16 de julho de 2012
Algo perdido por entre a ausência
Meus escritos pertencem a proprietários distintos, os poucos e estimados leitores que com eles tomam contato e o número considerável de sentimentos, imagens e vivências que tomam conta do meu cotidiano. Se nem sempre eles agradam, deem um desconto, contentar todos esses gregos e goianos não é o intento.
Hoje, após despedir-me de minha família que seguiu viagem depois de uma agradável visita, olhei para a casa vazia, um tanto bagunçada e tão silenciosa e pensei: Pronto, a solidão já pode voltar e tomar acento. Juntando os colchões lembrei que sempre amanhece, que a gente acorda, que o passeio termina, que a fome virá outras vezes.
Cada um a seu modo, deixou sorrisos, olhares, silêncios. Cada um se foi e se deixou em algo perdido por entre a ausência. Nessas ausências eu conto escritos e ditos, de mim para você, para quem tomar parte disso.
Se pelo menos as contagens e os contos forjados na ausência tocassem personagens reais a quem insisto agradar, eu tiraria boas lições dessas histórias com "e". Penso naquilo que um personagem disse poder me oferecer e sinto que, contrito, recebo essa oblação.
Tantas vezes ouvi que de "cavalo dado não se olha os dentes". Então, mesmo não se tratando de um unicórnio ou de um Pégasus, reúno os ternos apetrechos que emanam disso e sigo, ora como uma Moira cortando fios, ora como um senhor que gosta de tricotar e tecer sonhos de mentira, ilusões generosas, devaneios delicados.
Entre parentes e personagens, coisas tão simplórias e meio intensas que nem sei se vale a pena dizer. Coisas que conto só aqui e que tem até trilha sonora, nacional e internacional. Coisas assim, que me fazem tocar personagens, mesmo que só se trate de mais uma cena imaginária.
Foto: Jéssica Berté
13 de julho de 2012
Tecendo refrões antes da chuva
A lógica nem sempre resolve o problema. Ainda mais quando se trata dos nossos problemas. Será típico do ser humano almejar o que está além de sua alçada? Mas não me apetece o teor filosófico que pode ter a pergunta. Prefiro a insanidade cautelosa do sentimento.
Às vezes parece ser preciso buscar água na lua. Será isso, é preciso buscar água na lua? Não chegarei a tanto, tampouco transformaria areia em mar. Cada um na sua, areia areia, mar mar.
Fugir do problema sim, é possível. Mas esconder-se dele não. O bom senso toma parte da situação e reposiciona olhares e toques, somas e dividendos. Nada escapa aos princípios, nem o afeto. Desse modo, posso quase tudo, menos fingir que nada acontece.
Alienam-se os desejos aos mais remotos valores. Mesmo assim, encontraria um viés de caminho pela retina acesa, pequena e potente, que se deflagra em meio aos verbos trocados. Os ditos que aprendi desaparecem, mas essa fagulha reticente fica, pois precede o tempo.
Rir e chorar, viver e morrer, o caminho se faz no andar. Embora seja necessário enunciar a próxima pauta, o desligamento não é cartesiano, é merleau-pontyano. Pois implica sentidos, os cinco, e aqueles infinitos que imaginamos e criamos. No que vejo e que também me olha, visões deixam-se e encontram-se. Então você me olha e eu vejo que o caminho não é por aí.
Desmoronam sonhos, mas o mover das peças deixam outras formas passíveis de aconchego estético. E é por meio de refrões que teço cantigas para embalar os dias que seguem. Entre águas e possibilidades, tempos e olhares, mais uma vez entendo o que é e o que não deve ser.
Agora falemos da chuva, quem sabe...
Foto de Agno Santos.
11 de julho de 2012
O Novo Mundo, sobre vestidos e penas, corpos e águas, perdas e banhos
Mais intrigado e apaixonado fiquei quando soube que Pocahontas não era só uma princesa inventada pela Walt Disney, e diga-se de passagem, entre estas, a mais desprezada. Seria porque para esse mercado, uma princesa indígena não é vendável? Enfim, Pocahontas foi uma importante líder de seu povo, por volta de 1600, no estado da Virgínia, Estados Unidos.
Entre memórias e poemas, como uma salmodia romântica e dramática, o filme "O Novo Mundo", dirigido por Terrence Malick, constrói uma narrativa aleatória e coesa para recontar a história da colonização dos territórios norte-americanos pelos ingleses.
O ritmo desacelerado da trama, sem desmerecer o drama e a força dos acontecimentos, torna mesmo as batalhas imagens/memórias que tremulam afetuosamente quando recontadas pelos personagens que encarnam os protagonistas da história passada. O cenário, que pertence ao território onde os fatos ocorreram, vivifica o enredo com pertinência impactante.
A fotografia se demora deixando pungente a perspectiva de imagens, ou melhor, a flexibilidade de um ambiente vivo que reconta e preserva, qual visita/mergulho in loco, impactos culturais, vestígios encobertos, memórias que pairam, pegadas apagadas, carícias trocadas, mortes lamentadas, acordos insanos. Como se nos desenhos geográficos de lá, ainda ressoassem as cantigas, as crenças, as chegadas, os beijos, os lamentos, os passos, os banhos, as partidas...
