21 de maio de 2012

A Sete Palmos adentrando em mim


A ternura incondicional da mãe (Ruth), restringida de seus sonhos e de suas mais íntimas realizações pessoais para a plena dedicação aos seus filhos.

Os encontros e desencontros da filha mais nova (Claire), no intuito de se construir uma artista.

Os dramas do filho do meio (David), para alicerçar sua identidade homoafetiva, superar traumas e lutar pela sua união com Keith.

A trajetória do filho primogênito (Nate), nas idas e voltas com Brenda, para realizar-se enquanto homem, profissional, marido, pai... Antes que o cronômetro da corrida da vida marque o fim do percurso.

Uma família mórbida, trágica e cômica que se constitui numa casa funerária, transitando cotidianamente por entre os labirintos onde se cruzam vida e morte. Uma "Família Adams" sem artifícios, truques ou maquiagem. Um retrato das nossas dores, medos, anseios e mistérios subjetivos.

A cada episódio, um nascimento às avessas - uma morte - que desencadeia muitas relações de vida. No confronto com a perda, a dor e os pêsames, nas flores que adornam túmulos e caixões, o perfume e o pólen que germinam tantas possibilidades de nos relacionarmos com o fim e articularmos outros começos.

Não receio dizer que comecei a repensar meu medo da morte adentrando Sete Palmos de mim. As imagens, textos, relações, atitudes de cada personagem, vão como que abrindo covas, erguendo sulcos, inscrevendo lápides no corpo (m)eu... Insinuando que o fim e o começo são possibilidades que pulsam tanto quanto o coração. E notificando que, entre parar e continuar, o relógio da existência obedece ao mestre tempo que só aponta para frente, sem chances de retorno.

A série A Sete Palmos (2001-2005), criada por Alan Ball, faz transparecer a óbvia e pungente constatação de que somos finitos, passamos, envelhecemos e deixamos de existir. Enrugamos, murchamos e despedaçamos tal e qual a mais bela flor reluzindo em cores num jardim. E mais do que isso ser uma pesarosa constatação, embora nos entristeça, possamos ver como a noção que nos move a viver intensamente, buscar ser/fazer/ter o que mais desejamos, realizar os sonhos-projetos para os quais nos sentimos aptos e impelidos... Porque a vida é só uma, e ela passa. E o luto pode mover lutas em favor dessa vida passageira.


Imagem capturada aqui.

19 de maio de 2012

a loser like me


É preciso, mas extremamente duro saber perder, assumir-se perdedor. Custa muito, pois ninguém chega a conhecer o empenho investido, a profundidade do desejo, as dores do cansaço e das tensões, a intensa paixão que nos move a lutar por um sonho, juntar tantos pedaços para construir um projeto. Isso o fazemos sozinhos, em relação com muitos, é verdade, mas solitários na árdua organização dessa construção.

É impossível não lembrar da banca de jurados que julga os festivais de coros do seriado Glee. Autoridades no ramo, celebridades das artes, pessoas renomadas. Publicamente, figuras esplêndidas, que escorrem simpatia pelos cantos do sorriso, uma diplomacia teatral. Todavia, as cenas de suas reuniões secretas, os modos e termos com que se referem aos sujeitos aos quais estão julgando - avaliando - comparando, são patéticos, grosseiros, abusivos e desprezíveis. Assim, histórias de vida, capacidades, talentos, potenciais, se tornam apenas números. Uma cifra reguladora, uma medida cartesiana, esvaziada e niilista.

As três figuras (episódio 21, 3ª Temporada), que sem nenhum esforço interpretam a si mesmos, são verdadeiros personagens... Tipo Três Mosqueteiros, As Meninas Super Poderosas, As Panteras, As Noivas do Drácula, Três Espiãs Demais, The Supremes, Lia, Diva e Vicky (as três amigas da Barbie), As Moiras (Parcas) da mitologia grega... Sei lá, algo de tipo. Lindsay Lohan (a "queridinha" da América), Rex Lee (carinha popular em seriados) e o blogueiro Perez Hilton (fofoqueiro de carteirinha).   

