14 de julho de 2014

(in/re)flexões sobre uma mostra de dança



De 'um filme, um objeto, um círculo, um quadrado', para uma 'torta de amora', um 'stillo' ousado, um 'aripuruc' lindo como 'a mesa verde' do querido Jooss... Algo 'moderadamente lento, seresteiro' beijou-me os olhos ao passo que algo 'orbital' mudou-me o foco... 'Me deixe ver seus olhos' foi um singelo pedido em forma de movimentos que, sim, entre lágrimas transportou-me para outro modo de ver 'a olho nu'. Com 'vela sobre água' senti-me instigado, tocado por 'alguma coisa nossa' que, entre 'concepção urbana' e 'corpo nordestino', possibilitam pensar-dizer, aqui, algo do que lá senti.

Prestigiar formas de organização coreográfica, perceber diferentes modos de composição e interpretar diversificados caminhos e afetos que podem ter desencadeado processos, são ações viáveis quando nos deparamos com trabalhos pungentes de significações. Me refiro aos trabalhos apresentados na I Mostra Artística dos Alunos dos Cursos de Licenciatura e Bacharelado em Dança da Universidade Federal de Santa Maria, no Teatro Caixa Preta, em 10 de julho de 2014.

Complexidades, cotidianidades, musicalidades e culturalidades se transfiguraram na cena e possibilitam-me ver a(s) dança(s) como imagens do e no corpo que podem aludir e iludir, agradar e agredir, imitar e limitar... Os modos de ver e compreender a dança são tão infindos quanto os modos de vida que com ela se relacionam, ou seja, quanto os corpos que assistem/percebem os corpos que dançam.

Trabalhos como 'a olho nu', 'aripuruc', 'torta de amora' e 'moderadamente lento, seresteiro' produzem uma densidade cinestésica, acometem a imaginação e desdobram diferentes ideias acerca de relações interpessoais, de desejos e escolhas que conformam subjetividades. 'Um filme...', 'vela sobre água' e 'orbital' são construtos coreográficos instigantes que provocam o pensamento deixando reticências poéticas, vontades de ver mais.

'Alguma coisa nossa' e 'corpo nordestino...' atentam para traços celebrativos, festas do corpo que estão tão dentro quanto fora, no quarto e na praça, no eu e no grupo. 'Stillo' assalta a percepção ao borrar fronteiras de feminino e masculino, ao desfilar no palco uma política queer, ao esboçar reposicionamentos de discursos, gestos e imagens da cultura pop muitas vezes taxada de mercadoria alienante por certos discursos acadêmicos tão enfadonhos e deterministas. 'Me deixe ver seus olhos', 'partida' e 'por bendizer-te' sugerem diferentes modos de lidar coreograficamente com a singeleza, a serenidade, a saudade, sentimentos/afetos tão dignos quanto os pensamentos/ideias.  

Entre processos e produtos, construções e construtos, aqueles corpos mostraram seus feitos, ações que estão se fazendo, outras ainda por fazer e/ou refazer. A potência e a perspicácia desses jovens dançarinos alargam as possibilidades de constante (des/re)construção da dança como arte e área de conhecimento. Dos trabalhos não citados aqui, não significa que não tenham excitado a percepção e a imaginação, trata-se apenas das diferente formas de eloquência, dialogicidade e interação que, no conjunto, proporcionaram.

Diante desses instigantes potenciais, emergem sonhos, projetos, produtos e outros processos ainda em devir. Renova-se uma escolha que em momento algum deixa olhar pra trás como forma de arrependimento. Escolher a dança como projeto de vida, área de atuação, modo de comunicar-se com o mundo, fortifica-se diante de danças assim.

Odailso Berté
Coreógrafo e Professor de Dança
Doutorando em Arte e Cultura Visual
Mestre em Dança
Especialista em Dança
Licenciado em Filosofia

Foto: Giacomo Giacomini
Dançarinos: Amanda Silveira e Crystian Castro

20 de março de 2014

Entre brumas, cores e estrelas, a magia de um carnaval


Nos dias em que me encontrava absorto e meio embevecido principiando a leitura da obra O Tempo e o Vento, há uns trinta dias atrás, um convite me foi feito: criar uma coreografia de comissão de frente para o desfile de carnaval de uma Escola de Samba da terra de Erico Verissimo. Mal sabia eu que as palavras iniciais de Erico em sua saga referindo-se a “uma noite fria de lua cheia” onde “as estrelas cintilavam sobre a cidade”, ganhariam um sentido todo especial na noite envolta em brumas na qual a Imperatriz completou a figura de seu hexágono dourado de estrelas.

Para compor a coreografia em torno de um caldeirão mágico que enredava os primórdios da história da maquiagem, busquei inspiração nas palavras de Marion Zimmer Bradley e nas imagens de Uli Edel quando estes, em forma de literatura e cinema, desvelam aos nossos sentidos “As Brumas de Avalon”. Poéticos gestos dos magos Morgana e Merlin enfeitiçaram a composição coreográfica que, junto ao belo contexto de toda a Escola, levou para a avenida do samba um espetáculo cheio de encantos, cores e movimentos.

O mergulho na noite fria de 15 de março de 2014 tornou-se literalmente mágico e misterioso quando, ao sair do pavilhão e descer a rua do Parque de Exposições rumo ao sambódromo, notei que tudo ao redor estava envolto por uma densa neblina branca. Era como se as brumas da lendária ilha de Avalon tivessem ressurgido e acampado ali naquele lugar, trazendo consigo as bênçãos, o poder, a mágica de Merlin e Morgana. Um misto de prazer e agonia invadiu-me, uma mistura de adrenalina e nervosismo à flor da pele, ganas inquietas de, bem como ‘Rainhas que à noite se maquiam’, fazer lindas ‘bruxarias na avenida’ em forma de dança.

E foi uma noite memorável onde magos, belos faraós, gueixas, samurais, uma mulher do povo Na’vi, Drag Queens e tantos outros corpos/personagens cheios de brilho e swing aquarelaram fantasias desfilando entre templos, portais, pontes, dragões, ônibus prateados e sapatos alados. Em plena avenida, olhava acima do caldeirão e via os suntuosos faraós – os humanos que dançavam escalando uma pirâmide e os alegóricos que repousavam sentados com as mãos pousadas sobre as pernas. E acima destes, as brumas, frias, brancas, densas, abraçando, envolvendo aquela imensa plêiade de corpos que preenchiam a avenida do samba fazendo seu espetáculo, carnavalizando sonhos, risos, cores, desafios, o suor de muito trabalho e a superação de obstáculos.

Mais um ciclo foi concluído e a Imperatriz, que majestosa se veste de vermelho e branco e é aclamada pela carinhosa comunidade da Zona Norte da cidade de Cruz Alta, recebeu mais uma estrela dourada para adornar sua coroa. Memoráveis são os momentos que experimentei junto daquelas estrelas humanas, pessoas brilhantes que formam esta agremiação carnavalesca. Cada uma dessas estrelas soube, a seu modo, cintilar, sorrir, acolher, trabalhar junto, dar a mão, um beijo, um abraço ou somente demonstrar um ímpeto para abraçar, beijar, estar próximo. No vermelho da paixão do carnaval e no branco pacífico das brumas que naquela noite nos envolviam, paira em meu entorno uma saudade sussurrando lembranças lindas ao pé do ouvido, dizendo que sonhos, magias, encantos e afetos são reais quando pessoas se juntam, superam obstáculos e constroem espetáculos para emocionar a outros.

Odailso Berté
Coreógrafo, professor e pesquisador em dança contemporânea
Doutorando em Arte e Cultura Visual - UFG
Mestre em Dança - UFBA
Especialista em Dança - FAP
Licenciado em Filosofia - UPF

25 de fevereiro de 2014

Nem tudo que reluz é ouro - Carnaval 2014

Desde o ano de 2006 tenho participado do Carnaval de Rua de Santo Ângelo/RS como coreógrafo de Comissão de Frente e de 2013 em diante tenho também experimentado a responsabilidade de ser carnavalesco e propositor de tema-enredo. A prazerosa satisfação de fazer parte disso vem da certeza de integrar um processo de criação desafiador e fértil que, mesmo sem tanta tecnologia e certas exuberâncias (vindas de fora), mostra à comunidade santo-angelense um desfile de carnaval inédito e genuinamente missioneiro, feito por nossa gente. É o que tem feito, a meu ver, a Escola de Samba Acadêmicos do Improvizo ao longo desses anos.


