26 de dezembro de 2010

These are special times

Ontem foi Natal. Um tempo especial que ainda enternece meus sentimentos, seja pelo apelo cristão do Deus-verbo que se faz Homem-corpo, pelas preciosas lembranças de minha infância, ou, pela saudade de casa, pelas ausências de pessoas especiais com quem vivi outros natais... Enfim, tantas imagens poderiam ser acrescentadas.

Mas ontem, embaladas pelas canções do cd de Natal de Celine Dion (referenciado no título desta postagem) duas imagens se cruzaram, uma fictícia e outra real. Uma onde ele cuida dela e outra onde ela ainda cuida dele.

A primeira imagem, do filme "Up - Altas Aventuras" (EUA, 2009), é do casal Karl e Ellie. Se conheceram na infância e compartilharam do mesmo sonho: viajar num dirigível para conhecer a América do Sul. Todavia, as surpresas da vida mudam, a seu bel prazer, as coisas que pretendemos fazer. Mas se perpetuam os gestos de ternura de Karl em cuidar de Ellie quando precisou e seguir cuidando do sonho dela quando ela já não mais podia lutar por ele.


A segunda imagem é bem mais táctil, um presépio vivo, onde José e Jesus se (con)fundem sob o nome de Alfredo. Uma senhora de nome Maria dedicada em cuidar de 'Jesus-Alfredo' já mais próximo da Páscoa do que do Natal, fragilizado pelo mal de parkinson. Um senhor que volta a ser criança, invertendo aos nossos olhos aquilo que entendemos por linha da vida. Um nascimento ao revés que arrepia e comove, pois explicita o quão frágeis somos todos nós. E Maria consegue cuidar dele para além das forças de seu corpo já cansado pelo tempo. Uma Maria cheia de graça, mas sem anjo e boa-nova. Uma Compadecida, como narrou Suassuna.


Na dor e na doçura dessas imagens penso e rezo a vida, tanto a que continua quanto a que finda. Declaro só pra mim, entre lágrimas e sorrisos, que estes são os momentos especiais da vida, que nos colocam na parede, no limite, no centro, no eixo, no rumo certo. As imagens e a canção ressoam carinhosamente em meus ouvidos dizendo: "these are the special times" .


Imagens capturadas em:
http://olipoli.tumblr.com/post/267714764/pmslikeabitch-via-heckyeahup-carl-and-ellie
http://blogdomrcondes.blogspot.com/2007_12_01_archive.html

23 de dezembro de 2010

Harry Potter: entre mortes, serpentes e perdas

O início do fechamento do ciclo. A trajetória de Harry Potter pelas telas do cinema cumpre com êxito e impacto seu primeiro tempo na batalha final. Os sete anos na Escola de Hogwarts fizeram de Harry Potter (Daniel Radcliffe) um herói da magia, um bruxo sagaz e um amigo inestimável.


Mesmo sentido com a perda do mestre Dumbledore, Potter tem ainda uma grande tarefa a cumprir na luta contra seu anti-ego, aquele que não pode ser mencionado, o Senhor da Morte Lord Voldemort (Ralph Fiennes).

As perdas, fiéis seguidoras de Potter, tem continuidade logo no início dos confrontos com os Comensais da Morte. Lutar sozinho talvez seja um alívio para as perdas. Mas os queridos e mais próximos amigos não desmancham o elo de proximidade e em trio seguem para o que tiver de ser.


Em um dos momentos duros e frios do denso caminho rumo ao inesperado que há de vir, resta uma uma ponta de sensibilidade e afeto para o compartilhar de uma dança simples e improvisada entre Harry e Hermione (Emma Watson). Uma pérola de bem querer em meio ao tempo de maldades já bem próximo.


O clã dos Comensais da Morte junto de seu mentor, o Lord Voldemort, se fortalece em uma ceia maquiavélica, ofídea e antropofágica, onde a vida é o inimigo a ser combatido. Pessoas são o alimento da serpente do mal.


Fazendo jus em ser uma comensal da morte Bellatrix Lestrange (Helena Bonham Carter), a bruxa sanguinária, parece simular orgasmos com as vidas que liquida. Numa interpretação visceral, a atriz Helena Bonham Carter consegue arrancar gritos de suas vítimas e despertar raiva no espectador atento.


