6 de setembro de 2010

a mãe e sendo


Uma manhã delicada e cinzenta surge através do vidro para o qual olhei a noite toda. Timidamente ela diz: 'Levante e ande!'

Penso no que fui. Lembro do que posso ser. Entendo que não sei ser o que preciso. Lamento sozinho engolindo nós nesse quarto sem portas para que ninguém ouça.

Ficarei aqui só até o necessário, cumprindo à risca a escolha feita. Enquanto esse dia não vem, curto a manhã cinzenta que quer fazer milagres em mim.

Foto: Odailso Berté

5 de setembro de 2010

game is over


Nesta repentina criação escrita, digo pra mim, em primeiro lugar, que o jogo acabou. Insisto em ouvir de novo a sentença, porque ainda me parece inacreditável, inaceitável, inalterável.

Você pode ler minha cara de blefe? Perdi, errei, danei, borrei. Junto agora os restos, fecho a mala e sigo pela trilha que aparece na clareira do meu estar nesse momento.

Desisto, insisto, persisto, existo. Desmistifico esse meu jeito infante de amar, corrigindo-me e certificando-me que mesmo aquilo que mais se aproxima dessa forma idealizada de amor que sinto, não existe, é pueril, esvai-se, acaba com extrema facilidade, deixa de ser como se nada tivesse feito sentido como parecia.

Será que tudo foi aparência que eu vesti de realidade? Quem era afinal? Quem conseguirei seguir sendo?

Amadureço perdas e cresço entendendo que a vida é menos ganhos. Suspiro profundo e solto ares tristes, de quem não soube atingir expectativas próprias e de outrem. A partida acabou, perdi a contrapartida, sou só derrota sem direito a revanche. Mais uma vez, vencido. Cheque mate!

Imagem capturada em:
http://todas-cores-da-vida.blogspot.com/2008/08/cr-de-chec-mate.html

4 de setembro de 2010

Quando um piano nos toca


O filme áustralo-franco-neozelandês "O Piano" (1993), dirigido por Jane Campion, possibilita construir tantos sentidos acerca do toque, do tato, da percepção.

O toque do colonizador que corta o toque do outro, que pisa na terra alheia e busca negociá-la como coisa útil, objeto de troca. Um toque que negocia coisas, pessoas, objetos afetivos, não é capaz de tocar outro corpo com cuidado e ternura e nem deixar-se tocar.

O toque de quem simula querer aprender tocar piano, quando na verdade, quer tocar e ser tocado pelo outro ser humano, a quem com carinho e paixão, consegue tocar até o mais sensível e sublime dos sentidos. Um toque que faz o corpo suar música.


O toque de um corpo que não fala verbalmente, coberto por rudes vestimentas, que faz fluir narrativas e música dos dedos, das mãos, dos gestos, dos olhos. Corpo que é capaz de morrer amarrado àquilo que lhe dá sentido para tocar e ser tocado. Corpo que fala, grita e geme sem pronunciar uma palavra.

O toque de um corpo infante, alado e brincante, que voa se fazendo ponte entre o corpo que não fala e o mundo que o interpela. Toque filial de quem dança se fazendo mensagem para possibilitar que outros corpos se toquem.


Imagens capturadas em:
http://cinemacomrapadura.com.br/filmes/1649/piano-o-1993/
http://sindromedeestocolmo.com/archives/2006/10/filmes_para_sub.html/
http://modacine.blogspot.com/2009/02/o-filme-o-piano-inspira-editorial-da.html

mãos pisadas



Insistência essa em deixar que pisem nas mãos e nos pés
Dançar abaixo do nível padronizado
Solicitar afetos que se afastam
Dançar ao som de Beatles inventados
Rastejar fluente pelo chão que acolhe
E ver o príncipe se fazer um sapo que não mais será engolido

Trecho do filme "Blush" de Wim Vandekeybus

learn to be lonely


Às sete da manhã os caminhos ainda estavam desertos. Ele, 'o fantasma da hora', atravessava a rua com o motivo corriqueiro de comprar pão para o café. A sensação de estar só, naquele momento, mesmo à luz dia, o fez filosofar perante os pães.

Sua insistência em permanecer naquela problemática afetiva desgastada seria por medo de aprender a ser só? O temor da solidão poderia ainda ascender aquela antiga premissa 'eu preciso ser amado'? Será que a necessidade ardente de afeto estaria ligada a algum entrave ocorrido no momento em que ele deixava de ser um (a)feto? Onde poderia residir o nó dessa insegurança?

