28 de outubro de 2012

Sex and the City: minutos de sabedoria

Abertura da série

Um docinho de abóbora após uma taça de vinho, um prato de massa e um episódio de Sex and the City... E tudo parece mais claro, mais leve, acerca das nossas relações. Quando me dou conta, aqui estou (cheio de tesão), digitando login e senha para desatar mais uma postagem no blog. Por mais que muitos dizem tratar-se de consumismo, futilidades, relações vazias... Ok, ok... Podemos ir além disso? Posso deleitar-me com minhas e outras interpretações?

Refletimos sobre ações educativas, os problemas do mundo, a economia, a fome, a violência, a arte... E pouco sobre aquilo que consome e nutre tanto em nós: nossas relações afetivo-sexuais. Sem dó, parcimônia, vergonha ou piedade, Sex and the City toca, afaga, agita e escancara (masturba) esse assunto que diz respeito a mim, a você e a qualquer mortal transeunte no planeta Terra. Do povo dos demais planetas não sei bem, mas suspeito que seja parecido.

As pessoas entram em nossas vidas, acrescentam muito, levam muito, estragam muito. E nós, seguramente, também fazemos isso na vida delas. Cada um de nós tem um "Big" em sua vida. Não é só Carrie que padece dessa dádiva. Uma grande transa, um grande membro, um grande amor, uma grande paixão, uma grande perda, uma grande burrada... Falando em 'big', é (co)movente ver Samantha (em meio ao drama de seu namorado que, "hard", mede 8cm) espiando os jogadores do Yankees (seus belos tacos e bolas) no vestiário. Nós somos assim, grandes ou pequenas, tais situações sempre mexem com a gente.

Kim Cattrall como Samantha Jones

Recordo, cheio de fé (e com louvores), do que disse minha amiga - Top - Lourdes: "Sex and the City é como minutos de sabedoria". Amém! Respondo convicto. Sempre é possível nos ver nas personagens. Seus dramas são os de todos nós reles mortais. As soluções que inventam para seus problemas podem servir, perfeitamente, como modelos e (ins)pirações para nossas tragédias gregas, baianas, goianas, gaúchas ou javanesas, tanto faz.

Vale a pena nos perguntar sobre nossa porção Carrie... Samantha... Chalotte... Miranda... Personagens que congregam biotipos e maneirismos de tantas mulheres e homens. Sabe aquelas frugalidades afetivo-sexuais que, por vezes, você finje não dar a mínima mas que te corroem? Ou então, aqueles sentimentos e pensamentos que te fazem suar, perder o apetite, ficar excitado/a...? É disso que elas falam.

Junto disso tudo, que não é pouca coisa e nem futilidade, as meninas também escancaram o poder de uma palavra/situação/relação tão cara a nós (e às vezes bestializada): amizade. Ser amigo/a é tão profundo quanto ser namorado/a. Exige convivência, proximidade, experiência, confiança, reciprocidade... A lista segue. Acho patético quando certas pessoas dizem "entre nós, só amizade", como se ser amigo fosse um consolo para uma transa que não rolou ou um namoro que acabou. Desesperada por ter reencontrado o ex, Carrie liga marcando um encontro. Surpreendentemente, no local e horário marcados, quem lhe espera à mesa é Miranda. Diante de batatas fritas já frias, chuva e um olhar terno que acolhe, a regra mais importante da separação: nada se supera sem amigos.

Sarah Jessica Parker e Cynthia Nixon como Carrie e Miranda

Sex and the City trata dessas relações tão humanas que nós experimentamos a cada dia na cidade, na rua, em casa... Em outras palavras, a série me sujere muito acerca das relações corpo - ambiente (como discutem Greiner e Katz, 2001), insinuando sem pretextos que somos e não temos corpo. Que as relações que vivenciamos não são obras de espíritos zombeteiros (salve Chaves), mas de corpos sexuados e situados. Vale a pena ver, sentir e se questionar. Carrie sabe o que é sexo bom e não tem receios de (se) questionar a respeito. E você?


Imagens capturadas da abertura e do 1º episódio da 2ª temporada da série.

22 de outubro de 2012

Sobre filosofia e dança contemPOPrâneas

Por volta de 1997/98, quando as Spice Girls se tornavam conhecidas no mundo, Madonna lançava o disco “Ray of Ligth” e o impactante videoclipe de “Frozen” (entre vários outros fatos também relevantes), eu iniciava a faculdade de filosofia. Entre os comentários que se pretendiam revolucionários no intuito de “derrubar cercas” e combater a ideologia dominante, diziam que a música pop era uma das armas dos poderosos capitalistas sempre prontos a nos dominar.

Madonna no music video "Frozen" (1998)

Isso hoje me soa tão épico e mexicano, do tipo: “Own, e agora quem poderá nos defender?” Como se uma entidade vermelha – tão ideológica quanto a combatida – fosse baixar, instaurar um novo mundo e derrotar o inimigo dominador. So sweet... Como num filme onde a bonanza paira após a dura tempestade. As Spice Girls se foram, vieram os Backstreet Boys e seus derivados (que também já se foram), Madonna - apesar do marxismo - está aí firme e forte (talentosa e ousada) há 30 anos, Michael Jackson já partiu... E há quantos a “arma pop” matou? Até onde sei, ninguém morreu alienado por ouvir/dançar “Wannabe”, “Thriller” e mais recentemente “Girl Gone Wild” .

Entendo a crítica do marxismo num tempo onde ditadores como Hitler criavam signos, gestos, símbolos, imagens, com os quais as massas poderiam se identificar no sentido de aderir e seguir cegamente a um líder no qual se sentissem amparadas e representadas. Nesse sentido a cultura de massa também poderia ser (e por vezes o é) uma estratégia de manipulação a serviço de articulações capitalistas de mercado/consumo.

Seria instigante pensar (para além das estatísticas e ibopes do quê e quanto é vendido) acerca dos modos como são usados tais produtos, as reinvenções, as distorções, as histórias que são inventadas a partir deles nos mais diferentes cotidianos. Mesmo as danças de videoclipes, da TV, das massas (que muitos alunos/crianças/jovens adoram aprender e repetir), tão combatidas por certos educadores e profissionais da dança... Como elas podem envolver o afeto, o prazer, o desejo dos alunos? Como, ao invés de demonizá-las, ver nelas possibilidades de aproximação, identificação, crítica e criação?

Penso que se, por vezes, a dança contemporânea fosse menos ‘cabeção’ e mais contemPOPrânea, mais fecunda poderia ser. Para os guardiões da dança que acham que a sagrada arte e os profanos produtos da indústria cultural não se misturam, vale lembrar, por exemplo, que  Madonna foi aluna de Martha Graham – uma das renomadas coreógrafas que apontou novos rumos para a dança no mundo, justamente por pensar-fazer dança a partir de sentimentos, emoções e elementos da realidade vivida. Isso não significa que estou receitando repetir os passos/coreografias de Madonna, Martha e outros. Mas sim, entender como esses e tantos outros passos já estão misturados com os nossos, envolvendo nossos desejos, afetos e experiências, e, portanto, que histórias/movimentos podemos criar com e a partir deles.

Madonna em homenagem a Martha Graham
(Harper's Bazaar - EUA, 1994)

Penso que, mesmo diante da hostilidade marxista, eu poderia ter expressado sem receios minha preferência pelas Spice Girls e por Madonna. Tanto no sentido de que faziam e fazem parte de minha identidade/identificação quanto nos modos como tais artefatos/imagens/produtos/artistas podem interpelar o ser livresco, elucubrativo, abstrato e antiafeto/corpo de algumas formas de se fazer filosofia e dança. Penso sim, sem nenhum receio, que se a dança e a filosofia (a primeira enquanto arte e ambas enquanto áreas de produção de conhecimento) fossem mais POP (popularizadas), poderiam contribuir de forma mais e(a)fetiva para os corpos se (mo)verem de modos mais emancipatórios.

