breakin' the silence
Turn it on for the last dance
Do you want it?
Do you need it?
This is your chance!
Turn it up and dance!


Um refrão de música pop pode ser ponte para juntar pedaços de um diálogo, de perguntas trocadas, de vontades confessadas... E assim, certas intensidades que palpitam pele afora e adentro, ganham a elasticidade que só a imaginação permite.

Uma voz musical, mais em sorrisos que em palavras, tem quebrado esse silêncio aqui. Em fios de cabelo que enrolam meu pensamento, agarra-me a sensatez e faz com que eu dance intensamente como se fosse a última noção de movimento. Canta belezas e eu danço levezas.

Como sermão, o refrão segue tocando-me corpo afora: Você quer isso? (desejo, intensidade). Você necessita disso? (ética, medo). Quase se exala um debate filosófico que por vezes emudece os interlocutores. O que dizem cala fundo.

Entre ser direto e faltar com respeito há uma linha tênue que só separa o salto que quero dar e o tanto que sonho receber. A improbabilidade de ver e não querer só infla e bate junto, no peito.

Uma chance que a vida enfeita e faz amostra gratuita? Chancela ainda não concedida! Desejo (co)movido. Intensidade (im)pedida. Ética (pre)visível. Medo in(de)ciso.

A umidade que soa do teu canto faz suar a humildade que eu danço. Só insisto que cante sempre, para que eu dance antes, depois e entre.



Foto do espetáculo "Nefes" de Pina Bausch, capturada aqui.
Refrão da música "Last Dance" (Christina Aguilera e David Guetta).

14 de março de 2012

W.E. - Imagens que dançam e su(o)am perguntas


Para quem acha que Madonna é só mais uma entre as tantas e repetitivas cantoras pop do momento, se engana. Ela também pode não ser, ainda, uma grande diretora e roteirista de cinema, mas soube, primorosamente, compor, enquadrar, escolher e dar movimento às imagens que estruturam o filme "W.E. - O Romance do Século" (2011).

Como objetos de importância pessoal ganham notoriedade e importância pública com o passar do tempo? Por que depositamos valores econômicos, sentimentais e afetivos em coisas que pertenceram a outros? Como os objetos, as histórias, as imagens de outros podem influenciar na nossa própria história? Que rumo nossa vida pode tomar a partir de uma simples imagem?

Um rei abandona o trono por uma plebeia. E a plebeia, o que teve de abandonar por causa do rei? Esse, entre tantos outros ao longo da história, são os lados ocultados. São discursos femininos emudecidos. Pouco antes da Segunda Guerra Mundial, Wallis (Andrea Riseborough), a plebeia, precisou sobreviver ao romance (com o Rei Eduardo VIII) que escandalizou a Inglaterra.

Entre grandes acontecimentos históricos, micro-histórias tecem redes afetivas, influenciam decisões políticas, fundamentam tomadas de posição, sedimentam a vida pública de grandes autoridades. O cotidiano miúdo determina rumos, modos de ser, escolhas.

Noutro tempo, noutro lugar, como essas histórias ganham novo significado e podem mobilizar a vida de outras pessoas? Separada de tais eventos há quase seis décadas depois, em NY, Wally (Abbie Cornish) é movida, tocada pela história de Wallis. História que ela lê, vê e toca por meio de imagens, objetos, cartas. Como a história de uma mobiliza a vivência da outra? Por que nos apegamos à experiência do outro de modo que ela determine nosso agir? Que teias "misteriosas" são essas que nos unem desrespeitando fronteiras de tempo e espaço?


Madonna e sua equipe técnica/artística conseguiram produzir imagens que dançam e, como gotas de suor brotadas do belo e incansável movimento, expelem perguntas que movem o pensar/sentir de quem sintoniza sua atenção com a obra.


Imagens capturadas aqui.

12 de março de 2012

davídico momento


Há sorrisos e olhares que simplesmente colam na gente e permanecem até um quando inesperado. Até que uma voz entoa e num canto (su)foca a atenção.

A sensação do dia é de estar no lugar certo, pertencer a esse momento. A certeza tenaz diz ter valido cada pena de ter vindo.

Qual gigante Golias, tão forte e tão fraco ao mesmo tempo, me rendo ao Rei agora. Belo e sigilosamente atraente, me toma com graça e faz do presente o instante adequado para aqui estar, cair, render, viver.

Ao próximo gato preto que atravessar meu tempo, passe despido de azares, e sim, quem sabe, pise de mansinho, indicando bom terreno para o grandão aqui deitar.

Ao Rei agora, apenas pronuncio minha doce derrota. E espero paciente que possa eu merecer outras notas do seu canto, para denotar em mais tons o quão bom é o atual pedaço da vida.



Imagem em formato original capturada aqui.