A auto-estima do mascarado parecia estar calejada. O fato de não conseguir se desapegar demonstra que nele as relações estabelecidas se alicerçaram de modo sólido e verdadeiro, não em um terreno de areia. Porém, diante de tantos enganos, desconsiderações e imaturidade, por que seguir querendo?

O café foi rápido, até a fome parecia abandoná-lo. Suas dores de cabeça pela má postura, sua e de outrem, sentavam a seu lado e montavam nele. De um modo torto ele ia aprendendo a cultivar momentos de inteira entrega a si próprio como companheiro... Deixando de gostar para não mais se desgostar... "Learn to be lonely..."

Escrito a partir da música "Learn to be lonely" do filme "O Fantasma da Ópera", composta por Andrew Lloyd Webber.
Foto: Odailso Berté

3 de setembro de 2010

Martha me disse


o que me prejudica
é essa mania de dizer a verdade
quando deveria mentir
e fingir que estou à vontade
quando na verdade machuca


Do livro "Cartas Extraviadas" de Martha Medeiros
Imagem: detalhe da capa do mesmo livro

2 de setembro de 2010

(s)ex and the crise


Uma segunda temporada que finda... Expectativas que também parecem findar. Esperanças que também parecem ficar. Desejos tênues de que um 'big' amor possa se fazer amizade... Bons amigos, como nos filmes.

Será que somos capazes de confeccionar uma amizade com os retalhos de um romance? Os sentimentos podem ser modulados? A sequência de notas pode ser mudada afim de se compor outro estilo de canção? Poderão os mesmos corpos vibrar em outros tons estando nas mesmas presenças?

Sabe aquela vontade boba de sempre que algo estranho ou corriqueiro acontece você querer contar à ex-pessoa? É possível fazer dessa vontade destemida um ingrediente para a pretendida amizade?

Não há nada de heroísmo nessa tentativa. É árdua a tarefa de transfigurar o sentimento no sentido de reconfigurar as figuras sentidas. As palavras embaralham, se repetem, se disfarçam para tentar propor outros significados. Ato falho.

Salve os bravos amantes que se transmutam em amigos. X-MEN pode ir além da ficção, HQ, cinema, animação. Um sentimento mutante pode ser a solução para a crise dos corações partidos.

Amantes ontem!? Amigos hoje!?
1 sente falta de 2. 100 crises!

Foto: Odailso Berté

1 de setembro de 2010

I'm a perfect crush


É uma parte de mim que toma partido e parte... Para ser de outras partes. Se eu fosse anjo, diria, é uma das minhas asas. Se eu fosse uma obra de arte, diria, é meu mais lindo sentido a ser interpretado. Se eu fosse uma cidade, diria, é minha praça verdejante. Se eu fosse um rio, diria, é minha terceira margem.

Lidar com o todo quando falta uma boa parte, exige apagar certos registros e reorganizar modos de ser, querer, proceder. Me custa admitir, mas não quero esquecer. É ruim não poder desejar, mas me traio nas imagens. Me esforço para desmanchar as memórias, mas choro qual criança abandonada pela mãe.

Me erro, me traio, me esqueço. Padeço da fome que causo. Transpareço o alheio que me acolhe com indiferença. Pereço de amor não durável. Liberto angústias em forma de prazer. E mais uma vez, o pranto tem forma de gozo.

Voa, mas deixa penas. Duras penas. Pena que não pude mais... Há penas a serem cumpridas. Apenas deixo meu contento correr solto abaixo de zero. O que voa solto pode um dia cruzar de novo os ares dessa ‘queda’ chamada eu.

Escrito a partir da música "Fly" - Celine Dion

31 de agosto de 2010

(des)manchando a própria imagem


Há um compartimento confuso em mim. Um cômodo obscuro, inundado de neblina, gotas pingando do teto e do corpo. No canto, em traços indefinidos, um homem. Um pai, a quem não se abraça? Um amigo, cheio de afazeres? Um desconhecido, desejando promiscuidade? Um namorado, desmanchando sonhos?

Acordei. Vi o sol e a rua me convidando para outras traquinagens. Mas meu corpo não esconde um certo peso, nos ombros e no olhar. Se pecar ainda adianta, levarei adiante o que de mim tinha ficado para trás. Levar devaneios para o jardim refresca os (r)humores desconcertados.

Lento e calmo descansa... Cor ação. Estou mago. Rins de mim. Dê do bom. A braço e mão. Um bingo perdido. Tem dois encurtados. Quão fragmentado está esse organismo. Mas um dia ele se acha na vida. Talvez um chá acalme esses nervos floridos na pele árida.