Observando e integrando o desfile do Carnaval de Rua de Santo Ângelo de 2014, atitudes de integrantes deste evento bem como as comoções provindas do resultado da apuração que deu à Acadêmicos do Improvizo o título de tetracampeã, me trouxeram instigantes reflexões e questionamentos. Agremiações carnavalescas mais tradicionais, acostumadas ao título de campeã em épocas mais remotas e sem a competitividade de hoje, obviamente tem dificuldade em assimilar derrotas consecutivas. Normal, nós humanos somos assim. As fórmulas antigas de se compor um tema-enredo e consequentemente um desfile de carnaval, nitidamente não vem mais dando certo. Há que se inventar novos jeitos de tecer e tramar os fios que costuram um tema-enredo. Desde a técnica artística usada para uma Comissão de Frente ao galão usado para detalhar as alegorias de uma carro, todos devem estar imbricados de modo a traduzir visualmente o tema-enredo e não a enaltecer a si próprios.

Por ter sido o divisor de águas entre o 1º e o 2º lugares do Carnaval 2014, o quesito Comissão de Frente despertou diferentes interpretações e muitas falas infundadas. Enquanto profissional pós-graduado da área de artes e dança (Especialização, Mestrado e Doutorado), com o devido respeito aos avaliadores vindos em anos passados, percebo que neste ano tivemos para o quesito Comissão de Frente um avaliador diferentemente formado e qualificado para desempenhar tal função. Quem mais que um profissional da área de dança e artes cênicas (ator, dançarino, coreógrafo, professor, integrante de importantes carnavais) para entender de corpo, movimento, expressividade, composição coreográfica, uso de elementos cênicos e adequação de figurinos no contexto do carnaval?

Tenho especial afeto pelo quesito Comissão de Frente, pois foi ele o caminho que me trouxe para o carnaval. Manter nota 10 neste quesito em todos esses anos de carnaval tem sido um trabalho desafiador e prazeroso. Penso que a nota vem como consequência da criação, da sua execução na avenida, da coerência artística e temática e dos pontos de vista com que o avaliador interpreta aquilo que lhe é mostrado, seja na sinopse seja na apresentação. A formação a partir da qual executo as Comissões de Frente que tenho criado ao longo de nove anos em Santo Ângelo vem da dança contemporânea, que não é um conjunto de giros, saltos e passos prontos como em outros estilos de dança ou técnicas artísticas. Mas sim, um modo, um caminho, um jeito de pensar e fazer dança mais aberto àquilo que o corpo, ou seja, a pessoa quer dizer/comunicar por meio de seus gestos e movimentos. Formado neste pensamento e prática de dança, ao criar uma Comissão de Frente, antes de giros, saltos ou outros virtuosismos, me preocupo em como os movimentos traduzem ou estão conectados ao tema a ser contado. Pois, como toda a Escola de Samba, a Comissão de Frente tem algo a ser comunicado. Nessa história a ser contada, saltar por saltar, girar por girar, por mais virtuoso que pareça, não garante coerência e conexão entre tema-enredo e coreografia. Nesse sentido, penso que a técnica (de dança, de teatro ou outras artes) não deve se sobrepor ao que precisa ser dito e traduzido em forma de movimentos, representações, alusões, simbologias, etc. Há que se contar bem uma história com movimentos contextualizados, figurinos característicos e funcionais e o adequado uso de alegoria.

Penso que um avaliador de carnaval não tem a obrigação de conhecer em extrema profundidade todos os temas que cada uma das escolas de samba irá apresentar na avenida. Os avaliadores não são “especialistas em generalidades” e nem têm a função de ler os mesmos livros que eu digo ter lido para criar o tema-enredo e nem saber em pormenores os detalhes da história que eu, enquanto carnavalesco/coreógrafo/compositor/Escola de Samba vou contar na avenida. E aí está a sabedoria do carnaval: enquanto Escola de Samba, Coreógrafo, Carnavalesco, saber contar bem o tema-enredo, traduzir de modo claro e esteticamente bem resolvido a proposta temática. Nas funções do avaliador, com sua experiência, vivência carnavalesca, embasamento e formação profissional, está a missão de ler a sinopse apresentada pela Escola de Samba e perceber se a execução feita durante o desfile é condizente e coerentemente conectada com o descrito. Se a prática performada no desfile condiz, enaltece e está imbricada com o discurso declarado na sinopse, é bem provável que a nota 10 será mantida. Pois, a título de informação, cada Escola de Samba já entra na avenida com nota 10 em todos os quesitos e vai perdendo pontos a depender das falhas e/ou incoerências que pode cometer ao longo do percurso.

Em um desfile de carnaval e em tantas situações de nossas vidas, nem tudo aquilo que brilha é joia rara, nem tudo aquilo que titubeia sofre uma queda e nem tudo que parece mais simples é digno de desprezo. Eu aprecio plumas e paetês, todavia, para além disso, um desfile de carnaval se faz, em grande parte, da coerência entre todos os elementos que o formam. E volto a enfatizar que, o galão e o acetato que decoram um carro, o tecido que estrutura uma fantasia ou a técnica artística que compõe uma Comissão de Frente não devem se sobrepor ao tema-enredo, à história que a Escola de Samba tem que saber contar/cantar/performar/dançar de modo plausível para os avaliadores e para o público.

Que venham muitos carnavais. Que esta festa e espetáculo popular se enraíze cada vez mais nas Missões e forme uma cultura de adesão e compreensão do que ele realmente implica e significa. Talvez assim o olhar da comunidade e a compreensão do público não permaneçam tão ofuscados por brilhos reluzentes e performances virtuosas que por vezes agradam o olhar mas não garantem a coerência artística e temática que deve estruturar um desfile de carnaval.


Odailso Berté
Coreógrafo e Professor de Dança
Doutorando em Arte e Cultura Visual - UFG
Mestre em Dança - UFBA
Especialista em Dança - FAP
Licenciado em Filosofia - UPF    

1 de outubro de 2013

À revolução de Madonna e à pregação de m. feliciano, "show your ass"

Coincidentemente, nos dias em que assisti o filme “Secret Project Revolution” (2013), parceria da cantora Madonna com o fotógrafo Steven Klein, também me deparei com um vídeo de uma pregação onde o pastor e deputado m. feliciano ofende católicos e outra vez desmerece lésbicas e gays. Enquanto o pastor, nesta e em outras pregações, proclama que Deus matou artistas como John Lennon e Mamonas Assassinas, desdenha da confiabilidade da classe artística, condena negros, gays e mulheres e hostiliza católicos, a cantora pop se expressa em defesa de gays, negros, mulheres, artistas e em respeito a diferentes culturas e expressões religiosas.

Além das atrocidades proferidas por feliciano, “Secret Project Revolution” também me remeteu a fatos como a violência da Polícia Militar do Rio de Janeiro que, em 28/09/2013, agrediu violentamente professores/as que manifestavam exigindo melhorias em sua carreira, aos desmandos do STF em julgar e punir os ladrões engravatados do mensalão, à desvalorização dos educadores da rede municipal (que entraram em greve em 24/09/2013) por parte da prefeitura de Goiânia/GO e a tantos casos de agressão, desrespeito e intolerância nos quais facilmente seres humanos discriminam, ferem a dignidade e tiram a vida um do outro. Estas e outras situações estarrecedoras relacionadas ao referido filme me trazem a pergunta (que até parece clichê): Para onde estamos caminhando, queridos compatriotas humanos?
 