O legal é que isso não é apenas cena de seriado norte-americano. É realidade em tantas escolas e espaços acadêmicos bem próximos de nós. Sistemas de controle, seleção, avaliação, vigília e punição de corpos. Se pensamos que esses dispositivos de poder são coisas passadas, tipo da inquisição, doce engodo. Essa é uma das práticas mais contemporâneas, usadas nos espaços que imaginamos ser os mais esclarecidos, sábios e conhecedores.

Entre as perguntas que ficam caladas no íntimo... 6,5 é quanto eu valho? O que em mim te afronta para inscrever no (m)eu corpo essa cifra? Dos conceitos, imagens e gestos que mostro, algum te desaloja? Aponte-me onde errei e não fuja de minha presença, qual criança que fez algo escondido, sem pelo menos encerrar a sessão que você abriu.

A vocês, Moiras, "capazes" de cortar o fio da vida, mudar os rumos de uma trajetória, silencio e dedico uma canção. Ela expressa meus sentimentos de fracasso, derrota e sensibilidade para acolher a sentença que vosso poder determina. Com um "P" na testa, sigo em frente, deixando claro que este é o sentido de um perdedor como eu.


Foto de Odailso Berté 

5 de maio de 2012

Piñero, em tua sombra, um deleite


"Eu nunca quis ser ninguém. Uma vez um cara me disse que eu escrevia bem, que escrever me tiraria da prisão. Tirou e não, porque tive que voltar para poder escrever bem."

Um poeta, um escritor, um ator, um bêbado... Um Cristo drogado. Um satã do céu. Um arcanjo, Miguel Piñero. Um nova-riquenho, Mikey Piñero. O criador da famosa peça "Short Eyes" (1974), apresentada na Broadway e adaptada para o cinema em 1977.

No filme "Piñero" (2001), dirigido por Leon Ichaso, Benjamin Bratt assume em sua interpretação o homem que seguiu à risca o conselho de sua mãe: "fale com os olhos e olhe com a boca". Um corpo cambaleante, tenaz e sedutor, que proclama poesia com seus olhos gritantes e desfere desejos com sua boca observadora.

Bratt, ao (prot)agonizar os prazeres e agonias de Miguel Piñero, se faz inventor e vendedor de esponjas, peixes e pérolas. Sua poesia absorve os líquidos e as poeiras da vida, exala os perfumes e os maus odores do cotidiano e apresenta os tesouros e as misérias que cada humano constrói. Um poeta submerso, underground por opção, que ao invés do dinheiro e da fama dos artistas consagrados, só cobiçava chamar sua atenção.

Numa sequência de imagens em nada lineares, que alternam-se entre o colorido e o preto e branco, a história se faz de pedaços, pedaços de uma vida vivida aos pedaços... Vida despedaçada. Entre encenação e realidade o filme vai se montando como um quebra-cabeça, como um teatro feito de atos desolados.

E o que perdura é a trajetória infame de um Piñero que floresce na aridez da prisão. Desordeiro, errante e comovente. Artista e bandido que, como ninguém, fazia de um cinzeiro seu cemitério de lembranças. Um homem que enquanto vivo e mesmo depois de morto, em forma de cinzas, foi absorvido pelas ruas.


Imagem capturada aqui.

3 de maio de 2012

entre teias e enredos


Entre teias e enredos, frio e estudo, solidão e saudade, aventuro memórias doces, insanas e vagarosas... Que vagueiam meu pensar, sentir e gozar esses momentos tão típicos de minha persona.

Recordo das histórias da Carochinha, de como ela, qual Felícia, hoje agarra seu novo gato. Este, expelindo encantamentos pelo sorriso e pelo olhar. Ao que parece, Carocha pode repetir seus padrões afetivos de docilidade romântica, o que depois, quando enjoar do gato, se tornará "a" dificuldade para o pobre bichano de desvincular dos laços.

Dos tempos de infância acordaram cenas do recreio brincado, dançado, cantado, como se fossemos o "Trem da Alegria", tendo como palco as prateleiras da velha copa do campo de futebol. O sol de inverno lá de Jaboticaba me aqueceu hoje, trazendo saudade do que fui e que permanece aqui nesse corpo - artista - infante.