Levianamente afago os desatinos, os destinos, os intestinos e os cretinos momentos desse hoje que já finda. Entre uma novela, dois novelos e nove acessos, entendo que devo desistir de ser feliz para sempre.

30 de agosto de 2010

sentimento sem-teto


A cada dia experimento uma nova forma de estar no mundo. Hoje, tomando banho, fechei os olhos... Quando abri, uma impressão de amnésia estalou diante de mim. A percepção momentânea foi de não saber onde estava, qual era meu norte, onde estava a válvula para desligar o chuveiro.

Recomposto do susto de memória, fecho os olhos para a música entrar mais fundo. Sinto que preciso ocupar minhas entranhas com conteúdos, temas e situações que não sejam faladas ou escritas. Preciso de som, prazer e saudade circulando entre meus átomos. Nada em mim pode estar desocupado.

Parece que se assim não for, uma multidão em um se apossa do pouco que sou. Meu telhado pode não resistir à tormenta que se aproxima. Mas não recorrerei a nenhuma divindade, nem a ramos bentos. A perda se faz carne. Quero deixar a tempestade atravessar-me, romper meu telhado, ser todo (m)olhado, (des)locado a contento, sem telas, teias ou telhas.

Foto: Odailso Berté

29 de agosto de 2010

(m)eu menino... nada de saudade


Voa menino, voa pra sua estrela natal
Voa menino, voa por cima do temporal

Sei da saudade que sente do tempo, do coração
Vejo o lamento que mora na sua canção
Eu também tive um sonho que passou
Também sou feiticeiro e cantador
Eu também ouço histórias na voz do tambor

Sei dos seus sonhos perdidos nos olhos da mãe do luar
Conheço o amor infinito que deixou por lá
Eu também tive um rio que secou
Também sou guerreiro e sonhador
Eu também sei cantar pra não gritar de dor

Trecho da música "Estrela Natal" do grupo Tambolelê
Foto: Odailso Berté

28 de agosto de 2010

le temps davant


Não quero que o devir me tire do chão. Nem quero permancer sonhando com o que pode ser que virá sem que ainda tenha desenhado um gosto agradável. Hoje ainda temo lembrar.

Perceber meus traços em processo de maturação é ver o menino que deixei para trás. Por vezes o espelho ainda me mostra os brinquedos, o parreiral, o medo de entrar debaixo da casa, os bonecos de pano.

Toco meus lábios e sinto beijos. Acaricio meus cabelos e sinto perfume de dedos que me faziam dormir. Toco meu peito e presencio cenas suadas. Não desço a mão por saber que seu paradeiro poderá ser emblemático.

Não sei como estarei amanhã... Sedento? Sozinho? Sentado? Sereno? Sóbrio? Silencioso? Surpreso? Suspenso? Sumido? Sei lá... (R)estarei pronto ao meu devir que ainda deve vir e ao qual devo ir.

Foto: Odailso Berté

27 de agosto de 2010

um lar de (pre)posições dançadas


Das improváveis condições
Da mais precária estética
Dos limites instaurados
Das poções sem efeito
Do antídoto inválido
De bater sem abrir
Da brevidade do prazer
Desse corpo que só pede e não dá
Do mesmo mudado
Da alternância estática
Daqueles que se foram
Dos não mencionáveis
Dos pecados listados
Das tentativas sabotadas
Dos musgos não regados
De paredes díspares
Dessa velha casa
Disso que me acolhe
Desse escuro íntimo
Dele que me escondo

Foto: Odailso Berté

pelo menos, ainda se pode sonhar



Pour que tu m'aimes encore - Celine Dion

26 de agosto de 2010

piso e deito neste (con)solo


Passei a tarde e parte da noite esperando alguns apontamentos a respeito das partes adormecidas de afeto que se me reaqueceram nalgum momento do dia. Não chegaram, mas não cheguei a ficar (des)apontando. Só me fez lembrar que ser sincero pode descomprometer a contrapartida de uma relação.

Os risos e lágrimas perante os desenhos animados, as emoções e torcidas diante das premiações de cinema, as júrias e poesia nas palavras ditas e escritas, os presentes afetuosos, a cumplicidade inocente que permitia ser tudo... Nada adiantou. Qual a consistência do ato de substituir o nome do outro pela palavra "amor"? Pergunta que ecoa em ondas no mar bravio da minha encosta afetiva.

Perdi ou encontrei algo, alguém, algoz?