Criticada por ser rica, exibicionista, branca, mulher, ingênua, oportunista, etc., e propor reflexões e ações que podem levar a transformações no cenário de intolerância que se espalha pelo mundo, Madonna trás essas críticas para o filme, questionando o fato de, porque sendo ela mulher, loira, artista, não poderia ter atitudes revolucionárias. Em imagens extremamente bem criadas e articuladas e um uso cuidadoso da dança como metáfora, o filme, que prega uma revolução do amor, também é composto por uma narração na voz de Madonna. Ela expressa experiências e percepções vividas ao longo de sua turnê mundial em 2012, sua indignação, críticas que recebeu, sua vontade incessante e crescente de combater as injustiças e de unir mais pessoas nesse projeto que também visa (re)pensar o que é a liberdade de expressão.
No primeiro contato com o filme, o discurso/narração me pareceu tirar o foco das imagens ou querer explicá-las. Percebi mais a necessidade de Madonna falar do que, propriamente, a potência das imagens e da dança em questionar e instigar significados. Outras aproximações possibilitaram perceber afinidades, desencontros e fricções entre texto/fala e imagem/dança. O “Secret Project Revolution” está inserido num projeto maior chamado “Artforfreedom”, onde outros artistas são convocados a se manifestar acerca do que pensam sobre liberdade, preconceito, violência, etc.
 
Ao dizer “sou mulher, sou loira. Eu tenho peitos e bunda e um desejo insaciável de ser notada”, Madonna relembra que quando (na MDNA World Tour - 2012) ficou só de lingerie no palco e mostrou a bunda, alguns gostaram e outros acharam obsceno. Ela complementa dizendo que julgar a compaixão e temer o amor, isso sim é obsceno. Nesse momento do filme, uma voz forte e convocadora proclama: “Show your ass” (mostre sua bunda), o que me remete ao discurso moralista e inescrupuloso de m. feliciano ao dizer que católicos tem o corpo entregue à prostituição e todas as misérias humanas.
Me pergunto o que de fato ele entende por corpo e imagino as atrocidades que viriam na resposta a esta pergunta. Penso se ele tem refletido sobre o termo “prostituição”, principalmente em tempos onde se discute sua legitimação enquanto profissão. E o que seriam “as misérias humanas” a que ele se refere? E porque agora atacar os católicos? Seria receio de perder fieis para o carisma do Papa Francisco? Quão obscenas e desumanas considero as palavras de quem se propõe líder religioso ao passo que condena umas pessoas pela sua cor, raça, identidade, gênero, e imbeciliza outras com discursos moralistas e amedrontadores. Diante de ideias e atitudes assim, resta dizer: “Show your ass”, é menos vergonhoso e menos obsceno.
 
Falando em católicos, é intrigante ver membros de igrejas cristãs pentecostalistas repetindo discursos, condenações e atrocidades que a igreja católica fazia lá na idade média com mais estilo, convenhamos, pois certas performances “pastoricidas” estridentes são um descalabro.  E falando em prostituição, muito mais obsceno do que um corpo que presta serviços sexuais, e cobra por isso, é um corpo que berra e vomita discursos excludentes e discriminatórios atribuindo isso à vontade divina.
Madonna recorda ainda, em seu filme, que Jesus, Buda, Maomé, Moisés, entre outras celebridades religiosas, discursavam e agiam tendo em vista o amor entre as pessoas, sem usar a religião para fazer mal aos outros. Instigante o fato de uma artista pop, taxada de exibicionista, vadia, marqueteira, entre outros atributos, nos recordar dessa máxima religiosa e humanista. Se o corpo é pra louvar a Deus, como prega o pastor, e se Deus é amor e autor de todas as formas de vida, o corpo de quem viola os direitos humanos está longe disso. Penso que se certos líderes religiosos refletissem teologicamente, com sensibilidade e mais cautela intelectual, sobre o texto/poema bíblico da criação, poderiam talvez entender que, se Deus fez mulher e homem como corpos e disse que isso é sua imagem e semelhança, o corpo (com peitos, bundas, outros adereços e variadas cores, gêneros, identidades e orientações sexuais) é imagem divina.
 
Ao elucidar o medo da diferença como algo que leva à intolerância, em seu filme, a santa e pecadora Madonna ainda ironiza, provoca e invoca um discurso acerca do corpo dizendo: “Vem cá, baby, mostre a sua bunda. Mexa pra gente. Faça aquela dança que você faz tão bem, baby”. O convite a mostrar, mexer, dançar, me faz refletir outra vez sobre o que é SER CORPO, a desmistificar pregações imbecilizantes que veem o corpo como um saco de pancadas, como bode expiatório de pecados e louvores inventados, como instrumento submetido aos ditames de discursos e instituições dualistas/espiritualistas que desconsideram sua materialidade, humanidade, sexualidade. Conclamar os diferentes corpos a se amarem e a se importar com o bem comum seria menos obsceno que certos impropérios em forma de pregação.
 
Por Odailso Berté
Doutorando em Arte e Cultura Visual - UFG
Mestre em Dança - UFBA
Licenciado em Filosofia - UPF

28 de agosto de 2013

"Só a bailarina que não tem", ahãm, Cláudia...


Francine Piaia fazendo 'quadradinho de oito' vestida de bailarina
 
Certo dia me deparei com um cartaz, colado num poste, que dizia: “Contrata-se dançarinas (sem experiência)”. Isso me remeteu à correção que recebi de uma pessoa quando eu escrevia uma crítica de dança e chamava as artistas do referido espetáculo de “dançarinas”. A correção se deu no sentido de que eu não poderia chamá-las assim, pois dançarina é quem dança em boates, bandas, programas televisivos... Nessa forma de pensar, o correto, para quem é profissional da dança, seria “bailarina”. [Ahãm, Cláudia, senta lá...].
O cartaz e a correção podem ascender questões pertinentes para se refletir em torno da DANÇA como arte, profissão, área de conhecimento. Uma mácula parece acompanhar a dança e o corpo ao longo dos tempos, aproximando-os do sexo, do desejo, da sensualidade, como se fossem pecados, sujeira, impurezas. Daí, talvez, ainda derivem, no imaginário de muitos/as, as imagens equivocadas de dançarina/o como puta/o, promíscua/o, lasciva/o.
Pensando na história da dança cênica ocidental, o balé, ou a dança clássica, foi a primeira técnica de dança codificada (Eugênio Barba, 1995). Nascido na corte do rei Luís XIV, esta modalidade de dança – e não base para toda a dança – é o que de mais erudito ainda se cultua no campo da produção de dança e na preparação de profissionais de dança. O balé ainda é tomado como referência suprema que determina e até “purifica”, sacraliza o que seria a boa dança, longe de promiscuidade e lascívia. Não à toa este estilo de dança foi e é tomado como instrumento de disciplina e boas maneiras. Curiosamente, foi o único estilo de dança permitido por Hitler, durante o regime nazista.
As imagens da bailarina [princesa, fada, sílfide], ser sobrenatural e esvoaçante, “que não tem pereba, pecado, namorado, sujeira, irmão zarolho, remela, piolho...”, como diz a canção de Edu Lobo e Chico Buarque, contrastam com imagens de dançarinas de funk, de streapers, das dançarinas do Faustão, de quem usa formas de dança como estratégia de atrativo sexual, entre outras. Na imagem acima, a ex-BBB Francine Piaia faz o "quadradinho de oito" vestida de bailarina, uma atitude que pode ferir os sentimentos de quem sacraliza o balé em detrimento do funk e outras danças que evidenciam o erótico, a sexualidade e o prazer. De fato existem diferenças nas funções, ações, danças que esses corpos desempenham. Todavia, me inquietam os preconceitos, os receios, os equívocos em torno dos termos “dança”, “dançarina/o”.
O termo “dançarino/a” surge por volta do século XVIII, provavelmente calcado do termo italiano “ballerino/a” (Antônio Cunha, 1986). Segundo a Classificação Brasileira de Ocupações – CBO, no grupo “artistas da dança” compreende-se bailarinos, dançarinos, coreógrafos, dramaturgos, assistentes, ensaiadores e professores de dança (Carla Morandi, 2010). Suas competências, de acordo com cada função, compreendem concepção/concretização de projetos cênicos de dança, criação de obras coreográficas, realização de apresentações públicas, preparação corporal, pesquisa de movimentos, ensaios e ensino de dança. Sobre a formação e experiência, embora ainda não seja exigência, estas seguem a tendência mundial no campo das artes baseada na formação por meio de curso superior na área.
A dança, vista/pensada/executada como arte, profissão, área de conhecimento, abarca questões e possibilidades artísticas, expressivas, educacionais, de saúde, bem estar e relações sociais. Tratar de dança é tratar de um fenômeno, uma ação cultural que transpõe os limites das conhecidas sistematizações e classificações. A dança está nos palcos, nas academias, nas salas de aula e para além destes espaços. A dança está presente no cotidiano sociocultural, seja como arte, linguagem, forma de comunicação, lazer, entretenimento, área de conhecimento, evento social, elemento de festas, bailes, celebrações, shows e rituais, podendo envolver relações de afeto, prazer, saber e poder.
Interpretando o termo “artista da dança”, penso que os receios em torno do termo “dançarino/a” carregam uma falta de compreensão da abrangência que a dança possui, além de preconceitos classistas/elitistas/puritanos que aumentam os abismos entre as “danças da corte” (eruditas/alta cultura/arte) e as “danças da plebe” (populares/de massa/midiáticas/entretenimento). Elementos de dança perpassam estes diferentes ambientes, compostos por diversos corpos-sujeitos e variados modos de usar/fazer/entender dança. É um equívoco pensar que só podem ser entendidas como DANÇA (boa dança - arte) as danças eruditas, da alta cultura, do sistema das belas artes e também as folclóricas e tradicionais.
As diferentes formas de dança e de uso da dança não devem ser niveladas, nem vistas sob os mesmos ângulos e olhares. Cada estilo de dança e cada profissional da dança merece a devida consideração em relação a sua história, trajetória, formação e experiência. Para quem somente dança balé, penso que o termo que melhor o/a identifica, se assim preferir ser chamado pelo estilo ao qual se dedica, pode ser “bailarino/a”. Para quem dança e faz da DANÇA sua área de atuação, profissão, formação, criação, independente de ser dança clássica, moderna, contemporânea, de salão, de shows, de pole dance, em boates, no teatro ou no programa do Faustão, às favas o receio/preconceito de ser chamado/visto/reconhecido como DANÇARINO/A.