A suavidade da atriz Q'Orianka Kilcher, dá vida à uma Pocahontas terna e firme, que segue, às duras penas das escolhas que se interpõem, um caminho de perdas irreparáveis, mas que conecta corporalmente o cruzamento entre o velho mundo invasor e o novo mundo invadido. Sua sutileza simples e transparente dança no ambiente evidenciando a conexão humano/animal, cultura/natureza que hoje parece tão esquecida e devastada.
E o coração da índia princesa, quantos golpes acalentou, quantos dias contou, por quanto de amor definhou. Entre as penas que abandonou e o vestido que aceitou, um corpo vermelho permaneceu, tênue de certezas, laico de avarezas, prenhe de sentidos e livre para o fim que a esperava do outro lado das muitas águas. E o rio que ficou, chorou por não mais trocar com ela seus beijos molhados de amor.
Imagem capturada aqui.
10 de julho de 2012
Ser cult, piegas, pop, brega ou ... O que importa?
Há dias algumas imagens e falas me interpelam, atravessando (des)respeitosamente meus modos de ver, pensar e sentir...
A primeira é a bela imagem de Julianne Moore vestida de noiva no filme "As Horas". A fotografia aparece nas mãos de seu filho Richard que, já adulto e convalescente pelo HIV, contempla em prantos a mãe em trajes matrimoniais, o que, em relação à sensação de aprisionamento que ela vivia, também representava uma mortalha. Tal imagem mistura, no mesmo branco da veste, tanto a pureza da noiva fiel e submissa quanto a morte que essa relação significava para a personagem. Diante da foto, Richard opta pelo suicídio, pois o passar das horas o fatigava, de modo que morrer seria libertar-se.
A segunda é a imagem de Madonna em seu recente show, da "MDNA Tour" (2012), em Berlin, chorando durante a performance "Like a Virgin". Desde que me lembro da cantora, e isso é desde a infância, não recordo de qualquer comentário a respeito de Madonna chorar. Quando penso na primeira performance desta música, vejo uma garota ousada vestida de noiva, rolando no chão e engatinhando, cantando de modo libidinoso. Hoje, às vésperas dos seus 54 anos, vejo uma mulher forte, com uma carreira meteórica de quase 30 anos, que leva tatuado às costas o dizer "no fear" e que derrama lágrimas ao cantar dolorosamente a mesma canção. A tensão aumenta com a entrada de um dançarino que veste nela um corpete e o aperta comprimindo fortemente sua cintura. Porém ela precisa continuar cantando sobre a donzela tocada pela primeira vez.
A imagem que complementa esta tríade é da atriz Emma Stone encarnando a personagem Gwen Stacy no filme "O Espetacular Homem-Aranha" (2012). Numa cena que lembra tantos outros filmes, entre muitos guarda-chuvas sob um temporal, a personagem marcha para o funeral de seu pai. Esta imagem resume para mim toda ternura e poesia que permeia a nova versão do herói aracnídeo. A história se centra nos dramas afetivos dele: a perda dos pais e do tio que o criou, a paixão por Gwen, o conforto maternal de sua tia May, a construção de sua identidade. A mim o filme soa como uma bela imagem/metáfora da indissociabilidade natureza/cultura que conforma um corpo em crescimento, transformações, adaptação e descobertas. Com uma poética darwinista, eu diria, as mudanças genéticas/biológicas estão imbricadas com a aprendizagem de casa e do convívio social no seio da cultura. E o herói, mesmo sob o peso da utópica responsabilidade de salvar a "América norte-americana", chora sem qualquer receio de transparecer que também é vulnerável.
É brincando com estas e outras visualidades contempoprâneas, que me rodeiam e flutuam em torno de mim, que entendo o quanto elas também configuram o que sou, trançando relações de afeto, prazer e poder. Com elas me pergunto: Por que tais imagens me atravessam de modo tão peculiar? O que elas dizem de mim? Permitir isso não seria prejudicar minha reputação de futuro doutor? Embora eu me relacione com elas, quer expresse isso ou não, a que custos eu negaria ou manteria isso trancado na solidão do meu quarto?
Lembro-me da cômica descrição de Felipe Gutiérrez, publicada nos trechos de livros da Folha de São Paulo, sobre o que é ser um escritor cult: inovador e contra todas as correntes literárias do momento, hermético para seus contemporâneos, publicar pouco e melhor ainda se depois de morto, negar-se a entrevistas, usar pseudônimos, levar uma vida licenciosa e turbulenta, habitar o submundo e flertar com a morte. Isso me enreda com a fala de um conhecido que recordava uma cena do seriado "Glee", onde Emma, a orientadora da escola, após aconselhar os alunos a não se lamentar por amor, aparece trancada no carro chorando e cantando "All by myself". Com isso, perguntava ele: De que adianta fazer a linha cult se quando terminamos uma relação choramos ouvindo "Nuvem de lágrimas" da Fafá de Belém?" Ou seja, de que adianta primar pelos discursos elevados e pela erudição se somos tão pop e lamentamos nos aproximando daquilo que mais fala dos nossos pesares?