E o dono do momento mais emocionante do filme é o pequeno e humilde elfo Dobby. Eternamente grato a Harry Potter por sua liberdade, o pequenino arrisca sua vida para auxiliar o amigo. Soando do seu corpinho frágil, a conhecida frase "que lindo lugar para estar com amigos" banha o rosto da gente tal qual o mar que compõe o ambiente da cena.


Entre emoções e sustos fica a espectativa para o segundo tempo da comovente e desafiadora história de "Harry Potter e as Relíquias da Morte" (2010), filme dirigido por David Yates.

Imagens capturadas em:
http://www.cinemaemcena.com.br/ficha_filme.aspx?id_filme=5803&aba=detalhe
http://www.thfire.com/tag/harry-potter-and-the-deathly-hallows
http://www.allmegastar.com/photo/2010_hp7_i_041_big.html

Harry Potter: entre prisão, cálice, ordem e enigma

Mesmo sem ter mergulhado na sequência de livros escrita pela britânica Joanne K. Rowling, me aventurei na sequência cinematográfica articulada pelos três diferentes diretores que sucederam Chris Colombus - inaugurador da jornada que pôs Harry Potter nas telas. Após a maratona de aventuras e surpresas, ao longo dos seis filmes, recorto trechos e imagens para prolongar as boas sensações e os encantos.

De "O Prisioneiro de Azkaban" (EUA, 2004), dirigido por Alfonso Cuarón, ressalto a possibilidade, mesmo que imaginária, de voltar no tempo, poder ser espectador dos próprios atos, olhá-los pelo revés, avaliar o processo de vida, retomar momentos, ver os feitos por outro ângulo e perceber o quanto as escolhas feitas e as atitudes tomadas foram decisivas, equivocadas ou, simplesmente, momentâneas. Mesmo com as perdas, que não deixam de perseguir o jovem Potter (Daniel Radcliffe), fica a esperança de que "aqueles que nos amam nunca nos deixam de verdade".


De "O Cálice de Fogo" (EUA, 2005), dirigido por Mike Newell, menciono a capacidade de não deixar ninguém para trás - uma atitude utópica para a atualidade capitalista. Tendo sido o 'quarto escolhido' para representar sua escola no campeonato de 'Três Bruxos', Potter (Daniel Radcliffe), faz mais do que as obrigações da competição. Em momentos de extrema dificuldade onde sua classificação poderia estar ameaçada, ele não consegue deixar pessoas para trás, opta por ter o outro consigo. Mesmo que uma derrota seja a condição, a alteridade prevalece.


De "A Ordem da Fênix" (EUA, 2007), dirigido por David Yates, destaco as proibições a que a Escola de Hogwarts foi submetida. Uma inspetora, a professora Dolores Umbridge (Imelda Staunton), que acredita educar apenas pelo abuso de autoridade, impõe a proibição no lugar do acordo. Ao invés do diálogo, a norma se sobrepõe às pessoas e determina que educar passa por relações de saber e de poder. É comovente a cena em que a professora Sybila Trelawney (Emma Thompson) é explusa da escola inocentemente acusada, pela rígida inspetora, de charlatanismo.


De "O Enigma do Príncipe" (EUA, 2009), também sob direção de David Yates, recorto duas daquelas personalidades improváveis, das quais pode não se esperar muita coisa: "a menina aluada" e "o velho em fim de carreira".

Luna (Evanna Lynch) é a menina que pouco é levada a sério. Costumam dizer que ela "vê coisas", fala com fantasmas e vive no mundo da lua. Ou seja, uma pessoa à qual não se pode dar muita credibilidade. Todavia, Luna, simples e despretenciosa, é quem aparece nos momentos mais improváveis para prestar um auxílio necessário, como a luz da lua em noite escura.


Alvo Dumbledore (Michael Gambon) , o professor que gosta de fazer tricô, com imensa humildade, vê-se diante do momento de parar. Quase como um Cristo idoso a caminho do martírio, não foge das fatalidades do destino. Entregue ao percurso da vida e ao traço dos acontecimentos, na iminência do combate, ele é obrigado a deixar vacante seu cargo de diretor da Escola de Hogwarts. O velho sábio parece cansado, como o sol se escondendo perante a tempestade que se aproxima.