Odailso Berté
Dançarino, coreógrafo e pesquisador em dança contemporânea
Doutorando em Arte e Cultura Visual - UFG
Mestre em Dança - UFBA
Especialista em Dança - FAP
Licenciado em Filosofia - UPF

Imagem capturada aqui.

15 de dezembro de 2012

Madonna, o corpo metáfora (MDNA Tour 2012)

Tanta ou maior que a de 2008, quando a Sticky & Sweet Tour veio ao Brasil, foi minha atual expectativa para (re)ver Madonna em sua MDNA Tour (2012). Hoje ela também faz parte dos afetos – cheios de razões – que movem meus interesses de estudo e pesquisa. Fã e pesquisador se misturam e, por mais que Adorno e Horkheimer pensassem o contrário, o ato eufórico e encantado de experienciar/cantar/dançar/chorar com o show de Madonna não está separado do ato de pensamento e construção de significados. Esse é um momento que elucida o fato de que, no corpo, razão e emoção nunca estão separadas.


O nono dia de dezembro de 2012 foi marcado pelo meu reencontro com a Rainha da música pop, a ‘girl gone wild’ que faz jus em ter o nome de “nossa senhora – Madonna”. Afinal, há que ser muito poderosa para orquestrar um espetáculo de tamanha magnitude, além de cantar (ao vivo) e dançar (eu falei dançar, não passinhos pra lá e pra cá). Bem antes do espetáculo iniciar, um ensaio trouxe Madonna e seus dançarinos ao palco. As imagens artefatos, antes vistas, tornam-se imagens ações que se movem diante dos olhos, criando refrações no corpo todo. Um pensamento/sentimento ingênuo emerge: “Madonna é de verdade”! Tão real e próxima que, como qualquer mortal, precisou se proteger do sol.


O show inicia como um missa. O cenário, uma imponente catedral com direito a monges, gárgulas, sino, turíbulo e ladainha com o nome Madonna. Ao soar uma penitente e sensual voz feminina, dizendo “Oh my God”, a catedral se abre para a entrada de um oratório suspenso que mostra a silhueta de uma mulher ajoelhada, de mãos postas, rezando a oração do ato contrição. Ela levanta, empunha um rifle a quebra os vidros do oratório para cantar “Girl Gone Wild”. Sim, é a própria Madonna, a santa que empunha um rifle, ao passo que os monges se despem e dançam sobre sapatos de salto alto. Inversões, provocações, subversões... Dicas e picardias para os conservadores religiosos (católicos, evangélicos e do diabo a quatro) e demais simpatizantes que abominam a homoafetividade. São sinais de nossa senhora – Madonna... Interpreto e obedeço, piedosamente. Amém!


Já no terceiro bloco do show, Madonna interpela o olhar do espectador perguntando: “What are you looking at?” Sugerindo questões referentes a corpo, gesto, imagem, pose, comportamento, a performance do sucesso “Vogue” é genialmente articulada e desfilada por modelos/looks que remetem a diferentes gêneros, épocas, personagens, cenários. A sequência se dá com o mashup, pra lá de sensacional, de “Candy Shop” com “Erótica” que ambienta um ousado e polido cabaré onde corpos trocam gracejos, prazeres, toques e afetos. Com “Human Nature”, Madonna se relaciona consigo mesma diante de espelhos e com mãos que buscam tocá-la, aludindo a temas como identidade, desejo, fetiche, objetificação, sexualidade. Ela encerra este momento se despindo e proferindo um caloroso e emocionado discurso em prol das mulheres de todo o mundo.


Outro destaque especial merece a dança no show de Madonna. Dançarina profissional, quase graduada em dança pela University of Michigan, ela também vivenciou a técnica de dança moderna de Martha Graham, uma das fundadoras dessa modalidade a nível mundial. Com toda essa bagagem, é de se esperar e comprovar que em seu show, Madonna e seus dançarinos não fazem da dança uma mera ilustração para a letra das músicas. Trata-se sim, de configurações coreográficas que ora convergem ora divergem com a música. São estruturas de movimento que adensam as propostas estéticas do show e propõem diferentes formas de ver, analisar, sentir, perceber o espetáculo. O corpo não é apenas um objeto virtuoso da arte, mas um corpomídia que constrói informações, imagens e metáforas para se comunicar com os demais corpos. É impressionante os modos como Madonna não simula o ato de dançar em função do ato de cantar. Pude vê-la, a menos de três metros de distância, no auge dos seus 54 anos, dando saltos, fazendo rolamentos, giros e sequências efusivas de movimento. É simplesmente... Uau! Ela acompanha, equiparadamente, os dançarinos mais jovens e ainda canta e toca. Que estrela!


Entre canções, imagens e coreografias, a ópera pop de Madonna desliza e adentra por catedral, quarto de hotel, combate, lutas, banda marcial, balizas e líderes de torcida, luau basco, cabaré, celebração mística e festiva, críticas sociais, políticas e religiosas. Uma cadência impressionante, uma tecnologia espetacular, performances arrebatadoras, um produto muito bem amarrado estética, imagética e conceitualmente que confirma a arte de Madonna como uma potência cultural e econômica consolidada e abrangente.


Mística e erótica, razão e emoção não encontram barreiras entre si quando o corpo se relaciona com algo assim. Vida longa à Rainha do pop. Que no alto dos seus sessenta anos possamos ainda ver Madonna interpelando o mundo com suas criações e, como ela mesma diz, fazendo de seu corpo uma metáfora para provocar.

