5 de agosto de 2012

Amizade em fase de teste


Alguns conhecidos, ao partilharem suas experiências com seus supostos amigos, por vezes me intrigam a ponto de mobilizar a vontade redativa. Talvez os tais supostos amigos nem reflitam com acuidade acerca do que dizem, talvez nem conheçam o sentido da palavra acuidade. E para pensar sobre tais ditos nem é preciso recorrer a Freud, Sócrates, Darwin, Jesus ou qualquer outro figurão. Os Backstreet Boys já fornecem pertinentes possibilidades reflexivas: Diga-me por que   (I want it that way); Mostre-me o significado de ser sozinho (Show me the meaning of being lonely).

Até que ponto um tema/situação assim merece atenção e a mobilização de reflexão e palavras? Qual seria sua reação se uma pessoa que você admira dissesse que a amizade entre vocês está em fase de teste? Nesta "admiração" não imagine uma paixonite boba, mas coloque ingredientes como bem querer, apoio, solidariedade, estímulo profissional, entre outros sentimentos, gestos, auxílios. Mesmo assim, a pessoa que você admira diz que está lhe testando.

Quais os pesos, níveis e medidas que podem estar sendo testados? Os ganhos, as possibilidades, os lucros que o outro pode favorecer? Relações seriam um tipo de experimento em que um sujeito neutro observa e pesquisa o outro/objeto para testar até que ponto este pode lhe servir? As relações seriam isso: experimentos premeditados, testes?

Um comentário curioso, do conhecido que passou por esse incidente, dizia que, tais amigos testadores, quase sempre, podem ser pessoas que usam de supostos sentimentos no intuito de adquirir, ganhar, obter, receber, angariar coisas/possibilidades/seguranças com a relação. Com o tempo se percebe que, como passam boa parte da vida apoiando-se em uns e testando outros, pouco constroem de sólido, que venha de seu esforço ou cooperação. Vão-se as relações/testes, vão-se os ganhos e as seguranças. E o que fica? Então diga-me, por que?

Será que para esse tipo de amizade vale o conhecido dito popular "antes só do que mal acompanhado"?

Sigo acreditando que as relações devem simplesmente acontecer, discorrerem pelo espaço-tempo, serem vividas como uma experiência que não tem cartilha, avaliação e revisão preestabelecidos. Eu prefiro desse jeito: os modos de ser/agir/sentir de ambos os sujeitos envolvidos vão mostrando limites, trocas, cumplicidades... Que não necessitam ser testados a priori, mas sentidos, experimentados e compartilhados ao longo da relação que é sempre algo processual.        

Imagem capturada aqui.

31 de julho de 2012

Bicho de corpo


Eu o quis com paixão e o vesti como um rito... Ficou meu cheiro nele, meu sonho, meu corpo ido. Agindo como faca contra a pele, a vida me ganha em ironia e hipocrisia... A mesma pele que me veste e me faz refém.

Me faço de inseto que se lança às chamas, danço com o diabo mas retenho meus demônios. E o diabo ainda uiva algemado nas profundezas do inferno enquanto eu tiro a roupa do corpo, pois ele sabe que eu tenho um corpo talhado para prazeres só e guerra. Ele sabe que meu coração palpita desesperado onde minhas pernas se juntam.

Mesmo quando a tribulação insiste em me seduzir, eu creio que essa vã oração poderá me manter respirando. O formigamento no peito, quando tua presença se impõe, é como se toda minha força quisesse curvar-se. Mas a pele, que só altera a temperatura, mantém-me exilado.

Não deveria contentar-me com esse pouco que se faz sempre tão suficiente. Se correr, a direção é única, uma ideia de exílio e túnel. Vendido, trocado por miúdos, pedinte, provando das escórias do afeto, prostituindo os desejos do corpo e a metafísica que exclamam indulgentes: como és bonito!

Quero ofertar-lhe as vontades do meu corpo, mostrar-te que estou pronto e do que sou capaz. Dizer-te que uma alma quer outra alma e seu corpo e que sem o corpo a alma não goza. Guia-me com teu cajado, rega-me com teu poder, sabedoria e verdade, ser divinamente humano.

O calor que teus olhos me inflamam, os arrepios que teus pelos me tecem, a excitação que tuas mãos me trazem, seguirão impressos a ferro e fogo na linha da vida que inicia na palma das minha mãos e se ramifica por todas as partes, altas e baixas, do (m)eu corpo.

Habito nele, e mesmo que minha condição não permita e que a fogueira possa ser meu destino, invado a inquisição e imploro: O que farei com este corpo inóspito já que não respondes nem me abres a porta?

E toda essa fugaz imagem, mística e erótica, fica num modo tristonho de certos entardeceres, quando o que um corpo deseja é outro corpo para escavar. Assim, entre fósseis dessa arqueologia estética e pérolas de Wynter e Adélia, sigo imaginado que ter um corpo é como fazer poemas: pisar margem de abismo.


Paráfrases, citações e adaptações da letra da música "Stimela", de Wynter Gordon, e de poesias de Adélia Prado, da obra Poesia Reunida.
Foto de Agno Santos.

28 de julho de 2012

Batman, entre terroristas e rosas, morcegos e gatas


O que pode haver quando rosas crescem nos caminhos de morcegos, gatas e terroristas? Qual a medida e o limite da entrega de alguém em prol de uma causa, nação, povo? A que custos um homem pode se tornar herói?

O bem sucedido e nascido em berço de ouro Bruce Wayne (Christian Bale) divide sua vida entre ser o homem de negócios e festas da alta sociedade e encarnar a secreta identidade do herói homem-morcego. A máscara de Batman, como ele próprio sustenta, não é para se esconder, mas para proteger aqueles que ama.