 Nas canções e performances de Glee para Whitney, embalo sentimentos que, aparentemente, vivo sozinho, todavia, são povoados de personagens que seguem colados aos meus afetos. Às vezes a dois, outras a mais... De "I have nothing" a "It's not right but it's ok", como Kurt e Blaine, traço linhas, colagens e ilustrações que dizem bem do amor que vinha me deixando e que deixei.

Vestindo-se de Miss Simpatia, Sandra Bullock desfere os tiros mais certeiros de humor e amor. Ah, esses policiais que mexem conosco, Gracie... Se soubessem o quanto nos custa ser agente e refém, mesmo passado quase um ano.

Assim, a solidão se faz macia, leve e até gostosa. Adornada pela saudade do amor que não mais tenho, mas sinto... Que não pesa, mas ocupa espaço. Que não consome, mas ainda me rouba lágrimas quando, despercebido, me deixo beijar pela imagem, pelo sorriso, pelo toque, pela respiração, pela cor... "... If I don't have you."

Imagem de Benjamin Bratt, capturada aqui.

29 de abril de 2012

Homem de salto alto


Caríssimos, embora talvez isso não seja a mais relevante das preocupações de suas vidas, não virei travesti. Até porque, ninguém vira o que já não seja. A não ser que surte, penso eu. E ser travesti também não é tão mal assim, como se pensa por aí.

Ao pensar um look para uma festa temática ("So Pop"), quantas sensações experimentei. Desde a decisão de assumir um estilo próximo ao do grupo Kazaky, passar por lojas provando sapatos femininos e viver o homem que desliza sobre saltos altos numa pista de dança.

Não que tenha acontecido, mas fiquei lembrando do xingamento que desmoraliza muitos homens: "Mulherzinha!" É ofensa na certa. Ser chamado de mulher é ser xingado? Então ser mulher é uma condição humilhante? Engraçado, a vida toda forçamos as mulheres a se sentirem incluídas no termo homem e nem por isso muitas delas aparentaram sentir-se xingadas.

Vejam o que um sapato de salto alto pode nos levar a pensar, até discursos feministas ajudam a articular. Mas o fato não se deu sem auto-transgressões. Nas lojas, eu ficava mais sem graça que os vendedores - homens - que com gentileza auxiliavam-me a calçar os ditos. Não sei adivinhar o que pensavam, mas agiam sem qualquer estranhamento.

Na festa, os olhares eram variados: de estranhamento, de impacto, de surpresa, de dúvida, de euforia, de admiração, de encantamento, de "tanto faz". Não vou dizer aqui que para usar salto alto é preciso ser muito macho, pois soa tão piegas, machista e falso. Mas a sensação de por-se sobre os tacos, enquanto homem, e encarar outras pessoas, desconstrói versões inventadas de nós mesmos, aproxima-nos de outros modos de ser e se portar. Deixa-nos à vontade para assumir e reconstruir a cada dia nossa(s) identidade(s) móveis, flexíveis e processuais.

Aos desavisados de plantão, não estou fazendo nenhuma apologia ao salto alto para homens. Mas se quiserem viver essa experiência estético-antropológica, tenho certeza de que, além de uma dorzinha nos pés, vão provar de uma sensação majestosa, desconstrutora e ousada. Algo que, sendo homens, não nos deixa sobre, mas mais próximos delas.        

14 de abril de 2012

Pina, com tua luz a claridade do mundo me hospeda*


Porque
Imagens
Nascem
Afetivamente


Como falar de uma obra que acaricia os sentimentos, abraça os pensamentos, enternece os conhecimentos, resignifica os acontecimentos? Pina Bausch já conseguia isso com a dança. Wim Wenders perpetua isso com o filme.


Wim articula seu filme com o elemento que movia a dança de Pina: as experiencias dos dançarinos. Lembranças, olhares, perguntas, imagens, falas, fatos que cada um viveu com ela, são pequenas maravilhas que desencadeiam e mobilizam a bricolagem não linear de cenas dos espetáculos (criados com pedaços das suas historias de vida). Essas cenas, recolocadas em cenários vivos, devolvidas ao cotidiano, geraram tão belas fotografias cinematográficas.


