15 de agosto de 2010

Há quem possa se emocionar


"É tão lindo se emocionar." Uma das frases ditas por uma das dançarinas do Balé do Teatro Castro Alves durante o Espetáculo "A quem possa interessar", inteligentemente coreografado por Henrique Rodovalho, sob direção artística de Jorge Vermelho e estreado nos dias 13 e 14 de agosto em Salvador.

A pergunta que me ocorria durante o espetáculo era: A quem poderá interessar as diferentes histórias de vida dos diversos corpos em cena? A resposta ainda vem sendo construída...

Como quem diz que a dança contemporânea pode ser feita a partir de um apaixonado namoro com o cotidiano, coreógrafo e dançarinos trouxeram à cena movimentações, falas e cantos que soam como trechos de histórias de vida, narrativas pessoais sem caricaturas, sentimentos que transcendem a esfera individual fazendo-se tão social e comunitário, pois tratam de situações comuns aos humanos. Interessando, portanto, aos presentes e, de certa forma, aos ausentes.

Assumir questões pessoais como mote para o enredo de um espetáculo, pode ser um desafio que não dá garantias de onde vai chegar. As surpresas do devir de cada um dos envolvidos pode (des)concertar o trajeto comum da composição. Isso confere ao espetáculo um certo tom que difere dos enredos clássicos, pois, além dos conteúdos individuais, agrega um conteúdo novo provindo da fricçao surgida na bricolagem entre as diferentes histórias. Não se trata de um ajuntamento, mas de um tratamento estético que qualifica a junção das pequenas histórias.

Soando como um tímido abraço de boas vindas de quem quer compartilhar segredos, o público é recebido com uma carta endereçada 'a quem possa interessar'. E diferentes segredos e situações de vida são compartilhados com os espectadores ao longo do enredo.

O talentoso coreógrafo goiano, da Companhia Quasar, e o corpo de baile baiano do TCA, a partir de um jeito contemporâeno de fazer dança, próximo do que mestres como Pina Bausch já fizeram, traduzem a vida em forma de dança e, longe de pretensões virtuosas, reconhecem as possibilidades de cada um e sugerem que viver, conhecer-se e dar-se a conhecer pode ser bem interessante para quem quer que seja.

Imagem capturada em:
http://plugcultura.wordpress.com/page/25/?archives-list&archives-type=tags

2 comentários:

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  2. Re-emociono-me (se é que essa palavra existe), ao ler seu texto sobre essa coreografia-acontecimento.

    Agrupando-se às questões estéticas trazidas no texto, e por mim vividas na platéia, "A quem possa interessar" figura a entrega de algo que foi demandado há quase quatro anos, ao BTCA: qual o interesse de ter um Companhia Oficial nas diversas condições que se apresentavam – alguns funcionários ausentes, alguns bailarinos com o gosto perdido, uma presença de bailarinos substitutos (os REDAs), o distanciamento do BTCA de outras instâncias do Estado e até da Sociedade Civil, além dos criticados bailarinos "mais velhos".

    Essas questões produzidas desde 2006 geraram interferências na estrutura da Companhia Oficial, como o faz um Coreógrafo, quando chega e perturba os corpos para que dessa destabilização nasça a criação coreográfica. A despeito dos incômodos que esses processos geram (e em diversas direções), nossa Companhia não só dá sinais de força e vitalidade por SUPORTAR o tempo, mas por permaneCER. O BTCA, de onde repetidas vezes nesse tempo, ouviu-se, interna e externamente, que iria se dissolver, se reconstruiu e redimensionou sua atuação considerando não mais o que DEVE ser, mas o POSSÍVEL. A ditadura do gabarito dá lugar à diferença e a diversidade, que se apresenta, nesses anos, como propostas possíveis de ação do Balé (junto a outros grupos artísticos da cidade, junto à Escola de dança da Funceb, junto a artistas e interessados da dança no interior da Bahia, dentre outras). Na medida em que reconhece as diferenças de seus integrantes, suas competências, bem como as possibilidade de entrar nos diferentes diálogos com a sociedade, o Balé aproxima-se, destituindo não só o gabarito, mas a realeza: aqui todo mundo é gente e a gente pode dialogar. O desejo de querer estar perto do Balé desloca da posição de idealização para a do compartilhamento. Será que isso aponta para um balé estatal que representa uma sociedade?

    A coreografia A quem possa interessar parece aprontar, na sucessão de suas cenas, enquanto dançam, para essa outra história; não apenas as pessoais dos bailarinos, mas a comum, partilhada nesses últimos quatro anos de reentender-se e se redimensionar com a adversidade da pressão política de "dar resposta a alguém".

    Eis que uma certa resposta, não a derradeira, não a definitiva, mas uma resposta dançada. "A quem possa interessar" reafirma a condição de ser uma Companhia estatal (dezenas de bailarinos em cena); o faz dizendo de um estado atualizado, na democracia e na diversidade (as diferenças de corpos dançantes e de suas histórias e entonações feitas nas narrativas em cena); e inclusive atualiza o lugar do outro - o Coreógrafo Rodovalho e principalmente o Diretor Artístico, Jorge Vermelho - uma vez que esse outro não é só a inteligência que manipula o corpo (de baile), mas um ator do diálogo, do respeito que cuida da história de cada um e ainda a (re)trata, fazendo do compartilhamento da diferença a possibilidade de suas combinações compositivas enquanto discurso estético próprio (como é o caso da assinatura Rodovalho, muito clara na encenação e na coreografia).

    De maneira muito contundente, a platéia, no sábado (14/08), com uma lotação singular do TCA, foi suspendida pela coreografia, e pôde, depois desses 4 anos, pôr-se de pé e retribuir a vibração ali sentida através das palmas que ovacionaram esses, como tantos que temos assistido e vivenciado, guerreiros da dança.

    Ao final, além do afeto estético, do momento à memória, fica o dissernimento, a tranquilidade e a ombridade de dizer que não se demarca a existência de uma companhia oficial, bem como de uma obra de arte apenas pela sua funcionalidade... ela existe e sobrevive enquanto houver a quem possa interessar.

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