A sedutora e nascida sem berço Selina Kyle (Anne Hathaway), alterna sua vida entre bancar a boa moça trabalhadora e ser a gatuna que alega roubar para comer e que se alia a bandidos quando preciso. Uma identidade felina de quem sabe agradar quando necessita, que teme diante do mal e treme diante do amor.

A ladra e o abastado dançam no mesmo baile. Sussurrando ao pé do ouvido, a gata arranha a consciência dele: "Acha que isso pode durar? Uma tempestade se aproxima [...]. Quando ela chegar, vão se perguntar como acharam que podiam viver com tanto e deixar tão pouco para o resto de nós."

Entre textos, imagens e metáforas que falam de nossa própria sociabilidade, das desigualdades sociais, do quanto podemos ser ideológicos e viver em torno de discursos inócuos, um terrorista insurge contra o poder local. Seu desejo é destruir a lendária cidade de Gotham usando como arma uma bomba atômica que os próprios ricos empresários criaram com o intuito humanitário de gerar energia sustentável.

Que doce ironia, quando o produto escapa das mãos do criador e ameaça destruí-lo junto de tudo o que ele mais ama. A Rosa de Hiroshima, cultivada pelos humanos, ameaça florescer para embelezar os seus túmulos. A rosa mostra seus espinhos, o morcego suas asas, a gata suas unhas, e o baile onde caem as máscaras abre o salão para a dança.

Dirigido por Christopher Nolan, "Batman: o cavaleiro das trevas ressurge" (2012), encerra sua magnífica trilogia e comove o olhar com uma bela humanização dos heróis. Redesenhados em contextos socioculturais que representam os problemas que hoje presenciamos, demonstram os dramas que os dividem entre cuidar de suas próprias vidas, seus amores e desejos, ou entregarem-se em prol de uma causa que pode custar sua vida.

Imagem capturada aqui.   

27 de julho de 2012

Pelos prados de Adélia, danço tempos a fios


Quando converso com Adélia, não há como não lembrar de Madonna, Frida e Pina. A mulherada toma conta da imaginação e vai desatando fofocas, filosofias, receitas, elucubrações, provérbios, infortúnios, gesticulações e palavrões deliciosos.

Choramingo para Adélia, digo-lhe da vontade que sinto de voltar pela rua para tentar apalpar aquele perfume de corpo ido. Ela ri. Na gargalhada trincada de ternura, me oferece seu colo materno, e pede calma a esse (m)eu corpo inóspito que sussurra pela abertura da porta.

Então procuro falar dos meus escritos, do sonho de ser poeta como ela. Ela me fuzila com olhar doloroso, sem espanto ou hesitação. Olha para a janela aberta e acariciando meus cabelos diz: "Detesto escrita elegante, as tragédias são doces"*.

Mesmo gostando do carinho coçadinho na cabeça, levanto e suplico pela sua sabedoria de idade e poesia: Me aponte caminhos, a senhora que vive a mais tempo que eu. Questione esses maus modos de me apaixonar e diga para ocupar meu tempo com trabalho e estudo, afinal, dizem que é isso que dignifica o homem.

Ela só suspira. Pensei até que fosse me xingar e dizer para respeitá-la por ser mais velha. Toma um pano de prato e, pela ponta solta, desfia todo o crochê já desgastado de enxugar tanta louça. Me olha e pegunta se "ficou melhor assim". Meio desconcertado e obediente ao seu tom paciente, desfaço a cara de preocupação existencial.

Me chama para que eu sente de novo ao seu lado e prossegue. Me disse que um dia, quando tinha mais ou menos a minha idade, e pensando em coisas parecidas, sentou no sofá para assistir "Fashdance" na sessão da tarde e pensou: "Quero dançar e ver um filme eslavo, sem legenda, adivinhando a hora em que o som estrangeiro está dizendo eu te amo"*.

Me olhou, secou as lágrimas em meu rosto e suspirou conclamando minha atenção:

"[...] e fazendo o que sei, o ouvido no teu peito para escutar o que bate. Eu te amo, homem, amo o teu coração, o que é, a carne de que é feito, amo sua matéria, fauna e flora, seu poder de perecer, as aparas de tuas unhas perdidas nas casas que habitamos, os fios de tua barba."*

Pegou no meu queixo e sentenciou em interrogativa: "Filho, isso eu disse para o meu Zé, há um tempo atrás. E você, vai esperar quanto tempo para dizê-lo a alguém?"

Mas Adélia, eu... Não houve tempo, ela só me abraçou e, bocejando, ainda disse: "Vou tirar uma soneca agora porque depois vai passar "Dirty Dancing" na sessão da tarde." E saiu cantarolando... "I've had the time of my life..."

Foto de Odailso Berté.
*Fragmentos de poesias de Adélia Prado - Poesia Reunida.

25 de julho de 2012

Voto de castidade


Se ouvir minha trilha sonora
Saberá que o que me constitui também me representa
Saberá minha versão, tom e nota de agora
Saberá dos sentidos que oculto e daqueles que publico.

Se você se aproximar de mim
Sentirá os calores que emano e os frios que guardo
Notará os desejos que mostro e os gozos que retenho
Perceberá os perfumes de uma alquimia erótica
Que molha, sua e enxuga ao franzir da testa.

Se você provar de minha comida
Degustará do meu sabor
Que (trans)pira no tempero e no carinho
(Con)fundindo-se para alimentar suas narinas
E tudo o mais que habita seu peito e sua pélvis.