O modo como imagens mais antigas se encontram com imagens mais recentes - e vice-versa - sem corte, sem fade in e fade out perceptíveis, junta três gerações de dançarinos e trás a própria Pina dançando de novo no seu Café de memórias, (des)encontros e solidões. Pina e Helena - sua substituta em "Café Müller" - são duas e a mesma, ambas e uma só, com uma languidez única, olhos fechados e braços alados... Tudo isso nos chega por meio de câmeras que dançam com os dançarinos, um olhar cinematográfico que se move aos soluços, gemidos e gotas dos corpos enfocados.


Nesse passeio imagético entre arte e vida, estética e estesia, o 3D transborda a tela e se justifica em cada centímetro/segundo de sua presença. O corpo - eu e você - é tridimensional e, nesses sentidos, a tridimensionalidade da dança, a profundidade e perspectiva pluridirecionais do gesto/movimento, qualificam e dão a mais terna sensatez ao 3D do cinema.


Recordei com olhos umedecidos e garganta emudecida dos movimentos singelos de "Para crianças de ontem, hoje e amanhã", "Café Müller", "Sagração da Primavera" e "Ten Chi", obras de Pina que tive a honra, o desafio, o desejo, a carência, o prazer, a tristeza e a felicidade de ver, assentir, acolher, assistir, experienciar e guardar no corpo.


(Vi)ver o filme "Pina" (2010) foi uma experiência que acariciou meu ser infante, aprendiz, órfão e amante. Humano demais, me deixei banhar por cada imagem que ascendeu a saudade daquela que apenas beijei com os olhos e que segue coreografando todo meu dançar. Solícito ao conselho desta diva, eu danço, danço, danço, pois do contrário estaria perdido. Dançando, me acho a cada dia e disfa(r)ço essa minha orfandade que a claridade do mundo não mais hospeda sem a luz de Pina.




Imagens capturadas aqui, aqui, aqui.
*Paráfrase de fragmento do poema "O homem humano" de Adélia Prado.

12 de abril de 2012

Sex and the Envy


Ele passou o dia ouvindo "I have nothing". E nem era a versão original, mas a interpretação de uma caloura do programa Raul Gil. Segundo ele, depois de Whitney, a melhor. Essa sensação de não ter nada deixou turvo seu olhar durante todo o dia e o fez sentir inveja de várias cores.

No ônibus, o casal "heterozinho" de adolescentes, pareceu-lhe irritantemente atraente, aos beijos e risos, ela sentada no colo dele.

A dupla de macacos, entre os tantos que transitam sobre os avarandados do campus, mesmo no ato de roubar comida, não se desgruda, um nas costas do outro.

Pela primeira vez seu facebook sugeriu entre as "pessoas que talvez você conheça", a possibilidade de adicionar seu ex. Mesmo tentado pelo afeto ainda latente, disse que não enviou a solicitação de amizade, tampouco abriu a página do sujeito. Pois sabia que lá estariam publicadas as fotos da nova relação, coisa que antes o tal ex nunca fizera.

Suspirou, várias vezes, por entre sorrisos simpáticos, vendo que um ex mais antigo, ao telefone, dava explicações verdadeiras para o novo namorado, de onde e com quem se encontrava no momento.

E foi atrás do enfadonho texto sobre arte funerária, da professora doutora que não sabia o nome do Mickey e chamava o Pluto de "cachorro peludo", que ele despencou suas memórias, afetos e invejas... Isso entre o odor de cigarro impregnado em sua mão e lágrimas bem discretas que percebi de longe.

Abandonou a carona e seguiu para casa a pé, sumindo entre os carros, as luzes e o escuro da noite. Antes ainda pude vê-lo ligar o mp3 e colocar os fones no ouvido para, certamente, entre as invejas remoídas ao longo do dia, ouvir outras tantas vezes a caloura repetir com límpida estridência: "I have nothing, nothing, nothing... If I don't have you".



Foto de Odailso Berté.

11 de abril de 2012

Sex and the Giving


Não tendo amor qualquer com que se preocupar, começo a perceber mais os amores dos outros. Coisa de quem não enxerga o próprio rabo? Coisa de quem mete a colher [...]? Dor de cotovelo? Nem tanto. Observo, ouço, vejo e comento comigo mesmo. I swear!