Talvez estes não sejam os detalhes privilegiados nos roteiros dos referidos filmes. Todavia, são recortes feitos pelo meu olhar de espectador e criador de sentidos. São os pequenos encantos que me enfeitiçaram na trajetória de Harry, Hermione e Ron.

Imagens capturadas em:
http://www.cinemaemcena.com.br/Procurar.aspx?procurar=harry%20potter

Harold e Maude: recriando possibilidades de vida


Assistindo ao último capítulo da primeira temporada da série "A Sete Palmos", me deparei com a citação do filme "Harold and Maude" (EUA, 1971), versão brasileira "Enasina-me a Viver", direção de Hal Ashby.

Em ambiências lúgubres e, ao mesmo tempo, luminosas, onde um jardim coberto de flores faz analogia com um cemitério repleto de sepulturas, vida e morte formam um contínuo, sem os horrores fúnebres aos quais estamos acostumados.

O adolescente Harold se entende como alguém que não tem vivido, que já morreu algumas vezes. De família abastada, ele vive sabotando os planos da mãe autoritária que tenta manobrar sua vida profissional e afetiva.

Certo dia, em um velório de alguém desconhecido - ambiente o qual adorava frequentar - Harold conhece Maude, uma senhora de 79 anos, que possibilita-lhe recriar perspectivas de vida... Perspectivas estas que interpelam certas compreensões de corpo, amor, ordem, status, alteridade e sexo normativizadas pela Igreja, pelo Exército e pela própria Psicologia.


O roteiro de Colin Higgins, que já foi adaptado para TV e teatro, encanta com suas doses existencialistas e tragicômicas. De sua preciosidade literária, destaco algumas frases que podem até soar como versos de auto-ajuda, mas, se aqui estão, é porque fazem algum sentido, para mim, pelo menos.

Tente uma coisa nova todos os dias, afinal a vida nos foi dada para ser descoberta, não vai durar para sempre.

Eu acho que a maior parte dos males do mundo vem de pessoas que são "isto", contudo, permitem que sejam tratadas como "aquilo".

- Você reza?
- Rezar? Não. Eu me comunico com a vida.

- Você tem mesmo muito jeito com as pessoas.
- Ora, são da minha espécie.




Imagens capturadas em:
http://surpresasocultas.wordpress.com/2010/09/09/filmes-de-ter-harold-and-maude-1971/
http://castandbind.blogspot.com/2008/11/maude.html
http://4thwall.de/index.php?/archives/6-Harold-and-Maude.html

19 de dezembro de 2010

Pina Bausch - dança - imagem - cinema



A obra da diva da dança contemporânea nas telas do cinema.
Um filme para Pina Bausch, de Wim Wenders.
PINA - Tanzt, tanzt sonst sind wir verloren
Pina - dance, dance ou estaremos perdidos

15 de dezembro de 2010

Eis a questão


Pergunta quem quer entender, responde quem sabe...

Helena Katz (2005) diz que no corpo há perguntas permanentes do homem sobre o mundo e elas constituem a massa com a qual ele se molda.

Paulo Freire e Antonio Faundez (2008) dizem que o conhecimento se origina na pergunta; que não devemos dar respostas, mas ensinar a perguntar; que devemos prestar atenção nas perguntas corporais que o corpo faz; que a existência se faz perguntando.

Então...

Por que os abraços se partem sem nosso consentimento?

Por que nossa segurança é tão volúvel?

Por que, mesmo sendo feridos, o afeto do agressor ainda parece nos abençoar?

Por que a incapacidade de assumir ao ex-amor que estamos amando outra pessoa?

Por que a mesma cidade que agredia hoje agrada?

Por que a série de filmes que antes não interessava, hoje encanta?

Por que perder, hoje já não custa tanto?

Por que, passados 31 anos de vida, o findar do ano ainda me deixa emotivo?

Será que as terapias, os tropeços, os tombos, as mentiras, os dez anos de devoção, as perdas, os avanços, os estudos, os abraços partidos, nada disso me amadureceu o suficiente?

Será que há uma trilha com migalhas de felicidade para eu catar?