Se me tocar com as mãos
Do modo como me toca com os olhos
Verá que não tenho (pre)tensões
Nem 1ª, 2ª ou o 5º dos infernos das intensões
Apenas verá minha libido ativar
E qual larva em erupção
Transformar em rocha dura
Tudo o que tocar.

Se me deixar tocar em suas dores
Sejam elas lombares ou cervicais
Massagearei seu id e seu ego
Levando ambos a uma incestuosa provocação
Em acalanto de dedos, palma e punhos
Desatarei arrepios em sua pele
Deixarei em riste suas pontas
E em risco seus pelos e arestas.

Se suspeitar dessa (in)sanidade
Verá que só sonho acordado
Mais que surdo, mudo, calado
Deitado e remoto
Sem controle para esse pensar
Que por direito já me serve
E me sacia com imagens
Ao tecer, sozinho, luas na madrugada.

Foto de Odailso Berté.

20 de julho de 2012

Sobre flores, xícaras e espadas

Quantas similaridades e colisões podem haver entre xícaras e espadas, o pó da maquiagem e o suor do esforço de uma luta... De "O Tigre e o Dragão" a "Memórias de uma Gueixa", Michelle Yeoh e Zhang Ziyi corporificam identidades femininas vestindo-se de singelezas e rigidez, firmezas e ternuras.

A jovem Jen, vivida por Ziyi em O Tigre e o Dragão, embora ostente o obstinado sonho de ser heroína, está prometida em um casamento político. Seus intuitos se dividem ao conhecer Shu Lien, uma heroína vivida por Yeoh. Entre ser irmãs e inimigas, as vidas destas mulheres se cruzam através de tradições quebradas e intensas perdas afetivas. Ambas lutam em voos sagazes, medem forças, trocam (des)afetos e padecem com a irrealização de seus amores.


A pequena Chiyo (Ziyi), em Memórias de uma Gueixa, deixa seu labor de escrava quando Mameha (Yeoh) torna-se sua mentora. Pelas hábeis mãos educadoras de Mameha, em intensas artes e ofícios, Chiyo se torna Sayuri, a mais bela e importante gueixa do local. Entre os segredos de ser uma gueixa também vivem renúncias, humilhações, ostentações, pois mais que mulher, uma gueixa precisa ser uma artista: cantar, dançar, agradar e seduzir com o simples gesto de servir uma xícara de chá.


Estas imagens de sabor oriental, chinesas e japonesas, ainda se ligam à lenda da destemida Mulan. A jovem que para poupar o pai já convalescente do alistamento imperial, ocupa o lugar deste e assume uma identidade masculina dentro do exército. Uma pequena flor desabrocha em meios às adversidades, sob o peso da honra tradicional e o ímpeto de descobrir sua própria imagem.


As mulheres que me encantam são assim, destemidas, tênues e vorazes. São corpos-fêmeas que subvertem sistemas e confrontam tradições com o toque de palavras, beijos, punhos e perfumes. Sua fragilidade se faz força quando não se calam e desatam nós enroscados em suas gargantas, dedos e joelhos. Inclinar-se a injustiças é uma prece não atendida em seus milagres furtivos. Entre ser mãe, rainha do lar, heroína, bruxa, artista, freira ou prostituta, fazem-se mulheres, desenham histórias e comovem olhares de homens como eu.

Imagens capturadas aqui, aqui e aqui.     

18 de julho de 2012

Profecias de quem apenas era...


Mirando o horizonte de nuvens rosadas, tingidas pelo foco/astro alaranjado - enfraquecendo lentamente em mais um crepúsculo - , ele suspirou em tons quase proféticos. Como um velho entretido em branquear os cabelos entre livros e imagens por tardes a fio, pensou outra vez em seus afetos contidos. A auto-reprovação apontou-lhe o dedo, todavia, estava claro que pensar sobre era só o que lhe convinha.

Da janela lateral ele cheirou telhados, acariciou o frio e beijou o entardecer como se fossem os membros do corpo querido. E nessa cena romântica, fugaz e solitária, ele admitiu em seu íntimo que o admitir era melhor que o negar. E que assim, permitindo-se sentir sem ter, fazia-se forte para aceitar as impossibilidades de toda ordem.

Com canções antigas, tão fora de moda, e uma taça com vinho, ele conclamou papel e caneta a tomarem nota de todo seu pesar, sentir, pensar, querer... Firmou em maiúsculas e minúsculas a assinatura de sua vivência passional, pois sabia que só o deus Cronos o salvaria da dita situação, depois de muitos ontens, hojes e amanhãs.

Como soprava a fêmea canção em seu ouvido, embora difícil de outrem acreditar, isso era tão normal. Entre cores vivas que se tornaram mórbidas e amores verdadeiros que se fizeram sórdidos, seu coração conhecia torres e cemitérios, o homem e seus velórios. Lembrança fatigante era um amor perverso. Mas agora ele apenas era... Mesmo que outrem não quisesse acreditar.

Novo mensageiro natural de coisas naturais brotava em seu palpitar cotidiano, insistia a limpidez da canção. Talvez cavaleiro de mistérios, casa e árvores, sem descanso nem dominical já cantarolava ele dançando abraçado à canção. Marginal e banhado em ribeirão, crescido sem termos de televisão, era como via o semblante desejado. Imagem folclórica que apaziguava seu imaginar.

De canção, escrita e janela, deixou-se embalar pelo odor colonial do vinho e agasalhou-se do frio nas lãs desse afeto só e tão seu. Admitiu outra vez calado e num último suspiro desenhou para suas frases a ternura do ponto final.

Paráfrases da música "Paisagem da Janela", interpretação de Elba Ramalho.
Foto de Odailso Berté.