"Se perdem gestos, cartas de amor, malas, parentes
Se perdem vozes, cidades, países, amigos
Romances perdidos
Objetos perdidos
Histórias se perdem
Se perde o que fomos e o que queriamos ser
Se perde o momento
Mas não existe perda
Existe movimento."

Texto recitado pelo personagem Sombra (Luis Miranda) no filme "O Signo da Cidade"
Imagem: "The Rest" de Pablo Picasso
Capturada em:
http://www.art.com/asp/default-asp/_/posters.htm?ui=7DBCDB207ED941F0AA1F914D6601E675

24 de agosto de 2010

saia de papel na chuva ácida


Se eu confessar que não dou conta de mim mesmo, você acreditaria? Não sei ser só. "Tenho medo do escuro, do inseguro, dos fantasmas da minha voz...", como diz a canção de Vanessa da Mata. Tento e me esforço, mas meus enganos me vencem, se alteram e mostram o quão fraco, fanho e franzino sou. Dependente, depressivo, desatinado.

(Re)clamo e (de)monstro que sou (e)terno de façanhas mal pagas, proezas desastradas que indicam o caminho da comédia diária na vida que levo e que me leva também. Minhas (insufi)ciências dizem a todo instante que não fui e não sou suficiente no contato com outro. Deixado! Fora! Indesejado!

O (e)motivo que em mim perece tem olheiras de olhar (m)olhado no fundo dos olhos. Tento escrever diferente, mas artigo definido não sai. Só um indefinido corre tal qual serelepe na minha imaginação. (Re)cortes de momentos bonitos se justapõem a momentos intranquilos. Afeto e violência se dissolvem no mesmo copo de água que tenta matar minha sede, mas ela não cede.

Longe de você, quem sabe, eu consiga instruir meus sentimentos a obedecerem a minha vontade, que se vê aos trancos e barrancos para se manter intacta, ativa e atenta. Porém, seu déficit de atenção aumenta a cada dia e ela esquece de me aquecer. Lacônica e tonta de anseios. Livre para querer tantas outras coisas, mas trancafiada dentro em si, pois de ti, pede todos os dias.

Foto: Odailso Berté

22 de agosto de 2010

Lendo os signos das estrelas humanas


Como se o céu em noite estrelada de Van Gogh fosse (re)pintado para a tela do cinema... Estrelas que se movem, que se perdem, que se doam, que caem, que vivem...

Já está tudo escrito ou podemos mudar alguma coisa? Perdas ou movimento? Somos amados porque somos bons, ou, somos bons porque somos amados? Perguntas tantas trazidos pelo filme "O Signo da Cidade" (BRA, 2009), dirigido por Carlos Alberto Riccelli, com roteiro e atuação de Bruna Lombardi.

Os cacos de histórias humanas bricolados, tecem texturas e (con)textos tétricos, tristes e ternos. Cotidianos alheios conectados pelas minúcias, misérias e meandros humanos. Téca (Bruna Lombardi), uma astróloga e locutora de rádio, corpo que se (ex)põe à relação com os mais diferentes corpos. Ela observa, absorve, interfere, acolhe, afasta... Atravessa e é transpassada pelas afiadas nuances da vida que não pedem licenças para entrar ou sair.

Quando ler estrelas é ler pessoas... Ler corpos celestes pode ser ler corpos terrestes, dado que, também somos compostos por pó de estrela. Ler brilhos, (de)cadências, gestos, palavras, devaneios, mortes súbitas, mortes lentas, revelações que se interpõe e desajustam os detalhes da tranquilidade pretendida. Ler as imagens da vida real e dar conta do signo que elas sugerem. Como é possível ler a complexidade vivida?

Mais interessante ainda, é quando se olha o filme enchergando o próprio rosto refletido na tela. Coincidência efêmera? Destino? Vêr-se no filme e sentir-se parte dos dramas corriqueiros expostos na tela em forma de arte é dizer a mim que estou vivo. Ver os olhos (m)olhados, o peito dormente, os ombros encolhidos... Homem que se (con)funde com o enredo, enredado também.


Obra prima, irmã, tia, amante e mãe! Possibilita pensar que perder é mover... Ler as perdas como movimentos da trajetória, permitindo um sentir mais alargado da vida e, assim, um distencionar das dores. Faz crer que o amor pode nos tornar bons, e não que os juramentos de bondade nos farão amados.