Lourdes, minha ex-top model predileta, terminou um namoro de seis anos - se não me falha a memória. Ele confessou a traição mas suplica o perdão dela. Ela tem se mantido firme, controlando as aproximações e as táticas de comoção da família que ele usa. Todavia, no último sábado, entre uma cerveja e outra, ela não resistiu, deixou seu senso crítico de lado e deu.

Wal, uma conhecida meio dupla personalidade, talentosa e mentirosa pra dedéu, anda naquela faceirisse de menina que volta a ser cortejada. Sabe aqueles telefonemas em que você fica meio que se derretendo, pingando e se coçando todo diante das coisas que o fulano do outro lado fala? Coincidência ou não, sempre que estamos juntos a danada recebe esses estímulos sensoriais ao pé do ouvido. O telefone funciona como vibrador. Affffff... A bonita voltou a dar.

Se isso mexe comigo? Talvez, afinal estou escrevendo sobre. Algo nisso me desafia no sentido de pensar: O que eu já dei? O que deixei de dar? Deveria ter dado mais? Ou menos? Dando a gente recebe? Devemos dar sem pensar em receber algo em troca?

Os momentos em que passamos sem dar e nem receber podem proporcionar um certo olhar de balanço diante do estoque de doações afetivas. Olhamos para o que não foi dado e está mofando, ocupando espaço, causando remorsos. Percebemos o quanto foi dado de bom e o tanto que foi dado em desperdício, que transbordou e, na verdade, só ocasionou cobranças do tipo: "se dei isso, quero receber de volta na mesma proporção".

Não sinto inveja de Lourdes ou de Wal, acho que se elas têm estoque e têm disposição para a doação, tem mais é que dar mesmo. Contente por elas e contido por mim, só observo as doações em meu entorno e sigo com meus balanços internos... Dando tempo, dando corda, não dando bola... Dando beijos nesses momentos que me dão chances de rever os dados e pensar no que pode ser dado.



Imagem do music video "LOVE" - Kazaky
Capturada aqui.

9 de abril de 2012

Sex and the Now


A trilha desses dizeres (que seriam ditos ontem) era para ser "I will always love you", na voz de Whitney Houston. Meloso demais? Dramático? É, talvez sim. E há uma estrofe da canção que se adequa ao que ainda penso/sinto:

Eu espero que a vida te trate bem
E espero que você tenha tudo que sonhou
E desejo pra você prazer e felicidade
Mas, acima disso tudo, eu desejo pra você amor.

Embora forte e esperançoso, penso que refrão seja dispensável. Prefiro seguir com "Love", do Kazaky, que em meio a uma estética queer segura de si e com uma letra pop bem simples, me diz muito, agora:

Você me quer
Você me ama
Você me odeia
Eu não me importo.

As canções vão compondo enredos, dando tons e notas que orquestram o modo como organizo a dimensão amorosa do momento. Foi difícil chegar nesse grau de pouca importância, mas aqui estou. Sem caso, sem outro, sem amor. Dando um tempo para mim, para nós, vós, eles.

Fazendo pose de estátua, escultura, vitrine-viva, manequim que quer ser visto, contemplado como obra na qual não se toca. Uma pintura de Michelangelo, uma escultura de Rodin, uma foto de Mapplethorpe.

Corpo em evidência que faz de calçadas sua passarela. Imagem que vê e é vista. Só isso basta por hoje. Amanhã talvez o look já seja outro. Moda que vai volta numa continuidade bem descontínua.

Livre, lento, lendo o que eu mesmo escrevo, só para corrigir e postar sem maiores pretensões. Porque amor, agora, é só uma palavra que conjugo com outras, faço textos, teço fatos.

A vontade que me adentra os poros é de sexo com a cidade, pura relação corpo - ambiente. Trabalho empírico de escritor que observa os agires urbanos e (d)escreve. Se deleita com o prazer dos outros, voyeur do cotidiano.



Imagem do music video "LOVE" - Kazaky
Capturada aqui.