Isso, no sentido de que, reconhecendo as experiências vividas, dança e filosofia poderiam instigar possibilidades para os corpos perceberem o como investem seus afetos e razões nos usos que fazem de textos, músicas, roupas, danças, imagens... Sejam eruditos, populares, de massa... Pouco importa a classificação, pois todos são formas/produtos culturais com os quais nos misturamos cotidianamente, queiramos ou não.

Talvez assim o “conhece-te a ti mesmo”, de Sócrates, e tantas outras máximas filosóficas, fizessem mais sentido. Talvez assim, o materialismo histórico-dialético, mais próximo das contradições, paixões e lutas 'históricotidianas' que movem e são movidas pelos corpos, nos possibilitaria criar tantos e outros sentidos/razões.

Odailso Berté
Coreógrafo e pesquisador em dança contemporânea
Doutorando em Arte e Cultura Visual - UFG
Mestre em Dança - UFBA
Especialista em Dança - FAP
Licenciado em Filosofia - UPF

Imagens capturadas aqui e aqui. 

10 de outubro de 2012

Quasar Cia. de Dança: sentidos que entram no singular e saem no plural


A virtualidade, por vezes entendida como irreal, exacerba sua concretude existencial – corpórea – real na dança da Cia. Quasar. Com o espetáculo “No Singular” (2012), estreado em 07 de outubro, no Teatro Rio Vermelho, Goiânia/GO, a Cia. possibilita um olhar táctil e afetuoso para as relações mediadas pela tecnologia e pela interatividade. Corpos ágeis e frágeis são os sujeitos que, entre o excesso de imagens e informações, constroem suas identidades e identificações.

Henrique Rodovalho e os/as dançarinos/as da Quasar configuram no palco modos de dançar que sugerem a composição de um chat colorido e multifacetado. Um bate-papo tecido por textos entrecortados, por gestos curtos ou prolongados, por exposições e ocultamentos, por desejos, fetiches e imagens que, em rede, vão construindo, fragmentando, distorcendo e/ou (re)inventando novas formas de realidade.

Ao abordar a fluidez, a simultaneidade e a rapidez com que informações e imagens atravessam os corpos na contemporaneidade, o espetáculo possibilita pensarmos isso não só como uma questão sociológica/conjuntural. Mas, que o social e a conjuntura são estruturados pelas subjetividades e afetividades diversas, singulares, que, em seu contexto cultural, dão as cores, os tons, as marcas para a pluralidade.

De modo singular, a Cia. Quasar enuncia/denuncia/pronuncia que o corpo é contaminado e contaminador, próximo do que dizem Katz e Greiner (2001) ao refletirem sobre as relações corpo e ambiente. Um coro de vozes e movimentos é entretecido com gírias e códigos que usamos em conversas pela internet ou pelo telefone. São expressões e gestos que se proliferam e contaminam os mais diferentes sujeitos e espaços, criando como que acontecimentos em rede. Estas contaminações podem interligar ambientes e corpos, propagar mensagens e imagens, (des)construir identidades, mobilizar modos de ser, de se mover, de ver e ser visto, conforme pensa e propõe Tourinho (2011) ao discorrer sobre cultura visual e produção de subjetividades na relação com imagens.

Os risos que brotam no público podem ser vistos como identificações, como modos do espectador se ver na dança. Ao percebermos em cena as expressões que usamos cotidianamente, é como se não houvesse barreira entre palco e plateia, pois a dança toca nas relações que vivenciamos, dando margem à compreensão de que todos, artistas e público, somos corpos gestores de movimentos, relações, encontros, trocas...

Na perspectiva de aproximação com o público, a Cia. divulgou na internet, tempos antes da estreia de “No Singular”, um vídeo onde o coreógrafo convida pessoas a dançar com a Quasar e ensina, passo a passo, a sequência a ser dançada. Esta proposição aguça a curiosidade durante todo o espetáculo, no sentido de estar atento para perceber onde/como se dará a interação. Esta, anunciada como “o momento que todos esperavam”, vem a acontecer ao final do espetáculo, quando quem aprendeu a coreografia é chamado a subir ao palco e dançar juntos dos dançarinos. Esta instigante proposta deixa uma expectativa em aberto, possibilidades de maior enredamento com o todo do espetáculo, como o impressionante momento em que pessoas do público (organizadas previamente) atravessam o palco entremeando-se com os dançarinos, interpelando o olhar, suscitando perguntas, ampliando a criação de sentidos.

Durante todo o espetáculo há a sutil presença de um personagem que, ao fundo, sem interagir diretamente com os dançarinos, realiza colagens para um cenário montado em cena. Os recortes que vão sendo dispostos, por vezes, parecem pixels de uma grande figura em devir, um mosaico de fotografias, uma bricolagem de imagens, pedaços de espelho, recortes de histórias. Percorrendo os labirintos da fragmentação, da multiplicidade e da singularidade, também chama a atenção, a versatilidade e as nuances do figurino (clean, retro, bufante), assinado por Cássio Brasil. São peças, elementos que convocam a pensar/imaginar possíveis imbricações entre singular/plural, indivíduo/sociedade, especificidade/diversidade, permanência/mudança.

Quasar lembra aroma, perfume... Um corpo estelar que emite luz e ondas radioativas... Quasar lembra movimento. Quasar, a Cia. que, do centro-oeste do Brasil, irradia dança para o mundo e em seu mais novo trabalho aguça os sentidos possibilitando pensar que o virtual é real, cria realidades, relações, (re/des)encontros. Entramos no teatro no singular e saímos no plural por meio das visualidades e movimentos ‘contempoprâneos’ – presentes em nossos cotidianos – que a Quasar consegue organizar e nos devolver em forma de dança.

Odailso Berté
Coreógrafo, dançarino, professor, pesquisador em dança contemporânea
Doutorando em Arte e Cultura Visual - UFG
Mestre em Dança - UFBA
Especialista em Dança - FAP
Licenciado em Filosofia - UPF

Imagem: Foto com a dançarina Valeska Gonçalves
Capturada no facebook da Quasar Cia de Dança

Textos citados:
GREINER, C; KATZ, H. Corpo e processos de comunicação. In Revista Fronteiras: estudos midiáticos. São Leopoldo: UNISINOS, Vol. 3, n. 2, p. 65-75, dez. 2001.
TOURINHO, I. As experiências do ver e ser visto na contemporaneidade: por que a escola deve lidar com isso? In: MENDONÇA, R. (Coord.). TV Escola / Salto para o futuro: Cultura Visual e Escola. Ano XXI, Boletim 09, ago. 2011, pág. 09-14. Disponível em: http://tvbrasil.org.br/fotos/salto/series/14380009-CulturaVisual.pdf.

1 de outubro de 2012

VI Seminário... o/a DaNçA Vianna segue movendo e aproximando corpos

Só uma visita, um encontro, um olhar, não podem definir um lugar, uma pessoa, um grupo... Não que definir seja algo primordial... Mas a visita, o encontro, o olhar, o estar com, podem dar a conhecer traços, gestos e afetos que tocam, marcam e se prolongam pelo corpo, pedindo retornos, reencontros, continuidades. Assim começo a relatar alguns afetos emergidos durante o VI Seminário de Dança da Faculdade Angel Vianna - RJ, realizado entre os dias 27 e 29 de setembro de 2012, organizado por Helia Borges e Marina Magalhães.