Será que esse monte perguntas ajuda para alguma coisa?

Para quê?

Imagem capturada em:
http://www.osarmenios.com.br/2010/06/christopher-nolan-e-o-seu-novo-vilao/

Citações das obras:
Um dois três A dança é o Pensamento do Corpo - Helena Katz
Por uma Pedagogia da Pergunta - Paulo Freire e Antonio Faundez

14 de dezembro de 2010

Você sabe alguma coisa sobre a 'câmara secreta'?


Há dois dias encontrei o famoso bruxo Harry Potter. Obviamente, ele nunca ouviu falar de mim, eu ouvi falar muito dele e esse nosso encontro é metafórico.

Quando os primeiros os livros que narram sua saga foram lançados, a partir do ano 2000, eu cursava filosofia e lembro de ouvir alguns de meus tecerem comentários do tipo: “Dizem por aí que os adolescentes de hoje não gostam de ler... Então, o que explica o sucesso de vendas do livro do Harry Potter?”

Por várias vezes, amigos e conhecidos tinham recomendado que eu assistisse aos filmes de Harry Potter, mas nunca tinha aderido. Agora, em função da curiosidade em ver a primeira parte do último filme da série, a sétima adaptação dos sete volumes escritos por Joanne K. Rowling, aproveitei as férias e uma agradável companhia para voar com Potter em seu mundo de aventura e desafios.

Os filmes “A Pedra Filosofal” (USA, 2001) e “A Câmara Secreta” (USA, 2002), ambos dirigidos por Chris Colombus, apresentam o menino Harry Potter (Daniel Radcliffe), saindo do lar hostil, no qual foi criado pelos tios, em função da morte dos pais, e entrando para a britânica escola de Hogwarts. Lá ele descobre e aperfeiçoa suas habilidades, cria importantes laços de amizade e vai arquitetando uma trajetória desafiadora.

A partir de “A Câmara Secreta”, entre cobras, aranhas, uma fênix e um diário de lembranças do qual jorra sangue, pensei nos meus ‘mundos secretos’, nos sentimentos que não manifesto, nos monstros que escondo, nas vontades não satisfeitas, nas lágrimas que podem curar dores.

Ao final do filme, refletindo acerca do que tenho vivido, mostrado, escondido, deixado e encontrado, silenciei com as palavras do sábio professor Dumbledore (Richard Harris):

“Não são nossas habilidades que revelam quem realmente somos, mas nossas escolhas.”


Imagens capturadas em:
http://www.cinemaemcena.com.br/ficha_filme.aspx?id_filme=88&aba=detalhe

12 de dezembro de 2010

Porque o rumo da vida é ir morrendo


- Por que as pessoas tem que morrer?

- Para a vida ser importante. Ninguém sabe quanto tempo tem, por isso, cada dia é muito importante. Aproveitar... É o máximo que podemos fazer.

- Eu vou a funerais de vez em quando. Funerais de pessoas que eu nunca vi. "Ensina-me a viver" (Harold and Maude) é meu filme predileto. Assisti-o no ginásio e ele afetou profundamente a minha vida.

- Belo filme!


Trecho do texto que compõe o diálogo final do último capítulo da primeira temporada da série "A Sete Palmos".
Imagem capturada em:
http://betweentheclickofthelight.blogspot.com/2010/10/six-feet-under.html

a fim de que findem os fins


Finda o domingo.

Fim de semestre.

Termina o ano.

Acabam os amores jurados em meio a abraços partidos.

Não adianta, os começos e os meios sempre terminam nos fins.

A fim das coisas que penso merecer, sento na cama e despenco palavras corpo afora, para exorcizar os doídos fins, para desejar bons começos.

Sei de algumas peripécias vitais que compõem nossa tênue biologia afetiva e ainda temo pelas tentativas de um ex que ainda não admite o fim.

Um mau começo é o fim, por isso, enfeito meu medo com aromas de condão, carinhos de mão e toques de coração.

Vejo que de infinitos fins é que se fazem nossas vidas. Os gestos vão e vêm, mas o que será que fica? Finalmente, só sinto que ficam os fins.