16 de julho de 2012

Algo perdido por entre a ausência


Meus escritos pertencem a proprietários distintos, os poucos e estimados leitores que com eles tomam contato e o número considerável de sentimentos, imagens e vivências que tomam conta do meu cotidiano. Se nem sempre eles agradam, deem um desconto, contentar todos esses gregos e goianos não é o intento.

Hoje, após despedir-me de minha família que seguiu viagem depois de uma agradável visita, olhei para a casa vazia, um tanto bagunçada e tão silenciosa e pensei: Pronto, a solidão já pode voltar e tomar acento. Juntando os colchões lembrei que sempre amanhece, que a gente acorda, que o passeio termina, que a fome virá outras vezes.

Cada um a seu modo, deixou sorrisos, olhares, silêncios. Cada um se foi e se deixou em algo perdido por entre a ausência. Nessas ausências eu conto escritos e ditos, de mim para você, para quem tomar parte disso.

Se pelo menos as contagens e os contos forjados na ausência tocassem personagens reais a quem insisto agradar, eu tiraria boas lições dessas histórias com "e". Penso naquilo que um personagem disse poder me oferecer e sinto que, contrito, recebo essa oblação.

Tantas vezes ouvi que de "cavalo dado não se olha os dentes". Então, mesmo não se tratando de um unicórnio ou de um Pégasus, reúno os ternos apetrechos que emanam disso e sigo, ora como uma Moira cortando fios, ora como um senhor que gosta de tricotar e tecer sonhos de mentira, ilusões generosas, devaneios delicados.

Entre parentes e personagens, coisas tão simplórias e meio intensas que nem sei se vale a pena dizer. Coisas que conto só aqui e que tem até trilha sonora, nacional e internacional. Coisas assim, que me fazem tocar personagens, mesmo que só se trate de mais uma cena imaginária.

Foto: Jéssica Berté

13 de julho de 2012

Tecendo refrões antes da chuva


A lógica nem sempre resolve o problema. Ainda mais quando se trata dos nossos problemas. Será típico do ser humano almejar o que está além de sua alçada? Mas não me apetece o teor filosófico que pode ter a pergunta. Prefiro a insanidade cautelosa do sentimento.

Às vezes parece ser preciso buscar água na lua. Será isso, é preciso buscar água na lua? Não chegarei a tanto, tampouco transformaria areia em mar. Cada um na sua, areia areia, mar mar.

Fugir do problema sim, é possível. Mas esconder-se dele não. O bom senso toma parte da situação e reposiciona olhares e toques, somas e dividendos. Nada escapa aos princípios, nem o afeto. Desse modo, posso quase tudo, menos fingir que nada acontece.

Alienam-se os desejos aos mais remotos valores. Mesmo assim, encontraria um viés de caminho pela retina acesa, pequena e potente, que se deflagra em meio aos verbos trocados. Os ditos que aprendi desaparecem, mas essa fagulha reticente fica, pois precede o tempo.

Rir e chorar, viver e morrer, o caminho se faz no andar. Embora seja necessário enunciar a próxima pauta, o desligamento não é cartesiano, é merleau-pontyano. Pois implica sentidos, os cinco, e aqueles infinitos que imaginamos e criamos. No que vejo e que também me olha, visões deixam-se e encontram-se. Então você me olha e eu vejo que o caminho não é por aí.

Desmoronam sonhos, mas o mover das peças deixam outras formas passíveis de aconchego estético. E é por meio de refrões que teço cantigas para embalar os dias que seguem. Entre águas e possibilidades, tempos e olhares, mais uma vez entendo o que é e o que não deve ser.

Agora falemos da chuva, quem sabe...

Foto de Agno Santos.

11 de julho de 2012

O Novo Mundo, sobre vestidos e penas, corpos e águas, perdas e banhos


Pocahontas sempre me foi uma personagem deveras estimada. Sua beleza, coragem, medos, ternura e irmandade com o ambiente e as demais espécies sempre me comoveram. Seu modo de ver os estrangeiros (invasores/colonizadores), ou seja, os diferentes, ainda me toca de modo particular.

Mais intrigado e apaixonado fiquei quando soube que Pocahontas não era só uma princesa inventada pela Walt Disney, e diga-se de passagem, entre estas, a mais desprezada. Seria porque para esse mercado, uma princesa indígena não é vendável? Enfim, Pocahontas foi uma importante líder de seu povo, por volta de 1600, no estado da Virgínia, Estados Unidos.

Entre memórias e poemas, como uma salmodia romântica e dramática, o filme "O Novo Mundo", dirigido por Terrence Malick, constrói uma narrativa aleatória e coesa para recontar a história da colonização dos territórios norte-americanos pelos ingleses.

O ritmo desacelerado da trama, sem desmerecer o drama e a força dos acontecimentos, torna mesmo as batalhas imagens/memórias que tremulam afetuosamente quando recontadas pelos personagens que encarnam os protagonistas da história passada. O cenário, que pertence ao território onde os fatos ocorreram, vivifica o enredo com pertinência impactante.

A fotografia se demora deixando pungente a perspectiva de imagens, ou melhor, a flexibilidade de um ambiente vivo que reconta e preserva, qual visita/mergulho in loco, impactos culturais, vestígios encobertos, memórias que pairam, pegadas apagadas, carícias trocadas, mortes lamentadas, acordos insanos. Como se nos desenhos geográficos de lá, ainda ressoassem as cantigas, as crenças, as chegadas, os beijos, os lamentos, os passos, os banhos, as partidas...