Como agora ao recordar para escrever, destaco, ao início do evento, minha hesitação e euforia em conhecer a sábia dançarina de quem ouço falar desde que, aos 10 anos de idade comecei a dançar... Angel, a companheira de Klauss, a mãe de Rainer... A matriarca da família Vianna - o trio que deu traços particulares para a dança no Brasil. Uma família que ampliou seus laços para além de muitas fronteiras... É possível ver e sentir o/a DaNçA Vianna (se) movendo (em) tantos corpos pelo mundo.

Angel Vianna

A sede da Escola e Faculdade Angel Vianna beija-nos o olhar já na chegada, como uma casa, um lar, um aconchegante ambiente onde pessoas/corpos se encontram, aprendem, ensinam, dançam... Em meio a rostos, sorrisos e corpos tão receptivos ao encontro, lá estava ela, pequena e tão grande ao mesmo tempo, sorridente, segura, acolhedora, dançante em cada mínimo movimento, rodeada de amigos/as e admiradores/as. Hesitante, contemplei sua imagem alada envolta em tecidos vermelhos (que adorna a entrada da Escola) e aguardei por um momento que me permitisse abraçar e ouvir uma pequena palavra daquela a quem o nome me evoca uma imagem que indica seu modo de ser: ANGEL!

O Seminário, já em sua sexta edição, estruturou-se como um instigante entrecruzamento de pesquisas em dança, escritas e dançadas. Todas teórico-práticas ao mesmo tempo, se entendermos que os procedimentos sensório-motor e conceitual-abstrato do corpo nunca agem separadamente, conforme propõem Lakoff e Johnson no desafiador livro “Philosophy in the flesh” (1999). Entre interpeladoras proposições, pesquisadores/as e artistas relataram acerca de suas compreensões, modos de ver/pensar/fazer dança. Aproximações e diferenças demonstraram que a construção da dança, enquanto área de conhecimento, no Brasil, vive momentos de intensa busca e abertura de caminhos.

Letícia Nabuco, "A sua violência, A minha violência"

Entre as tantas interpelações e perguntas que as reflexões do VI Seminário trouxeram, destaco: A arte/dança somente deve servir ao gosto? Em que medida a arte/dança produz conhecimento? Que modos de conhecimento cabe à arte/dança construir? Que contribuições a relação arte e ciência vem agregando à dança? Como o próprio VI Seminário de Dança da Faculdade Angel Vianna, entre tantos outros eventos de pesquisa em dança, e os cursos de Graduação e Pós-Graduação em Dança espalhados pelo Brasil vem contribuindo para construção do conhecimento em/sobre/de dança? Como podemos considerar as pesquisas de cada participante do VI Seminário como diferentes formas de conhecimento em dança?

O corpo, que é teórico e prático ao mesmo tempo, constrói conhecimento por meio de suas ideias, sentimentos, emoções, razões, afetos, que agem sempre indissociadamente. Assim vi, experimentei e compreendi a mistura de corpos que permeou o VI Seminário. Corpos que, entre discursos mais apaixonados ou mais contidos, sentados em cadeiras ou no chão, mais ou menos móveis, falantes ou ouvintes, questionados e questionadores, demonstraram o esforço de ações concretas que vem construindo modos diversos de conhecimento em dança em suas relações com arte, educação, filosofia, clínica, política, em diferentes lugares do Brasil.


Associando-me ao que, sabia e delicadamente, disse Marina Magalhães durante a penúltima mesa do VI Seminário, Angel Vianna tem talento para congregar, aproximar, pessoas, danças, conhecimentos... O evento, Angel, cada pessoa/corpo participante, em seus diferentes modos de ver/pensar/dançar, deixaram marcas e vontades de voltar, lá estar, construir, conhecer, dançar... É como se a/o DaNçA Vianna seguisse com cada um de nós participantes, movendo nossos afetos, ideias, vidas... Fertilizando nossos pensamentos e sentimentos, fazendo do (m)eu corpo um gerador/propositor de dança enquanto um modo particular de se mover, se comunicar, se relacionar e intervir no mundo.

Odailso Berté
Coreógrafo, dançarino, professor e pesquisador em dança contemporânea
Doutorando em Arte e Cultura Visual - UFG
Mestre em Dança - UFBA
Especialista em Dança - FAP
Licenciado em Filosofia - UPF

Foto com Angel Vianna capurada aqui.
Demais fotos de Odailso Berté.

22 de setembro de 2012

"Rubro": quando a dança enrubesce nossos sentidos


Aquilo que vemos/percebemos por meio da estesia – nossa capacidade de sentir e criar sentidos/significados – nos interpela, enquanto corpos, a criar discursos, imagens, interpretações. Cada corpo vê, percebe e interpreta a partir do seu repertório de ideias e experiências. Por vezes, os modos de cada um interpretar se encontram, outras vezes se distanciam, o que é bom e até desejável. Quando um corpo cria algo, nesse caso, uma dança e a mostra, certamente tem um intento/pergunta/motivo que o leva à criação. Todavia, a compreensão de que o público deve ‘adivinhar’ o que o artista quis ‘realmente’ dizer com sua obra é algo questionável.

Ver/pensar/fazer arte na contemporaneidade pode estar próximo da ideia de relação e diálogos entre artista e público. Diálogos onde a proposição artística se mostra aberta à interpretação. Desse modo percebi a coreografia “Rubro” (2012), do Núcleo de Dança Coletivo 22, em parceria com o Curso de Licenciatura em Dança da Universidade Federal de Goiás, apresentada nos dias 18 e 19 de setembro de 2012, no Centro Cultural da UFG, em Goiânia. Acerca desta, busco tecer em palavras alguns sentidos como forma de crítica e apreciação.

Gotas, pingos, líquido... Uma dança que escorre sem tropeços, sotaques ou obstáculos à percepção. Como propõe António Damásio (2010), pensamos por meio de imagens vistas, recordadas, criadas. Nossas ideias são imagens. Nesse sentido, vejo “Rubro” como uma coreografia que não passa pelo olhar sem umedecer o corpo de imagens/ideias. Entrecruzando elementos da natureza, do ciclo corporal feminino e da mitologia africana, a coreógrafa Renata Lima e o intérprete Sacha Witkowiski criam peculiares movimentos de dança. Estes, associados ao figurino, aos objetos cênicos, à música e à projeção de imagens, instauram uma coreografia que liga sangue e barro através de uma versatilidade plástica, sutil e envolvente.

Sangue e barro são aproximados pela cor avermelhada e pelos modos/imagens como podem ser referidos ao corpo, à vida, à morte, à fertilidade. É interpeladora a tentativa artística, tanto da coreógrafa como do intérprete, de moldar num corpo masculino elementos do ciclo corporal feminino. A exuberância das formas/movimentos corporais do dançarino sugere ver seios em seu peito, gravidez em seu abdome, menstruação em seu falo. São transmutações, imagens, gestos que a versatilidade contemporânea da dança constrói por meio de uma estética que seduz a compreensão e questiona a percepção.


Não me contenho à evocação de Elisa Lucinda, em seu poema ‘Aviso da Lua que Menstrua’, ao dizer que “há que se ter cautela com esta gente que menstrua”. Como faz a poetiza, também a coreografia parece sugerir: “Imagine uma cachoeira às avessas: cada ato que faz, o corpo confessa”. Bricolando ciclos e corpos femininos e masculinos, entrecruzando avessos dos gêneros, “Rubro” me parece sugerir a imagem de um homem que menstrua, que entre gaiola e saia (re)inventa prisão e vestimenta, que desfila exibindo membros e palavras, falos e falas, que acalenta atitudes (pa/ma)ternas sem titubear entre ser ele ou ela.