A meu ver, a licenciosidade e hermeticidade do escritor cult soam de par com a cena da orientadora "faça o que digo e não o que faço" e a pergunta em torno dela. Somos eruditos e populares na mesma toada. O que conseguimos, por vezes, é disfarçar isso no convívio. Mas entre as paredes dos nossos cantinhos subjetivos, fachados de risos amarelos ou irônicos, deslizamos de Beethowen a Paula Fernandes, de Hitchcock a James Cameron na boa, lamentando-nos como pássaros feridos por um épico naufrágio. E o bacana é que não precisaríamos nos envergonhar disso. Piegas são alguns trechos dos discursos classificatórios e divisórios de Adorno e Horkheimer, não os modos como usamos e nos damos conta do afeto que investimos para com esses produtos culturais.
Há dias algumas imagens e falas me interpelam... Elas trazem gotas de lágrimas e de chuva... Umedeço e tranço com elas, um jeito bom de existir que me faz organizar a vida entendendo como cotidiano desde os assuntos acadêmicos até as amenidades e fazeres frugais do dia a dia. Nada escapa dessa desierarquização travessa e perspicaz que o corponectivo que sou articula prazeirosamente.
Imagens capturadas aqui, aqui e aqui.
A primeira é a bela imagem de Julianne Moore vestida de noiva no filme "As Horas". A fotografia aparece nas mãos de seu filho Richard que, já adulto e convalescente pelo HIV, contempla em prantos a mãe em trajes matrimoniais, o que, em relação à sensação de aprisionamento que ela vivia, também representava uma mortalha. Tal imagem mistura, no mesmo branco da veste, tanto a pureza da noiva fiel e submissa quanto a morte que essa relação significava para a personagem. Diante da foto, Richard opta pelo suicídio, pois o passar das horas o fatigava, de modo que morrer seria libertar-se.
A segunda é a imagem de Madonna em seu recente show, da "MDNA Tour" (2012), em Berlin, chorando durante a performance "Like a Virgin". Desde que me lembro da cantora, e isso é desde a infância, não recordo de qualquer comentário a respeito de Madonna chorar. Quando penso na primeira performance desta música, vejo uma garota ousada vestida de noiva, rolando no chão e engatinhando, cantando de modo libidinoso. Hoje, às vésperas dos seus 54 anos, vejo uma mulher forte, com uma carreira meteórica de quase 30 anos, que leva tatuado às costas o dizer "no fear" e que derrama lágrimas ao cantar dolorosamente a mesma canção. A tensão aumenta com a entrada de um dançarino que veste nela um corpete e o aperta comprimindo fortemente sua cintura. Porém ela precisa continuar cantando sobre a donzela tocada pela primeira vez.
A imagem que complementa esta tríade é da atriz Emma Stone encarnando a personagem Gwen Stacy no filme "O Espetacular Homem-Aranha" (2012). Numa cena que lembra tantos outros filmes, entre muitos guarda-chuvas sob um temporal, a personagem marcha para o funeral de seu pai. Esta imagem resume para mim toda ternura e poesia que permeia a nova versão do herói aracnídeo. A história se centra nos dramas afetivos dele: a perda dos pais e do tio que o criou, a paixão por Gwen, o conforto maternal de sua tia May, a construção de sua identidade. A mim o filme soa como uma bela imagem/metáfora da indissociabilidade natureza/cultura que conforma um corpo em crescimento, transformações, adaptação e descobertas. Com uma poética darwinista, eu diria, as mudanças genéticas/biológicas estão imbricadas com a aprendizagem de casa e do convívio social no seio da cultura. E o herói, mesmo sob o peso da utópica responsabilidade de salvar a "América norte-americana", chora sem qualquer receio de transparecer que também é vulnerável.
É brincando com estas e outras visualidades contempoprâneas, que me rodeiam e flutuam em torno de mim, que entendo o quanto elas também configuram o que sou, trançando relações de afeto, prazer e poder. Com elas me pergunto: Por que tais imagens me atravessam de modo tão peculiar? O que elas dizem de mim? Permitir isso não seria prejudicar minha reputação de futuro doutor? Embora eu me relacione com elas, quer expresse isso ou não, a que custos eu negaria ou manteria isso trancado na solidão do meu quarto?
Lembro-me da cômica descrição de Felipe Gutiérrez, publicada nos trechos de livros da Folha de São Paulo, sobre o que é ser um escritor cult: inovador e contra todas as correntes literárias do momento, hermético para seus contemporâneos, publicar pouco e melhor ainda se depois de morto, negar-se a entrevistas, usar pseudônimos, levar uma vida licenciosa e turbulenta, habitar o submundo e flertar com a morte. Isso me enreda com a fala de um conhecido que recordava uma cena do seriado "Glee", onde Emma, a orientadora da escola, após aconselhar os alunos a não se lamentar por amor, aparece trancada no carro chorando e cantando "All by myself". Com isso, perguntava ele: De que adianta fazer a linha cult se quando terminamos uma relação choramos ouvindo "Nuvem de lágrimas" da Fafá de Belém?" Ou seja, de que adianta primar pelos discursos elevados e pela erudição se somos tão pop e lamentamos nos aproximando daquilo que mais fala dos nossos pesares?