A suavidade da atriz Q'Orianka Kilcher, dá vida à uma Pocahontas terna e firme, que segue, às duras penas das escolhas que se interpõem, um caminho de perdas irreparáveis, mas que conecta corporalmente o cruzamento entre o velho mundo invasor e o novo mundo invadido. Sua sutileza simples e transparente dança no ambiente evidenciando a conexão humano/animal, cultura/natureza que hoje parece tão esquecida e devastada.

E o coração da índia princesa, quantos golpes acalentou, quantos dias contou, por quanto de amor definhou. Entre as penas que abandonou e o vestido que aceitou, um corpo vermelho permaneceu, tênue de certezas, laico de avarezas, prenhe de sentidos e livre para o fim que a esperava do outro lado das muitas águas. E o rio que ficou, chorou por não mais trocar com ela seus beijos molhados de amor.

Imagem capturada aqui.

10 de julho de 2012

Ser cult, piegas, pop, brega ou ... O que importa?

Há dias algumas imagens e falas me interpelam, atravessando (des)respeitosamente meus modos de ver, pensar e sentir...


A primeira é a bela imagem de Julianne Moore vestida de noiva no filme "As Horas". A fotografia aparece nas mãos de seu filho Richard que, já adulto e convalescente pelo HIV, contempla em prantos a mãe em trajes matrimoniais, o que, em relação à sensação de aprisionamento que ela vivia, também representava uma mortalha. Tal imagem mistura, no mesmo branco da veste, tanto a pureza da noiva fiel e submissa quanto a morte que essa relação significava para a personagem. Diante da foto, Richard opta pelo suicídio, pois o passar das horas o fatigava, de modo que morrer seria libertar-se.


A segunda é a imagem de Madonna em seu recente show, da "MDNA Tour" (2012), em Berlin, chorando durante a performance "Like a Virgin". Desde que me lembro da cantora, e isso é desde a infância,  não recordo de qualquer comentário a respeito de Madonna chorar. Quando penso na primeira performance desta música, vejo uma garota ousada vestida de noiva, rolando no chão e engatinhando, cantando de modo libidinoso. Hoje, às vésperas dos seus 54 anos, vejo uma mulher forte, com uma carreira meteórica de quase 30 anos, que leva tatuado às costas o dizer "no fear" e que derrama lágrimas ao cantar dolorosamente a mesma canção. A tensão aumenta com a entrada de um dançarino que veste nela um corpete e o aperta comprimindo fortemente sua cintura. Porém ela precisa continuar cantando sobre a donzela tocada pela primeira vez.


A imagem que complementa esta tríade é da atriz Emma Stone encarnando a personagem Gwen Stacy no filme "O Espetacular Homem-Aranha" (2012). Numa cena que lembra tantos outros filmes, entre muitos guarda-chuvas sob um temporal, a personagem marcha para o funeral de seu pai. Esta imagem resume para mim toda ternura e poesia que permeia a nova versão do herói aracnídeo. A história se centra nos dramas afetivos dele: a perda dos pais e do tio que o criou, a paixão por Gwen, o conforto maternal de sua tia May, a construção de sua identidade. A mim o filme soa como uma bela imagem/metáfora da indissociabilidade natureza/cultura que conforma um corpo em crescimento, transformações, adaptação e descobertas. Com uma poética darwinista, eu diria, as mudanças genéticas/biológicas estão imbricadas com a aprendizagem de casa e do convívio social no seio da cultura. E o herói, mesmo sob o peso da utópica responsabilidade de salvar a "América norte-americana", chora sem qualquer receio de transparecer que também é vulnerável.

É brincando com estas e outras visualidades contempoprâneas, que me rodeiam e flutuam em torno de mim, que entendo o quanto elas também configuram o que sou, trançando relações de afeto, prazer e poder. Com elas me pergunto: Por que tais imagens me atravessam de modo tão peculiar? O que elas dizem de mim? Permitir isso não seria prejudicar minha reputação de futuro doutor? Embora eu me relacione com elas, quer expresse isso ou não, a que custos eu negaria ou manteria isso trancado na solidão do meu quarto?  

Lembro-me da cômica descrição de Felipe Gutiérrez, publicada nos trechos de livros da Folha de São Paulo, sobre o que é ser um escritor cult: inovador e contra todas as correntes literárias do momento, hermético para seus contemporâneos, publicar pouco e melhor ainda se depois de morto, negar-se a entrevistas, usar pseudônimos, levar uma vida licenciosa e turbulenta, habitar o submundo e flertar com a morte. Isso me enreda com a fala de um conhecido que recordava uma cena do seriado "Glee", onde Emma, a orientadora da escola, após aconselhar os alunos a não se lamentar por amor, aparece trancada no carro chorando e cantando "All by myself". Com isso, perguntava ele: De que adianta fazer a linha cult se quando terminamos uma relação choramos ouvindo "Nuvem de lágrimas" da Fafá de Belém?" Ou seja, de que adianta primar pelos discursos elevados e pela erudição se somos tão pop e lamentamos nos aproximando daquilo que mais fala dos nossos pesares?

A meu ver, a licenciosidade e hermeticidade do escritor cult soam de par com a cena da orientadora "faça o que digo e não o que faço" e a pergunta em torno dela. Somos eruditos e populares na mesma toada. O que conseguimos, por vezes, é disfarçar isso no convívio. Mas entre as paredes dos nossos cantinhos subjetivos, fachados de risos amarelos ou irônicos, deslizamos de Beethowen a Paula Fernandes, de Hitchcock a James Cameron na boa, lamentando-nos como pássaros feridos por um épico naufrágio.  E o bacana é que não precisaríamos nos envergonhar disso. Piegas são alguns trechos dos discursos classificatórios e divisórios de Adorno e Horkheimer, não os modos como usamos e nos damos conta do afeto que investimos para com esses produtos culturais.