10 de março de 2012

singelos êxitos


Olho,
Mas não temo mais
Cachorro branco
Carro cinza
E homem de uniforme.
Me exercito.
Me excito.
Hesito.
Desisto.
Existo.
E cada imprevisto que em mim encontra registro
Apalpa a alma num sentido de calma
Exorta o corpo sem meios e poucos
Pois tudo é muito para o tanto que sinto.


Foto: Odailso Berté

9 de março de 2012

Coesos contrastes que me constituem


Madonna: Like a virgin e Erótica.

Che Guevara: Endurecer sem perder a ternura.

Jesus de Nazaré: Sejam simples como as pombas e prudentes como as serpentes.

Pepeu Gomes: Ser um homem feminino não fere o meu lado masculino.

Daniela Mercury: Eu viro uma escrava de você, Preto.

Lenine: [...] quando o corpo pede um puco mais de alma.

Pina Bausch: Não me importa como as pessoas se movem, mas o que as move.

Frida Kahlo: Pés, para que te quero se tenho asas para voar?



Imagem: Cartaz do show de intervalo - Super Bowl 2012 - Madonna.

5 de março de 2012

Histórias Cruzadas, preto no branco para desmontar superioridades inventadas


Quando um filme acontece em nossa vida, quando histórias se cruzam com a nossa, nos sentimos mais enredados nessa verdadeira rede de enredos chamada vida.

1962, Estados Unidos, Mississippi, na cidade de Jackson, a luta pelos direitos civis encorajava muitos ao reconhecimento, à participação social, ao respeito. Tudo isso com especial referência aos negros e negras.

Dando atenção às mulheres negras (às mulheres negras domésticas), a história particulariza a vida de pessoas não ouvidas, não consideradas, contadas enquanto classe separada. As mulheres que embelezavam os lares, criavam os filhos, preparavam os alimentos... Não eram dignas nem sequer de usar o banheiro da casa. Atitude humana? Sim, postura de brancas e brancos, que se entendiam "superiores". Superior em que mesmo?

Baseado no romance "A Resposta" (The Help), de Kathryn Stockett, o filme "Histórias Cruzadas" (2012), dirigido por Tate Taylor, traz Viola Davis e Octavia Spencer vivendo personagens, ou melhor, mostrando-nos pessoas que, com suas trajetórias de dores e coragem, arrebentam sensivelmente com nossa burra postura que em tantos momentos nos faz preconceituosos.

Elas e tantas outras mulheres negras domésticas narram suas histórias como possibilidade de luta, como forma de serem vistas, ouvidas, respeitadas. Quando narrar a própria experiência é uma forma de continuar vivas, pessoas compartilham frugalidades, dores, pedacinhos miúdos de vida capazes de mover estruturas sociais e culturais por tempos arraigadas.

Ficam em mim semblantes de mães negras - divas, dádivas - capazes de amar, educar e alimentar mesmo quando o "pseudo superior" e a oposição preto x branco impõem-se com crueldade. A doméstica negra dando o amor que a mãe branca não sabia dar à própria filhinha, desmonta qualquer superioridade.

Ouvir e valorizar as histórias pessoais pode ser um comecinho do pagamento de uma dívida que, enquanto brancos e brancas, jamais conseguiremos saldar. Com isso penso na imensa inferioridade das classificações e discriminações que inventamos.

Ao ver Aibileen (Viola Davis) finalizar a trama andando, ao som da bela canção-tema "The living proof", tendo pela frente a profundidade de um caminho, vejo, literalmente, essa doméstica (que me representa tantas outras pessoas), como prova viva dos possíveis "milagres" cotidianos que somos capazes de realizar.



Imagem capturada aqui.

1 de março de 2012

Hoje


Eu pensei sobre o que cada linha diz. Retorno a elas e vejo que estão escritas simetricamente, mas, como setas cortantes, apontam situações tortuosas.

Sempre é hoje, o resto é lembrança e possibilidade. Constituição do que somos no presente: agora, antes e depois.

Amar, sorrir e chorar, verbos intensos de se conjugar tudo num dia só. Mas nessa tragicômica humanidade, é com intensidade que arquitetamos nosso cotidiano guia.

Queria eu ser um "belíssimo texto" para em tua tês negra acalentar a toques de linhas e versos. Ser palavra pirografada a dedos quentes em tua planilha corpo/oral. Te fazer quadro negro, literalmente.

Ser teu hoje, com antes e depois, para expandir uma vivência intensa de sílabas, sussurros, segredos e sentidos. Sentindo só o sexo que, entre tantas outras delícias, há de alimentar nossa vibe de homens envaidecidos de amor.

Ojerizo o que hoje me deixa só assim. Sem objeções, objetifico o pensamento nessa ortografia coreográfica, para dançar esse sentimento hodierno. E por hoje é só.