Odailso Berté
Coreógrafo e dançarino
Doutorando em Arte e Cultura Visual
Mestre em Dança
Licenciado em Filosofia

Fotos de Odailso Berté 

25 de novembro de 2012

Corpoesias no 'Cesta de Dança - 2012'

Seis coreografias, dentro do evento Cesta de Dança - 2012, se inspiram em obras literárias, cidades, elementos naturais e singularidades do corpo, gerando experiências que interpelam e emocionam. Nas noites de 23 e 24 nov. 2012, a Sala-Teatro Julson Henrique, do Espaço Quasar, foi palco para criações independentes de bailarinos da Quasar Cia de Dança e demais convidados.

"Irene", de Marcos Buiati

“Irene”, de Marcos Buiati, põe em relação três personagens inspirados nas ‘cidades invisíveis’ de Ítalo Calvino. Sutilezas circenses remetem as possibilidades interpretativas para imagens de filmes como “O Palhaço” e “O Labirinto do Fauno”, criando uma rede de associações entre a gestualidade dos dançarinos e as experiências do espectador. Entre mãos que enxergam, olhares que tocam, tiras de tecido, bolinhas de gude e guarda chuva, lúdico e afetivo tecem alegorias dramáticas por meio dos movimentos ternos e precisos de José Villaça, Marcos Buiati e Paula Machado.
 
“Retalhos de Cetim” entrelaça a poesia musical de Benito Di Paula, a acuidade coreográfica de Valeska Gonçalves e a visceral interpretação de Flora Maria. Enquanto fragmento do Espetáculo “Nega Lilu”, da Nega Lilu Cia de Dança, inspirado no conto “Sem Palavras” de Larissa Mundim, este solo condensa instantes em que sensações de ambas as personagens do conto coexistem no mesmo corpo. A coreografia exala sensualidade, paixão, saudade e convida o olhar a vislumbrar diferentes formas de amar.

“Stamina”, coreografada por Gabriela Marques, mistura diferentes intérpretes e inspirações como elementos naturais, desejos e a relação mente e cosmo. Nessa rede holística, os jovens dançarinos alternam formações coreográficas visualmente interessantes. Entre saídas e entradas, determinadas formas de ocupar o espaço cênico e um figurino padronizado em tom preto, o trabalho denota escolhas um tanto datadas no que tange a organização coreográfica. A movimentação densa e maleável é instigante e, por vezes, sugere que a intenção parece ser maior que a dança.
"Barcelona", de Martha Cano

“Barcelona”, coreografada por Martha Cano, com gestos dedilhados parece flertar com a possibilidade de ser ora ilustração ora ironia da música. Com nuances espanholas e inspirada em elementos de escritos de Suzana Cano, a movimentação cria cenas brincantes que sugerem interligações entre infância, afetos, galanteios e aproximações.

“La Cosa”, enfatiza a sensibilidade da coreógrafa Valeska Gonçalves em perceber as particularidades do corpo da intérprete Martha Cano. Criando tensões entre mobilidade, flexibilidade e impossibilidade de deslocamento, a coreografia dá destaque para certas capacidades do corpo, fazendo destas, motes para a criação. Ao se inspirar no, tematizar o, se dar a ver no corpo, ‘La Cosa’ abre possibilidades para ver/pensar/entender o corpo não só como suporte da dança e da representação, mas como sujeito que dança.
"No Crivo da Rosa", de João Paulo Gross

“No Crivo da Rosa”, de João Paulo Gross, mergulha fundo no universo poético-literário de Guimarães Rosa e dilata tempos, imagens e movimentos. Criando imagens que se metamorfoseiam, a coreografia (co)move e guia o sentir-pensar do espectador por caminhos imaginários que podem ser próximos, distantes, tortuosos, sem volta. Intercalando pó, poros e poesia, os corpos dos intérpretes João Paulo Gross e Carolina Ribeiro traçam descobertas, inventam percursos, trocam afetos, um no outro, um com outro, um para o outro. Simplicidades e complexidades na configuração coreográfica situam uma pesquisa de movimento que ora perambula no quintal daquilo que já sabe ora salta a cerca desse quintal denotando algo novo e singular.

Entre memes conhecidos e replicados, alguns já transformados e outros inéditos, conforme os processos evolutivos naturais-culturais de expansão/transformação da dança, as coreografias que integraram o Cesta de Dança – 2012, cada uma a seu modo, instigam diferentes gostos, afinidades, identificações, opiniões, comentários e modos de ver do público goiano. Este, cada vez mais bem servido com eventos, pesquisas e criações de dança de diferentes procedências, configurações e estilos.


Odailso Berté
Coreógrafo, dançarino e pesquisador em dança contemporânea
Doutorando em Arte e Cultura Visual - UFG
Mestre em Dança - UFBA
Licenciado em Filosofia - UPF
Imagens de Odailso Berté e Larissa Mundim

Quando a dança 'Por Acaso' gera (des)construções

Pensando sobre crítica de dança, apreciação artística, análise estética... Ser mais romântico ou mais rigoroso? Ser marxista, positivista, semioticista, subjetivista? Ser popular ou erudito? Vulgar ou enrustido? Descrever uma experiência de construção de sentidos/significados? Narrar uma particular relação com a obra/evento/dança? Dizer ‘gostei’ ou ‘não gostei’? Apontar ‘que bom’, ‘que tal’, ‘que pena’? Determinar o que eu ‘acho’ que o autor quis dizer? Direcionar o olhar dos outros com o meu ‘achado’? Os caminhos se cruzam, as possibilidades se misturam, as vontades se abraçam.

Skatistas, patinadores, uma galera do ‘cachimbo da paz’, casais apaixonados, homens que usavam o WC feminino, música sendo ensaiada, nuvens prometendo chuva, uma bela de rosa e preto que performava poses sensuais... Entre tudo isso e tantas outras formas de vida, ação, movimento, que compunham o cenário da Praça Universitária de Goiânia/GO, no dia 24 nov. 2012, aconteceu o “Por Acaso – Tardes de Improviso”, sob coordenação do Por Quá Grupo Experimental de Dança, dirigido por Luciana Ribeiro.

Como o próprio grupo descreve, Por Acaso – Tardes de Improviso é uma jam session que busca reunir artistas para improvisar músicas e danças quentíssimas. Costumeiramente, acontece na Fábrica Cultura Coletiva, todavia, por ocasião da Mostra de Arte Insensata (22 a 24 nov. 2012), a sessão de improviso deslocou-se da Fábrica para a Praça. Dialogando com a cidade e com artistas, o Por Acaso objetiva criar encontros, intervenções e experiências sonoras, físicas, plásticas e visuais.

Esses entrelaçamentos de sensações/sentidos/experiências – que não prescindem do pensamento, pois tudo está junto no corpo – possibilitam modos de apreciação da dança que se articulam entre o assistir e o dançar junto. Ver e fazer seduzem um ao outro e se (con)fundem, abrindo possiblidades de apreciação, envolvimento, diversão, criação, diálogos sensíveis e estéticos. Os corpos, literalmente, caem na dança. Do mais ao menos iniciado, todos dançam, esgarçando as fronteiras da dança enquanto arte, área de conhecimento, profissão, entretenimento, evento social, ação-pensamento do corpo. Quer arte mais (in)sensata que isso?

Por Acaso possibilita pensar-sentir-fazer questões em torno da acessibilidade a artefatos e obras artístico-culturais; a democratização da experiência estética; a desfronteirização palco/platéia; criações coletivas; relações corpo e ambiente; contemplação e participação; crítica e apreciação; etc. Múltiplos vieses de interpretação emergem quando a dança aponta para além de si própria, abrindo canais para, por meio do corpo, ver o mundo.

Suor, ideias e sentimentos emergem do corpo ao ver os demais corpos imersos na dança e ao deixar-se envolver, dançando junto. E o crítico, é o que fica diante de? É o que se relaciona com? É o que discursa sobre? É aquele que fala o que ele próprio faria se fosse o artista?  Lembrando o filósofo Jacque Derrida, talvez a ação do crítico possa ser entendida como uma (des)construção. Crítico é o (m)eu corpo que, tocado pelo que vê, imerso no que experimenta, configura uma fala acerca disso. Esta fala pode não ser mais o visto e experimentado e sim uma desconstrução, uma outra construção, um dos possíveis modos de ver, dizer, interpretar aquilo.