Há dias algumas imagens e falas me interpelam... Elas trazem gotas de lágrimas e de chuva... Umedeço e tranço com elas, um jeito bom de existir que me faz organizar a vida entendendo como cotidiano desde os assuntos acadêmicos até as amenidades e fazeres frugais do dia a dia. Nada escapa dessa desierarquização travessa e perspicaz que o corponectivo que sou articula prazeirosamente.

Imagens capturadas aquiaqui e aqui.

22 de junho de 2012

Entre focos, fatos e fotos


Treze dias depois retorno à casa da escrita... Nada de incomum a dizer. As paredes e mobílias fonéticas parecem as mesmas. Todavia, o intento que move dedos e teclas (antes eu diria, a caneta) é apenas um meigo olhar, tímido e envolvente.

Um par de olhos miúdos, a quem pouco digo, mobiliza intentos graúdos a ponto de autorizar o doce querer de uma dança simplória sobre morros uivantes. Limitado ao momento em que encaro esse olhar, arremesso fins e começos para longe desse agora em que sou distante do foco que desejo ter sobre mim.

É uma e duas e percebo que mudo minhas cenas a partir das perspectivas desse olhar alheio. Olhar que me vê e me fotografa com intuito meio semiótico, com preceitos e ângulos que, mais que formatam, encantam e tecem vontades de permanecer sempre na pose, para ser por ele olhado um pouco mais.

Quando me enquadra, desenha cartografias íntimas que me fazem rir sozinho entre as pequenas paredes do cotidiano em que estamos cada qual no seu quadro. Quando penso no que poderia acontecer, os cantos da casa sorriem e aquelas fotos lançam fagulhas introvertidas, que aquecem o corpo e sussurram frases secretas entre eu, os ditos e os ouvidos.

Mas não permito que nenhuma das sensações inunde a aridez dos terrenos onde brotam meus afetos. Afinal, cada qual de nós atende interlocutores para além dos ângulos que ligam nossas retinas. Grito sem resposta, luta sem vitória, fingir sem ter, música tola que toca e apenas permite imagens que se desvanecem sem um gozo satisfatório.

Entre fotos intensas e fatos imersos, continuamos dizendo nos termos de uma amistosa convivência. Pois o dia depois de amanhã não guarda ativas esperanças. Só, talvez, mais imagens de beijos que se perdem ao foco do querer, que só permitem toques entre as meninas dos olhos, entre os meninos que guardamos nesses retratos inventados de nós.


Foto de Agno Santos.

21 de maio de 2012

A Sete Palmos adentrando em mim


A ternura incondicional da mãe (Ruth), restringida de seus sonhos e de suas mais íntimas realizações pessoais para a plena dedicação aos seus filhos.

Os encontros e desencontros da filha mais nova (Claire), no intuito de se construir uma artista.

Os dramas do filho do meio (David), para alicerçar sua identidade homoafetiva, superar traumas e lutar pela sua união com Keith.

A trajetória do filho primogênito (Nate), nas idas e voltas com Brenda, para realizar-se enquanto homem, profissional, marido, pai... Antes que o cronômetro da corrida da vida marque o fim do percurso.

Uma família mórbida, trágica e cômica que se constitui numa casa funerária, transitando cotidianamente por entre os labirintos onde se cruzam vida e morte. Uma "Família Adams" sem artifícios, truques ou maquiagem. Um retrato das nossas dores, medos, anseios e mistérios subjetivos.

A cada episódio, um nascimento às avessas - uma morte - que desencadeia muitas relações de vida. No confronto com a perda, a dor e os pêsames, nas flores que adornam túmulos e caixões, o perfume e o pólen que germinam tantas possibilidades de nos relacionarmos com o fim e articularmos outros começos.

Não receio dizer que comecei a repensar meu medo da morte adentrando Sete Palmos de mim. As imagens, textos, relações, atitudes de cada personagem, vão como que abrindo covas, erguendo sulcos, inscrevendo lápides no corpo (m)eu... Insinuando que o fim e o começo são possibilidades que pulsam tanto quanto o coração. E notificando que, entre parar e continuar, o relógio da existência obedece ao mestre tempo que só aponta para frente, sem chances de retorno.

A série A Sete Palmos (2001-2005), criada por Alan Ball, faz transparecer a óbvia e pungente constatação de que somos finitos, passamos, envelhecemos e deixamos de existir. Enrugamos, murchamos e despedaçamos tal e qual a mais bela flor reluzindo em cores num jardim. E mais do que isso ser uma pesarosa constatação, embora nos entristeça, possamos ver como a noção que nos move a viver intensamente, buscar ser/fazer/ter o que mais desejamos, realizar os sonhos-projetos para os quais nos sentimos aptos e impelidos... Porque a vida é só uma, e ela passa. E o luto pode mover lutas em favor dessa vida passageira.


Imagem capturada aqui.

19 de maio de 2012

a loser like me


É preciso, mas extremamente duro saber perder, assumir-se perdedor. Custa muito, pois ninguém chega a conhecer o empenho investido, a profundidade do desejo, as dores do cansaço e das tensões, a intensa paixão que nos move a lutar por um sonho, juntar tantos pedaços para construir um projeto. Isso o fazemos sozinhos, em relação com muitos, é verdade, mas solitários na árdua organização dessa construção.