Foto: Odailso Berté

1 de dezembro de 2010

Entre risco e nuvem


Quando começo enumerar palavras para dispor essas ideias díspares que me vem corpo afora, vejo que ainda continuo unilateral, tendencioso e curiosamente atrelado a perplexidades ternas.

Me sondam as felicidades de verdade e risco. Que risco é esse? Trata-se de arriscar? Correr o risco? Ou riscar? Rabiscar? Discorrer em riscos? Será isso uma certeza ventilada de poesia?

No vôo que me trouxe de volta, adormeci de início. Quando abri os olhos, de rosto voltado para a janela, vi que atravessava a brancura das nuvens. Tudo pareceu tão leve, tênue e sutil. Uma realidade em forma de sonho.

E tive vontade de perpetuar essa imagem real. Atravessar brancuras como quem apaga os entornos feridos, magoados e nãos quistos. Atravessar as fases difíceis e sentir as dores de outrora se desfazerem, deixando-se ser transpassadas para aportar com serenidade.

Queria que tudo só tivesse sido como nuvens escuras que, após as oscilações climáticas, clareassem de novo, permitindo serem atravessadas.

Não espero parado, mas gostaria de algo esclarecedor que me colocasse outra vez naquele lugar de tessituras afins: olhos d’água; santas, estrelas e cantoras; risos de qualquer hora; atração pela beleza que não se põe na mesa.

A conclusiva "tenho certeza que isso não é uma despedida" soa bem e quase compensa o peso da afirmativa "porque eu não quero". Entretanto, ainda me permito compreender o risco, atravessar as nuvens e querer, sem conseguir explicar.

26 de novembro de 2010

Took my heart to the limit


A frágil criança veio à tona no momento em que sua demonstrativa carecia ser corajosa. Aliou-se a sua sinceridade, deu as mãos a sua verdade, beijou o semblante do senso de si e chorou.

De cara com o desmanche desfez o pacto, mas seguiu com a sensação de rejeição indolente. Sua inocente tentativa de resignificação despencou no precipício do mesmo incompreensível e dilacerante mal-me-quer.

Tola utopia em construir um amigo de madeira, que não partilha afeto, que não tem calor no corpo, que não acolhe em si o outro. Nem Pinóquio foi assim. Espanto, desencanto, desalento.

Os caminhos de antes disseram para não voltar. Os passeios bem que tentaram alegrar, mas só encheram os olhos de lágrimas. O transtorno assombrou e dominou o corpo que antes dizia amar. Apoderou-se até dos restos de sentido. Eliminou o homem de outrora.

Coração levado ao limite recolhe-se a sua insignificância, dá passagem para a outra banda e abranda seus sonidos. Curiosa tristeza, árdua leveza, ausente franqueza. Não mais os termos de antes. Notas tomadas que não servem nem para legenda de um capítulo futuro.

Assim retorna, sem danças inovadoras, meio desconexo e descalço. Entenderá que, daqui pra frente, seus apegos terão de ser comedidos e suaves, sem as intensidades passadas. Pois sabe que elas alegram e entristecem na mesma dose, forjando antídoto para seu próprio veneno. Entendeu agora que não é hora de estar de volta, pois não existem mais aconchegos.

Imagem capturada em:
http://comunidade.sol.pt/blogs/lobomalvado/archive/2007/05/22/Abra_E700_o.aspx

22 de novembro de 2010

Transeunte, homem da vida


Absorto entre pesquisas, coreografias e relações, ele projeta um jeito particular de ser, viver e poder. Descreve, diariamente, com gestos e gracejos, trajetos de percorrer sempre e cada vez mais.

São destinos, caminhos e trilhas que remontam, a cada passo, a vida que ele deseja viver e coisas que, nem sempre, ele escolhe receber. Surpresas, incertezas, malvadezas e belezas, em todas ele tropeça, misturando opções, objeções e imposições com as quais a vida lhe presenteia.


Se lhe fosse pedido para narrar as dicotomias de sua vã – cortesã – anfitriã vida de cada dia, ele, certamente, publicaria Best Sellers bricolados por amores, devaneios e promiscuidades, praticados e escondidos. Alguns de boa e outros de péssima qualidade.

Pela estreita parede de afetos, ele atravessa sem precisar de muitos poderes, pois já se mistura em seu coração uma receita agridoce de medo e coragem. Esta receita, uma mestra, uma orientadora à qual ele segue cético, mas sem questionar.