6 de abril de 2012

Corpus Via Crucis by Madonna

Condenação

O peso da cruz

Primeira queda

Encontro com Madonna

A ajuda do Cirineu

Enxugando lágrimas

Segunda queda

Encontro com as mulheres

Terceira queda

Despojado de suas vestes

Crucificação

Morte

Pietá

Sepultamento

Ressurreição



Imagens do music video "Girl Gone Wild" (2012), de Madonna
Capturadas aqui aqui

4 de abril de 2012

I have nothing


Andei me perguntando com que corpo devo gastar meu verbo. Os dias andam comigo mas não respondem claramente minha interpelação. Convém fazer apelação, então? Ora "inter", ora "a", ando mesmo é pelado, nu com a mão no bolso, despido de amor.

Como metáfora, encarno a lei do terceiro excluído... É que aqueles dois já pertencem a outros dois. Assim me dizem as imagens, assim me dizem as chamadas. Mesmo que não sejam pra mim, articulo hermenêuticas sentimentais e percebo que só eu estou só.

Ainda sigo fazendo despedidas... Dos beijos, dos carinhos, dos gozos, dos filmes, das canções, das verdades e das mentiras, dos prazeres e das agonias. A leveza desse adeus decora os acenos que hoje já gesticulam sorrisos. Mas guardo ambos no corpo, num altar particular.

Parece que ainda não tive a sorte de vocês, ainda não estive na hora e no lugar certo. Talvez até já tenha passado por mim, mas não foi do agrado do acaso deixar a gente flertar. It's not right but it's okay.

Sem querer parafrasear Madonna, penso que meu filme, bem hollywoodiano, poderia se chamar "W.I.". Teria referências em "Nine", para tirar dos ex-amores um pinguinho de inspiração, só um pigmento de auto e hétero-expressão. Das suas iniciais eu tiro meios e fins, um roteiro denso e clean.

Ainda há uma cor que me faz esperar, adentrar mais em mim, do tipo... deixe estar... E a demora que agora mora em mim talvez um dia faça jus, trazendo um pouco do tudo capaz de empretecer esse nada.


Imagem: foto de Odailso Berté.

30 de março de 2012

alimentado desejos com sílabas


Da vida que levo, fazes parte como ponto de intersecção.
Da viagem que planejo, poderias ser o aconchego da chegada.
Da virada que engendro, seja o motivo.
Da vingança que não quero, és o alívio.
Da vidraça que abro, imagino que entres.
Da vila onde vivo, ficarias tão bem na vizinhança.
Da vinícola dos meus desejos, já és um ardente Cabernet.
Da víbora peçonhenta, tens a sedução do veneno.
Da vista que admiro, tua silhueta reluz.
Da vinheta que ouço, teu cantar me diz delícias.
Da vitrine onde paro, teu corpo se expõe a mim.
Da vinda de algo bom, gostaria que fosses tu.
O dado lançado já ditou sortes e azares.
O dadivoso dia de te ter se desenha...
Porque teus ouvidos clássicos sabem ouvir o que há de mais pop em mim. Porque soa tão bem meu texto em tua boca.


Imagem capturada aqui.

25 de março de 2012

Por favor não pare, eu gosto


Nos lugares mais bravios dos meus desejos, residem facas de gume dobrado. São afiadas de pura libido tingida de púrpura, que deixa bege certas atitudes.

Às vezes mais, às vezes menos ímpeto, e esse (m)eu corpo acomoda e acomete tendências sumidiças, de ir e vir, de já e ainda não. Coleções de vontades que terminam entre quatro paredes, quatro pontos, de quatro.

Deixar? Deixar. Deixar que os prazeres sejam especificados ocasiona desde constrangimento até a risada mais gostosa. Entre querer, fetiche e prazer, encomendo especiarias e maneirismos da dominatrix e do estuprador, só para satisfazer esse pensamento bobo, de preto e branco, que acabou de passar a mão em mim.

Se o que me move não move tuas dicotomias não ditas, então libera essa louca de dentro, lidera essa boca aqui fora. Andar sobre a linha tênue da atração que gruda escrita e leitura pode ser dramático, mas pra decidir não dói.

Das tuas sete vidas, das tuas sete chances de negro gato, posso ouvir a história até chorar. Escalar teu telhado, gemer, miar. Dançar, ficar de lua. Saltar na tua nua pessoa.