É impossível não lembrar da banca de jurados que julga os festivais de coros do seriado Glee. Autoridades no ramo, celebridades das artes, pessoas renomadas. Publicamente, figuras esplêndidas, que escorrem simpatia pelos cantos do sorriso, uma diplomacia teatral. Todavia, as cenas de suas reuniões secretas, os modos e termos com que se referem aos sujeitos aos quais estão julgando - avaliando - comparando, são patéticos, grosseiros, abusivos e desprezíveis. Assim, histórias de vida, capacidades, talentos, potenciais, se tornam apenas números. Uma cifra reguladora, uma medida cartesiana, esvaziada e niilista.

As três figuras (episódio 21, 3ª Temporada), que sem nenhum esforço interpretam a si mesmos, são verdadeiros personagens... Tipo Três Mosqueteiros, As Meninas Super Poderosas, As Panteras, As Noivas do Drácula, Três Espiãs Demais, The Supremes, Lia, Diva e Vicky (as três amigas da Barbie), As Moiras (Parcas) da mitologia grega... Sei lá, algo de tipo. Lindsay Lohan (a "queridinha" da América), Rex Lee (carinha popular em seriados) e o blogueiro Perez Hilton (fofoqueiro de carteirinha).   

O legal é que isso não é apenas cena de seriado norte-americano. É realidade em tantas escolas e espaços acadêmicos bem próximos de nós. Sistemas de controle, seleção, avaliação, vigília e punição de corpos. Se pensamos que esses dispositivos de poder são coisas passadas, tipo da inquisição, doce engodo. Essa é uma das práticas mais contemporâneas, usadas nos espaços que imaginamos ser os mais esclarecidos, sábios e conhecedores.

Entre as perguntas que ficam caladas no íntimo... 6,5 é quanto eu valho? O que em mim te afronta para inscrever no (m)eu corpo essa cifra? Dos conceitos, imagens e gestos que mostro, algum te desaloja? Aponte-me onde errei e não fuja de minha presença, qual criança que fez algo escondido, sem pelo menos encerrar a sessão que você abriu.

A vocês, Moiras, "capazes" de cortar o fio da vida, mudar os rumos de uma trajetória, silencio e dedico uma canção. Ela expressa meus sentimentos de fracasso, derrota e sensibilidade para acolher a sentença que vosso poder determina. Com um "P" na testa, sigo em frente, deixando claro que este é o sentido de um perdedor como eu.


Foto de Odailso Berté 

5 de maio de 2012

Piñero, em tua sombra, um deleite


"Eu nunca quis ser ninguém. Uma vez um cara me disse que eu escrevia bem, que escrever me tiraria da prisão. Tirou e não, porque tive que voltar para poder escrever bem."

Um poeta, um escritor, um ator, um bêbado... Um Cristo drogado. Um satã do céu. Um arcanjo, Miguel Piñero. Um nova-riquenho, Mikey Piñero. O criador da famosa peça "Short Eyes" (1974), apresentada na Broadway e adaptada para o cinema em 1977.

No filme "Piñero" (2001), dirigido por Leon Ichaso, Benjamin Bratt assume em sua interpretação o homem que seguiu à risca o conselho de sua mãe: "fale com os olhos e olhe com a boca". Um corpo cambaleante, tenaz e sedutor, que proclama poesia com seus olhos gritantes e desfere desejos com sua boca observadora.

Bratt, ao (prot)agonizar os prazeres e agonias de Miguel Piñero, se faz inventor e vendedor de esponjas, peixes e pérolas. Sua poesia absorve os líquidos e as poeiras da vida, exala os perfumes e os maus odores do cotidiano e apresenta os tesouros e as misérias que cada humano constrói. Um poeta submerso, underground por opção, que ao invés do dinheiro e da fama dos artistas consagrados, só cobiçava chamar sua atenção.

Numa sequência de imagens em nada lineares, que alternam-se entre o colorido e o preto e branco, a história se faz de pedaços, pedaços de uma vida vivida aos pedaços... Vida despedaçada. Entre encenação e realidade o filme vai se montando como um quebra-cabeça, como um teatro feito de atos desolados.

E o que perdura é a trajetória infame de um Piñero que floresce na aridez da prisão. Desordeiro, errante e comovente. Artista e bandido que, como ninguém, fazia de um cinzeiro seu cemitério de lembranças. Um homem que enquanto vivo e mesmo depois de morto, em forma de cinzas, foi absorvido pelas ruas.


Imagem capturada aqui.

3 de maio de 2012

entre teias e enredos


Entre teias e enredos, frio e estudo, solidão e saudade, aventuro memórias doces, insanas e vagarosas... Que vagueiam meu pensar, sentir e gozar esses momentos tão típicos de minha persona.

Recordo das histórias da Carochinha, de como ela, qual Felícia, hoje agarra seu novo gato. Este, expelindo encantamentos pelo sorriso e pelo olhar. Ao que parece, Carocha pode repetir seus padrões afetivos de docilidade romântica, o que depois, quando enjoar do gato, se tornará "a" dificuldade para o pobre bichano de desvincular dos laços.

Dos tempos de infância acordaram cenas do recreio brincado, dançado, cantado, como se fossemos o "Trem da Alegria", tendo como palco as prateleiras da velha copa do campo de futebol. O sol de inverno lá de Jaboticaba me aqueceu hoje, trazendo saudade do que fui e que permanece aqui nesse corpo - artista - infante.

 Nas canções e performances de Glee para Whitney, embalo sentimentos que, aparentemente, vivo sozinho, todavia, são povoados de personagens que seguem colados aos meus afetos. Às vezes a dois, outras a mais... De "I have nothing" a "It's not right but it's ok", como Kurt e Blaine, traço linhas, colagens e ilustrações que dizem bem do amor que vinha me deixando e que deixei.