Foto: Odailso Berté

29 de fevereiro de 2012

de menino curioso cada um tem um pouco


Nada tenho de raro ou especial, apenas particularidades que outros também podem ter de modos diferentes. Nada de novo, até normal.

Sou menino lépido, leve e levado, que apronta amores, cores e dores, quase como Frida, Pina e Dolores. Amores dos quais às vezes se faz questão e outras não.

Leve como pluma, levado pelo vento que diz tonterias, deixa vontade de bobagens que em tempo aguento.

Penso nas tardes em que o sol arde os ares e fere o chão, o eco fica opaco e a resposta não atinge o teor da pergunta. Reciprocidade que ainda não se instalou, só calor que suou.

Embora ambos sejam passíveis de erros, leio com olhos e dedos, pois creio mais no toque que no texto. A fala é boa, mas o falo é melhor... Agrada, agride, agracia, agradece.

Anseio por chamados que saiam do beco virtual para invadir minha avenida e me fazer carnaval. Com plumas e tapa-sexo prometo inciar o desfile, mas ao final, não respondo por meus atos, pois só desejo a tua pergunta.



Foto: Odailso Berté

28 de fevereiro de 2012

... o 27 já passou


Os dias passam... E nada como um após o outro para recobrarmos as forças gastas em situações sem volta. Quando a fortaleza pessoal se reergue, uma sensação de indestrutibilidade invade todos os espaços do corpo, como se fossemos de titânio (metal de transição leve, forte, cor branca metálica, lustroso e resistente à corrosão, sólido na temperatura ambiente).

Algo assim:

"Sou à prova de balas, não tenho nada a perder
Atire, atire
Ricocheteia, mire
Atire, atire
Você atira em mim, mas eu não caio
Sou feito de titânio
Você atira em mim, mas eu não caio
Sou feito de titânio"*

Como música que coça no ouvido e faz querer dançar a todo instante. Como se a vida fosse uma mistura de pista e passarela. Como se imagens de vídeo clipes e filmes ajudassem a narrar meus pensamentos. Como se no modo leve de guardar a lembrança, o fato nem tivesse acontecido.

Hoje é dia 28, porque o 27 já passou.



Foto: Luana Brant
Edição: Odailso Berté
*Refrão da música "Titanium" (David Guetta e Sia)

27 de fevereiro de 2012

aquecido pelo sol da meia-noite



Como canta Flávio Venturini, podem haver "noites com sol", nas quais o inusitado tende a acontecer.

O escuro e a calada da noite revelam nuances de gato negro, suspiros de doce vampiro, olhares de medusa que paralisam, uivos de lobos e luas, risos que divertem bem perto.

Sem nenhum propósito supersticioso o negro felino atravessa o caminho, arranha o asfalto do peito, salta o muro da minha fortaleza, mia manhas e falas que reverberam em minhas manhãs.

Melanina cheirando a paixão, tom e odor café, coco queimado, chocolate meio amargo, marrom bombom... Latente impulso que vê na cor e no gesto a simétrica beleza de proporções gregas.

Gostos pressentidos nos lábios, misturando rosa e preto, tirando palavras do corpo e aquecendo afetos no calor do sol negro da meia-noite.



Fotos: Deivid Amorim
Edição: Odailso Berté

25 de fevereiro de 2012

A Dama de Ferro, pérolas e xícaras


Ao ver a inquebrantável "dama de ferro" idosa, vivida pela inquestionável Meryl Streep, encerrar sua performance lavando um xícara e apreciando os sons do cotidiano, perguntas e lágrimas se juntam para desforrar uma série de aprendizados e sentimentos.

Essa mesma personagem, Margaret Thatcher (Primeira Ministra Britânica de 1979 a 1990), quando jovem, no ímpeto de mudar o mundo por meio da política, ao ser pedida em casamento, disse que não era mulher para passar a vida lavando xícaras.

Penso que a última cena do filme e enfática fala da jovem Margaret não se tratam de uma inocente contradição cinematográfica, mas de uma boa oportunidade para se pensar acerca de: público e privado, homem e mulher, política e família. A quem pertence o que? Quem deve estar aqui ou ali? Quem pode exercer essa ou aquela função?

Entre "falos" e "falas", a primeira mulher a exercer o cargo de Primeira Ministra Britânica experimentou a hostilidade machista para ser aceita como uma política respeitada. Dos políticos, assessores e secretários até a lembrança do falecido marido, a saga da personagem se desdobra em tolerar, convencer e se desvencilhar dos ditames masculinos. Fazer-se forte como eles para ser aceita.

Entre os compromissos políticos e os comprometimentos familiares, a dama de ferro, pérolas e xícaras faz uma travessia desafiadora. Esse caminho, ela desfia em memórias ao longo do enredo de imagens, acordando saudades, causas e perdas no imaginário do espectador.