Os sangramentos que a coreografia sugere também denotam alusões a perdas, desencontros, ausências, saudades. “Cortei o dedo quando você se foi...” diz uma canção que compõe a trilha, possibilitando-nos pensar/imaginar acerca de que o corpo sofre, se machuca, sangra quando afastado daquilo ou daquele/a que lhe é importante, vital. Os cortes afetivos também sangram e tem seu tempo/espaço para a cicatrização.

Nesse diálogo entre quem assiste/percebe a dança e quem dança, não entendo imagem como representação. Como já dito, entendo imagem como ideia. Se quisermos usar o termo representação, talvez seja importante não entendermos que a dança transmite ou seja uma representação pronta. Mas sim, dança como uma forma de ação/pensamento do corpo (KATZ, 2005) que possibilita, a quem com ela se relaciona, a criação de representações, aqui entendidas como interpretações. Penso que “Rubro” articula com picardia e sensatez esse modo de ver/pensar/fazer dança.

Ao final, na saída do espaço cênico convencional, a coreografia rompe com este espaço. O corpo espectador, que pode se sentir fazendo parte desse espaço ampliado, tem a memória abraçada pela dança que parece querer ir embora com ele. O corpo dançarino, rubro de barro/sangue, como que evocando imagens de morte e vida, nos toca mais uma vez, beija-nos o olhar e enrubesce-nos os sentidos.

Odailso Berté
Coreógrafo, dançarino, educador e pesquisador
Doutorando em Arte e Cultura Visual – UFG
Mestre em Dança – UFBA
Especialista em Dança – FAP
Licenciado em Filosofia – UPF
Fotos de Odailso Berté 

17 de setembro de 2012

Sobre sol e vento, beijos e bichos


Por vezes parece tão patético escrever sobre o que se vive, se pensa, se sente, que dá vontade de mandar o mundo se lixar. O mundo, as normas acadêmicas, os textos, as avaliações, a constituição. Até a dança, que na sua roupagem contemporânea, por vezes parece queimar as lantejoulas para vestir-se da mais abstrata massa cinzenta.

Na vida a gente bate perna pra chegar nalgum lugar, bate a cabeça pra decidir o mais correto possível, bate cabelo pra extravasar, bate portas pra cuspir a raiva, bate em portas pra que ambientes se abram, e o coração, essa metáfora pra falar de sentimento, também bate bombeando necessidades corpo afora.

O vento batia sofrido nas paredes, fatigado pelo calor, movia as etiquetas de viagem ainda não removidas da mala sobre o roupeiro. Uma saudade doída dos que ficaram e daqueles que estão por vir. Um resumo do querer ir embora ficou embrulhado no bilhete sobre os livros. Nada novo sob o sol que escalda cada fiapo do sentimento.

Sinto que trisco na dança sem dançar, toco no amor sem amar, vejo e só solidifico as imagens que a retina capta. Elas é que servem aos meus desejos incontáveis. Poucos dos humanos, contemporâneos meus, entendem que uma oportunidade já seria o meu troféu, que um beijo seria meu gozo, que um chão sem linóleo já seria meu palco, que um olhar cumplice já me clarearia o caminho.

De recompensa, em mais esse dia de baixa pressão, o 'leãozinho' do Caetano, tão fofo, me disse "pára de se entristecer". Minha pele, minha luz, minha juba ficaram enrubecidas, tontas de ternura. Já o 'passarinho' do Alexandre Nero, chegou de mansinho e me mostrou que "não tem nada, porque nada deseja", mas que "a terra verde é sua, o céu azul é seu". Daí que vi que ele "tem muito, muito, muito mais que eu".

Levantei os olhos, revi o que tinha escrito, mudei parágrafos de lugar, troquei de música. As batidas continuam, o vento me coça as costas, a dança segue com a mão estendida conclamando-me para a pista. Falta-me um beijo pássaro, um afago leão, um dia a mais para deixar que a continência se perca na noite e prostitua minh'alma, essa invenção ingênua do (m)eu corpo que geme saudades, desejos e conflitos.

Foto de Odailso Berté.

4 de setembro de 2012

Eu, romântico? I'm so worth it


Minhas pieguices e erudições seguem se misturando no jeito de andar, escrever, pensar, sentir. Até de romântico foi chamado meu modo de escrever. Não entendi se foi elogio, piada ou ironia, mas era verdade, adoro um temperinho para letras e sentidos. Mas não é forçado, it's so natural, misturas de filosofias e danças.

Com textos tão focados em história visual, meu filme cotidiano ganha trilha sonora de Wanessa (a filha do Zezé Di Camargo). Nenhuma incompatibilidade gritante, valha-me Adorno! A não separação do visual dos demais sentidos, proposta pelo texto, reverberou para além das elucubrações e me fez cantar e dançar empolgadíssimo: "When you see what you lost, you won't wanna pay the cost, you'll curse it, I'm so worth it! Just shut up, let me say, don't throw it all way, we were perfect, I'm so worth it... I'm so worth it".

Sinceramente, só o texto não teria jogado tanto gliter na auto-estima. Indústria cultural? De massa? Que massa! Use com moderação e faça carão de "bunita" para os marxistas de plantão, faz um bem danado.

Falando nisso, entre os filmes que deixaram imagens escorrendo pelo corpo, lembro de Meryl Streep vivendo a dona de casa contida e sonhadora, tentando salvar seu casamento em "Um divã para dois" (2012). Ao final do primeiro exercício dado pelo terapeuta, o semblante  satisfeito da mulher que se sente vitoriosa ao acordar envolta nos braços do marido enternece todas as vontades de amar que habitam o espaço/corpo que somos. Como nunca, dormir/acordar de conchinha me pareceu tão gostoso e necessário.

Com lindas e coloridas referências dos anos 80, "Rock of Ages" (2012) reascende o sonho vivido em "Burlesque" (2010), e em vários outros filmes, da moça que sai do interior para buscar o sucesso na cidade grande. Mas quem não fica enrubecido com sonhos assim? Eu me derreto todo refazendo todas as coreografias do musical qual protagonista possuído em 3D pela arte. Da coreografia dentro de uma igreja, liderada por Catherine Zeta-Jones, às coreografias no pole dance, na Venus Club, sob o vozeirão de Mary J. Blige, transporia qualquer limite ou moral, só pelo prazer de dançar, de discursar impropérios e conceitos com corpo.

Pois é benzinho, posso ser romântico e áspero, casto e promíscuo, pop e erudito, dançarino e filósofo, streaper e conferencista, monge e carnavalesco... Na mesma toda, no mesmo gingado. A questão é: qual deles você paga pra ver? a qual deles te apetece evocar?

Imagem do trailer do filme "Rock of Ages".

2 de setembro de 2012

"Cozumel? Acho que não vai ter mel..."


A cada bala de mel que saboreio, ferrões e doçuras se cruzam no paladar a lubrificar uma garganta doída, meio seca. "Cozumel? Acho que não vai ter mel...", lastimou duvidoso o novato garçom. Entalados, desejos mudos arranham conversas engolidas num "cala a boca" decidido. "CON...ZU... MEL...". Não, querido, C, O, Z, U, M, E, L, sem "n", como meu nome.

"N" alternativas seriam possíveis, mas a que restou é dormir com o cachecol vermelho xadrez, aquecendo-me a garganta. Fazendo-me companhia entre os travesseiros a escrever histórias de cama.