A meu ver, a licenciosidade e hermeticidade do escritor cult soam de par com a cena da orientadora "faça o que digo e não o que faço" e a pergunta em torno dela. Somos eruditos e populares na mesma toada. O que conseguimos, por vezes, é disfarçar isso no convívio. Mas entre as paredes dos nossos cantinhos subjetivos, fachados de risos amarelos ou irônicos, deslizamos de Beethowen a Paula Fernandes, de Hitchcock a James Cameron na boa, lamentando-nos como pássaros feridos por um épico naufrágio. E o bacana é que não precisaríamos nos envergonhar disso. Piegas são alguns trechos dos discursos classificatórios e divisórios de Adorno e Horkheimer, não os modos como usamos e nos damos conta do afeto que investimos para com esses produtos culturais.
Há dias algumas imagens e falas me interpelam... Elas trazem gotas de lágrimas e de chuva... Umedeço e tranço com elas, um jeito bom de existir que me faz organizar a vida entendendo como cotidiano desde os assuntos acadêmicos até as amenidades e fazeres frugais do dia a dia. Nada escapa dessa desierarquização travessa e perspicaz que o corponectivo que sou articula prazeirosamente.
Imagens capturadas aqui, aqui e aqui.
22 de junho de 2012
Entre focos, fatos e fotos
Treze dias depois retorno à casa da escrita... Nada de incomum a dizer. As paredes e mobílias fonéticas parecem as mesmas. Todavia, o intento que move dedos e teclas (antes eu diria, a caneta) é apenas um meigo olhar, tímido e envolvente.
Um par de olhos miúdos, a quem pouco digo, mobiliza intentos graúdos a ponto de autorizar o doce querer de uma dança simplória sobre morros uivantes. Limitado ao momento em que encaro esse olhar, arremesso fins e começos para longe desse agora em que sou distante do foco que desejo ter sobre mim.
É uma e duas e percebo que mudo minhas cenas a partir das perspectivas desse olhar alheio. Olhar que me vê e me fotografa com intuito meio semiótico, com preceitos e ângulos que, mais que formatam, encantam e tecem vontades de permanecer sempre na pose, para ser por ele olhado um pouco mais.
Quando me enquadra, desenha cartografias íntimas que me fazem rir sozinho entre as pequenas paredes do cotidiano em que estamos cada qual no seu quadro. Quando penso no que poderia acontecer, os cantos da casa sorriem e aquelas fotos lançam fagulhas introvertidas, que aquecem o corpo e sussurram frases secretas entre eu, os ditos e os ouvidos.
Mas não permito que nenhuma das sensações inunde a aridez dos terrenos onde brotam meus afetos. Afinal, cada qual de nós atende interlocutores para além dos ângulos que ligam nossas retinas. Grito sem resposta, luta sem vitória, fingir sem ter, música tola que toca e apenas permite imagens que se desvanecem sem um gozo satisfatório.
Entre fotos intensas e fatos imersos, continuamos dizendo nos termos de uma amistosa convivência. Pois o dia depois de amanhã não guarda ativas esperanças. Só, talvez, mais imagens de beijos que se perdem ao foco do querer, que só permitem toques entre as meninas dos olhos, entre os meninos que guardamos nesses retratos inventados de nós.
Foto de Agno Santos.
É uma e duas e percebo que mudo minhas cenas a partir das perspectivas desse olhar alheio. Olhar que me vê e me fotografa com intuito meio semiótico, com preceitos e ângulos que, mais que formatam, encantam e tecem vontades de permanecer sempre na pose, para ser por ele olhado um pouco mais.
Quando me enquadra, desenha cartografias íntimas que me fazem rir sozinho entre as pequenas paredes do cotidiano em que estamos cada qual no seu quadro. Quando penso no que poderia acontecer, os cantos da casa sorriem e aquelas fotos lançam fagulhas introvertidas, que aquecem o corpo e sussurram frases secretas entre eu, os ditos e os ouvidos.
Mas não permito que nenhuma das sensações inunde a aridez dos terrenos onde brotam meus afetos. Afinal, cada qual de nós atende interlocutores para além dos ângulos que ligam nossas retinas. Grito sem resposta, luta sem vitória, fingir sem ter, música tola que toca e apenas permite imagens que se desvanecem sem um gozo satisfatório.
Entre fotos intensas e fatos imersos, continuamos dizendo nos termos de uma amistosa convivência. Pois o dia depois de amanhã não guarda ativas esperanças. Só, talvez, mais imagens de beijos que se perdem ao foco do querer, que só permitem toques entre as meninas dos olhos, entre os meninos que guardamos nesses retratos inventados de nós.
Foto de Agno Santos.
10 de junho de 2012
21 de maio de 2012
A Sete Palmos adentrando em mim
A ternura incondicional da mãe (Ruth), restringida de seus sonhos e de suas mais íntimas realizações pessoais para a plena dedicação aos seus filhos.
Os encontros e desencontros da filha mais nova (Claire), no intuito de se construir uma artista.