Sem temer o peso dos sete palmos que um dia o perpetuarão no ciclo da vida, a partir, é claro, do vivo sujeito que vem sendo, ele ainda corre, sorri e deseja amar. Pensante, dançante e amante, o corpo (m)eu ainda projeta dias e dias de intenso querer, dar e receber.



Fotos: Odailso Berté

17 de novembro de 2010

The Runaways – fugindo dos padrões

Na década de 1970, nos Estados Unidos, surgia uma banda de rock que fugia totalmente dos padrões previstos para esse estilo musical e, principalmente, nada convencional para o gênero que a integrava: mulheres.


Quando talento e ousadia se cruzam, quando se assume posturas, é inevitável não provocar rupturas. Um feminismo quente, riscado em cordas de guitarra, ribombar de caixas de som e vozes cálidas e estridentes.

Assim se fez a banda “The Runaways”, conforme mostra o protagonismo de Dakota Fanning e Kristen Stewart, que saem da opacidade crepuscular e brilham entre holofotes, guitarras e microfones, alçando vôo no quesito interpretação (cênica e musical).


Meninas que se fazem mulheres ao dizer ao mundo que queriam e podiam ser amantes, profissionais, artistas e roqueiras tão qualificadas quanto os homens. Com picardia mostram, por meio da música, sua força particular e sua forma única de estar no mundo.

Ao (re)construir em seu corpo Cheri Currie, Dakota Fanning explicita com segurança e simplicidade que sua capacidade interpretativa não se restringe só a um rosto simpático. Mas a uma trajetória artística que desde a infância vem lhe conferindo possibilidades de ser uma atriz sensual, inteligente e sagaz.


Já Kristen Stewart, quase congelada pelo papel da bela mocinha da saga “Crepúsculo”, assume uma identidade “runaway” e, literalmente, foge daquele padrão ultrapassando expectativas. Ela consegue recriar a cantora Joan Jett a partir de uma visceralidade corporal permeada por singeleza e timidez. Sua interpretação surpreende, convence e encanta.


Recordo uma das cenas finais onde Cheri Currie (Dakota), trabalhando num lugar comum, ouve no rádio uma entrevista com Joan Jett (Kristen) que, como se sabe, seguiu carreira solo após o término da banda, e decide ligar para o programa. A simplicidade da cena, sem emotividades alteradas, parece fazer fluir no peito uma saudade sem jeito e tímida que traz, por meio do leve sorriso de ambas, lembranças de coragem, sucesso, prazer e amor (delas e nossos), aos quais a continuidade foi contida.


“The Runaways”, a banda de rock composta por garotas dispostas a enfrentar as vaias do preconceito com escudos feitos de sonhos, deu origem ao filme “The Runaways – Garotas do Rock”, com roteiro e direção de Floria Sigismondi.

Imagens capturadas em:
http://www.cinemaemcena.com.br/ficha_filme.aspx?id_filme=8431&aba=detalhe

16 de novembro de 2010

Quem se dá com minha expectativa?


Cheio delas me movo em direção a outrem – pessoas, coisas, desejos, situações, sonhos... Mas nenhum desses está programado para correspondê-las da forma como as deixo crescer nesse corpo terreno que sou.

O outrem nunca vem 100% de encontro àquilo que dele espero. Nunca ele o poderá fazer. Seria porque cada cabeça é uma sentença? Seria porque ele nunca poderá adivinhar, milimetricamente, o que eu quero? Seria, simplesmente, porque ele é outro e eu sou eu?

Minha expectativa é tão abusada que, até na leitura, quando o autor não agrada, me faz fechar o livro e só reabri-lo tempos depois. Por enquanto tem apenas dois, mas, quando os livros pela metade começam a acumular, começo a me preocupar. Grau de insatisfação ou expectativa demasiada?

Por vezes, até parece que, parafraseando Vanessa da Mata, tudo o que quero de mim são “irreais, expectativas desleais”. Pois, vão além do que posso e do que podem por mim. Além do que tento e do que, em detrimento do realmente possível, eu me esforço para ser... Alguém de querer mais razoável.