Apesar das dúvidas que semearam em mim, e que as vezes um e outro personagem dissipa ou confirma, o risco de manha que a garganta arranha, em mim assanha essa rima previsível me exigindo barganha. Mesmo que o garçom erre o nome do drink e desconheça o cardápio, o bar ganha.

Gostaria de escrever sobre a viagem que não almejo fazer, sobre a novela que acabei de ver, sobre o texto que preciso ler, mas aquele cachecol não pára de tremular na beira da cama.

Não é ritual de espera, não é prece ou simpatia. É só um restinho tolo de vontade que se apoia num pedaço de pano vermelho xadrez. Artefato pequeno que deixa grande o descuido. Além de aquecer a garganta que mais nada pede, ele recorda um outro 'não' da série que tenho colecionado.

Seu 'não' se mistura ao mel do sol que escorre cerrado afora, meio dia em brasa; se junta ao nada que me prende aqui; pigmenta em vermelho lençóis e travesseiros; joga no xadrez o raquítico desejo que se fez nó na garganta.

O garçom há de entender, um dia, que Cozumel só parece doce no nome. Já eu, erotizo o castigo de Judas tecendo ternuras na nuca sem sal e limão. Nesses avessos, o charme de um cachecol em pleno verão me diz que ainda faz calor aqui dentro, mas só estou aqui passando uma chuva.

Foto de Odailso Berté.

26 de agosto de 2012

Indelével recado


Caro amigo mascarado de ladrão (ou vicer-versa), qual será seu próximo disfarce? De Papai Noel ou quem sabe de Madonna, pra me agradar? Tenho de concordar que suas estratégias são táticas de novela. Me pergunto qual dos grandes autores globais usariam tais genialidades que você retira de seus mundos paralelos. Comparadas a você, "A próxima vítima" e "Vale tudo" são piadas previsíveis e sem graça.

Pensou que a ficha demoraria muito para cair? Até onde você deseja que eu lhe dê corda? Vou segurar aqui, pois você já está na beira do abismo. Veja com seus próprios olhos e cuidado com a queda. Que ela lhe conserve pelo menos os olhos esbugalhados para que possa ver que continuarei em pé enquanto você definha.

O que você realmente deseja de mim? Apenas esses aparelhos estúpidos que podem ser adquiridos em qualquer esquina? Pois se contente com sua insignificância e insucessos, aquilo que sou jamais lhe pertencerá. Meu conteúdo e estrutura, meus modos de ver o mundo e dar sentido às coisas jamais serão seus. Nem nascendo de novo o conseguiria, pobre diabo. Um dia você acaba se afogando nesse inveja lamascenta qua transborda pelo seu olhar peçonhento fingindo ares de inocência.

Sei que viestes no tempo certo, na hora marcada. Sei também que uma exposição, um café e um terreno baldio podem lhe servir de alibis. Sempre preferi acreditar que as pessoas são boas e que não existem complôs. Mas querido, você é a prova viva, o complô corporificado, ontem e hoje. Agora, fique atento, eu também posso ser um garoto mau, a meu modo, claro, sua sujeira não me contamina.

A lei do universo é ciclica, portanto, sua parte chega em tempo, confie. Não saímos ilesos da maravilhosa aventura terrestre. Me desculpe, eu já tenho rido com seus infortúnios e estou certo de que meu riso se dará em coro, orquestra e sinfonia com o que há de vir. Não por maldade, eu juro, não sou como você. Apenas por prazer, para aliviar as tensões que você deixou. O que, tenho certeza, são bem menores que sua desgraça.

Entenda, o que você realmente necessita é impossível de ser roubado. E se cuide, seus malgrados podem estar lhe esperando bem ali, na próxima esquina.

Imagem capturada aqui.

25 de agosto de 2012

Tietagens, preces e negações

 
As gotas quentes foram tocando-lhe a cabeça, encharcando os cabelos fio a fio. Pensamentos humedecidos, lembranças como unguentos escorrendo pelo corpo, molhados anseios, baldes de agua fria nas vontades. Desejos de escrita e representação, comunicado qualquer.

Não quis mais arregaçar as mangas, os 'nãos' que lhe foram dados em tão pouco tempo apontam a necessidade de ajuntar pedaços. Vendo-se como peixe e seu próprio pescador, apesar do banho, do suor e das lágrimas, encontra-se fora d'água.

Concursos, projetos, amores, furtos, compras... 'Nãos' encadeados como coreografia, sem entorno, sem fuga, sem arrego. Diretos, sem rodeios, cortantes. Bem mais que Pedro em suas míseras três vezes, negado, credo em cruz, agnus dei. Engolindo caroço de caju podre. Chateado com a academia que só faz é o povo engordar ao invés de ficar bonito. E, ainda, roubado, por ladrão infeliz e mequetrefe.

Os risos desses dias são contados com marca páginas rosa adornado com flor verde e amarela. Ele conta as folhas dos enredos da diva brejeira de Jorge Amado, puta e santa, cabrita e pomba, diva das dunas de Mangue Seco. Ela é quem lhe cochicha possíveis voltas, desgraças que podem frutificar ganhos nem sequer esperados. Eta, seria uma luz de Tieta?

O que ainda cabe a um cabrito, com porte de bode, que destrincha a idade de Cristo sem mistérios gozosos? Só terços dolorosos, em quartos sozinho. Melhor seria o quinto dos infernos, por segundos de paz e fogo... Velas perpétuas acesas, mais magras que a necessidade que o ronda. E ele é só um misto de cabrito e pastor que almeja um campo de aveia verde para dançar. Esse, o céu dos seus sonhos.   

Voltar? Rever o percurso de antes? Ou apenas entender um aparente regresso como parte do trajeto a seguir? Afinal, a vida não é tão linear como pretendem os clássicos historiadores. Dessas humidades, talvez outra cidade, da saudade, quem sabe felicidade. Se faz sentido pensar de modo rizomático: Amém! Que assim o seja.

17 de agosto de 2012

Não cabendo no peito, transborda pelos olhos


Eu queria vir a pé, mas uma solidária carona não deixou que gastasse o solado do tênis adentrando a brisa pelas ruas da noite, claro, lembrando você... Quando o ego dá esse rumo para o pensamento, o id pronuncia seu olhar de reprovação e veta toda e qualquer verba de consolo. Nesse tema eles não concordam, daí me percebo falando sozinho, sendo meio dualista, daquele jeito que não gosto e tanto critico.

No cinema, "À beira do caminho" (2012) conseguiu (co)mover lágrimas, saudades, lembranças e perdas através da simplicidade de frases de parachoque e canções de Roberto Carlos. Eu que nunca pensei chorar ao som do Rei, vi meu orgulho derrotado e o id - isibido - se desmanchando numa larga escala de risadas de pura satisfação.

João, Duda e Rosa saltam da tela e fazem da sala escura um pedaço do cenário de minha vida: das vezes não feitas de um pai, de um filho carente e sonhador, dos amantes que tremem ao mínimo toque e sofrem pela distância, por perdões e voltas. Poeirentas estradas, boléia de caminhão, fotos, um único cd, um endereço não mais habitado, afago materno, elementos que enredam histórias para dizer que viver é como desenhar tendo apenas lápis, sem nenhuma borracha para apagar. E que quando a saudade não cabe mais no peito, é pelos olhos que ela transborda.

Não bastasse as delicadezas do filme que perfuraram as membranas e autodefesas do ego, o debochado id, sem dó nem piedade, ainda destaca uma das canções do enredo e canta que canta, dança que dança... Sambando na cara do indefeso ego. Insisto em não ouvir, mas quem disse que o ingrato se cala?