Os dramas do filho do meio (David), para alicerçar sua identidade homoafetiva, superar traumas e lutar pela sua união com Keith.
A trajetória do filho primogênito (Nate), nas idas e voltas com Brenda, para realizar-se enquanto homem, profissional, marido, pai... Antes que o cronômetro da corrida da vida marque o fim do percurso.
Uma família mórbida, trágica e cômica que se constitui numa casa funerária, transitando cotidianamente por entre os labirintos onde se cruzam vida e morte. Uma "Família Adams" sem artifícios, truques ou maquiagem. Um retrato das nossas dores, medos, anseios e mistérios subjetivos.
A cada episódio, um nascimento às avessas - uma morte - que desencadeia muitas relações de vida. No confronto com a perda, a dor e os pêsames, nas flores que adornam túmulos e caixões, o perfume e o pólen que germinam tantas possibilidades de nos relacionarmos com o fim e articularmos outros começos.
Não receio dizer que comecei a repensar meu medo da morte adentrando Sete Palmos de mim. As imagens, textos, relações, atitudes de cada personagem, vão como que abrindo covas, erguendo sulcos, inscrevendo lápides no corpo (m)eu... Insinuando que o fim e o começo são possibilidades que pulsam tanto quanto o coração. E notificando que, entre parar e continuar, o relógio da existência obedece ao mestre tempo que só aponta para frente, sem chances de retorno.
A série A Sete Palmos (2001-2005), criada por Alan Ball, faz transparecer a óbvia e pungente constatação de que somos finitos, passamos, envelhecemos e deixamos de existir. Enrugamos, murchamos e despedaçamos tal e qual a mais bela flor reluzindo em cores num jardim. E mais do que isso ser uma pesarosa constatação, embora nos entristeça, possamos ver como a noção que nos move a viver intensamente, buscar ser/fazer/ter o que mais desejamos, realizar os sonhos-projetos para os quais nos sentimos aptos e impelidos... Porque a vida é só uma, e ela passa. E o luto pode mover lutas em favor dessa vida passageira.
Imagem capturada aqui.
19 de maio de 2012
a loser like me
É impossível não lembrar da banca de jurados que julga os festivais de coros do seriado Glee. Autoridades no ramo, celebridades das artes, pessoas renomadas. Publicamente, figuras esplêndidas, que escorrem simpatia pelos cantos do sorriso, uma diplomacia teatral. Todavia, as cenas de suas reuniões secretas, os modos e termos com que se referem aos sujeitos aos quais estão julgando - avaliando - comparando, são patéticos, grosseiros, abusivos e desprezíveis. Assim, histórias de vida, capacidades, talentos, potenciais, se tornam apenas números. Uma cifra reguladora, uma medida cartesiana, esvaziada e niilista.
As três figuras (episódio 21, 3ª Temporada), que sem nenhum esforço interpretam a si mesmos, são verdadeiros personagens... Tipo Três Mosqueteiros, As Meninas Super Poderosas, As Panteras, As Noivas do Drácula, Três Espiãs Demais, The Supremes, Lia, Diva e Vicky (as três amigas da Barbie), As Moiras (Parcas) da mitologia grega... Sei lá, algo de tipo. Lindsay Lohan (a "queridinha" da América), Rex Lee (carinha popular em seriados) e o blogueiro Perez Hilton (fofoqueiro de carteirinha).
O legal é que isso não é apenas cena de seriado norte-americano. É realidade em tantas escolas e espaços acadêmicos bem próximos de nós. Sistemas de controle, seleção, avaliação, vigília e punição de corpos. Se pensamos que esses dispositivos de poder são coisas passadas, tipo da inquisição, doce engodo. Essa é uma das práticas mais contemporâneas, usadas nos espaços que imaginamos ser os mais esclarecidos, sábios e conhecedores.
Entre as perguntas que ficam caladas no íntimo... 6,5 é quanto eu valho? O que em mim te afronta para inscrever no (m)eu corpo essa cifra? Dos conceitos, imagens e gestos que mostro, algum te desaloja? Aponte-me onde errei e não fuja de minha presença, qual criança que fez algo escondido, sem pelo menos encerrar a sessão que você abriu.
A vocês, Moiras, "capazes" de cortar o fio da vida, mudar os rumos de uma trajetória, silencio e dedico uma canção. Ela expressa meus sentimentos de fracasso, derrota e sensibilidade para acolher a sentença que vosso poder determina. Com um "P" na testa, sigo em frente, deixando claro que este é o sentido de um perdedor como eu.
Foto de Odailso Berté
5 de maio de 2012
Piñero, em tua sombra, um deleite
"Eu nunca quis ser ninguém. Uma vez um cara me disse que eu escrevia bem, que escrever me tiraria da prisão. Tirou e não, porque tive que voltar para poder escrever bem."
Um poeta, um escritor, um ator, um bêbado... Um Cristo drogado. Um satã do céu. Um arcanjo, Miguel Piñero. Um nova-riquenho, Mikey Piñero. O criador da famosa peça "Short Eyes" (1974), apresentada na Broadway e adaptada para o cinema em 1977.
No filme "Piñero" (2001), dirigido por Leon Ichaso, Benjamin Bratt assume em sua interpretação o homem que seguiu à risca o conselho de sua mãe: "fale com os olhos e olhe com a boca". Um corpo cambaleante, tenaz e sedutor, que proclama poesia com seus olhos gritantes e desfere desejos com sua boca observadora.