Foto: Odailso Berté

10 de novembro de 2010

BTCA - entre poros e pétalas


Exalando florais na programação do Festival Internacional de Artes Cênicas da Bahia – FIAC, o Balé do Teatro Castro Alves – BTCA estreou, nos dias 29 e 30 de outubro de 2010, o Espetáculo ‘À Flor da Pele’, coreografado por Ismael Ivo e dirigido por Jorge Vermelho.

Diferente das demais coreografias criadas ao longo do ano de 2010, ‘1POR1PRAUM’ e ‘A quem possa interessar’, ‘À Flor da Pele’ encontra contento explorando ora a virtuosidade ora a singeleza dos dançarinos e atuando conjuntamente à Orquestra 2 de Julho. Tal elemento confere ao espetáculo uma conjugação amalgamada entre dança e música, como se fosse um coro dançante.

Ansioso pelos dançarinos no palco, o público é surpreendido quando os vê entrar pela mesma porta da qual entrou. E é no meio do público que a dança tem início, corpos dançarinos e corpos espectadores, juntos, partes da mesma cena. Com delicadeza os dançarinos pedem permissão e levam para o palco os calçados de alguns espectadores. Uma tentativa sutil de misturar cena e realidade.

No palco, uma placa de alumínio refletia e (des)configurava os corpos dançarinos, as luzes e parte dos corpos espectadores. Imagens, como que pinturas vivas, desenhavam formas que dançavam também, compondo a cena.


Entre sequências retilíneas, compartimentadas, sincrônicas e assimétricas, só de corpos, de corpos e objetos, ou de uma chuva de grãos que cobria o palco, o espetáculo traça caminhos aleatórios, permitindo ao espectador várias entradas para a interpretação. Contentando, de modo democrático, como toda dança deve ser, a gostos, desgostos e contra-gostos.

Em imagens coreográficas curiosas, belas e surpreendentes, a coreografia de Ismael Ivo e a interpretação do corpo de baile do BTCA conseguem mover a memória e as expectativas, possibilitando associações com inesquecíveis cenas de Café Müller, Sagração da Primavera e fragmentos de outros trabalhos de Pina Bausch. O que, por vezes, soa como uma bonita saudade da mestra da dança contemporânea alemã e mundial.

Para não deixar ninguém descalço, o coro dançante se despede devolvendo os calçados e retribuindo o empréstimo com flores e abraços. Transpirando primaveras, o BTCA mostra que, como sendo uma companhia de dança, tem possibilidade de se valer da virtuosidade, da singeleza e da alteridade para compor dança e proporcionar as mais variadas apreciações.


Fotos: Vera Milliotti
Capturadas em: http://www.flickr.com/photos/secultba/5142344597/in/photostream/

Continuar distante


Hoje, o mesmo mar que viu meu vale de lágrimas, beijou-me o rosto e os olhos com terna brisa. Mostrou-se azul de horizontes infinitos, bem do jeito que eu sabia que ele era, mas me recusava a ver.

Passei pela rua que antes me fora de amargura e não mais senti as angústias de outrora. As palavras agora me fluem sem esforço, como se saíssem de mim por conta própria. Que milagre oculto terá ocorrido em mim, na rua, ou no mar?

Nada como ter o foco afetivo não mais preso em lactências distintas e distantes. Nada como ter os poros abertos para inspirar e expirar afetos no ambiente onde se está inserido. Nada como estar disposto a ser acolhido pela especificidade de cada lugar.

Sigo a sina que o dia a dia vai me esboçando e que eu mesmo vou desenhando com meus gestos. São outros jeitos de viver que me vão aparecendo sem estratégias artificiais, sem galanteios de palha, sem orações de pau oco.

Percebo que, bem mais que o tempo que eu perdi, está ficando para trás tudo aquilo que me juntou ao amor transfigurado em dor. Quieto no meu canto e cabelo ao vento, vou restaurando, a passos lentos e sedentos, esse meu jeito sempre principiante de querer, que atende a pedidos inteligentes de corações e corpos que querem ser verdadeiros.

Em paz
Eu digo que eu sou
O antigo do que vai adiante.
Sem mais
Eu fico onde estou
Prefiro continuar distante.