Como Petrolina (um dos cenários do filme) faz divisa com Juazeiro, a noite me trouxe o perfume do agreste de Tieta, do Mangue Seco baiano. Entre o sabor de pamonhas e tantas possibilidades de navegação, Tonha, Perpétua, Amorzinho, Carmosina e a Cabrita Master inflaram saudades do tempo em que meus olhos infantes não bebiam a ousadia das insinuações vividas pelas personagens inspiradas na obra do amado Jorge. Hoje sim entendo que os berros de Tieta, se fazendo de cabrita, eram a mais pura intensão de uma lua cheia de tesão.

Despedi a carona, tomei o rumo da cama e tentei deixar as memóras do dia à beira do caminho. No entando, o chato do id, possuído por uma entidade cabrito,  segue seu cantarolar agora quase em ladainha. Insatisfeito por não encontrar a versão do filme, de Nina Becker, ele tasca em meus ouvidos a canção na voz de Marjorie Estiano, e assim me embala para dormir:

... Esqueça, se ele não te ama, esqueça, se ele não te quer
Não chore mais, não sofra assim
Porque posso te dar amor sem fim
Ele não pensa em querer-te, te faz sofrer e até chorar
Não chore mais, vem pra mim, vem
Não sofra, não pense, não chore mais, meu bem ...

E assim dorme o ego, tendo o id ninando seus sonhos que vão lentamente se desvanecendo num percurso que mistura fatos, filmes, fotos e fins... Fazendo da cama a continuidade de um caminho cheio de eiras e beiras.

Imagem editada da original capturada aqui.

16 de agosto de 2012

Sobre diabos, confissões e tipos


Sim, sou do tipo que idolatra Madonna, chora com comédia romântica, às vezes tem vontade de morrer, adora assistir e cantar com as empreguetes, se decepciona com a Joelma dizendo que Jesus pode curar um gay, acredita em amor, assiste várias vezes "O diabo veste Prada" e "Miss Simpatia", sofre quando não é aceito, lê "Os diários de Carrie" e torce pelo "Sex and the city 3". Triste demais pra você? Problema seu. Ah, também sou filósofo, dançarino e quase doutor, se ajuda a manter seu ar de reprovação. Se isso fosse bate-papo, agora viria um KKK.

Existem diabos que vestem Prada, diabos que roubam Dell, diabos que ouvem Madonna, diabos que inibem afeto. Adoraria vê-los todos juntos, cada um dizendo a que veio, sem se esconder ou ter que arrombar portas. Adoraria dormir com o inimigo, isto é, se já não o tenho feito.

Sou do tipo que não faz a linha "Baby" (da Família Dinossauro): "Você tem que me amar!" Todavia, sentir saudade de algo que não tenho, às vezes incomoda bastante. E vejo, descaradamente, o quanto se tornam patéticos os que se acham "os desejados", ridicularizando os desejantes. Tão patético que dá canceira na paixão.

Não tenho ouro nem prata, incenso ou mirra. Não tenho paciência para tratar quem quer que seja como rei, messias ou senhor. Não tenho oferendas para conquistar afeto. Apenas constato que mesmo se fosse livre, se afogaria nesse poço do sentidos, afeto e prazeres que posso ser.

Quase como canta Madonna em "Evita": Eu não espero que meus romances deem certo ou durem muito, não me iludo mais que sonhos vão se realizar. Acostumado aos problemas, eu os antecipo, todavia, odeio isso. Você não odiaria? Nas intempéries da vida se aprende a remar, construir, esquecer, perder e obter ganhos que vem das margens.

Sou do tipo que vai e volta sem stresses para recomeçar, quando a paciência permite. Acostumado a perdas grandes e menores, como de mãe e de computador, digo que estou de volta. Podem tirar-me os anéis, que ainda terei dedos para coçar o saco e o pescoço. Podem levar os instrumentos, pois as ideias, as imagens, os gestos, o ímpeto criador de cada ação segue pulsando aqui dentro. Pode tentar inibir meu afeto, pois eu... Posso dar um jeito nisso também... "You'll see"!

Imagem capturada aqui.

5 de agosto de 2012

Amizade em fase de teste


Alguns conhecidos, ao partilharem suas experiências com seus supostos amigos, por vezes me intrigam a ponto de mobilizar a vontade redativa. Talvez os tais supostos amigos nem reflitam com acuidade acerca do que dizem, talvez nem conheçam o sentido da palavra acuidade. E para pensar sobre tais ditos nem é preciso recorrer a Freud, Sócrates, Darwin, Jesus ou qualquer outro figurão. Os Backstreet Boys já fornecem pertinentes possibilidades reflexivas: Diga-me por que   (I want it that way); Mostre-me o significado de ser sozinho (Show me the meaning of being lonely).

Até que ponto um tema/situação assim merece atenção e a mobilização de reflexão e palavras? Qual seria sua reação se uma pessoa que você admira dissesse que a amizade entre vocês está em fase de teste? Nesta "admiração" não imagine uma paixonite boba, mas coloque ingredientes como bem querer, apoio, solidariedade, estímulo profissional, entre outros sentimentos, gestos, auxílios. Mesmo assim, a pessoa que você admira diz que está lhe testando.

Quais os pesos, níveis e medidas que podem estar sendo testados? Os ganhos, as possibilidades, os lucros que o outro pode favorecer? Relações seriam um tipo de experimento em que um sujeito neutro observa e pesquisa o outro/objeto para testar até que ponto este pode lhe servir? As relações seriam isso: experimentos premeditados, testes?

Um comentário curioso, do conhecido que passou por esse incidente, dizia que, tais amigos testadores, quase sempre, podem ser pessoas que usam de supostos sentimentos no intuito de adquirir, ganhar, obter, receber, angariar coisas/possibilidades/seguranças com a relação. Com o tempo se percebe que, como passam boa parte da vida apoiando-se em uns e testando outros, pouco constroem de sólido, que venha de seu esforço ou cooperação. Vão-se as relações/testes, vão-se os ganhos e as seguranças. E o que fica? Então diga-me, por que?

Será que para esse tipo de amizade vale o conhecido dito popular "antes só do que mal acompanhado"?

Sigo acreditando que as relações devem simplesmente acontecer, discorrerem pelo espaço-tempo, serem vividas como uma experiência que não tem cartilha, avaliação e revisão preestabelecidos. Eu prefiro desse jeito: os modos de ser/agir/sentir de ambos os sujeitos envolvidos vão mostrando limites, trocas, cumplicidades... Que não necessitam ser testados a priori, mas sentidos, experimentados e compartilhados ao longo da relação que é sempre algo processual.        

Imagem capturada aqui.

31 de julho de 2012

Bicho de corpo


Eu o quis com paixão e o vesti como um rito... Ficou meu cheiro nele, meu sonho, meu corpo ido. Agindo como faca contra a pele, a vida me ganha em ironia e hipocrisia... A mesma pele que me veste e me faz refém.

Me faço de inseto que se lança às chamas, danço com o diabo mas retenho meus demônios. E o diabo ainda uiva algemado nas profundezas do inferno enquanto eu tiro a roupa do corpo, pois ele sabe que eu tenho um corpo talhado para prazeres só e guerra. Ele sabe que meu coração palpita desesperado onde minhas pernas se juntam.

Mesmo quando a tribulação insiste em me seduzir, eu creio que essa vã oração poderá me manter respirando. O formigamento no peito, quando tua presença se impõe, é como se toda minha força quisesse curvar-se. Mas a pele, que só altera a temperatura, mantém-me exilado.