Bratt, ao (prot)agonizar os prazeres e agonias de Miguel Piñero, se faz inventor e vendedor de esponjas, peixes e pérolas. Sua poesia absorve os líquidos e as poeiras da vida, exala os perfumes e os maus odores do cotidiano e apresenta os tesouros e as misérias que cada humano constrói. Um poeta submerso, underground por opção, que ao invés do dinheiro e da fama dos artistas consagrados, só cobiçava chamar sua atenção.
Numa sequência de imagens em nada lineares, que alternam-se entre o colorido e o preto e branco, a história se faz de pedaços, pedaços de uma vida vivida aos pedaços... Vida despedaçada. Entre encenação e realidade o filme vai se montando como um quebra-cabeça, como um teatro feito de atos desolados.
E o que perdura é a trajetória infame de um Piñero que floresce na aridez da prisão. Desordeiro, errante e comovente. Artista e bandido que, como ninguém, fazia de um cinzeiro seu cemitério de lembranças. Um homem que enquanto vivo e mesmo depois de morto, em forma de cinzas, foi absorvido pelas ruas.
Imagem capturada aqui.
3 de maio de 2012
entre teias e enredos
Entre teias e enredos, frio e estudo, solidão e saudade, aventuro memórias doces, insanas e vagarosas... Que vagueiam meu pensar, sentir e gozar esses momentos tão típicos de minha persona.
Recordo das histórias da Carochinha, de como ela, qual Felícia, hoje agarra seu novo gato. Este, expelindo encantamentos pelo sorriso e pelo olhar. Ao que parece, Carocha pode repetir seus padrões afetivos de docilidade romântica, o que depois, quando enjoar do gato, se tornará "a" dificuldade para o pobre bichano de desvincular dos laços.
Dos tempos de infância acordaram cenas do recreio brincado, dançado, cantado, como se fossemos o "Trem da Alegria", tendo como palco as prateleiras da velha copa do campo de futebol. O sol de inverno lá de Jaboticaba me aqueceu hoje, trazendo saudade do que fui e que permanece aqui nesse corpo - artista - infante.
Nas canções e performances de Glee para Whitney, embalo sentimentos que, aparentemente, vivo sozinho, todavia, são povoados de personagens que seguem colados aos meus afetos. Às vezes a dois, outras a mais... De "I have nothing" a "It's not right but it's ok", como Kurt e Blaine, traço linhas, colagens e ilustrações que dizem bem do amor que vinha me deixando e que deixei.
Vestindo-se de Miss Simpatia, Sandra Bullock desfere os tiros mais certeiros de humor e amor. Ah, esses policiais que mexem conosco, Gracie... Se soubessem o quanto nos custa ser agente e refém, mesmo passado quase um ano.
Assim, a solidão se faz macia, leve e até gostosa. Adornada pela saudade do amor que não mais tenho, mas sinto... Que não pesa, mas ocupa espaço. Que não consome, mas ainda me rouba lágrimas quando, despercebido, me deixo beijar pela imagem, pelo sorriso, pelo toque, pela respiração, pela cor... "... If I don't have you."
Imagem de Benjamin Bratt, capturada aqui.
30 de abril de 2012
29 de abril de 2012
Homem de salto alto
Caríssimos, embora talvez isso não seja a mais relevante das preocupações de suas vidas, não virei travesti. Até porque, ninguém vira o que já não seja. A não ser que surte, penso eu. E ser travesti também não é tão mal assim, como se pensa por aí.
Ao pensar um look para uma festa temática ("So Pop"), quantas sensações experimentei. Desde a decisão de assumir um estilo próximo ao do grupo Kazaky, passar por lojas provando sapatos femininos e viver o homem que desliza sobre saltos altos numa pista de dança.
Não que tenha acontecido, mas fiquei lembrando do xingamento que desmoraliza muitos homens: "Mulherzinha!" É ofensa na certa. Ser chamado de mulher é ser xingado? Então ser mulher é uma condição humilhante? Engraçado, a vida toda forçamos as mulheres a se sentirem incluídas no termo homem e nem por isso muitas delas aparentaram sentir-se xingadas.
Vejam o que um sapato de salto alto pode nos levar a pensar, até discursos feministas ajudam a articular. Mas o fato não se deu sem auto-transgressões. Nas lojas, eu ficava mais sem graça que os vendedores - homens - que com gentileza auxiliavam-me a calçar os ditos. Não sei adivinhar o que pensavam, mas agiam sem qualquer estranhamento.
Na festa, os olhares eram variados: de estranhamento, de impacto, de surpresa, de dúvida, de euforia, de admiração, de encantamento, de "tanto faz". Não vou dizer aqui que para usar salto alto é preciso ser muito macho, pois soa tão piegas, machista e falso. Mas a sensação de por-se sobre os tacos, enquanto homem, e encarar outras pessoas, desconstrói versões inventadas de nós mesmos, aproxima-nos de outros modos de ser e se portar. Deixa-nos à vontade para assumir e reconstruir a cada dia nossa(s) identidade(s) móveis, flexíveis e processuais.
14 de abril de 2012
Pina, com tua luz a claridade do mundo me hospeda*