Odailso Berté
Coreógrafo, dançarino e pesquisador em dança contemporânea
Doutorando em Arte e Cultura Visual - UFG
Mestre em Dança - UFBA
Licenciado em Filosofia - UPF
Fotos de Odailso Berté

15 de novembro de 2012

Corpografias de Nega Lilu

Romeu e Julieta, A Bela e a Fera, Alexandre e Heféstion, Frida e Diego, Lampião e Maria Bonita... Nega e Lilu. Reais e fictícias, épicas e populares, estas e outras histórias compõem nosso imaginário e traduzem diferentes formas de amar. Misturando sutilezas e intensidades afetivas, o espetáculo “Nega Lilu” impacta, comove e questiona acerca da busca da plenitude do amor, em apresentação realizada no dia 11 de novembro de 2012, no Teatro Goiânia.

Flora Maria e Valeska Gonçalves (foto de Lu Barcelos)
 
Com ousadia e sensibilidade, a coreógrafa e bailarina Valeska Gonçalves da Nega Lilu Cia de Dança faz uma transposição do verbal ao gestual sem produzir caricaturas ou personagens estereotipados. Em vez de narrar linearmente o romance, a coreografia descarta obviedades captando e traduzindo sensações e estados das protagonistas. Estes sentimentos passeiam pelos corpos das bailarinas seduzindo e engajando o público a descobrir, encontrar, construir quem é Nega e quem é Lilu. As surpresas, emoções, tensões e reflexões geradas pelo espetáculo, criam uma atmosfera de diálogo entre arte e vivências, possibilitando que o espectador entrelace a dança com suas próprias experiências afetivas.

 Os auges e tropeços, tão característicos nas relações amorosas, ganham visceralidade com a instigante interpretação das bailarinas Valeska Gonçalves e Flora Maria. Gestos detalhados e delicados acentuam a profundidade de pormenores que estabelecem a reciprocidade entre duas pessoas. A sonoridade de um sapateado flamenco entrecortado exacerba a lástima e, ao mesmo tempo, a fortaleza de uma mulher lidando com a ausência.
 
Valeska Gonçalves (foto de Lu Barcelos)

 A movimentação de um corpo em contato com uma banqueta sugere nuances de uma sensualidade feminina que se enuncia entre desejos e distância, escorregando dos fios de cabelo ao salto do sapato. São genialidades coreográficas que possibilitam ver a dança não apenas como algo sentimentalista, mas como uma inteligência do corpo que não separa sentir e pensar.
 
Flora Maria (foto de Lu Barcelos)

O espetáculo de dança “Nega Lilu” constrói corpografias a partir de um conto contemporâneo de Amor, mediado por contatos físicos e virtuais, presenças e ausências. “Sem Palavras”, escrito por Larissa Mundim, também vem sendo comentado, transformado e difundido pelas linguagens da literatura, audiovisual, body art, street art e performance.

Na dança e no conto, os corpos escrevem uma história que vale cada instante e inscrevem no corpo do espectador a sensação de que o amor é eterno no tempo em que ele acontece. Estas escritas do/no corpo, ao passo que nos deixam sem palavras, também possibilitam a enunciação de mais de 100 palavras sobre amor, permanência, efemeridade, amadurecimento... Que tão bem descrevem os ciclos de vida de cada pessoa.


Odailso Berté
Coreógrafo e pesquisador em dança contemporânea
Doutorando em Arte e Cultura Visual - UFG
Mestre em Dança - UFBA
Especialista em Dança - FAP
Licenciado em Filosofia - UPF

4 de novembro de 2012

Entre Pina Bausch e Madonna, uma dança contemPOPrânea

Você já ouviu expressões do tipo: A dança... “Vem lá de dentro”... “É um dom divino”... “Brota da alma”... “É a expressão do sentimento”... Ou... “É coisa do capeta”? Ingênuas ou equivocadas, estas são formas como alguns veem e entendem a dança. Lembra do filme “Footloose” de 1984? Ele narra um fato curioso, a proibição da dança numa cidade. O reverendo de uma igreja cristã busca impedir o movimento, a liberdade, a expressão do corpo, do “pé solto – footloose”, como diz o título. Essa história é antiga e real. Dança e corpo foram, por muito tempo e ainda hoje, associados à sensualidade, ao sexo, ao pecado, ao demônio. A alma, o espírito, a mente, o pensamento, a teoria, foram erroneamente entendidos como superiores e separados do corpo, do afeto, do prazer, dos sentimentos, da prática.

Kevin Bacon em "Footloose" (1984)

Em “Footloose”, a rebeldia de Ren McCormick (Kevin Bacon) mostra-se no seu corpo: em seus modos de se mover, dançar, falar, se comunicar com os corpos submetidos ao conservadorismo e de enfrentar os corpos conservadores. Quando um pintor faz sua obra, o quadro que ele cria é um objeto externo ao seu corpo. Já um dançarino, quando faz sua obra, a dança, esta não está separada do seu corpo, ela é o seu corpo. Nesse sentido, podemos entender que o corpo é o lugar e o sujeito da dança, ou ainda, que dança é corpo.

Na dança contemporânea nem sempre o coreógrafo cria e os dançarinos repetem. Os modos de configurar a coreografia podem ser compartilhados e misturados com várias outras formas e técnicas artísticas. Ações como andar, correr, sorrir, falar, etc., podem ser vistas no palco, criando um estilo de dança que, muitas vezes, borra as fronteiras entre a arte e a vida cotidiana. Entre os tantos artistas, nacionais e internacionais, destaco o diferenciado trabalho da coreógrafa alemã Pina Bausch (1940-2009), recentemente homenageada pelo cineasta Wim Wenders com o filme “Pina” (2011) e que já tinha aparecido em “Fale com Ela” (2002) de Pedro Almodóvar e “E La Nave Va” (1983) de Federico Fellini. O modo de Pina coreografar era surpreendente. Ela fazia perguntas aos seus dançarinos e eles deveriam respondê-las com movimentos, palavras, gestos relacionados às suas experiências vividas. Com as criações de seus dançarinos Pina organizava as coreografias e espetáculos.

Espetáculo "Bamboo Blues" (2007) de Pina Bausch. Foto de Jong-Duk Woo.

Com esses modos de pensar-fazer dança tem sido possível compreender que o corpo não é uma máquina, a prisão da alma, o lugar do pecado ou somente um repetidor de passos. Mas sim, que o corpo pensa e pode organizar e executar a dança a partir das suas experiências. Pensar é uma ação do corpo. Próximo do que diz a crítica de dança Helena Katz, a dança pode ser compreendida como pensamento do corpo. Ou seja, quando o corpo dança, está pensando/sentindo/comunicando ao mesmo tempo.

Dança é arte e uma área de conhecimento/criação/pesquisa, um curso presente em várias universidades do Brasil e do mundo. Mas sem se restringir a isso, a dança está também em festas, boates, videoclipes, shows, filmes. Entendida como arte ou como entretenimento, dentro dos padrões estéticos tradicionais ou dos padrões da cultura de massa, trata-se de dança e de corpos que dançam. Não vejo maior ou menor valor na dança de um espetáculo de Pina Bausch ou na dança de um show de Madonna... Entre um corpo que assiste uma coreografia de Pina e outro corpo que sua dançando na boate ao som de Madonna.

Coreografia de "Girl Gone Wild" - MDNA Tour (2012). Foto de Rêmulo Brandão.