Imagens capturadas em:
http://revistacatorze.com.br/?p=1191
http://grupoviagem.uol.com.br/grv_materia.vxlpub?codmateria=885

desafiando a gravidade


Algo mudou dentro de mim, algo não é o mesmo
Está mudando em processo, não em corte abrupto
Estou jogando pelas regras do jogo de outra pessoa
Quando pronto para me entregar uma recusa me lançou para longe
Tarde demais para repensar, tarde demais para voltar a dormir
Tarde para seguir querendo algo protegido por um muro de lamentações
É hora de confiar nos meus instintos, fechar meus olhos e saltar
Conquistar uma espécie de auto-confiança que me ajudará a ser melhor, só.

É hora de tentar desafiar a gravidade
Dos fatos e não temer as superfícies que se fizerem meu chão
Acho que vou tentar desafiar a gravidade
E correr o risco de cair sabendo das possíveis contusões
Me dê um beijo de adeus, estou desafiando a gravidade
Pois acredito que assim será definitivo
E, desse modo, você não me deixará pra baixo
Mas ajudará a selar o rumo para o qual estou me remetendo.

Estou aceitando limites porque dizem que eles são assim
Aceito esses dizeres, assumo o risco de confiar nos humanos
Algumas coisas eu não posso mudar
E isso ficou bem claro
Mas até eu tentar, nunca vou saber
Tentei, não deu. Sei que a mim, sim, posso mudar
Tanto tempo estive com medo de perder o amor que achei que tinha perdido
Não acho mais, já perdi, me perdi
Bem, se isso é amor, ele vem por um preço muito alto
Minhas economias emocionais não alcançam essa correção monetária.

O que agora pretendo comprar é o desafio à gravidade
E estar preparado para nele investir, caindo em novas paragens.

diálogo com a letra da música "Defying Gravity" (versão Glee)
tema original do musical "Wicked"
imagem capturada em:
http://chameleonnamedlane.blogspot.com/2010/07/stop-this-beat-is-killing-me.html

20 de agosto de 2010

Unusual Way


Se agora, tivesse que responder quem sou, não saberia que termos usar. Não sei ser bom todos os dias. Palavras falsas são traições da experiência. Não quero precisar de um eu conceitual que some quando preciso, que me causa insônia quando tenho pesadelos, que me traz amnésia quando tento dissertar a meus respeitos.

Não consigo tecer boas filosofias em todas as aulas e nem posso redigir boas críticas de tudo o que leio. Sou avesso da normalidade, erro acreditando estar certo e apelo ao capeta quando estou necessitado. Mas sempre os anjos me acolhem em seus braços pois sabem que sou bonzinho.

Acredito que um dia deixarei de pecar só de vez em quando, para melhorar as formas de saborear as delícias da pecadolatria. Amanheço com vontade de acordar vestido de príncipe, mas olho no espelho e vejo o sapo não beijado. É, sou anfíbio às vezes. Mas não tolero perereca.

Ainda procuro aquele jeito incomum que baixou minha guarda, tirou-me a resistência da qual fui herói um dia, inspirado em She-ra, He-man, Mulher Maravilha, Super Homem. Minha inocência se perde por vontade própria, sai com o lobo e deixa a vovó a ver navios de dentro de casa. Esse jeito incomum me consome.

Imagem capturada em:
http://brasilintest.blogspot.com/2008/12/crise.html

19 de agosto de 2010

Coreografia (d)escrita


Dançava ela um tanto atônita, debatendo-se por todos os cantos da casa. Entrava e saía de uma sala escura à procura de quem a tocasse. Excitada ao último grau de sua consciência, como a feia sonhando na vitrine.

Passava pelo corredor apressada, entrava nos quartos, mas ninguém cedia às suas necessidades. Nem altura aceitável ela tinha, baixinha, pitoca, nanica, toquinho, cotôco de gente.

Na sala, ela esperava que os personagens da TV inspirassem alguma (re)ação nos presentes. Mas nada, era como se ela não existisse, ou, existindo, nada causasse em quem quer que fosse.

No banheiro, até o chuveiro parecia negar-se a molhá-la. Nem água, nem gozo, nem suor, nem bebida... Se um líquido lhe fosse possível, seu nome seria lágrima. Pobre bicho...

Descia e subia as escadas procurando um corpo para sobrepor ao seu. Mas nenhum 'pax de deux' lhe foi proposto. Não sei se adiantaria para ela implorar a ajuda de algum santo. Pobre diabo...

Cansada de andar nua, tirou a toalha que a envolvia, vestiu-se, trancou o armário, engoliu a chave, não pagou a conta, morreu de desgosto. Aplausos...

Imagem do livro "Sex" de Madonna