Não deveria contentar-me com esse pouco que se faz sempre tão suficiente. Se correr, a direção é única, uma ideia de exílio e túnel. Vendido, trocado por miúdos, pedinte, provando das escórias do afeto, prostituindo os desejos do corpo e a metafísica que exclamam indulgentes: como és bonito!

Quero ofertar-lhe as vontades do meu corpo, mostrar-te que estou pronto e do que sou capaz. Dizer-te que uma alma quer outra alma e seu corpo e que sem o corpo a alma não goza. Guia-me com teu cajado, rega-me com teu poder, sabedoria e verdade, ser divinamente humano.

O calor que teus olhos me inflamam, os arrepios que teus pelos me tecem, a excitação que tuas mãos me trazem, seguirão impressos a ferro e fogo na linha da vida que inicia na palma das minha mãos e se ramifica por todas as partes, altas e baixas, do (m)eu corpo.

Habito nele, e mesmo que minha condição não permita e que a fogueira possa ser meu destino, invado a inquisição e imploro: O que farei com este corpo inóspito já que não respondes nem me abres a porta?

E toda essa fugaz imagem, mística e erótica, fica num modo tristonho de certos entardeceres, quando o que um corpo deseja é outro corpo para escavar. Assim, entre fósseis dessa arqueologia estética e pérolas de Wynter e Adélia, sigo imaginado que ter um corpo é como fazer poemas: pisar margem de abismo.


Paráfrases, citações e adaptações da letra da música "Stimela", de Wynter Gordon, e de poesias de Adélia Prado, da obra Poesia Reunida.
Foto de Agno Santos.

28 de julho de 2012

Batman, entre terroristas e rosas, morcegos e gatas


O que pode haver quando rosas crescem nos caminhos de morcegos, gatas e terroristas? Qual a medida e o limite da entrega de alguém em prol de uma causa, nação, povo? A que custos um homem pode se tornar herói?

O bem sucedido e nascido em berço de ouro Bruce Wayne (Christian Bale) divide sua vida entre ser o homem de negócios e festas da alta sociedade e encarnar a secreta identidade do herói homem-morcego. A máscara de Batman, como ele próprio sustenta, não é para se esconder, mas para proteger aqueles que ama.

A sedutora e nascida sem berço Selina Kyle (Anne Hathaway), alterna sua vida entre bancar a boa moça trabalhadora e ser a gatuna que alega roubar para comer e que se alia a bandidos quando preciso. Uma identidade felina de quem sabe agradar quando necessita, que teme diante do mal e treme diante do amor.

A ladra e o abastado dançam no mesmo baile. Sussurrando ao pé do ouvido, a gata arranha a consciência dele: "Acha que isso pode durar? Uma tempestade se aproxima [...]. Quando ela chegar, vão se perguntar como acharam que podiam viver com tanto e deixar tão pouco para o resto de nós."

Entre textos, imagens e metáforas que falam de nossa própria sociabilidade, das desigualdades sociais, do quanto podemos ser ideológicos e viver em torno de discursos inócuos, um terrorista insurge contra o poder local. Seu desejo é destruir a lendária cidade de Gotham usando como arma uma bomba atômica que os próprios ricos empresários criaram com o intuito humanitário de gerar energia sustentável.

Que doce ironia, quando o produto escapa das mãos do criador e ameaça destruí-lo junto de tudo o que ele mais ama. A Rosa de Hiroshima, cultivada pelos humanos, ameaça florescer para embelezar os seus túmulos. A rosa mostra seus espinhos, o morcego suas asas, a gata suas unhas, e o baile onde caem as máscaras abre o salão para a dança.

Dirigido por Christopher Nolan, "Batman: o cavaleiro das trevas ressurge" (2012), encerra sua magnífica trilogia e comove o olhar com uma bela humanização dos heróis. Redesenhados em contextos socioculturais que representam os problemas que hoje presenciamos, demonstram os dramas que os dividem entre cuidar de suas próprias vidas, seus amores e desejos, ou entregarem-se em prol de uma causa que pode custar sua vida.

Imagem capturada aqui.   

27 de julho de 2012

Pelos prados de Adélia, danço tempos a fios


Quando converso com Adélia, não há como não lembrar de Madonna, Frida e Pina. A mulherada toma conta da imaginação e vai desatando fofocas, filosofias, receitas, elucubrações, provérbios, infortúnios, gesticulações e palavrões deliciosos.

Choramingo para Adélia, digo-lhe da vontade que sinto de voltar pela rua para tentar apalpar aquele perfume de corpo ido. Ela ri. Na gargalhada trincada de ternura, me oferece seu colo materno, e pede calma a esse (m)eu corpo inóspito que sussurra pela abertura da porta.

Então procuro falar dos meus escritos, do sonho de ser poeta como ela. Ela me fuzila com olhar doloroso, sem espanto ou hesitação. Olha para a janela aberta e acariciando meus cabelos diz: "Detesto escrita elegante, as tragédias são doces"*.

Mesmo gostando do carinho coçadinho na cabeça, levanto e suplico pela sua sabedoria de idade e poesia: Me aponte caminhos, a senhora que vive a mais tempo que eu. Questione esses maus modos de me apaixonar e diga para ocupar meu tempo com trabalho e estudo, afinal, dizem que é isso que dignifica o homem.

Ela só suspira. Pensei até que fosse me xingar e dizer para respeitá-la por ser mais velha. Toma um pano de prato e, pela ponta solta, desfia todo o crochê já desgastado de enxugar tanta louça. Me olha e pegunta se "ficou melhor assim". Meio desconcertado e obediente ao seu tom paciente, desfaço a cara de preocupação existencial.

Me chama para que eu sente de novo ao seu lado e prossegue. Me disse que um dia, quando tinha mais ou menos a minha idade, e pensando em coisas parecidas, sentou no sofá para assistir "Fashdance" na sessão da tarde e pensou: "Quero dançar e ver um filme eslavo, sem legenda, adivinhando a hora em que o som estrangeiro está dizendo eu te amo"*.

Me olhou, secou as lágrimas em meu rosto e suspirou conclamando minha atenção:

"[...] e fazendo o que sei, o ouvido no teu peito para escutar o que bate. Eu te amo, homem, amo o teu coração, o que é, a carne de que é feito, amo sua matéria, fauna e flora, seu poder de perecer, as aparas de tuas unhas perdidas nas casas que habitamos, os fios de tua barba."*

Pegou no meu queixo e sentenciou em interrogativa: "Filho, isso eu disse para o meu Zé, há um tempo atrás. E você, vai esperar quanto tempo para dizê-lo a alguém?"

Mas Adélia, eu... Não houve tempo, ela só me abraçou e, bocejando, ainda disse: "Vou tirar uma soneca agora porque depois vai passar "Dirty Dancing" na sessão da tarde." E saiu cantarolando... "I've had the time of my life..."

Foto de Odailso Berté.
*Fragmentos de poesias de Adélia Prado - Poesia Reunida.

25 de julho de 2012

Voto de castidade


Se ouvir minha trilha sonora
Saberá que o que me constitui também me representa
Saberá minha versão, tom e nota de agora
Saberá dos sentidos que oculto e daqueles que publico.

Se você se aproximar de mim
Sentirá os calores que emano e os frios que guardo
Notará os desejos que mostro e os gozos que retenho
Perceberá os perfumes de uma alquimia erótica
Que molha, sua e enxuga ao franzir da testa.

Se você provar de minha comida
Degustará do meu sabor
Que (trans)pira no tempero e no carinho
(Con)fundindo-se para alimentar suas narinas
E tudo o mais que habita seu peito e sua pélvis.