Demonizar Madonna como cantora de música pop – cultura de massa destinada aos prazeres do corpo e sacralizar Pina Bausch como coreógrafa de dança contemporânea – arte destinada à contemplação mental/espiritual, são atitudes equivocadas, mas muito difundidas. Madonna e Pina Bausch tiveram contato direto com a técnica de dança moderna da coreógrafa norte-americana Martha Graham (1894-1991) em NY. Nos diferentes trabalhos das artistas percebe-se o destaque do corpo, da dança e de um conjunto cênico produzido cuidadosamente. Os chamados ‘erudito’ e ‘popular’ se misturam de muitas maneiras no cotidiano das pessoas, nos mais diferentes modos como nós curtimos, consumimos, usamos, aprendemos, reinventamos ou repudiamos danças, imagens, produtos, roupas, músicas, etc.

As proibições, demonizações, sacralizações e separações já não dão conta dessa profusão contempoprânea. A neurociência tem mostrado que razão e emoção são funções do corpo e que elas operam juntas, sempre. Compreendendo que somos corpos ‘sentipensantes’, busco ver-pensar-fazer uma dança contempoprânea: que é “footloose”, dos pés soltos, do corpo livre, indomável, criativo... Que borra fronteiras, separações, preconceitos... Que está misturada com a vida cotidiana, com os afetos, experiências, prazeres, desejos, sentimentos e pensamentos dos corpos.

Odailso Berté
Coreógrafo e pesquisador em Dança Contemporânea
Doutorando em Arte e Cultura Visual - UFG
Mestre em Dança - UFBA
Especialista em Dança - FAP
Licenciado em Filosofia - UPF

Imagens captutadas aqui, aqui e aqui. 

28 de outubro de 2012

Sex and the City: minutos de sabedoria

Abertura da série

Um docinho de abóbora após uma taça de vinho, um prato de massa e um episódio de Sex and the City... E tudo parece mais claro, mais leve, acerca das nossas relações. Quando me dou conta, aqui estou (cheio de tesão), digitando login e senha para desatar mais uma postagem no blog. Por mais que muitos dizem tratar-se de consumismo, futilidades, relações vazias... Ok, ok... Podemos ir além disso? Posso deleitar-me com minhas e outras interpretações?

Refletimos sobre ações educativas, os problemas do mundo, a economia, a fome, a violência, a arte... E pouco sobre aquilo que consome e nutre tanto em nós: nossas relações afetivo-sexuais. Sem dó, parcimônia, vergonha ou piedade, Sex and the City toca, afaga, agita e escancara (masturba) esse assunto que diz respeito a mim, a você e a qualquer mortal transeunte no planeta Terra. Do povo dos demais planetas não sei bem, mas suspeito que seja parecido.

As pessoas entram em nossas vidas, acrescentam muito, levam muito, estragam muito. E nós, seguramente, também fazemos isso na vida delas. Cada um de nós tem um "Big" em sua vida. Não é só Carrie que padece dessa dádiva. Uma grande transa, um grande membro, um grande amor, uma grande paixão, uma grande perda, uma grande burrada... Falando em 'big', é (co)movente ver Samantha (em meio ao drama de seu namorado que, "hard", mede 8cm) espiando os jogadores do Yankees (seus belos tacos e bolas) no vestiário. Nós somos assim, grandes ou pequenas, tais situações sempre mexem com a gente.

Kim Cattrall como Samantha Jones

Recordo, cheio de fé (e com louvores), do que disse minha amiga - Top - Lourdes: "Sex and the City é como minutos de sabedoria". Amém! Respondo convicto. Sempre é possível nos ver nas personagens. Seus dramas são os de todos nós reles mortais. As soluções que inventam para seus problemas podem servir, perfeitamente, como modelos e (ins)pirações para nossas tragédias gregas, baianas, goianas, gaúchas ou javanesas, tanto faz.

Vale a pena nos perguntar sobre nossa porção Carrie... Samantha... Chalotte... Miranda... Personagens que congregam biotipos e maneirismos de tantas mulheres e homens. Sabe aquelas frugalidades afetivo-sexuais que, por vezes, você finje não dar a mínima mas que te corroem? Ou então, aqueles sentimentos e pensamentos que te fazem suar, perder o apetite, ficar excitado/a...? É disso que elas falam.

Junto disso tudo, que não é pouca coisa e nem futilidade, as meninas também escancaram o poder de uma palavra/situação/relação tão cara a nós (e às vezes bestializada): amizade. Ser amigo/a é tão profundo quanto ser namorado/a. Exige convivência, proximidade, experiência, confiança, reciprocidade... A lista segue. Acho patético quando certas pessoas dizem "entre nós, só amizade", como se ser amigo fosse um consolo para uma transa que não rolou ou um namoro que acabou. Desesperada por ter reencontrado o ex, Carrie liga marcando um encontro. Surpreendentemente, no local e horário marcados, quem lhe espera à mesa é Miranda. Diante de batatas fritas já frias, chuva e um olhar terno que acolhe, a regra mais importante da separação: nada se supera sem amigos.

Sarah Jessica Parker e Cynthia Nixon como Carrie e Miranda

Sex and the City trata dessas relações tão humanas que nós experimentamos a cada dia na cidade, na rua, em casa... Em outras palavras, a série me sujere muito acerca das relações corpo - ambiente (como discutem Greiner e Katz, 2001), insinuando sem pretextos que somos e não temos corpo. Que as relações que vivenciamos não são obras de espíritos zombeteiros (salve Chaves), mas de corpos sexuados e situados. Vale a pena ver, sentir e se questionar. Carrie sabe o que é sexo bom e não tem receios de (se) questionar a respeito. E você?


Imagens capturadas da abertura e do 1º episódio da 2ª temporada da série.

22 de outubro de 2012

Sobre filosofia e dança contemPOPrâneas

Por volta de 1997/98, quando as Spice Girls se tornavam conhecidas no mundo, Madonna lançava o disco “Ray of Ligth” e o impactante videoclipe de “Frozen” (entre vários outros fatos também relevantes), eu iniciava a faculdade de filosofia. Entre os comentários que se pretendiam revolucionários no intuito de “derrubar cercas” e combater a ideologia dominante, diziam que a música pop era uma das armas dos poderosos capitalistas sempre prontos a nos dominar.

Madonna no music video "Frozen" (1998)

Isso hoje me soa tão épico e mexicano, do tipo: “Own, e agora quem poderá nos defender?” Como se uma entidade vermelha – tão ideológica quanto a combatida – fosse baixar, instaurar um novo mundo e derrotar o inimigo dominador. So sweet... Como num filme onde a bonanza paira após a dura tempestade. As Spice Girls se foram, vieram os Backstreet Boys e seus derivados (que também já se foram), Madonna - apesar do marxismo - está aí firme e forte (talentosa e ousada) há 30 anos, Michael Jackson já partiu... E há quantos a “arma pop” matou? Até onde sei, ninguém morreu alienado por ouvir/dançar “Wannabe”, “Thriller” e mais recentemente “Girl Gone Wild” .

Entendo a crítica do marxismo num tempo onde ditadores como Hitler criavam signos, gestos, símbolos, imagens, com os quais as massas poderiam se identificar no sentido de aderir e seguir cegamente a um líder no qual se sentissem amparadas e representadas. Nesse sentido a cultura de massa também poderia ser (e por vezes o é) uma estratégia de manipulação a serviço de articulações capitalistas de mercado/consumo.

Seria instigante pensar (para além das estatísticas e ibopes do quê e quanto é vendido) acerca dos modos como são usados tais produtos, as reinvenções, as distorções, as histórias que são inventadas a partir deles nos mais diferentes cotidianos. Mesmo as danças de videoclipes, da TV, das massas (que muitos alunos/crianças/jovens adoram aprender e repetir), tão combatidas por certos educadores e profissionais da dança... Como elas podem envolver o afeto, o prazer, o desejo dos alunos? Como, ao invés de demonizá-las, ver nelas possibilidades de aproximação, identificação, crítica e criação?