Vestindo-se de Miss Simpatia, Sandra Bullock desfere os tiros mais certeiros de humor e amor. Ah, esses policiais que mexem conosco, Gracie... Se soubessem o quanto nos custa ser agente e refém, mesmo passado quase um ano.

Assim, a solidão se faz macia, leve e até gostosa. Adornada pela saudade do amor que não mais tenho, mas sinto... Que não pesa, mas ocupa espaço. Que não consome, mas ainda me rouba lágrimas quando, despercebido, me deixo beijar pela imagem, pelo sorriso, pelo toque, pela respiração, pela cor... "... If I don't have you."

Imagem de Benjamin Bratt, capturada aqui.

29 de abril de 2012

Homem de salto alto


Caríssimos, embora talvez isso não seja a mais relevante das preocupações de suas vidas, não virei travesti. Até porque, ninguém vira o que já não seja. A não ser que surte, penso eu. E ser travesti também não é tão mal assim, como se pensa por aí.

Ao pensar um look para uma festa temática ("So Pop"), quantas sensações experimentei. Desde a decisão de assumir um estilo próximo ao do grupo Kazaky, passar por lojas provando sapatos femininos e viver o homem que desliza sobre saltos altos numa pista de dança.

Não que tenha acontecido, mas fiquei lembrando do xingamento que desmoraliza muitos homens: "Mulherzinha!" É ofensa na certa. Ser chamado de mulher é ser xingado? Então ser mulher é uma condição humilhante? Engraçado, a vida toda forçamos as mulheres a se sentirem incluídas no termo homem e nem por isso muitas delas aparentaram sentir-se xingadas.

Vejam o que um sapato de salto alto pode nos levar a pensar, até discursos feministas ajudam a articular. Mas o fato não se deu sem auto-transgressões. Nas lojas, eu ficava mais sem graça que os vendedores - homens - que com gentileza auxiliavam-me a calçar os ditos. Não sei adivinhar o que pensavam, mas agiam sem qualquer estranhamento.

Na festa, os olhares eram variados: de estranhamento, de impacto, de surpresa, de dúvida, de euforia, de admiração, de encantamento, de "tanto faz". Não vou dizer aqui que para usar salto alto é preciso ser muito macho, pois soa tão piegas, machista e falso. Mas a sensação de por-se sobre os tacos, enquanto homem, e encarar outras pessoas, desconstrói versões inventadas de nós mesmos, aproxima-nos de outros modos de ser e se portar. Deixa-nos à vontade para assumir e reconstruir a cada dia nossa(s) identidade(s) móveis, flexíveis e processuais.

Aos desavisados de plantão, não estou fazendo nenhuma apologia ao salto alto para homens. Mas se quiserem viver essa experiência estético-antropológica, tenho certeza de que, além de uma dorzinha nos pés, vão provar de uma sensação majestosa, desconstrutora e ousada. Algo que, sendo homens, não nos deixa sobre, mas mais próximos delas.        

14 de abril de 2012

Pina, com tua luz a claridade do mundo me hospeda*


Porque
Imagens
Nascem
Afetivamente


Como falar de uma obra que acaricia os sentimentos, abraça os pensamentos, enternece os conhecimentos, resignifica os acontecimentos? Pina Bausch já conseguia isso com a dança. Wim Wenders perpetua isso com o filme.


Wim articula seu filme com o elemento que movia a dança de Pina: as experiencias dos dançarinos. Lembranças, olhares, perguntas, imagens, falas, fatos que cada um viveu com ela, são pequenas maravilhas que desencadeiam e mobilizam a bricolagem não linear de cenas dos espetáculos (criados com pedaços das suas historias de vida). Essas cenas, recolocadas em cenários vivos, devolvidas ao cotidiano, geraram tão belas fotografias cinematográficas.


O modo como imagens mais antigas se encontram com imagens mais recentes - e vice-versa - sem corte, sem fade in e fade out perceptíveis, junta três gerações de dançarinos e trás a própria Pina dançando de novo no seu Café de memórias, (des)encontros e solidões. Pina e Helena - sua substituta em "Café Müller" - são duas e a mesma, ambas e uma só, com uma languidez única, olhos fechados e braços alados... Tudo isso nos chega por meio de câmeras que dançam com os dançarinos, um olhar cinematográfico que se move aos soluços, gemidos e gotas dos corpos enfocados.


Nesse passeio imagético entre arte e vida, estética e estesia, o 3D transborda a tela e se justifica em cada centímetro/segundo de sua presença. O corpo - eu e você - é tridimensional e, nesses sentidos, a tridimensionalidade da dança, a profundidade e perspectiva pluridirecionais do gesto/movimento, qualificam e dão a mais terna sensatez ao 3D do cinema.


Recordei com olhos umedecidos e garganta emudecida dos movimentos singelos de "Para crianças de ontem, hoje e amanhã", "Café Müller", "Sagração da Primavera" e "Ten Chi", obras de Pina que tive a honra, o desafio, o desejo, a carência, o prazer, a tristeza e a felicidade de ver, assentir, acolher, assistir, experienciar e guardar no corpo.


(Vi)ver o filme "Pina" (2010) foi uma experiência que acariciou meu ser infante, aprendiz, órfão e amante. Humano demais, me deixei banhar por cada imagem que ascendeu a saudade daquela que apenas beijei com os olhos e que segue coreografando todo meu dançar. Solícito ao conselho desta diva, eu danço, danço, danço, pois do contrário estaria perdido. Dançando, me acho a cada dia e disfa(r)ço essa minha orfandade que a claridade do mundo não mais hospeda sem a luz de Pina.




Imagens capturadas aqui, aqui, aqui.
*Paráfrase de fragmento do poema "O homem humano" de Adélia Prado.