Sob direção de Phyllida Lloyd, "A Dama de Ferro" (2011) narra a trajetória de uma mulher, filha de um quitandeiro, que deixou sua presença impressa no mundo ocidental. Marcas frias de um pulso firme e autoritário. Entre a demência e o autoritarismo, o poder e a fragilidade, se move a personagem absorta em lembranças.

Imagem capturada aqui.

23 de fevereiro de 2012

"Improvizos" que seguem carnavalizando no coração da gente


Ontem dormi pensando nos "improvizos" da vida, aqueles que nós inventamos e os que se sucedem entre os acasos do cotidiano... E que no fundo, todos se misturam e fazem da existência uma teia de acontecimentos e de relações.

Nós improvisamos a vida, a reinventamos a cada instante, e, reciprocamente, a vida nos recria, entre improvisações projetadas e outras sequer imaginadas. Esses improvisos e improvisações não são frutos de puras abstrações, mas sim, são ações de corpos, de personagens concretos, de pessoas e seus afetos.

Digo isso para elucidar que meu ano de 2012 iniciou em versos, criações, alegorias, adereços, passos de dança, repiques de samba, gosto de vinho, risos e amizades. O que mais pode um homem querer para se sentir feliz?

Dancei por entre águas de dilúvio que, miraculosamente, se transformavam em vinho. Passeei entre deuses gregos e romanos, entre gladiadores, imperadores, faraós... Entre Cleópatra e seus amores. Encontrei baianas que, num semblante maternal, floresciam como videiras sorridentes. Vi imigrantes europeus e jesuítas plantando, colhendo e celebrando. Personagens tantos que, dos mitos à realidade, faziam do vinho sangue, alma, essência e prazer.

Nesse enredo, também haviam personagens reais, que em seus modos particulares de ser, davam forma aos fictícios, às fantasias e às relações humanas:

Vini: que, como Che, presidia com firmeza e ternura.
Antônio: que, entre sufocos e sumiços, conduzia a equipe de carnavalescos.
Cesar: que, entre gritos e gentileza, sabia ser "Baco", amigo e tesoureiro.
Jeana (Creuza): que... "imperadores em Roma"... Agia com exigência e simpatia.
Nara: que, com carinho, se preocupava com as baianas, o Sadan, o Kiko e o "filho do meio".
Neco (e família): que abriam a casa e o coração para festejarmos.
Kiko: que, na parceria, sabia dividir a mortadela, a "citricus" e o carinho de sua generosa mãe. (Ele merece uma bola quadrada!!!).
Cebola e Gotão: parceiros, amigos, coordenadores de verdade, braços e ombros amigos.
Andrea (Rainha!!!), Bruno, Adriele, Marcos, Raquel, Ana, Jéssica, Douglas, Salomão e Mateus: nosso "dilúvio" na avenida e nossa amizade são nota 10!

O dito, "o bom filho à casa retorna", talvez ilustre os momentos que vivi como essas e tantas outras pessoas. Nossas idas e vindas trazem as marcas, os toques, o jeito de ser de cada pessoa, de cada relação que estabelecemos. Nosso corpo guarda com apego os afetos mais intensos, os olhares mais sinceros, os toques mais calorosos, os gestos mais generosos, as vitórias mais suadas e merecidas.

Nessa Escola, tanto aprendi, tanto me fizeram feliz... Me viram dançar, me deixaram dançar, me permitiram criar e valorizaram cada traço de minha criação. O que mais pode um artista desejar?

Entre saudades e um coração que hoje pulsa verde e rosa - cheio de alegrias - sigo "improvizando" minha existência. Pois Improvizo é construção, é criar com o disponível, é fantasia e realidade na dose certa, é alegoria e adereço que se moldam e mudam durante o processo, é trabalho e afeto entrelaçados, é festa, sorriso e lágrima. É um jeito de carnavalizar que me faz ver a vida como uma "improvização" constante, pois cada acontecimento é um "improvizo", feito por mãos humanas e divinas.


Que venham outros tantos carnavais para nossos corações alegrar... E no mais, "não importa como vai ser, em minha morte ou ainda vivo, vou jurar amor eternamente à Improvizo!"



Fotos: Odailso Berté e Arno Dresch.

17 de fevereiro de 2012

Carnaval 2012: uma arca de emoções

Olhos atentos. Corpos sedentos. Amigos eternos enlaçados pela dança.


Temos mais Deus para dar do que o "sapo" para tirar.


Águas que movem corações.


Um dilúvio de alegrias.


Da água para o vinho... Saudades a degustar.


Uma arca cheia de emoções.



Fotos: Arno Dresch, Rogério Sartori e Marcela Albuquerque.