Deixo sim... E se sobra esse pensamento felino, me embalo dançando um zouk sozinho, um brega querer sem tanto esperar. Quando (ex)citar trechos não resolver mais, (a)pelo à vergonha e me entrego à noite preta, para num gole do café de mesmo tom, beber da cor que me sacia. Porque gosto assim: preto no branco, ou vice-versa.



Imagem capturada aqui.

21 de março de 2012

Madonna is the "Girl Gone Wild"

Madonna rezando o Ato de Contrição?
Um homem excitado?
Um Cristo negro, nu?
Homens em trajes e trejeitos femininos?
Madonna crucificada?
Dois homens comendo uma mesma maçã ("o fruto proibido"), prenunciando um beijo (o ósculo da paz)?
Homens praticando sodomia?
Madonna pedindo perdão?
Madonna chorando lágrimas de sangue?


Terá ela perdido o controle?
É uma garota má?
Deveria ela agir assim?
Ela se desviou? Sua inibição sumiu?


O fato é que...
It's so hypnotic!
It's so erotic!
Hipnóticas e eróticas, as imagens dizem, mostram, questionam, interpelam, seduzem, possibilitam e ascendem falas e falos, preces e pressas, jaculatórias precoces e ejaculações premeditadas.


Credo em cruz! A simbologia articulada transfigura mística e erótica, sagrado e profano, rito e mito, fé e afeto, corpo e consagração, tensão e tesão. Separações nas quais insistimos e que certas mulheres, cheias de graça, tem isso tão bem ajuntado.


Em seu poema "Festa do corpo de Deus", Adélia Prado diz:
"Jesus tem um para de nádegas [...], o corpo humano de Deus. [...] Nisto consiste o crime, em fotografar uma mulher gozando e dizer: eis a face do pecado. Por séculos os demônios porfiaram em nos cegar com este embuste. E teu corpo na cruz, suspenso. E teu corpo na cruz, sem panos [...]. Eu te adoro, ó salvador meu [...], o que dizes é amor, amor do corpo, amor."


Sem comparações entre Adélias e Madonnas, imagens, ideias e sentidos entrelaçam-se suscitando e excitando ações, dizeres e prazeres.


Como de devasso e devoto cada um tem um pouco, agora é um macho que me espreita o pensar: Giorgio Agamben, com seu "Elogio da Profanação" diz que profanar significa restituir ao livre uso as coisas que foram tiradas da esfera do direito humano. Uma forma simples de profanação se dá através do contato, um tocar que desencanta e devolve ao uso aquilo que o sagrado havia separado e petrificado. Profanar: ignorar separações, ou, fazer delas um uso particular.


E quantas tem sido as situações, instituições, educações e orações que demarcaram separações, proibições e repressões em nossos corpos... De cores, amores, sabores, saberes, poderes e prazeres.


São encorajadoras as imagens que excitam e incitam o uso, o contato, o brincar, o profanar, o trazer de volta para o comum possibilidades, direitos, sentimentos e gestos que nos foram tirados, tolidos, sacrificados em altares de puro interesse.


Quando Madonna, Adélia e Giorgio se encontram em minha teia de imagens-ideias, o comportamento dança e atenta para fazer-pensar além das obviedades e conveniências inventadas pela nossa criativa cultura. Inventores somos todos. (Re)inventar podemos todos.


No music video "Girl Gone Wild", Madonna e o grupo de dançarinos Kazaky balançam as bases de preconceitos e preceitos, cruzando homoafetividade, corpo, erotismo, imagens, símbolos e textos sagrados. Um uso peculiar, um jeito particular de profanar, de desafiar e propor desfronteirizações, desconstruções e humanizações que, por incrível que pareça aos mais devotos que devassos, nada tem de pecaminoso e malvado. Bem pelo contrário.


Fazendo recordar de Like a Prayer, Vogue, Erótica, Justify My Love e Human Nature, Madonna reforça a pequena e poderosa coincidência de ter o mesmo nome que Nossa Senhora. De ser associada a um nome sagrado, ao passo que é vista, por muitos, como profana. O que, depois de Agamben, vira um glorioso elogio.


Salve Rainha (do pop), mulher que causa discórdia.
Quem é esta que avança como a aurora?
Ave Madonna, cheia de Graça!


Imagens capturadas aqui aqui aqui