Trecho da Música "Resposta" (interpretação de Milton Nascimento e Lô Borges)
Foto: Odailso Berté

9 de novembro de 2010

Romansiando reversos


Na verdade, pairo agora por entre-lugares: planos movediços, paisagens - imagens de miragens, patamares suspensos da realidade sensorial.

Depois que um Nero desconcertado deixou-me ROMA do avesso, ateando fogo em meu urbanismo afetivo, vi meu medo banindo, do convívio cidadão em meu corpo, as espécies complementares de carinho, bem querer e desejo.

Como transeunte temeroso volto a passear pelas ruas e avenidas dos amores possíveis, atento ao atravessar, buscando faixas de segurança, guardas e policiais que me assegurem dos perigos. Pois nesse trânsito, impera a imprevisibilidade e a perversão com cara de inocência.

Por vezes, ainda olho para trás e, saudoso, vejo as ruínas de minha ROMA, ao contrário, antiga. Sei que lá fui feliz, naquele império de cumplicidades. Hoje, só resta lembrar, aplacar as queimaduras que ainda ardem e vislumbrar outras imagens que me façam reconstruir ROMA de trás pra frente.

Foto: Odailso Berté

7 de novembro de 2010

Meus pontos cardeais


Tais (en)costas deflagram gostos em formas que, com sensível toque, se adivinha sussurros. Curvas de percorrer a dedos, a palmas, a beijos.

Na bahia do teu santo me achego com tamanha fé, enorme desejo, grande sentimento. Pois, sei que milagres ardentes alcançarei.

Se tento delimitar espaços a percorrer no universo desse corpo, perco o norte, anseio pelo sul e mergulho dançando em lestes e oestes. Sensíveis e sutis são os pontos cardeais.

Como onda sedenta, deságuo em falanges musculares que, como rocha firme e lisa, se abre para minha desejosa procura.

E quando sai o sol, me vejo esperando sereno pelos ares que durante a noite me envolveram, sorriram e suspiraram tão perto do coração.

2 de novembro de 2010

Lie's Song


Mentiras - Adriana Calcanhoto
Love the way you lie - Eminem e Rihanna
Don't lie - The Black Eyed Peas
Beautiful liar - Shakira e Beyonce
Lie to me - Bon Jovi
I'd lie - Taylor Swift
Your love is a lie - Simple Plan

O outro: decifro ou me devora


Quem é esse mundo indecifrável chamado ‘outro’ que, ingenuamente, tentamos habitar? Quem é esse pensamento alheio que, qual menino curioso e encantado, tento decifrar? Quem é esse corpo externo ao meu do qual, por vezes, penso, ilusoriamente, depender minha felicidade?

Alteridade é uma necessidade, um perigo, um luxo, uma atrocidade. Alteridade é sempre uma curva após a qual nunca se sabe o que é que vem. O outro é sempre um campo minado de surpresas, sobre o qual, ao menor passo, estrondos, implosões e explosões, causadas ou acidentais, podem detonar nossas bases.

Aventurar-se no outro é assumir um ‘Indiana Jones’ disposto a enfrentar perigos, desbravar territórios obscuros, navegar mares bravios e encantar-se com descobertas memoráveis. O outro é sempre esse terreno movediço, esse lugar inseguro, esse país das maravilhas no qual somos sempre estrangeiros, forasteiros e desbravadores clandestinos, que usurpam ou são devorados vivos.

O outro, pelo qual vivo, morro, movo causas a favor, promovo motins contra, sabota minha pureza já desvalida. Essa inocência não mais pura, saudosa do estupro, hoje, já começa a entender de espaços, limites e possibilidades. Viver como ‘aquelas da intuição’ ajuda até um certo momento. Todavia, se a racionalidade não rega o canteiro da alteridade, viveremos gostando de ser castigados pelo supremo outro que nós mesmos colocamos no trono.

Abaixo o outro. Em cima. Dentro ou fora. Demos-lhe a devida posição para um bel prazer que não destoe nossa dignidade. Afinal, tenho outro para mim e sou o outro de alguém.

Parafraseando Will Goya, 'amar não é desejar o outro como a si mesmo, é fazer do amado o primeiro e de si mesmo o outro'.


Foto: Carmi Silva e Odailso Berté