Penso que se, por vezes, a dança contemporânea fosse menos ‘cabeção’ e mais contemPOPrânea, mais fecunda poderia ser. Para os guardiões da dança que acham que a sagrada arte e os profanos produtos da indústria cultural não se misturam, vale lembrar, por exemplo, que  Madonna foi aluna de Martha Graham – uma das renomadas coreógrafas que apontou novos rumos para a dança no mundo, justamente por pensar-fazer dança a partir de sentimentos, emoções e elementos da realidade vivida. Isso não significa que estou receitando repetir os passos/coreografias de Madonna, Martha e outros. Mas sim, entender como esses e tantos outros passos já estão misturados com os nossos, envolvendo nossos desejos, afetos e experiências, e, portanto, que histórias/movimentos podemos criar com e a partir deles.

Madonna em homenagem a Martha Graham
(Harper's Bazaar - EUA, 1994)

Penso que, mesmo diante da hostilidade marxista, eu poderia ter expressado sem receios minha preferência pelas Spice Girls e por Madonna. Tanto no sentido de que faziam e fazem parte de minha identidade/identificação quanto nos modos como tais artefatos/imagens/produtos/artistas podem interpelar o ser livresco, elucubrativo, abstrato e antiafeto/corpo de algumas formas de se fazer filosofia e dança. Penso sim, sem nenhum receio, que se a dança e a filosofia (a primeira enquanto arte e ambas enquanto áreas de produção de conhecimento) fossem mais POP (popularizadas), poderiam contribuir de forma mais e(a)fetiva para os corpos se (mo)verem de modos mais emancipatórios.

Isso, no sentido de que, reconhecendo as experiências vividas, dança e filosofia poderiam instigar possibilidades para os corpos perceberem o como investem seus afetos e razões nos usos que fazem de textos, músicas, roupas, danças, imagens... Sejam eruditos, populares, de massa... Pouco importa a classificação, pois todos são formas/produtos culturais com os quais nos misturamos cotidianamente, queiramos ou não.

Talvez assim o “conhece-te a ti mesmo”, de Sócrates, e tantas outras máximas filosóficas, fizessem mais sentido. Talvez assim, o materialismo histórico-dialético, mais próximo das contradições, paixões e lutas 'históricotidianas' que movem e são movidas pelos corpos, nos possibilitaria criar tantos e outros sentidos/razões.

Odailso Berté
Coreógrafo e pesquisador em dança contemporânea
Doutorando em Arte e Cultura Visual - UFG
Mestre em Dança - UFBA
Especialista em Dança - FAP
Licenciado em Filosofia - UPF

Imagens capturadas aqui e aqui. 

10 de outubro de 2012

Quasar Cia. de Dança: sentidos que entram no singular e saem no plural


A virtualidade, por vezes entendida como irreal, exacerba sua concretude existencial – corpórea – real na dança da Cia. Quasar. Com o espetáculo “No Singular” (2012), estreado em 07 de outubro, no Teatro Rio Vermelho, Goiânia/GO, a Cia. possibilita um olhar táctil e afetuoso para as relações mediadas pela tecnologia e pela interatividade. Corpos ágeis e frágeis são os sujeitos que, entre o excesso de imagens e informações, constroem suas identidades e identificações.

Henrique Rodovalho e os/as dançarinos/as da Quasar configuram no palco modos de dançar que sugerem a composição de um chat colorido e multifacetado. Um bate-papo tecido por textos entrecortados, por gestos curtos ou prolongados, por exposições e ocultamentos, por desejos, fetiches e imagens que, em rede, vão construindo, fragmentando, distorcendo e/ou (re)inventando novas formas de realidade.

Ao abordar a fluidez, a simultaneidade e a rapidez com que informações e imagens atravessam os corpos na contemporaneidade, o espetáculo possibilita pensarmos isso não só como uma questão sociológica/conjuntural. Mas, que o social e a conjuntura são estruturados pelas subjetividades e afetividades diversas, singulares, que, em seu contexto cultural, dão as cores, os tons, as marcas para a pluralidade.

De modo singular, a Cia. Quasar enuncia/denuncia/pronuncia que o corpo é contaminado e contaminador, próximo do que dizem Katz e Greiner (2001) ao refletirem sobre as relações corpo e ambiente. Um coro de vozes e movimentos é entretecido com gírias e códigos que usamos em conversas pela internet ou pelo telefone. São expressões e gestos que se proliferam e contaminam os mais diferentes sujeitos e espaços, criando como que acontecimentos em rede. Estas contaminações podem interligar ambientes e corpos, propagar mensagens e imagens, (des)construir identidades, mobilizar modos de ser, de se mover, de ver e ser visto, conforme pensa e propõe Tourinho (2011) ao discorrer sobre cultura visual e produção de subjetividades na relação com imagens.

Os risos que brotam no público podem ser vistos como identificações, como modos do espectador se ver na dança. Ao percebermos em cena as expressões que usamos cotidianamente, é como se não houvesse barreira entre palco e plateia, pois a dança toca nas relações que vivenciamos, dando margem à compreensão de que todos, artistas e público, somos corpos gestores de movimentos, relações, encontros, trocas...

Na perspectiva de aproximação com o público, a Cia. divulgou na internet, tempos antes da estreia de “No Singular”, um vídeo onde o coreógrafo convida pessoas a dançar com a Quasar e ensina, passo a passo, a sequência a ser dançada. Esta proposição aguça a curiosidade durante todo o espetáculo, no sentido de estar atento para perceber onde/como se dará a interação. Esta, anunciada como “o momento que todos esperavam”, vem a acontecer ao final do espetáculo, quando quem aprendeu a coreografia é chamado a subir ao palco e dançar juntos dos dançarinos. Esta instigante proposta deixa uma expectativa em aberto, possibilidades de maior enredamento com o todo do espetáculo, como o impressionante momento em que pessoas do público (organizadas previamente) atravessam o palco entremeando-se com os dançarinos, interpelando o olhar, suscitando perguntas, ampliando a criação de sentidos.

Durante todo o espetáculo há a sutil presença de um personagem que, ao fundo, sem interagir diretamente com os dançarinos, realiza colagens para um cenário montado em cena. Os recortes que vão sendo dispostos, por vezes, parecem pixels de uma grande figura em devir, um mosaico de fotografias, uma bricolagem de imagens, pedaços de espelho, recortes de histórias. Percorrendo os labirintos da fragmentação, da multiplicidade e da singularidade, também chama a atenção, a versatilidade e as nuances do figurino (clean, retro, bufante), assinado por Cássio Brasil. São peças, elementos que convocam a pensar/imaginar possíveis imbricações entre singular/plural, indivíduo/sociedade, especificidade/diversidade, permanência/mudança.

Quasar lembra aroma, perfume... Um corpo estelar que emite luz e ondas radioativas... Quasar lembra movimento. Quasar, a Cia. que, do centro-oeste do Brasil, irradia dança para o mundo e em seu mais novo trabalho aguça os sentidos possibilitando pensar que o virtual é real, cria realidades, relações, (re/des)encontros. Entramos no teatro no singular e saímos no plural por meio das visualidades e movimentos ‘contempoprâneos’ – presentes em nossos cotidianos – que a Quasar consegue organizar e nos devolver em forma de dança.

Odailso Berté
Coreógrafo, dançarino, professor, pesquisador em dança contemporânea
Doutorando em Arte e Cultura Visual - UFG
Mestre em Dança - UFBA
Especialista em Dança - FAP
Licenciado em Filosofia - UPF

Imagem: Foto com a dançarina Valeska Gonçalves
Capturada no facebook da Quasar Cia de Dança

Textos citados:
GREINER, C; KATZ, H. Corpo e processos de comunicação. In Revista Fronteiras: estudos midiáticos. São Leopoldo: UNISINOS, Vol. 3, n. 2, p. 65-75, dez. 2001.
TOURINHO, I. As experiências do ver e ser visto na contemporaneidade: por que a escola deve lidar com isso? In: MENDONÇA, R. (Coord.). TV Escola / Salto para o futuro: Cultura Visual e Escola. Ano XXI, Boletim 09, ago. 2011, pág. 09-14. Disponível em: http://tvbrasil.org.br/fotos/salto/series/14380009-CulturaVisual.pdf.