Se me tocar com as mãos
Do modo como me toca com os olhos
Verá que não tenho (pre)tensões
Nem 1ª, 2ª ou o 5º dos infernos das intensões
Apenas verá minha libido ativar
E qual larva em erupção
Transformar em rocha dura
Tudo o que tocar.

Se me deixar tocar em suas dores
Sejam elas lombares ou cervicais
Massagearei seu id e seu ego
Levando ambos a uma incestuosa provocação
Em acalanto de dedos, palma e punhos
Desatarei arrepios em sua pele
Deixarei em riste suas pontas
E em risco seus pelos e arestas.

Se suspeitar dessa (in)sanidade
Verá que só sonho acordado
Mais que surdo, mudo, calado
Deitado e remoto
Sem controle para esse pensar
Que por direito já me serve
E me sacia com imagens
Ao tecer, sozinho, luas na madrugada.

Foto de Odailso Berté.

20 de julho de 2012

Sobre flores, xícaras e espadas

Quantas similaridades e colisões podem haver entre xícaras e espadas, o pó da maquiagem e o suor do esforço de uma luta... De "O Tigre e o Dragão" a "Memórias de uma Gueixa", Michelle Yeoh e Zhang Ziyi corporificam identidades femininas vestindo-se de singelezas e rigidez, firmezas e ternuras.

A jovem Jen, vivida por Ziyi em O Tigre e o Dragão, embora ostente o obstinado sonho de ser heroína, está prometida em um casamento político. Seus intuitos se dividem ao conhecer Shu Lien, uma heroína vivida por Yeoh. Entre ser irmãs e inimigas, as vidas destas mulheres se cruzam através de tradições quebradas e intensas perdas afetivas. Ambas lutam em voos sagazes, medem forças, trocam (des)afetos e padecem com a irrealização de seus amores.


A pequena Chiyo (Ziyi), em Memórias de uma Gueixa, deixa seu labor de escrava quando Mameha (Yeoh) torna-se sua mentora. Pelas hábeis mãos educadoras de Mameha, em intensas artes e ofícios, Chiyo se torna Sayuri, a mais bela e importante gueixa do local. Entre os segredos de ser uma gueixa também vivem renúncias, humilhações, ostentações, pois mais que mulher, uma gueixa precisa ser uma artista: cantar, dançar, agradar e seduzir com o simples gesto de servir uma xícara de chá.


Estas imagens de sabor oriental, chinesas e japonesas, ainda se ligam à lenda da destemida Mulan. A jovem que para poupar o pai já convalescente do alistamento imperial, ocupa o lugar deste e assume uma identidade masculina dentro do exército. Uma pequena flor desabrocha em meios às adversidades, sob o peso da honra tradicional e o ímpeto de descobrir sua própria imagem.


As mulheres que me encantam são assim, destemidas, tênues e vorazes. São corpos-fêmeas que subvertem sistemas e confrontam tradições com o toque de palavras, beijos, punhos e perfumes. Sua fragilidade se faz força quando não se calam e desatam nós enroscados em suas gargantas, dedos e joelhos. Inclinar-se a injustiças é uma prece não atendida em seus milagres furtivos. Entre ser mãe, rainha do lar, heroína, bruxa, artista, freira ou prostituta, fazem-se mulheres, desenham histórias e comovem olhares de homens como eu.

Imagens capturadas aqui, aqui e aqui.     

18 de julho de 2012

Profecias de quem apenas era...


Mirando o horizonte de nuvens rosadas, tingidas pelo foco/astro alaranjado - enfraquecendo lentamente em mais um crepúsculo - , ele suspirou em tons quase proféticos. Como um velho entretido em branquear os cabelos entre livros e imagens por tardes a fio, pensou outra vez em seus afetos contidos. A auto-reprovação apontou-lhe o dedo, todavia, estava claro que pensar sobre era só o que lhe convinha.

Da janela lateral ele cheirou telhados, acariciou o frio e beijou o entardecer como se fossem os membros do corpo querido. E nessa cena romântica, fugaz e solitária, ele admitiu em seu íntimo que o admitir era melhor que o negar. E que assim, permitindo-se sentir sem ter, fazia-se forte para aceitar as impossibilidades de toda ordem.

Com canções antigas, tão fora de moda, e uma taça com vinho, ele conclamou papel e caneta a tomarem nota de todo seu pesar, sentir, pensar, querer... Firmou em maiúsculas e minúsculas a assinatura de sua vivência passional, pois sabia que só o deus Cronos o salvaria da dita situação, depois de muitos ontens, hojes e amanhãs.

Como soprava a fêmea canção em seu ouvido, embora difícil de outrem acreditar, isso era tão normal. Entre cores vivas que se tornaram mórbidas e amores verdadeiros que se fizeram sórdidos, seu coração conhecia torres e cemitérios, o homem e seus velórios. Lembrança fatigante era um amor perverso. Mas agora ele apenas era... Mesmo que outrem não quisesse acreditar.

Novo mensageiro natural de coisas naturais brotava em seu palpitar cotidiano, insistia a limpidez da canção. Talvez cavaleiro de mistérios, casa e árvores, sem descanso nem dominical já cantarolava ele dançando abraçado à canção. Marginal e banhado em ribeirão, crescido sem termos de televisão, era como via o semblante desejado. Imagem folclórica que apaziguava seu imaginar.

De canção, escrita e janela, deixou-se embalar pelo odor colonial do vinho e agasalhou-se do frio nas lãs desse afeto só e tão seu. Admitiu outra vez calado e num último suspiro desenhou para suas frases a ternura do ponto final.

Paráfrases da música "Paisagem da Janela", interpretação de Elba Ramalho.
Foto de Odailso Berté.

16 de julho de 2012

Algo perdido por entre a ausência


Meus escritos pertencem a proprietários distintos, os poucos e estimados leitores que com eles tomam contato e o número considerável de sentimentos, imagens e vivências que tomam conta do meu cotidiano. Se nem sempre eles agradam, deem um desconto, contentar todos esses gregos e goianos não é o intento.

Hoje, após despedir-me de minha família que seguiu viagem depois de uma agradável visita, olhei para a casa vazia, um tanto bagunçada e tão silenciosa e pensei: Pronto, a solidão já pode voltar e tomar acento. Juntando os colchões lembrei que sempre amanhece, que a gente acorda, que o passeio termina, que a fome virá outras vezes.

Cada um a seu modo, deixou sorrisos, olhares, silêncios. Cada um se foi e se deixou em algo perdido por entre a ausência. Nessas ausências eu conto escritos e ditos, de mim para você, para quem tomar parte disso.

Se pelo menos as contagens e os contos forjados na ausência tocassem personagens reais a quem insisto agradar, eu tiraria boas lições dessas histórias com "e". Penso naquilo que um personagem disse poder me oferecer e sinto que, contrito, recebo essa oblação.

Tantas vezes ouvi que de "cavalo dado não se olha os dentes". Então, mesmo não se tratando de um unicórnio ou de um Pégasus, reúno os ternos apetrechos que emanam disso e sigo, ora como uma Moira cortando fios, ora como um senhor que gosta de tricotar e tecer sonhos de mentira, ilusões generosas, devaneios delicados.

Entre parentes e personagens, coisas tão simplórias e meio intensas que nem sei se vale a pena dizer. Coisas que conto só aqui e que tem até trilha sonora, nacional e internacional. Coisas assim, que me fazem tocar personagens, mesmo que só se trate de mais uma cena imaginária.

Foto: Jéssica Berté