Porque
Imagens
Nascem
Afetivamente

Como falar de uma obra que acaricia os sentimentos, abraça os pensamentos, enternece os conhecimentos, resignifica os acontecimentos? Pina Bausch já conseguia isso com a dança. Wim Wenders perpetua isso com o filme.

Wim articula seu filme com o elemento que movia a dança de Pina: as experiencias dos dançarinos. Lembranças, olhares, perguntas, imagens, falas, fatos que cada um viveu com ela, são pequenas maravilhas que desencadeiam e mobilizam a bricolagem não linear de cenas dos espetáculos (criados com pedaços das suas historias de vida). Essas cenas, recolocadas em cenários vivos, devolvidas ao cotidiano, geraram tão belas fotografias cinematográficas.
O modo como imagens mais antigas se encontram com imagens mais recentes - e vice-versa - sem corte, sem fade in e fade out perceptíveis, junta três gerações de dançarinos e trás a própria Pina dançando de novo no seu Café de memórias, (des)encontros e solidões. Pina e Helena - sua substituta em "Café Müller" - são duas e a mesma, ambas e uma só, com uma languidez única, olhos fechados e braços alados... Tudo isso nos chega por meio de câmeras que dançam com os dançarinos, um olhar cinematográfico que se move aos soluços, gemidos e gotas dos corpos enfocados.
Nesse passeio imagético entre arte e vida, estética e estesia, o 3D transborda a tela e se justifica em cada centímetro/segundo de sua presença. O corpo - eu e você - é tridimensional e, nesses sentidos, a tridimensionalidade da dança, a profundidade e perspectiva pluridirecionais do gesto/movimento, qualificam e dão a mais terna sensatez ao 3D do cinema.

Recordei com olhos umedecidos e garganta emudecida dos movimentos singelos de "Para crianças de ontem, hoje e amanhã", "Café Müller", "Sagração da Primavera" e "Ten Chi", obras de Pina que tive a honra, o desafio, o desejo, a carência, o prazer, a tristeza e a felicidade de ver, assentir, acolher, assistir, experienciar e guardar no corpo.

(Vi)ver o filme "Pina" (2010) foi uma experiência que acariciou meu ser infante, aprendiz, órfão e amante. Humano demais, me deixei banhar por cada imagem que ascendeu a saudade daquela que apenas beijei com os olhos e que segue coreografando todo meu dançar. Solícito ao conselho desta diva, eu danço, danço, danço, pois do contrário estaria perdido. Dançando, me acho a cada dia e disfa(r)ço essa minha orfandade que a claridade do mundo não mais hospeda sem a luz de Pina.
Imagens capturadas aqui, aqui, aqui.
*Paráfrase de fragmento do poema "O homem humano" de Adélia Prado.
12 de abril de 2012
Sex and the Envy
Ele passou o dia ouvindo "I have nothing". E nem era a versão original, mas a interpretação de uma caloura do programa Raul Gil. Segundo ele, depois de Whitney, a melhor. Essa sensação de não ter nada deixou turvo seu olhar durante todo o dia e o fez sentir inveja de várias cores.
No ônibus, o casal "heterozinho" de adolescentes, pareceu-lhe irritantemente atraente, aos beijos e risos, ela sentada no colo dele.
A dupla de macacos, entre os tantos que transitam sobre os avarandados do campus, mesmo no ato de roubar comida, não se desgruda, um nas costas do outro.
Pela primeira vez seu facebook sugeriu entre as "pessoas que talvez você conheça", a possibilidade de adicionar seu ex. Mesmo tentado pelo afeto ainda latente, disse que não enviou a solicitação de amizade, tampouco abriu a página do sujeito. Pois sabia que lá estariam publicadas as fotos da nova relação, coisa que antes o tal ex nunca fizera.
Suspirou, várias vezes, por entre sorrisos simpáticos, vendo que um ex mais antigo, ao telefone, dava explicações verdadeiras para o novo namorado, de onde e com quem se encontrava no momento.
E foi atrás do enfadonho texto sobre arte funerária, da professora doutora que não sabia o nome do Mickey e chamava o Pluto de "cachorro peludo", que ele despencou suas memórias, afetos e invejas... Isso entre o odor de cigarro impregnado em sua mão e lágrimas bem discretas que percebi de longe.
Abandonou a carona e seguiu para casa a pé, sumindo entre os carros, as luzes e o escuro da noite. Antes ainda pude vê-lo ligar o mp3 e colocar os fones no ouvido para, certamente, entre as invejas remoídas ao longo do dia, ouvir outras tantas vezes a caloura repetir com límpida estridência: "I have nothing, nothing, nothing... If I don't have you".
Foto de Odailso Berté.
11 de abril de 2012
Sex and the Giving

Não tendo amor qualquer com que se preocupar, começo a perceber mais os amores dos outros. Coisa de quem não enxerga o próprio rabo? Coisa de quem mete a colher [...]? Dor de cotovelo? Nem tanto. Observo, ouço, vejo e comento comigo mesmo. I swear!
Lourdes, minha ex-top model predileta, terminou um namoro de seis anos - se não me falha a memória. Ele confessou a traição mas suplica o perdão dela. Ela tem se mantido firme, controlando as aproximações e as táticas de comoção da família que ele usa. Todavia, no último sábado, entre uma cerveja e outra, ela não resistiu, deixou seu senso crítico de lado e deu.
Wal, uma conhecida meio dupla personalidade, talentosa e mentirosa pra dedéu, anda naquela faceirisse de menina que volta a ser cortejada. Sabe aqueles telefonemas em que você fica meio que se derretendo, pingando e se coçando todo diante das coisas que o fulano do outro lado fala? Coincidência ou não, sempre que estamos juntos a danada recebe esses estímulos sensoriais ao pé do ouvido. O telefone funciona como vibrador. Affffff... A bonita voltou a dar.
Se isso mexe comigo? Talvez, afinal estou escrevendo sobre. Algo nisso me desafia no sentido de pensar: O que eu já dei? O que deixei de dar? Deveria ter dado mais? Ou menos? Dando a gente recebe? Devemos dar sem pensar em receber algo em troca?
Os momentos em que passamos sem dar e nem receber podem proporcionar um certo olhar de balanço diante do estoque de doações afetivas. Olhamos para o que não foi dado e está mofando, ocupando espaço, causando remorsos. Percebemos o quanto foi dado de bom e o tanto que foi dado em desperdício, que transbordou e, na verdade, só ocasionou cobranças do tipo: "se dei isso, quero receber de volta na mesma proporção".
Não sinto inveja de Lourdes ou de Wal, acho que se elas têm estoque e têm disposição para a doação, tem mais é que dar mesmo. Contente por elas e contido por mim, só observo as doações em meu entorno e sigo com meus balanços internos... Dando tempo, dando corda, não dando bola... Dando beijos nesses momentos que me dão chances de rever os dados e pensar no que pode ser dado.
Imagem do music video "LOVE" - Kazaky
Capturada aqui.
9 de abril de 2012
Sex and the Now

A trilha desses dizeres (que seriam ditos ontem) era para ser "I will always love you", na voz de Whitney Houston. Meloso demais? Dramático? É, talvez sim. E há uma estrofe da canção que se adequa ao que ainda penso/sinto:
Eu espero que a vida te trate bem
E espero que você tenha tudo que sonhou
E desejo pra você prazer e felicidade
Mas, acima disso tudo, eu desejo pra você amor.
Embora forte e esperançoso, penso que refrão seja dispensável. Prefiro seguir com "Love", do Kazaky, que em meio a uma estética queer segura de si e com uma letra pop bem simples, me diz muito, agora:
Você me quer
Você me ama
Você me odeia
Eu não me importo.
As canções vão compondo enredos, dando tons e notas que orquestram o modo como organizo a dimensão amorosa do momento. Foi difícil chegar nesse grau de pouca importância, mas aqui estou. Sem caso, sem outro, sem amor. Dando um tempo para mim, para nós, vós, eles.
Fazendo pose de estátua, escultura, vitrine-viva, manequim que quer ser visto, contemplado como obra na qual não se toca. Uma pintura de Michelangelo, uma escultura de Rodin, uma foto de Mapplethorpe.
Corpo em evidência que faz de calçadas sua passarela. Imagem que vê e é vista. Só isso basta por hoje. Amanhã talvez o look já seja outro. Moda que vai volta numa continuidade bem descontínua.
Livre, lento, lendo o que eu mesmo escrevo, só para corrigir e postar sem maiores pretensões. Porque amor, agora, é só uma palavra que conjugo com outras, faço textos, teço fatos.
A vontade que me adentra os poros é de sexo com a cidade, pura relação corpo - ambiente. Trabalho empírico de escritor que observa os agires urbanos e (d)escreve. Se deleita com o prazer dos outros, voyeur do cotidiano.
Imagem do music video "LOVE" - Kazaky
Capturada aqui.
6 de abril de 2012
Corpus Via Crucis by Madonna
Condenação

Primeira queda

Encontro com Madonna

A ajuda do Cirineu

Enxugando lágrimas

Segunda queda

Encontro com as mulheres

Terceira queda

Despojado de suas vestes

Crucificação

Morte

Pietá

Sepultamento

Ressurreição

Imagens do music video "Girl Gone Wild" (2012), de Madonna
4 de abril de 2012
I have nothing
Andei me perguntando com que corpo devo gastar meu verbo. Os dias andam comigo mas não respondem claramente minha interpelação. Convém fazer apelação, então? Ora "inter", ora "a", ando mesmo é pelado, nu com a mão no bolso, despido de amor.
Como metáfora, encarno a lei do terceiro excluído... É que aqueles dois já pertencem a outros dois. Assim me dizem as imagens, assim me dizem as chamadas. Mesmo que não sejam pra mim, articulo hermenêuticas sentimentais e percebo que só eu estou só.
Ainda sigo fazendo despedidas... Dos beijos, dos carinhos, dos gozos, dos filmes, das canções, das verdades e das mentiras, dos prazeres e das agonias. A leveza desse adeus decora os acenos que hoje já gesticulam sorrisos. Mas guardo ambos no corpo, num altar particular.
Parece que ainda não tive a sorte de vocês, ainda não estive na hora e no lugar certo. Talvez até já tenha passado por mim, mas não foi do agrado do acaso deixar a gente flertar. It's not right but it's okay.
Sem querer parafrasear Madonna, penso que meu filme, bem hollywoodiano, poderia se chamar "W.I.". Teria referências em "Nine", para tirar dos ex-amores um pinguinho de inspiração, só um pigmento de auto e hétero-expressão. Das suas iniciais eu tiro meios e fins, um roteiro denso e clean.
Ainda há uma cor que me faz esperar, adentrar mais em mim, do tipo... deixe estar... E a demora que agora mora em mim talvez um dia faça jus, trazendo um pouco do tudo capaz de empretecer esse nada.
Imagem: foto de Odailso Berté.
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